kubo

Resenha de Trilha Sonora: KUBO AND THE TWO STRINGS – Dario Marianelli


kubo-cdMúsica composta por Dario Marianelli
Selo
: Warner Brothers Records
Formato
: CD
Lançamento: 05/08/2016
Cotação: star_4

Qual o primeiro estúdio de filmes animados que lhe vem na cabeça? Provavelmente, a maioria das pessoas responderia Disney, Pixar ou DreamWorks, mas duvido que muitos lembrariam (ao menos num primeiro momento) da Laika, o pequeno estúdio que, em pleno 2016, aposta em animações stop-motion. E é justamente o estilo não convencional e fora do padrão (atual) da Laika que lhe permite realizar ótimos e ousados longas, que abordam temas pouco vistos em filmes (supostamente) para crianças. Isso se repete nas trilhas sonoras do estúdio: enquanto a maioria dos blockbusters americanos prefere sempre as mesmas escolhas seguras e convencionais, a Laika costuma apostar em compositores distintos e interessantes. O primeiro filme da casa, Coraline e o Mundo Secreto (Coraline, 2009), foi musicado pelo francês especializado em filmes de fantasia Bruno Coulais, enquanto o segundo, ParaNorman (idem, 2012), ganhou uma ótima trilha de Jon Brion, mais conhecido por suas antigas colaborações com o diretor Paul Thomas Anderson. Já o oscarizado italiano Dario Marianelli escreveu os scores de Os Boxtrolls (The Boxtrolls, 2014) e do mais novo filme do estúdio, Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings, 2016).

Diferentemente dos tons sombrios e sinistros dos dois primeiros longas da Laika, Kubo é uma aventura de fantasia, à moda antiga, com heróis que saem em jornadas, objetos místicos e vilões ameaçadores. Na história, o personagem-título é um garoto que cuida de sua mãe doente, numa pequena vila do Japão, depois que seu pai morreu. No entanto, ele passa a ser perseguido pelo seu terrível avô e por suas perversas tias, e embarca numa busca para encontrar a armadura de seu pai, que ele acredita que o protegerá.

Uma história como essa possui o potencial de inspirar trilhas orquestrais de aventura de ótima qualidade, nas mãos de um compositor talentoso, como é o caso de Marianelli. Até hoje mais conhecido por seu trabalho em dramas ingleses de época como Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, 2005), Desejo e Reparação (Atonement, 2007) e Jane Eyre (idem, 2011), o sujeito, nos últimos anos, tem procurando diversificar sua carreira, trabalhando em longas de gêneros diferentes. Assim, ainda que filmes como V de Vingança (V for Vendetta, 2006) e o próprio Boxtrolls tivessem seus momentos de ação e aventura, em Kubo o músico escreveu uma ótima trilha de fantasia, com orquestra, coro e instrumentos tipicamente japoneses, como o shamisen, similar a um violão oriental, central para a história.

Dois temas principais permeiam a trilha: o primeiro é um motivo de três notas, mais lírico e mágico, enquanto o segundo é vigoroso e heroico, para representar os feitos de Kubo. Ambos recebem diversas variações ao longo do disco, e são ouvidos tanto na orquestra quanto nos instrumentos ocidentais. O primeiro tema é introduzido aos 0:56 de The Impossible Waves, num belíssimo e grandioso arranjo para cordas. Já o outro é ouvido de forma melancólica, em cordas e madeiras, na bela Ancestors, e depois de forma leve e cômica, beirando o mickeymousing, em Origami Birds.

A maior surpresa da trilha de Kubo, especialmente para quem estava acostumado a ouvir os trabalhos de Marianelli em dramas de época, é a sua música de ação. Para as faixas do tipo, o compositor traz de volta os taiko drums ouvidos em seu score para Evereste (Everest, 2015) e os combina à orquestrações limpas, elegantes, porém enérgicas. Story Time, a primeira faixa do tipo, poderia ter saído diretamente de sua trilha para o drama de alpinismo do ano anterior, não fosse pela participação do shamisen, em conjunto aos baixos e percussão. Por outro lado, faixas como Meet the Sisters!, The Giant Skeleton e Above and Below lembram um pouco as trilhas de Alexandre Desplat em longas de fantasia, como A Bússola de Ouro (The Golden Compass, 2007), as duas partes de Harry Potter e as Relíquias da Morte e A Origem dos Guardiões (Rise of the Guardians, 2012). Tanto Desplat como Marianelli passaram boa parte de suas carreiras compondo para dramas europeus ao invés de filmes de aventura norte-americanos, e talvez por isso, quando eles finalmente puseram suas mãos em blockbusters de fantasia, trouxeram elegância aos longas do tipo. Além disso, nas duas primeiras, o segundo tema de Kubo ganha ótimos ares heroicos, enquanto a impressionante Above and Below é inteiramente baseada numa fanfarra maligna para as Irmãs.

Essa fanfarra retorna em United-Divided, que traz violinos enérgicos, metais rápidos e muita percussão. Por fim, a longa Showdown with Grandfather continua o clímax, começa com acordes ameaçadores, antes de ganhar energia e se transformar numa faixa de ação de ótima qualidade. Tal como as Irmãs, o Avô é representado por uma imponente fanfarra para metais, no melhor estilo Christopher Young, que domina a maior parte do cue. Porém, ao fim da faixa, o bem triunfa sobre o mal, e Marianelli emprega uma belíssima performance de ambos os temas de Kubo, com orquestra e coral, que não deve em nada às passagens mais grandiosas das trilhas animadas de John Powell, ou do finale de Mulan (idem, 1998), de Jerry Goldsmith.

Falando nisso, a parte mais emocional da trilha é igualmente impressionante. Especialista em scores dramáticos, Marianelli aqui não decepciona, com belas passagens para orquestra, coro e instrumentos tipicamente orientais. A segunda faixa, Kubo Goes to Town, por exemplo, é mais reflexiva e meditativa, e faz uma interessante mistura da orquestra ocidental com os instrumentos japoneses. Já Ancestors e The Leafy Galleon trazem performances mais calorosas e agridoces dos dois temas principais. A bonita Monkey’s Story, por sua vez, começa com o tema de Kubo no shamisen, com cordas melancólicas em contraponto, e, ao final, adiciona harpa e um coro feminino cantarolando. Na sequência, Hanzo’s Fortress cobre um bom território em seus quase seis minutos de duração, funcionando quase que como uma jornada em si própria. Durante a maior parte do cue, Marianelli apresenta versões firmes e decididas dos dois temas principais, atingindo seu ápice emocional a partir dos 2:09 da faixa, com uma bela performance do tema heroico em cordas, com acompanhamento de flautas e trompas. Por fim, Rebirth faz um bom, ainda que curto, encerramento da trilha, com os dois temas no piano, harpa e depois com orquestra e coro completos.

O disco ainda inclui um interessante cover da cantora Regina Spektor da clássica canção While My Guitar Gently Weeps, de George Harrison, porém, claro, com a adição do shamisen, percussão japonesa e uma sessão de cordas. Claro, muitos poderão questionar o que uma canção moderna faz num longa ambientado no Japão feudal, mas o fato é que a bonita versão de Spektor se mistura bem ao score de Marianelli, e funciona como uma boa adição ao álbum.

Ouvintes que vierem à essa trilha esperando algo como uma versão japonesa do score de Kung Fu Panda (idem, 2008), poderão se decepcionar. A trilha de Marianelli, na verdade, está mais alinhada com scores que misturam estilos musicais do Ocidente e do Oriente como O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, 2010), de James Newton Howard, e The Monkey King 2 (Xi You Ji Zhi: Sun Wukong San Da Baigu Jing, 2016), de Christopher Young. Todas elas contrastavam a ação mais explosiva com momentos de melancolia e reflexão e, tal como seus dois colegas, Marianelli se excede em ambos. Kubo é um trabalho sólido e coeso do músico italiano, que vem provando que é mais versátil do que muitas pessoas lhe davam crédito.

Faixas:

1. The Impossible Waves  2:37
2. Kubo Goes to Town  1:25
3. Story Time  2:10
4. Ancestors  2:07
5. Meet the Sisters!  2:33
6. Origami Birds  3:25
7. The Giant Skeleton  3:30
8. The Leafy Galleon  4:36
9. Above and Below  3:59
10. The Galleon Restored  1:06
11. Monkey’s Story  2:57
12. Hanzo’s Fortress  5:45
13. United-Divided  3:01
14. Showdown with Grandfather  7:04
15. Rebirth  1:33
16. While My Guitar Gently Weeps (Regina Spektor)  5:23

Duração: 53:11

Tiago Rangel

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