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Resenha de Trilha Sonora: THE SECRET LIFE OF PETS – Alexandre Desplat


pets-cdMúsica composta por Alexandre Desplat
Selo: Back Lot Music
Formato: CD
Lançamento: 01/07/2016
Cotação: star_4

A cada filme, a produtora Illumination Entertainment vem se solidificando como a concorrente atual mais forte da Disney/Pixar. Seu mais novo sucesso é Pets: A Vida Secreta dos Bichos (The Secret Life of Pets, 2016), uma comédia animada que conta a história do cãozinho Max (Louis C.K.), que vive uma vida tranquila com sua dona Katie (Ellie Kemper) em Nova York. Entretanto, quando Katie decide trazer um novo animal para casa, o imenso vira lata Duke (Eric Stonestreet), Max fica enciumado e faz de tudo para expulsá-lo. As brigas da dupla acabam por levá-los para longe de casa. Perdidos em Nova York e caçados por uma gangue de animais excluídos liderados pelo coelho Bola de Neve (Kevin Hart), os dois são obrigados a trabalharem juntos se quiserem voltar para sua dona. Assim, apesar do longa ser basicamente um remake de Toy Story (idem, 1995) estrelado por animais de estimação no lugar de brinquedos, ele faturou dez vezes o que custou nas bilheterias mundiais, e gerou uma nova franquia para a Illumination e sua companhia mãe, a Universal.

Os cinco longas anteriores da produtora foram musicados por Christopher Lennertz, John Powell e o brasileiro Heitor Pereira, que escreveu os scores dos longas que deram fama à Illumination: Meu Malvado Favorito (Despicable Me, 2010), sua continuação e o spin-off Minions (idem, 2015). Para Pets, o diretor Chris Renaud, que havia comandado os longas estrelados por Gru, decidiu contratar o sempre ocupado Alexandre Desplat para escrever o score. O compositor francês possui algumas animações em seu currículo, notavelmente para a aventura A Origem dos Guardiões (Rise of the Guardians, 2012) e para o stop motion de Wes Anderson O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox, 2009). Entretanto, Pets é um filme completamente diferente do que ele está acostumado, e uma oportunidade para escrever música distinta do que aprendemos a esperar dele.

Em seu score, Desplat foi capaz de compreender o filme além de seu tolo roteiro. Em primeiro lugar, o compositor viu no longa uma oportunidade de homenagear toda a música escrita para desenhos animados, desde os clássicos de Carl Stalling e Scott Bradley, passando por compositores mais modernos que deixaram sua marca neste gênero, como Randy Newman e John Powell. Afinal, desenhos animados estrelados por animais que pensam e agem como humanos estiveram presentes na história da animação desde os seus primórdios. Além disso, Pets também pode ser visto como uma carta de amor a Nova York, vista no longa sempre de forma efervescente, ensolarada e vibrante. Para representar a cidade, Desplat utilizou tons de jazz, do mais enérgico ao mais suave, do tipo que você pode ouvir enquanto se imagina caminhando pelas ruas de Manhattan.

Isso, claro, não seria possível se ele não tivesse recebido diversificadas influências musicais e as estudado das mais diversas fontes: a biografia postada no site oficial do músico lista de compositores clássicos como Ravel e Debussy a artistas sul-americanos como o brasileiro Carlinhos Brown; passando por músicos de jazz e, claro, compositores da Música de Cinema, como Williams, Herrmann, Jarre, Rota e Delerue. Felizmente, ele utilizou todas essas referências não para copiá-las, mas sim para criar uma trilha que fluísse de forma orgânica e inteligente em meio a tantos estilos musicais diferentes.

A primeira faixa do disco, Meet the Pets, é um ótimo exemplo do lado mais jazzístico do compositor, com uma alegre e deliciosa melodia para big band, ou orquestra de jazz. Claro, músicas como essas já foram utilizadas antes para reforçar o tom cômico em desenhos animados, desde Henry Mancini até os tempos mais atuais, como os primeiros scores de Randy Newman para a Pixar, ou os de compositores como Walter Murphy e Ron Jones para as animações televisivas adultas de Seth McFarlane. Ainda assim, Desplat não deixa nada a dever a esses grandes compositores, criando uma melodia que deve ser a mais divertida de sua carreira. Tal faixa também inclui o tema de Max, o personagem principal da história, uma melodia alegre, porém também mostrando o lado mais convencido e espertalhão do protagonista.

Esse tema, se não é exatamente o protagonista do score, ao menos conduz a jornada de Max, ganhando múltiplas variações ao longo da trilha. Ao início de Meet Duke, ele aparece em baixo, piano e trompetes mudos para maior efeito cômico, como na trilha para algum antigo desenho de comédia exibido pelas manhãs na TV. Já em Telenovela Squirrels, ele é ouvido num inocente e divertido dueto para flauta doce e trompa, e depois num expressivo arranjo para trompete e saxofone ao início de Gidget Meets Tiberius. A versão jazzística do tema ouvida em Who’s With Me, por sua vez, não soaria fora de lugar numa trilha de Mancini para A Pantera Cor de Rosa. No clímax do longa, o tema ganha contornos mais dramáticos, como a versão ouvida nos metais em Rescuing Duke. Por fim, na conclusiva Welcome Home, o tema ganha uma versão mais leve e easy listening.

Outro tema que se destaca na trilha é o da cadelinha Gigi, que vive uma paixão não correspondida por Max, até que decide embarcar numa missão para resgatá-lo. Trata-se de um tema expressivamente romântico, e relacionado à paixão incorrigível de Gigi pelo protagonista. Ele surge pela primeira vez em Telenovela Squirrels, nas cordas, porém acompanhado de trompetes e violões latinos, para a sequência em que ela imagina o amor de sua vida como um dos heróis das novelas que assiste. Depois, ele ocorre aqui e ali em faixas como Gidget Meets Tiberius e Who’s With Me, ganha um arranjo grandioso em Brooklyn Bridge Showdown, e depois uma versão um pouco menos “exagerada”, mais intimista, em Max and Gidget. Além disso, os animais despejados liderados por Bola de Neve também ganham seu próprio motivo, que inicialmente surge como uma ameaçadora fanfarra, ouvida ao final de Gidget Meets Tiberius, em Initiation Time e depois ao início de Brooklyn Bridge Showdown. Ao fim do longa, porém, tal tema ganha contornos mais simpáticos, aos 0:42 de Max and Gidget.

Mas o grande destaque da trilha são os diversos estilos musicais que a compõem. Cues como Rooftop Route e Good Morning Max mostram que Desplat, apesar de mais conhecido por seus scores dramáticos, é também um talentoso compositor de jazz. Já Me Like What Me See e Travelling Bossa são faixas alegres claramente inspiradas por compositores como Burt Bacharach, e não soariam fora de lugar caso tivessem sido escritas nos anos 1960. Enquanto isso, You Have an Owner? possui traços de música country, com suas melodias para violão e flauta doce. Por outro lado, faixas como Initiation Time e The Viper são mais pesadas e ameaçadoras, com passagens para metais, percussão e até um coro masculino que lembram o memorável score do compositor para Godzilla (idem, 2014).

A música de ação também é igualmente distinta e variada. Fetch Me a Stick possui um ritmo rápido e enérgico para orquestra, do tipo que costumávamos ouvir em cenas de perseguição de desenhos clássicos dos Looney Tunes. Depois, Hijack! sai das animações dos anos 1940 diretamente para os filmes de ação policiais dos anos 1960 e 1970, misturando orquestra, bateria, baixo e órgão, como nas trilhas de compositores como Lalo Schifrin, por exemplo. Sewer Chase, por sua vez, é mais jazzística, como se tivesse saído direto da década de 1950. Por fim, Flushed Out To Brooklyn, os últimos segundos de Duke’s Old House/Captured e Rescuing Duke são mais tradicionalmente orquestrais, por assim dizer, trazendo a típica música de ação do compositor ouvida em trilhas como A Bússola de Ouro (The Golden Compass, 2007) e as duas partes de Harry Potter e as Relíquias da Morte.

Mas o grande “toque de gênio” de Desplat com esta trilha não é o apanhado de referências musicais, mas sim a forma como ele conseguiu costurá-las. Se, no papel, esta é uma trilha que não deveria funcionar com tantos estilos conflituosos, na prática o talento do compositor francês conseguiu que a trilha soasse coerente e orgânica. Compare com, por exemplo, o score de Michael Giacchino para outra animação, Zootopia: Essa Cidade é o Bicho (Zootopia, 2016), que também trazia diversos estilos musicais à trilha. Se lá as referências, ainda que divertidas individualmente, pareciam soltas no contexto da trilha, aqui elas são inteligentemente costuradas e integradas ao score por Desplat.

Assim, apesar de já ter se aventurado tanto por comédias quanto por animações, Pets: A Vida Secreta dos Bichos é uma rara oportunidade de Desplat deixar de lado os tons dramáticos que acompanharam boa parte de sua carreira, e escrever algo um pouco mais animado (com o perdão do trocadilho). Com esta trilha, ele tanto homenageia seus ídolos, como também mostra aos críticos que é capaz de escrever música alegre e cômica, mas também inteligente e bem escrita. A pergunta é: existe alguma coisa que ele não consegue fazer?

Faixas:

1. Meet the Pets  2:37
2. Katie’s Leaving  0:55
3. Meet Duke  3:36
4. Fetch Me a Stick  3:09
5. Telenovela Squirrels  1:24
6. Hijack!  2:00
7. Gidget Meets Tiberius  4:56
8. Initiation Time  1:01
9. Rooftop Route  1:27
10. The Viper  1:49
11. You Have An Owner?  3:04
12. Good Morning Max  1:29
13. Sewer Chase  1:09
14. Who’s with Me?  1:21
15. Me Like What Me See  0:54
16. Traveling Bossa  1:56
17. Flushed Out to Brooklyn  2:47
18. Sausages!  1:13
19. Duke’s Old House/Captured  3:03
20. Brooklyn Bridge Showdown  2:34
21. Rescuing Duke  2:46
22. Wet But Handsome/Blue Taxi  1:24
23. Max and Gidget  1:36
24. Welcome Home  1:57
25. We Go Together  1:24

Duração: 51:31

Tiago Rangel

2 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: THE SECRET LIFE OF PETS – Alexandre Desplat”

  1. Gostei desta trilha, soa simples e despretensiosa.
    Soa muito bem com uma audição sem o filme, e o tom jazzístico é a cereja do bolo.
    Ótimo trabalho do Desplat.

    Curtir

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