Resenha de Arquivo (Trilha Sonora): THE DARK KNIGHT – Hans Zimmer, James Newton Howard


dark-knight-cdMúsica composta por Hans Zimmer e James Newton Howard
Selo: Warner Brother Records
Formato: CD
Lançamento: 15/07/2008
Cotação: star_4

Parte I – A Criação
O filme mais esperado de 2008. A trilha mais esperada do ano. A dupla dinâmica que voltava. Não, não é de Batman e Robin que estou falando, e sim do duo Hans Zimmer e James Newton Howard, novamente a serviço do diretor Christopher Nolan. Perto das trilhas que Danny Elfman e Elliot Goldenthal fizeram para os filmes anteriores do Homem-Morcego, a partitura de Batman Begins foi decepcionante e muito fraca musicalmente. Nada de temas heroicos, fanfarras ou manobras orquestrais agitadas. Ao invés disso, a trilha é repleta de batidas eletrônicas, cordas contrapontísticas densas e excessivamente dramáticas. Zimmer, no entanto, teve um grande mérito – conseguiu estabelecer um tema marcante com apenas duas notas. E foi esse motivo de duas notas que gerou expectativas positivas para mim em relação à trilha de Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight).

Desde o lançamento da trilha de Batman Begins, Zimmer passou a dar sempre o mesmo discurso: originalmente tinha composto um tema mais extenso, mas achou que o personagem ainda não merecia um tema completo, já que o próprio Bruce Wayne ainda estava se descobrindo, e que em um próximo filme a ideia seria desenvolvida. O que temos aqui em The Dark Knight é uma trilha mais agressiva, mais tensa, sem todo aquele ritmo mais arrastado de Batman Begins. O filme em geral ganhou um ritmo diferente, cheio de ação, conflitos e explosões. A trilha soa essencialmente Zimmeriana. Aliás, fica bem evidente que a presença de Howard nesta trilha foi meramente simbólica, já que Hans colocou todas suas marcas registradas no score e toma assim as rédeas na composição. A impressão é que, de fato, eles nem trabalharam juntos. Foi como se Zimmer tivesse dado algumas faixas para Howard compor e fez o resto. Os dois trabalhando em uma mesma trilha, porém cada um no seu canto.

Ambos disseram em entrevistas que o tema do Coringa era o trabalho de um homem, assim como o tema de Harvey Dent – então, cada um ficou com a incumbência de compor um. O do Coringa, sendo um personagem extremamente interessante e também um dos principais no filme, obviamente ficou com Zimmer. O de Harvey Dent foi o que sobrou para Howard. Apesar de terem falado dessa divisão dos temas publicamente, Zimmer disse que seria difícil identificar quem fez o que nessa trilha, e que nem eles mesmos sabiam mais quem fez o que. Acredito que isso tenha sido mais uma jogada comercial, para tentar ilustrar que eles formaram uma equipe mesmo. Penso que, com essa colocação, eles quiseram afirmar que havia um sentimento de unidade na trilha. Como se eles estivessem tão interligados que o resultado nem parece ser trabalho de dois compositores distintos. Realmente há esse sentimento de unidade, mas por outro motivo. Não por ter havido essa simbiose entre dois, mas simplesmente pelo fato de que Hans Zimmer dominou a trilha. The Dark Knight é por excelência uma trilha dele, Howard deu apenas alguns pitacos. Em Batman Begins havia uma descontinuidade, uma segmentação irritante. A trilha não tendia para nenhum dos lados, o que causava um certo sentimento de “não uniformidade”, uma vez que o CD da trilha sonora ficou meio a meio, por assim dizer. Já aqui não, e devo confessar que eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer: Zimmer ia botar o olho nesse projeto, uma vez que ele cresceu consideravelmente mais do que se esperava.

A trilha conta com muitos ostinatos de cordas, marca registrada de Zimmer, que mesclam ação e emoção, exatamente como ele fez em O Código da Vinci, e que caem como uma luva na temática do novo filme. Aliás, além de servir ao filme é gostoso de ouvir, e acaba lhe contagiando. Aqui aproveito para ressaltar um detalhe que há bastante tempo venho percebera: fica sempre bem claro em sua trilhas que Zimmer não sabe orquestrar muito bem, já que quase não explora outros naipes e acaba sempre escrevendo 80% de sua música para cordas. O naipe das cordas é o mais homogêneo da orquestra, por causa da semelhança timbrística entre os instrumentos, e por isso é um dos mais fáceis de se escrever também. Dá para ver claramente em uma peça orquestral quando o cara é bom orquestrador ou não. Williams por exemplo, raramente deixa um naipe predominar durante uma trilha inteira. Até pode acontecer, em uma ou outra, de um tema principal ser tocado todo por apenas um instrumento como flauta ou celesta, mas o resto da orquestra vai aparecer em algum momento (com algumas exceções é claro). Já nas trilhas de Zimmer não há variação, quando se fala em orquestra: é sempre cordas! Apesar dessa pobreza, todavia, eu gosto do estilo do Zimmer, assim como não acho demérito nenhum ele não ser um Stravinsky da orquestração. Essa é a personalidade musical dele.

Em resumo, a trilha de The Dark Knight é ótima. O que não podemos fazer é colocar Hans no mesmo patamar de compositores com formação mais tradicional e erudita, como John Williams e Jerry Goldsmith. A estética musical e o estilo de Zimmer são totalmente não-tradicionais, contemporâneos, e de uma complexidade teórica bem menor. Se fossemos analisar musicalmente suas composições e comparar com qualquer uma do Williams ou do grande Herrmann, o alemão da Remote Control seria massacrado. Há, porém, um detalhe: é injusto comparar estilos diferentes, logo isso não deve ser feito. A música de Zimmer é muito boa e serve de forma extraordinária ao filme, só o que me irrita é a arrogância que ele teve em algumas entrevistas, onde quis cantar de galo e esqueceu o quanto é fraco como músico, sendo que não sabe nem ler partituras e muito menos tem formação acadêmica.

Em uma delas menosprezou o estilo tradicional da música de cinema, falando sobre compor temas orquestrais heroicos e toda essa coisa mais erudita – indiretamente se referindo a temas como o Superman de Williams e o Batman de Elfman – ele e Howard sabem fazer muito bem e já fizeram bastante em suas carreiras. Para esse Batman, de Nolan, ele optou por um outro caminho. Optou pelo motivo de duas notas. “Santa arrogância, Batman!”, diria o menino prodígio. Desde quando um motivo de duas notas é mais difícil de compor que uma grande fanfarra orquestral? A complexidade de escrever um tema para uma orquestra completa, e ainda mais respeitando certas regras de composição tradicional, é muito grande. Já criar umas batidas eletrônicas, com alguns ostinatos de cordas em cima, é bem mais fácil com certeza.

Vira e mexe alguém contesta essa simplicidade, e não é de hoje que Zimmer apela para explicações transcendentais como justificativa para o seu simplismo. Com um discurso poético, disse que em sua análise esse Batman é um personagem complexo, que está se descobrindo e que, portanto, não poderia ter um tema mais elaborado, pois isso daria informações demais sobre o personagem. Informações essas que o personagem ainda nem tem a seu próprio respeito. Howard parece ter concordado com essa premissa, e provavelmente combinou que diria a mesma coisa, uma vez que em uma entrevista posterior ele praticamente repetiu as palavras de Zimmer. Na minha opinião, Howard se posicionou dessa maneira pelo fato de Zimmer ser o “dono” do projeto, e de ele ter sido um mero convidado do alemão. Ele deve esse reconhecimento ao Zimmer, de certa forma. O erro de Zimmer é ficar se justificando. Não precisaria, já que o motivo de duas notas é mais que o suficiente e adequado para o filme. Eis a palavra chave: adequação!! The Dark Knight com certeza perpetua o estilo de Zimmer com cordas bem movimentadas, sempre lembrando um pouco O Código da Vinci, que aliás foi outra belíssima trilha.

Parte 2 – Percorrendo a Trilha
O álbum abre com a tão falada Joker Suite (Suíte do Coringa, chamada assim pelo próprio Zimmer em entrevista), que aqui leva o nome de “Why So Serious?”, frase que ficou com certeza imortalizada pela extraordinária atuação de Heath Ledger como o Palhaço do Crime. Zimmer fez uma enorme propaganda em diversas entrevistas sobre essa composição, dizendo que para esse tema criou um conceito novo, algo único, nunca feito antes para um blockbuster – mas não passa de uma música experimental que poderia facilmente ser criado por alguma banda de metal industrial como Rammstein ou até mesmo Marilyn Manson. Um crescendo de apenas uma nota é o principal motivo da faixa. Apesar de aparecer várias vezes no filme, acho muito complicado classificar isso como um tema, pois a expressão tema vêm de um campo da música chamada “fraseologia musical”, e para considerarmos algo como tema alguns quesitos devem ser atendidos. Um crescendo de uma única nota, que não tem sequer uma harmonia como base, segundo meu entendimento, não pode ser considerado um tema. Não sei porque Howard ficou elogiando e dizendo que é um conceito totalmente inédito, se ele próprio seria capaz de compor algo no mínimo cem vezes mais interessante. Isso me pareceu ser mais bajulação do que admiração, propriamente.  A partir daí temos:

“I’m Not a Hero” – a faixa inicia com o que parece ser o tal ‘Tema’ que Zimmer tinha composto originalmente para o primeiro filme, e guardou na manga para mostrar depois. Basicamente o motivo de duas notas aqui serve como pano de fundo para o baixo que toca uma melodia. O mais interessante é a forma como a melodia do baixo e o motivo de duas notas, tocado pelas trompas, se encontram. Achei isso fantástico, com certeza o momento mais sublime da trilha para mim. Em seguida o cello toma a frente, tocando um motivo que estará presente em outros momentos, inclusive de forma um pouco mais tensa e rápida em “Like Dogs Chasing Cars”. A faixa vai se acalmando e silenciando, para subitamente iniciar um novo momento em 1:40. Não parece ser parte de uma mesma faixa, parece mais que outra faixa começou, já que o clima mudou totalmente. Em 3:55 a faixa pára de novo, faz um pequeno interlúdio e recomeça, agora até há uma ideia de continuidade.

“Harvey Two-Face” – um dos poucos momentos onde vemos mais claramente toques de Howard.

“Aggressive Expansion” – contém o motivo do Batman. A faixa é emocionante, e como sempre ouvem-se ecos da composição “Chevaliers de Sangreal” de O Código da VInci.

“Always a Catch” – contém o motivo de uma nota do Coringa. Se observar, também há caraterísticas de Howard nesta faixa. Essa talvez seja a única composição onde se consegue observar tendências dos dois compositores se mesclando, o que gera uma certa indecisão, pois não pende para nenhum dos dois lados.

“Blood on My Hands” – traz mais um pouco de Howard. Tem um motivo de cordas que começa aos 59 segundos, que me lembrou um pouco trilhas como A Vila e A Dama na Água. Em seguida, um tema de piano fortalece a presença de Howard nessa faixa. Aliás, ela parecer ter sido feita pelo Howard apenas. No máximo, tem apenas um breve resquício de Zimmer.

“A Little Push” – uma faixa cheia de ruídos e efeitos eletrônicos. Em essência é sombria.

“Like a Dog Chasing Cars” – a minha faixa preferida. É Zimmer do começo ao fim. Emocionante, heroica, repleta de ação e ao mesmo com seus momentos sombrios, é o tipo de faixa rara hoje em dia. Ela permeia o icônico motivo de duas notas do Batman de várias formas diferentes, e apresenta um ostinato nas cordas, que é uma variação de um motivo apresentado na faixa “I’m Not a Hero” aos 43 segundos. No final ainda temos uma referência ao Coringa com som de cordas eletrônicas, em uma espécie de vibrato, que já haviam aparecido anteriormente na faixa “Why So Serious?”, e que aliás surgem de forma bem proeminente no começo do filme, na cena do assalto ao banco.

“I Am The Batman” – faixa sombria, com alguns toques de melancolia. As cordas comandam, com destaque para violas, cellos e, como sempre, também para os baixos. O motivo de uma nota do Coringa aparece, em seguida temos uma esporádica aparição de trompas e violinos tocando dissonâncias. Um som percussivo, padrão de Zimmer tanto em Batman Begins como nesta trilha, sinaliza que a faixa está quase no fim, e então o motivo de uma nota vai sumindo até silenciar.

“And I Thought my Jokes Were Bad” – a faixa começa com uma melodia tocada pelas trompas, insinuando o tema que será tocado de forma doce ao piano na próxima faixa. É um pouco difícil de reconhecer essa semelhança em um primeiro momento, mas é a mesma melodia – porém aqui disfarçada. Em geral é uma continuação perfeita de “Like Dogs Chasing Cars”. O clima continua o mesmo com algumas pequenas variações. Inclusive, usando como base o mesmo ostinato de cordas. Esse ostinato é, na realidade, um padrão criado a partir da aceleração e variação do motivo apresentado na faixa “I’m Not a Hero” aos 43 segundos.

“Agent of Chaos” – tem um motivo de piano em elisão (quando está terminando já começa de novo, de forma natural, gerando um padrão cíclico que poderia não acabar nunca). Essa é a marca de Howard na faixa, é genial. Esta e “Always a Catch” são as únicas faixas em que os dois compositores efetivamente colaboraram. Também gostei muito desta.

“Introduce a Little Anarchy” – uma faixa excelente. Também faz referência a “Like Dogs Chasing Cars”, o que para mim foi muito agradável, já que gostei demais.

“Watch The World Burn” – faixa sombria e extremamente melancólica, dramática. Cellos e baixos conduzem quase toda a composição. No final as cordas se tornam fortes e assombrosas, aliás um momento lindo e com muito contraponto, provavelmente coisa de Howard. Esse momento é um dos mais interessantes da trilha.

Por fim, chegamos a “A Dark Knight”, a Suíte de Encerramento da trilha, por assim dizer, contendo os momentos mais importantes no que tange ao personagem do Homem-Morcego. Tudo que está aqui é relacionado ao Batman, logo não espere o ouvir novamente o motivo do Coringa, nem os temas do Harvey. A não ser por um momento bem no finalzinho da faixa, onde há algo bem discreto que faz referência ao Coringa. A faixa mostra que ainda há um resquício de erudito, já que suítes e composições de longa duração são marca de compositores como John Williams e James Horner, que devem ter por sua vez sofrido influência de compositores como Mahler, que compunha sempre movimentos gigantescos para suas Sinfonias. Fechando o disco de forma heroica e emocionante, “A Dark Knight” é uma faixa extremamente bem construída e muito interessante de ouvir.

Faixas:

1. Why So Serious?  9:14
2. I’m Not a Hero  6:35
3. Harvey Two-Face  6:17
4. Aggressive Expansion  4:36
5. Always a Catch  1:40
6. Blood on My Hands  2:17
7. A Little Push  2:43
8. Like a Dog Chasing Cars  5:03
9. I Am the Batman  2:00
10. And I Thought My Jokes Were Bad  2:29
11. Agent of Chaos  6:55
12. Introduce a Little Anarchy  3:43
13. Watch the World Burn  3:48
14. A Dark Knight  16:15

Duração: 73:25

Renan Fersy

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2 opiniões sobre “Resenha de Arquivo (Trilha Sonora): THE DARK KNIGHT – Hans Zimmer, James Newton Howard”

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