Na Trilha: A FONTE DA VIDA e a Música das Esferas


fountain-cdExplorando o aterrador sonho da eternidade, A Fonte da Vida (The Fountain, 2006), longa-metragem do diretor Darren Aronofsky, autor de filmes tão singulares e polêmicos como Pi (1998), Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000) ou Cisne Negro (Black Swan, 2010), buscou humanizar a atmosfera fria e cética que mantinha nas suas primeiras incursões. Da mesma forma, com irretocável habilidade, Clint Mansell, no melhor trabalho de sua carreira, estabelecida essencialmente em cooperação com este mesmo diretor, construiu uma partitura singela e ao mesmo tempo grandiosa na ressonância de sensações.

A Imagem
Darren Aronofsky tem demonstrado sua particular visão através de uma cuidadosa exploração fotográfica em seus filmes. Primeiro em PI e sua fotografia em preto e branco, depois nas cores saturadas de Requiem for a Dream. A Fonte da Vida igualmente potencializa uma fotografia excepcional caracterizada por um espectro de cores argilosas e quentes. Esse ardor contrasta, sobretudo, com a história da enfermidade de Izzi (Rachel Weisz). Essa história recebe uma maior quantidade de planos em tonalidades mais frias acompanhando Tom (Hugh Jackman, na melhor interpretação de sua carreira) na luta contra um titânico adversário: o câncer de sua esposa.

Mas sem dúvida os desenvolvimentos das histórias de Tomas e Tommy (passado e futuro) são os que apresentam as imagens mais fascinantes. Poderia citar a cena do conquistador encontrando no alto de um templo Maia a Árvore da Vida, enigmática. Também a imagem da esfera viajando de encontro a uma decrépita estrela através do espaço com seu solitário habitante e uma gigantesca árvore que o alimenta. Talvez sejam as mais belas imagens desta história.

A Música
Para aqueles que já haviam se deliciado com a música de Clint Mansell para Requiem for a Dream, em A Fonte da Vida encontraram a perfeição. Uma partitura mais variada, com a presença de três leitmotivs cíclicos relacionados cada qual a uma das diferentes histórias que resultam em uma excelente partitura para piano nos créditos finais.

O primeiro tema, o mais elaborado dos três, relacionado a Tommy, o homem do futuro, repleto de solidão e quietude, tendo a base quase que exclusivamente de Violino solo, pode ser escutado em “The Last Man” (Faixa 01).

O segundo tema, ouvido em “Tree of Life” (Faixa 03), relacionado a Tomas, o homem do passado, o conquistador, estranhamente recebe uma instrumentação mais moderna (guitarras, banjo e bateria). O leitmotiv alcança mais presença e força graças à percussão ostensiva. Possui um ar obscuro que funciona perfeitamente com o sentido enigmático da Árvore da Vida.

O terceiro tema que podemos ouvir em “Stay with me” (Faixa 04) está relacionado a Tom, o médico e sua contínua luta contra a morte. Este tema de base exclusivamente eletrônica é o mais nostálgico e está conectado com as recordações que Tommy tem de sua mulher.

O compositor não se restringe a usar apenas esses temas. O elo condutor de todas as histórias tem um nome: Xibalba. O tema que podemos escutar na faixa 06 do disco reúne toda a solenidade que se espera do conceito Maia centrado na morte como criação da vida. Este tema se desenvolve com forte carga romântica que conecta as relações de amor presentes. O violino e um coro quase imperceptível constroem a atmosfera para descrever esta estrela agonizante que guia os personagens a um mesmo desenlace: o renascer.

As três melhores faixas do disco são justamente a três últimas e já trazem em si todo desenvolvimento temático perpetrado durante o filme:

“Finish It” (Faixa 08) retoma o leitmotiv de Tomas, o Conquistador, com inusitada força, tanta que contagia a história futura na figura de Tommy (Tom), impulsionado-o a se recordar de sua amada e seu desejo de ver a história terminada como buscando a libertação.

“Death is the Road to Awe” (Faixa 09) é a maior faixa do álbum e acompanha a impressionante trajetória até a explosão de Xibalba, um frenético momento musical onde guitarras elétricas, bateria, cordas e o coro convergem para nos dar um colossal momento áudio-visual.

“Together we will live forever” (Faixa 10) apazigua a explosão de sensações da faixa anterior por meio de um comovente solo de piano que recorre aos temas de cada história, entrelaçando-os e relacionando-os. Vemos, então, os créditos finais.

Esta ousada partitura de Clint Mansell se sustenta, de modo determinante, na interpretação do Kronos Quartet, quarteto de cordas fundado pelo violinista David Harrington em 1973 e que já havia trabalhado com Mansell em Requiem for a Dream. Neste álbum também encontramos o grupo escocês Mogwai de post-rock – aqueles que estão familiarizados com este estilo musical, embasado principalmente em composições instrumentais inspiradas no jazz de Miles Davis, rock progressivo e de forte sabor eletrônico, não se surpreendem com a sonoridade peculiar e coesa que descobrimos em vastos momentos. Surpreendentemente, a fusão entre grupos tão heterogêneos é total.

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A Eternidade
Em A Fonte da Vida viajamos pelos labirintos da existência humana até os seus confins. As suas três histórias paralelas destilam paixão, nostalgia, e acima de tudo, transcendência. Romântico e barroco, neste filme sonhamos a eternidade do espírito humano e de um amor indestrutível.

Who wants to live forever? A ironia desta interrogação, expressa e desenvolvida na letra da banda musical Queen, expressa com propriedade o enredo deste filme: a vida, esta vida, não faz sentido sem a morte. Paradoxalmente nossa fantasia tenta a todo instante justificar nossas ações pautadas num cego desejo de imortalidade.

Um de seus grandes atrativos é sem dúvida a forma como, contando a mesma história através dos tempos e de realidades alternativas, joga com a filosofia desafiando a imaginação do expectador. Na Espanha do século 16, o navegador Tomas parte para o Novo Mundo em busca da lendária Árvore da Vida para salvar sua amada rainha. Nos tempos atuais a mulher do pesquisador Tommy está morrendo de câncer e ele busca desesperadamente a cura que pode salvá-la. Uma terceira história une as duas primeiras: no século 26, o astronauta Tom finalmente consegue a resposta para as questões fundamentais da existência.

Ao final fecha-se o círculo num “Eterno Retorno” Nietzscheniano. Testemunhamos um universo limitado no espaço e infinito no tempo. Neste mesmo universo após se esgotarem todas as combinações possíveis de seus elementos (como cartas de um baralho), estas combinações passam a se repetir indefinidamente. Da mesma forma todas as mais insignificantes variantes possíveis na vida de qualquer pessoa, na vida de qualquer animal, de qualquer planta ou ser, de qualquer átomo, de qualquer elétron, seriam vividas da mesmíssima forma eternamente.

Em seu desenlace as três histórias confluem em uma mesma mensagem. Diferentemente do que se costuma pensar, eternidade e imortalidade não são coisas iguais. O eterno distingue-se do imortal por não ter princípio nem fim, não é a soberba vida sem seu termo.  Neste filme concluímos que nada caminha em linha reta. Nada tem um começo ou um fim. Tudo é um infinito e gigantesco ciclo de repetições, de combinações finitas. Estamos eternamente condenados a repetir exatamente o que eternamente estamos a repetir.

A Fonte da Vida é um presente aos olhos e se perpetua em nossa memória. A música de Clint Mansell funciona com idêntica eficácia: enigmática, atraente, obscura, onírica, nostálgica, inspiradora e poderosa. Alem de tudo, esta história nos traz o seguinte questionamento que inquire nosso espírito: amamos ou não a vida? Se tudo retorna – o prazer, a dor, a angústia, a guerra, a paz, a grandeza, a pequenez — se tudo torna, isto é um dom ou uma maldição? Seríamos capazes de amarmos a vida que temos – a única vida que temos – a ponto de querermos vivê-la tal e qual ela é, sem a menor alteração, infinitas vezes ao longo da eternidade? Sofrendo e gozando da mesma forma e com a mesma intensidade? Temos tal amor ao nosso destino? Eis a grande indagação que é o Eterno Retorno, uma das maiores da filosofia e, agora também, do cinema.

Carlos Alberto Bissogno

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