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Resenha de Trilha Sonora: INFERNO – Hans Zimmer


inferno-cdMúsica composta por Hans Zimmer
Selo: Sony Classical
Formato: CD
Lançamento: 14/10/2016
Cotação: star_3_5

Nem toda a polêmica com a Igreja Católica, nem as críticas ruins, impediram O Código Da Vinci (The Da Vinci Code, 2006) de se tornar a segunda maior bilheteria do ano. Assim, poucos anos depois, foi lançada uma continuação, Anjos e Demônios (Angels and Demons, 2009), que, apesar de ser considerado pelos críticos como sendo levemente superior ao seu predecessor, não atraiu a mesma multidão às salas de cinema. Talvez isso explique porque demoraram tanto tempo para lançar a terceira parte da “saga”, Inferno (idem, 2016). Novamente baseado num best seller do autor Dan Brown, o longa traz o simbologista Robert Langdon (Tom Hanks), que acorda num hospital em Florença, sem memórias das últimas 48 horas. Ajudado pela médica Sienna Brooks (Felicity Jones), o herói é novamente envolvido numa caçada pela Europa, numa corrida contra o relógio para desvendar pistas contidas na Divina Comédia, e impedir um sinistro plano de genocídio em escala global. Tal como os anteriores, Inferno é dirigido pelo veterano Ron Howard, e tem trilha sonora de Hans Zimmer.

É interessante notar como, de certa forma, cada uma das trilhas de Zimmer para a saga de Robert Langdon é representativa do momento da carreira vivido pelo alemão. O Código Da Vinci, uma das trilhas mais queridas pelos fãs do compositor, foi escrita bem no meio de sua fase mais erudita, por assim dizer, onde ele (meio que) deixou de lado seus sintetizadores e se focou na escrita orquestral, flertando com a música clássica. Assim, sua trilha para o primeiro filme de Langdon trazia similaridades com outros de seus scores marcantes da época, como Hannibal (idem, 2001) e Batman Begins (idem, 2005), além de trazer um dos melhores cues escritos pelo músico, a famosíssima Chevaliers de Sangreal.

Anjos e Demônios era menos melodiosa e mais agressiva e violenta, fazendo uma combinação de coro e solos de violino com eletrônicos quase industriais, quase como um eco de seu score anterior para Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008). Inferno, por sua vez, foi composta na atual fase de Zimmer, em que ele decidiu voltar às raízes de compositor de música eletrônica, atualizando-as e buscando uma paleta sônica mais moderna para seus novos trabalhos. Representando essa nova fase da carreira do alemão, estão scores como O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro (The Amazing Spider-Man 2, 2014), Chappie (idem, 2015) e Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (Batman v. Superman: Dawn of Justice, 2016). Inferno é uma prima de todas essas trilhas, porém, não é difícil dizer que ela é a melhor do bando.

Até há uma orquestra na trilha, porém, sua importância é secundária. Os sintetizadores aqui são ouvidos por toda a parte, e são lidados com habilidade e talento por Zimmer e por seus co-compositores Steve Mazzaro e Andrew Kawczynski, duas figuras muito presentes nas trilhas do alemão dos últimos anos. Porém, o grande destaque da trilha, que faz de Inferno ser o trabalho mais interessante de Zimmer desde ao menos a ótima Interestelar (Interstellar, 2014), é a forma como o trio de compositores consegue utilizar a música eletrônica para escrever um belo arco narrativo para a trilha.

É bem possível que muitos ouvintes, incluindo aqueles que ainda associam a imagem de Zimmer a trabalhos como Gladiador (Gladiator, 2000) e a série Piratas do Caribe, se assustem ao ouvir o disco. As primeiras quatro faixas trazem a música de ação eletrônica mais agressiva ouvidas num blockbuster hollywoodiano em muito tempo. Bons exemplos disso são Cerca Trova e Seek and Find, dois cues completamente eletrônicos extremamente violentos, com a segunda beirando o industrial e agindo como um retrato de uma mente fragilizada, desorientada e confusa, como a de Langdon ao início do filme. Lembra um pouco algo que Clint Mansell poderia ter escrito para os primeiros filmes de Darren Aronofsky, por exemplo. Por outro lado, a faixa inicial, Maybe Pain Can Save Us All inicia com um dos novos temas do disco, ganhando um ritmo percussivo tenso em sua metade final, enquanto I’m Feeling a Tad Vulnerable mantém a tensão e traz uma rápida versão eletrônica de Chevaliers de Sangreal, que age como um tema para Langdon na franquia. Novamente, as primeiras faixas iniciais podem não ser as mais agradáveis de se ouvir se você é acostumado a scores orquestrais, porém este é exatamente o ponto. O talento e a familiaridade de Zimmer, Mazzaro e Kawczynski com os sintetizadores lhes permitiram criar uma atmosfera confusa, opressiva e ameaçadora para retratar a mente fragmentada de Langdon, porém, conforme ele começa a por as peças no lugar e a resolver o mistério, a música começa também a ganhar ordem e coerência.

Portanto, após esse violento prólogo, a música nos informa que o quebra cabeças começa a ser montado – e o que ele mostra não é bonito de se ver. Faixas como as interessantes e perturbadoras Via Dolorosa #12 Apartment C e Vayentha poderiam ter saído de um filme de horror. A primeira conta até mesmo com um coral real e sintetizado, acrescentando mais uma camada de mistério à história, enquanto a segunda, após mais de três minutos de texturas desconcertantes, encerra-se com uma ótima versão eletrônica do tema de Langdon, no melhor estilo da trilha de Tron: O Legado (Tron Legacy, 2010). Já Professor, Venice e Remove Langdon mantém a tensão da correria de Langdon pela Europa, com a última inclusive acrescentando cordas, para maior dramaticidade. As texturas eletrônicas ouvidas em Doing Nothing Terrifies Me são excelentemente construídas, especialmente quando acompanhando um piano gélido e ameaçador, enquanto A Minute to Midnight aproveita seu título para acrescentar uma percussão que lembra o tique-taque de um relógio, finalizando com um coral grandioso altamente reminiscente do Zimmer de dez anos atrás.

Toda essa tensão acumulada culmina na ótima The Cistern. Aqui, o alemão faz o que sabe de melhor: escreve uma melodia simples, e vai lhe dando cada vez mais dramaticidade e grandiosidade conforme a faixa se desenvolve. No caso aqui, a combinação entre ostinatos de violinos e cellos com acompanhamento eletrônico e de percussão resulta numa faixa de ação progressivamente mais dramática, lembrando um pouco partes de A Origem (Inception, 2010) e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012). Ao fim da faixa, há o retorno do motivo ouvido em Science And Religion, de Anjos e Demônios, aparentemente transformado num tema de ação para Langdon. Pouco depois, na apocalíptica The Logic of Tyrants, tanto esse motivo como Chevaliers de Sangreal, ganham orquestrações enérgicas e ritmos de ação extremamente dramáticos, como se o compositor estivesse musicando um longa do Batman.

Porém, é inegável que os momentos mais atrativos do disco estejam nas belas Beauty Awakens The Soul to Act e Elizabeth. A primeira é melancólica e minimalista, inteiramente baseada em cordas, texturas eletrônicas e solos de violino que lembram os de Joshua Bell no longa anterior, além de se basear nos novos temas escritos para o filme. Elizabeth, por sua vez, é conduzida por um motivo para piano, com acompanhamento de cordas e sintetizadores, novamente similares a A Origem, porém aqui recordando as partes mais calmas daquela trilha – e a combinação entre o motivo no piano e o tema de Langdon ao fim da faixa é ótima. Afinal, Langdon e Sienna chegaram ao fim do mistério e resolveram todos os enigmas, e isso é retratado não com fanfarras, mas sim com alívio – a calmaria após a tempestade.

Ao fim do disco, há a grandiosa Life Must Have Its Mysteries, que certamente será a que mais agradará aos fãs do compositor. O cue traz uma performance grandiosa de Chevaliers de Sangreal que, embora não seja tão satisfatória quanto a original, ainda consegue divertir com seu estilo exageradamente grandioso – ou seja, no melhor estilo da Remote Control. E ainda sobra tempo para Our Own Hell on Earth, uma suíte construída a partir tanto dos temas de Inferno como os dos longas anteriores, embora sua inclusão aqui quebre um pouco da construção dramática que o disco vinha alcançando.

Devo admitir que, quando ouvi essa trilha pela primeira vez, estava preparado para escrever um texto muito mais negativo. Admito que pensei até mesmo numa piadinha infame envolvendo o título do longa. Porém, em audições posteriores, fui capaz de compreender, e até mesmo apreciar, o que Zimmer e seus colaboradores tentaram fazer. De fato, todo o caos do início da trilha é difícil de se ouvir, porém, este era exatamente o seu propósito, e o contraste com as últimas faixas é inteligentemente construído. Além disso, tanto nos momentos mais “insanos” como nos mais tranquilos, Zimmer e sua equipe mostram mais uma vez um belo domínio dos sintetizadores e de suas potencialidades. Eu imagino que o score de Inferno será altamente polêmico, mesmo entre os fãs mais radicais do alemão, e nem de perto será tão popular quanto outras de suas obras. Particularmente, considero esta trilha melhor construída, e certamente sem os momentos tediosos ou não intencionalmente risíveis de seu trabalho em longas recentes de super-heróis, demonstrando que, apesar da fachada polêmica, Zimmer ainda é um dos sujeitos mais espertos trabalhando na indústria hollywoodiana atualmente.

Faixas:

1. Maybe Pain Can Save Us 3:02
2. Cerca Trova 3:17
3. I’m Feeling A Tad Vulnerable 2:08
4. Seek And Find 2:03
5. Professor 4:26
6. Venice 5:44
7. Via Dolorosa #12 Apartment 3C 4:20
8. Vayentha 4:38
9. Remove Langdon 3:17
10. Doing Nothing Terrifies Me 3:24
11. A Minute To Midnight 1:52
12. The Cistern 6:43
13. Beauty Awakens The Soul To Act 5:58
14. Elizabeth 4:33
15. The Logic Of Tyrants 5:07
16. Life Must Have It’s Mysteries 3:54
17. Our Own Hell On Earth 6:19

Duração: 70:45

Tiago Rangel

4 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: INFERNO – Hans Zimmer”

  1. Maravilhosa. Minha faixa favorita é Science & Religion, da trilha de Anjos e Demônios, e esta trilha é baseada basicamente nela, tornando-se tema de ação e também dos vilões.

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  2. Falar que a resenha do Tiago Rangel é muito bem escrita já é até repetitivo, mas dessa vez foi importante pra mim porque me convenceu a dar uma nova ouvida, já que, como o colega acima, eu desisti em poucos minutos de escuta kkk. Como sempre, ótima resenha!

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