Resenha de Trilha Sonora: JASON BOURNE – John Powell, David Buckley


jason-bourne-CDMúsica composta por John Powell e David Buckley, regida por Gavin Greenaway
Selo: Back Lot Music
Formato: CD
Lançamento: 29/07/2016
Cotação: star_3

Responda rápido: qual a trilha que mais influenciou a música composta para filmes de ação, thriller, suspense e espionagem no século XXI? Se você respondeu A Identidade Bourne (The Bourne Identity, 2002) e suas continuações imediatas, acertou. Os três trabalhos de John Powell para os longas estrelados por Matt Damon no papel de um ex-agente da CIA desmemoriado e caçado por seu próprio governo definiram toda a música de ação dos anos 2000. Depois que Bourne estreou nos cinemas, os filmes do gênero passaram a contar não com trilhas orquestrais e temáticas, mas sim com música menos chamativa, que, em geral, combinavam cordas com eletrônicos, numa tentativa de reforçar a tensão e a ameaça da situação. Aos poucos, essa tendência cresceu e infectou Hollywood quase que por completo, atingindo até mesmo compositores mais experientes do que Powell, como James Newton Howard, David Arnold, Thomas Newman e Patrick Doyle – isso sem falar de seus antigos colegas na Remote Control. Todos, porém, sem repetir o mesmo sucesso de Powell.

O curioso é que Powell não tinha a intenção de ser tão “revolucionário” assim quando compôs seu score. Inicialmente, A Identidade Bourne seria musicado por Carter Burwell, de tal forma que seu nome foi visto até mesmo nos trailers e pôsteres promocionais do filme. O problema é que Doug Liman, o diretor, simplesmente não conseguia apreciar a trilha composta e, no fim das contas, acabou rejeitando por completo o score de Burwell e convocando Powell, que teria pouquíssimo tempo para compor e gravar uma nova trilha. Entretanto, como a maior parte do orçamento destinado à parte musical já havia sido gasta com o trabalho orquestral de Burwell, então, Powell acabou sendo obrigado a escrever uma trilha quase toda eletrônica – apenas quando já estavam no final do processo é que decidiram adicionar uma sessão de cordas, para dar um ar mais “cinematográfico” ao longa. No fim das contas, a trilha do compositor inglês casou bem com o estilo menos grandioso e mais intimista do longa, de tal forma que não apenas ele iniciou a “revolução” descrita no parágrafo anterior, como também foi convocado por Paul Greengrass para as sequências seguintes, A Supremacia Bourne (The Bourne Supremacy, 2004) e O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, 2007). Tão repetidos seus três scores se tornaram em Hollywood ao longo dos anos, que até mesmo o próprio Powell se arrependeu depois: o sujeito passou a trabalhar cada vez menos em filmes de ação e cada vez mais em animações, onde se tornou o atual rei do gênero.

Hollywood, sendo como é, não pode deixar uma franquia descansar em paz, por mais fechada que tenha sido. Assim, após anos de disputas e indecisão, que incluíram o fraquíssimo spin-off O Legado Bourne (The Bourne Legacy, 2012) e seu decepcionante score de James Newton Howard, Greengrass, Damon e Powell estão de volta em Jason Bourne (idem, 2016). Na trama, o ex-agente está vivendo escondido e se mantendo oculto do governo americano, quando novos segredos de seu passado retornam para colocá-lo na mira da CIA, que, mais uma vez, o caça com assassinos perigosos e diretores impiedosos (no caso, Vincent Cassel e Tommy Lee Jones, respectivamente). Além disso, Greengrass procura atualizar a franquia, com referências a espionagem na internet, redes sociais e figuras como Edward Snowden. Infelizmente, em março deste ano, bem durante o processo de gravação da trilha, a esposa de Powell, a fotógrafa Melinda Lerner, veio a falecer de uma doença na medula óssea, aos 56 anos de idade – o que talvez explique porque David Buckley esteja creditado como co-compositor.

De certa forma, a trilha é tudo o que se poderia esperar de um score de Powell para Bourne. Ou seja, novamente o sujeito, juntamente com Buckley, combinam cordas com diversos instrumentos de percussão e pulsos eletrônicos, com algumas inserções de metais para dar profundidade e textura à música. Além disso, o hoje icônico motivo de 16 notas ouvido nos cellos ouvido nos longas anteriores enquanto Bourne corria, fugia e lutava, como não poderia deixar de ser, também retorna, formando a base das faixas de ação. Tudo isso, claro, com o objetivo de aumentar e elevar a tensão a níveis inimagináveis, como pede um thriller como esse. Uma dica: experimente ouvir as trilhas de Powell para Bourne enquanto estiver a caminho do trabalho, escola, ou faculdade. Certamente, você irá se sentir não em sua tediosa rotina diária, mas sim como um verdadeiro agente secreto, envolvido numa emocionante caçada com assassinos, ninjas e agentes da CIA.

Infelizmente, porém, no caso deste Bourne em específico, a nova trilha tem uma desvantagem: ela não traz nada que já não tenhamos ouvido antes na franquia. Pode ser por causa do esgotamento desse estilo musical ao longo dos últimos 14 anos (o que, novamente, não é culpa de Powell), pode ser simplesmente por causa do esgotamento de ideias novas para esse estilo, mas o fato é que a música em Jason Bourne parece cansada, repetitiva, ao invés de inovadora e fresca.

Claro, como não poderia deixar de ser, ação é o que não falta no disco. Faixas como Backdoor Breach, Converging In Athens, Motorcycle Chase, Flat Assault, Paddington Plaza, Following the Target e Strip Chase poderão agradar aos fãs da música de Powell para o agente desmemoriado, por seguir exatamente no estilo estabelecido pelo compositor. No entanto, quando comparadas com seus pares nas trilhas anteriores da trilogia, as de Jason Bourne simplesmente empalidecem. Claro, aqui e ali ainda se tenta adicionar algum twist que as tornem interessantes, como os violinos dramáticos de Motorcycle Chase ou a energia gerada pela combinação entre cordas, percussão real e eletrônica em Strip Chase (de longe, a melhor do tipo no disco), mas nada que seja muito memorável, ou que Powell já não tenha feito antes, e de forma muito melhor. Por outro lado, faixas como Berlin, Decrypted e White Van Plan, entre outras, não deixam a tensão cair, ainda que não sejam exatamente de ação, mas sempre mantendo o dramatismo necessário.

Do ponto de vista temático, o único motivo recorrente é o famoso ostinato de 16 notas citado anteriormente. Ele é ouvido tanto de forma mais enérgica, nas faixas de ação, como também num ritmo mais lento, nos momentos de mais suspense e investigação e menos lutas e correria. O belo e melancólico tema, introduzido em Supremacia, que representava o lado mais humano de Bourne e sua busca por redenção, faz apenas uma rápida aparição, num sombrio arranjo para cordas, logo ao início de Strip Chase. Já I Remember Everything, a primeira faixa do disco, reprisa alguns temas dos dois primeiros longas, inclusive o peculiar motivo para flautas que serve como um dos temas do personagem-título desde Identidade. No entanto, Powell e Buckley não quiseram ou desejaram escrever temas inéditos para o novo longa, o que é uma pena, embora seja compreensível; afinal, afora esses motivos recorrentes, os scores anteriores também não traziam muita coisa do ponto de vista temático. Ainda assim, isso poderia ser útil aqui, pois ao menos daria uma personalidade própria à nova trilha em comparação com as outras.

A última faixa do disco é um novo e interessante arranjo da canção Extreme Ways, do cantor Moby, ouvida durante os créditos finais de todos os cinco Bourne lançados até hoje. A ótima música do artista aqui ganha backing vocals no melhor estilo “gospel” e acompanhamento de cordas, o que servem para aumentar sua grandiosidade, levando-a de suas raízes mais eletrônicas até quase o território de uma canção de James Bond.

Pretendia alongar essa review, mas o fato é que simplesmente não existe muito o que analisar aqui. Talvez a tragédia que abateu Powell no início do ano tenha lhe custado a concentração ou a inspiração para a trilha, ou talvez mesmo seu desinteresse em escrever para filmes de ação continue. Afinal, ele teve um intervalo de seis anos entre Jason Bourne e seu último filme do gênero, Encontro Explosivo (Knight and Day, 2010), e, entre um e outro, ele preferiu trabalhar apenas em animações e filmes familiares. O que é uma pena, afinal, Powell não apenas “inventou” a música de ação moderna, como também foi o melhor compositor a escrever nesse estilo tão difícil e específico. Infelizmente, o trabalho seu e de Buckley em Jason Bourne, ao contrário dos três scores anteriores (em especial seu excelente trabalho em Supremacia), não fica muito distante das centenas de imitadores que vem pipocando na música de cinema hollywoodiana desde 2002.

PS: Gostaria de aproveitar este último parágrafo para prestar minhas condolências a John Powell e sua família pela trágica perda que sofreram este ano. Deixo aqui meus votos de que esse compositor querido e extremamente talentoso encontre forças para cuidar de seus filhos e superar esse momento tão difícil. John, um abraço de todos os seus fãs brasileiros!

Faixas:

1. I Remember Everything  2:04
2. Backdoor Breach  3:50
3. Converging in Athens  4:13
4. Motorcycle Chase  6:53
5. A Key to the Past  2:37
6. Berlin  2:02
7. Decrypted  5:34
8. Flat Assault  2:39
9. Paddington Plaza  6:46
10. White Van Plan  2:49
11. Las Vegas  3:48
12. Following the Target  3:29
13. Strip Chase  4:59
14. An Interesting Proposal  2:13
15. Let Me Think About It  2:24
16. Extreme Ways (Jason Bourne) (Moby)  4:56

Duração: 61:16

Tiago Rangel

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