Resenha de Arquivo (Trilha Sonora): BATMAN BEGINS – Hans Zimmer, James Newton Howard


batmanbeginscdMúsica composta por Hans Zimmer e James Newton Howard, regida por Gavin Greenaway
Selo: Warner Brother Records
Formato: CD
Lançamento: 14/06/2005
Cotação: star_3_5

Após quatro filmes progressivamente piores, quando foi confirmada a realização de um novo longa-metragem de Batman, os fãs de trilhas sonoras e do próprio Homem-Morcego começaram a imaginar o tipo de música que seria agregada à produção, e quem seria o responsável. No filme de Tim Burton de 1989, Danny Elfman estabeleceu o padrão musical para a então nascente franquia: um tema forte, marcante, embutido em partituras orquestrais exuberantes. Este padrão foi seguido mesmo nos filmes musicados por Elliot Goldenthal e na Série Animada, a cargo da falecida Shirley Walker. O diretor escolhido para a nova produção que reinventaria Batman, Christopher Nolan, havia feito ótimos filmes mas que não tiveram scores de expressão, e finalmente quando divulgou-se que a partitura de BATMAN BEGINS (2005) seria composta por Hans Zimmer e James Newton Howard, o espanto foi geral. O que esperar de uma parceria inesperada como esta?

O tempo passou, e novos detalhes surgiram: o primeiro escolhido de Nolan foi Zimmer, que há tempos pensava em realizar um projeto com Howard. Achando que esta seria a empreitada ideal para a parceria, Zimmer, com a bênção do diretor, convidou o renomado colega e o resultado foi um acompanhamento sonoro para o personagem que diferiu totalmente do que viera antes, e que se estendeu até o recente BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA – ainda que os temas e o próprio parceiro de Zimmer tenham mudado. Assim, desde a primeira audição deste trabalho, foi inegável deixar de notar que a trilha original de BATMAN BEGINS rompeu com a tradição musical dos filmes anteriores, sendo outra espécie de criatura.

Para começar, mantendo a tradição dos filmes contemporâneos do gênero, ela não tem “o” tema, aquela assinatura musical marcante que fica gravada na nossa cabeça quando saímos do cinema. E isso, para mim, já tira alguns pontos do trabalho que, segundo dizem, teve um tema de Howard descartado pelo diretor Nolan. Aliás, os créditos do CD não identificam quem compôs o que, e ainda por cima indicam haver música adicional de Ramin Djawadi (GAME OF THRONES, WARCRAFT) e Mel Wesson. Mesmo assim, quem conhece o trabalho prévio dos dois compositores não tem dificuldades em identificar segmentos criados por um ou por outro.

Da parte de Zimmer, temos trechos que remetem a scores como CHUVA NEGRA, ZONA MORTAL, HANNIBAL e ALÉM DA LINHA VERMELHA; da parte de Howard, ouvimos sonoridades que lembram, por exemplo, CORPO FECHADO e A VILA. Ao longo de faixas que usam como título a nomenclatura científica de várias espécies de morcego, a partitura apresenta dois motivos dominantes: o de Batman, mais sombrio e ameaçador (e de construção mais simples), inicia com uma cadência lenta (obtida com efeitos de percussão eletrônica) que imita o bater das asas de um grande morcego, e que ao longo do score evoluirá para um motivo de duas notas; e o de Bruce Wayne, melancólico e ao mesmo tempo esperançoso, que representa a busca para superar seus medos e o complexo de culpa, além de servir como tema romântico nas cenas divididas com a personagem Rachel Dawes.

“Vespertilio”, a música que abre o CD, é ouvida na introdução do filme, onde a cadência percussiva do tema do morcego recebe o acompanhamento de violinos e acordes bitonais interpretados pelos metais, que se repetem. Aparentemente esta é uma faixa onde os dois compositores trabalharam a quatro mãos. Já “Eptesicus”, no trecho que acompanha a cena do assassinato dos pais do garoto Bruce Wayne, possui cordas e piano característicos de Howard. Mas quando a composição passa a descrever o treinamento marcial de Bruce com Ducard, a música claramente é de Zimmer, já que tanto em melodia como em orquestração poderia muito bem pertencer aos scores de ALÉM DA LINHA VERMELHA ou O ÚLTIMO SAMURAI.

“Myotis”, que em sua primeira metade é lenta e atmosférica, transforma-se numa típica música de ação de Zimmer, com sua habitual combinação de sintetizadores e orquestra, a partir do momento em que Bruce confronta Ra’s Al Gul e os ninjas da Liga das Sombras. Ao seu final entra uma versão do motivo de Bruce, interpretado pelas cordas. “Barbastela” é uma faixa triste, com uma voz de soprano secundada pela seção de cordas e o piano típicos de Howard, que ao seu final ganha metais, percussão eletrônica e transforma-se no motivo de Batman.

“Artibeus”, que acompanha as imagens provocadas pela droga alucinógena do Espantalho, é uma peça atonal baseada em cordas, digna de um filme de horror, e meu palpite é que seja de autoria de Howard. “Tadarida”, introduzida por cello, cordas e a voz de soprano, também me soa como obra principalmente de Howard, mas logo ganha efeitos eletrônicos misturados ao motivo do Morcego, a fim de marcar o primeiro encontro de Batman com o Espantalho. Do mesmo modo, a parte inicial de “Macrotus”, uma interpretação do motivo de Bruce com violinos e piano lembrando algo da música de A VILA, é claramente de Howard. Já o segmento que segue, com sintetizadores, tem a marca de Zimmer.

“Antrozous”, iniciada com a cadência das asas de morcego, é outra faixa de ação típica de Zimmer, mais do que similar às que ouvimos em CHUVA NEGRA. “Molossus” é a melhor faixa de ação do score, ouvida no confronto de Batman com os ninjas de Ra’s Al Gul em Gotham. Com base eletrônica e metais que, ocasionalmente repetindo o refrão do morcego, conduzem a melodia, é outra composição que leva a marca de Zimmer. Howard, com seu piano e cordas, retorna em “Corynorhinus”, composição ouvida quase ao final do filme e que em parte serve como acompanhamento romântico para Bruce e Rachel. O score encerra com “Lasiurus”, uma faixa atmosférica e progressivamente dramática, que ao final dos seus sete minutos de duração, após ter atingido seu clímax, irá encerrar o álbum com o bater de asas do morcego.

Na avaliação final desta trilha sonora, duas conclusões são inevitáveis: a primeira, é de que ela dá um suporte adequado à atmosfera criada por Nolan em BATMAN BEGINS, já que se trata de música sombria, na maior parte do tempo visando criar uma ambientação de ameaça ou melancolia (o diretor provavelmente desejava música que não fosse demasiadamente exuberante, intrusiva); a segunda, é de que parte de sua eficácia é perdida quando ouvida em CD, isolada das imagens. Ou seja, cumpre a função primordial de uma trilha sonora, que é a de servir bem ao filme, mas revela não ser uma experiência auditiva particularmente interessante em disco – ainda que preservando qualidades.

Aliás, me pergunto do porquê deste filme ter necessitado mais de um compositor. Em disco fica mais do que claro que tanto Howard como Zimmer trabalharam com um “pé no freio”, seja pelo trabalho conjunto, seja por orientação do diretor. Ambos, isoladamente, já criaram obras mais criativas e palatáveis, mesmo ouvidas isoladamente em CD. Para o bem ou para o mal, BATMAN BEGINS marcou as transformações, inclusive musicais, que foram feitas pela Warner para tentar recuperar sua valiosa franquia. Eu, particularmente, ainda sinto saudades do tema musical wagneriano do filme de 1989.

Faixas:

1. Vespertilio  2:52
2. Eptesicus  4:20
3. Myotis  5:46
4. Barbastella  4:45
5. Artibeus  4:19
6. Tadarida  5:05
7. Macrotus  7:35
8. Antrozous  3:59
9. Nycteris  4:25
10. Molossus  4:49
11. Corynorhinus  5:04
12. Lasiurus  7:27

Duração: 60:26

Jorge Saldanha

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