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Resenha de DVD: A PAIXÃO DE JOANA D’ARC (EDIÇÃO DEFINITIVA)


joana-darc-DVDLA PASSION DE JEANNE D’ARC
Produção: 1928
Duração:  97 min. (versão 20 quadros por segundo),  81 min. (versão 24 quadros por segundo)
DireçãoCarl Theodor Dreyer
Elenco: Maria Falconetti, Eugene Silvain, André Berley
Vídeo: 1.37:1
Áudio: Dinamarquês (Dolby Digital 2.0)
Legendas: Português
Região: 0
Distribuidora: Versátil Home Video
Discos: 1 DVD-9
Lançamento: 05/08/2016
Cotações: Som: ***½ Imagem: ****½ Filme: ***** Apresentação e Extras: ***½ Geral: ****

SINOPSE
Carl Theodor Dreyer (“A Palavra”) dirigiu esta que é a mais famosa versão cinematográfica para a história do trágico fim de Joana d’Arc, líder religiosa e militar francesa torturada e queimada pela Igreja sob a acusação de blasfêmia, detalhando as suas últimas horas de vida, logo após sua captura pelos ingleses. Maria Falconetti, em uma das mais impressionantes atuações do cinema, vive a mártir francesa neste filme construído de maneira original, privilegiando closes e planos fechados dos rostos dos atores como recurso dramático. A produção conta ainda com uma rara aparição nas telas do lendário teatrólogo Antonin Artaud.

COMENTÁRIOS
I – O Filme

large_the_passion_of_joan_of_arc_blu-ray_x04Joana de Domrémy, a Donzela de Orléans, foi uma jovem camponesa que, no Século XV, liderou um exército à guerra para livrar a França da ocupação inglesa. Acreditando estar sob influência divina, Joana foi capturada, julgada e queimada viva com apenas 19 anos de idade.

Transposto o evento ao cinema por vários cineastas – Mélies, De Mille, Fleming, Rossellini, Luc Besson, dentre tantos outros -, a Joana D’Arc de Carl Th. Dreyer é a mais realista e sensível versão. “A Paixão de Joana D`Arc”, de 1928, que retrata o julgamento e a execução dessa figura histórica, é cinema em estado puro; um clássico singular na história do cinema. Dreyer usou a essência do cinema, a imagem, para mostrar a tragédia humana exclusivamente por closes no rosto dos atores. Os cenários, os vestuários e demais valores da produção são secundários, extremamente simples para não distrair a atenção do público da retratação da alma humana em sua forma mais íntima.

A interpretação de Renée Maria Falconetti, atriz de teatro que faz o papel de Joana, é considerada como um dos melhores, senão o melhor trabalho já realizado na frente das câmeras. É simplesmente magistral. Tristeza, agonia, medo, esperança e tantas outras emoções humanas são perfeitamente representadas por Falconetti apenas por expressões de seu rosto. O fato dessa ter sido a única incursão da atriz no cinema colabora por tornar única a sua atuação, sem comparações e, por infortúnio da atriz, eternamente ligada ao papel de Joana D’arc.

large_the_passion_of_joan_of_arc_blu-ray_x10Relatos dos bastidores dão conta de que o diretor Dreyer, sempre muito exigente, torturou emocionalmente a jovem atriz, ao ponto de um colapso mental, para alcançar o resultado que vemos na tela. Outros relatos dizem o contrário, que foi uma colaboração do diretor e da atriz, sempre sintonizados na persecução do melhor resultado possível. Independente dos relatos da produção, a atriz sofreu de problemas mentais pelo restante de sua vida, tendo falecido no Brasil em 1946.

Além da interpretação de Falconetti, vários outros elementos colaboram para o impressionante realismo do filme. Nenhum ator foi submetido à maquiagem, pois Dreyer entendia que sua aplicação poderia ocultar, ou até mesmo mascarar, os verdeiros traços dos rostos dos atores. Dreyer também consultou os manuscritos oficiais do julgamento de Joana para escrever o roteiro. A transposição dos manuscritos para a tela mostra o lado humano de Joana sendo confrontado com a ausência de humanidade dos juízes. Autoritários, ameaçadores, dogmáticos, cujo intuito é apenas subjugar Joana, os juízes representam a inflexibilidade da Igreja diante da ameaça que a jovem representa aos seus interesses políticos.

“A Paixão de Joana D’Arc” convenceu ao mundo de que filmes também podem ser considerados como arte. O resultado é uma das mais importantes obras primas do cinema; um verdadeiro milagre na forma de película.

II – A perda e a redescoberta de um Clássico

large_the_passion_of_joan_of_arc_blu-ray_x12Por um infortúnio do destino, embora reconhecido como um clássico absoluto, “A Paixão de Joana D`Arc” não foi visto na forma como idealizado pelo diretor por mais de 70 anos. Rodado em 1928, os negativos originais foram destruídos em um incêndio nos anos 30. O diretor Dreyer, para reconstruir o filme, utilizou takes alternativos que foram inicialmente descartados e, com esse material, criou uma nova edição. Não era tão boa como a original, mesmo porque os takes alternativos não representavam as melhores cenas ou interpretações que tinham ido para a edição original de 1928. Essa segunda edição também foi perdida em outro incêndio.

Durante os anos 50, vários takes alternativos sobreviventes, que não foram usados por Dreyer na segunda edição, foram localizados pelo historiador francês Joseph-Marie Lo Duca que, sem o envolvimento do diretor, criou uma terceira versão (hoje conhecida como “A Versão Lo Duca”). Essa terceira versão não foi aprovada por Dreyer, que a considerou uma aberração de sua obra por ter introduzido um prólogo narrado, trilha sonora inapropriada e mudanças na edição. Mas é certo que Dreyer exagerou na crítica, pois a versão Lo Duca não é exatamente ruim, mas apenas uma versão imperfeita de um filme perfeito. E, mais importante, durante décadas foi a forma como o filme foi apresentado ao mundo.

Milagrosamente, em 1991 foi encontrada uma cópia do negativo da edição original de 1928 em uma instituição psiquiátrica na Dinamarca. O diretor do estabelecimento, nos anos 20, era colecionador de filmes e adquiriu uma cópia da película original antes que esta se perdesse no incêndio. Essa película estava em ótimo estado, mas precisava de uma restauração para melhor conservação. No final dos anos 90 a restauração foi concluída e o filme passou a ser exibido em amostras de cinema e lançado em DVD nos EUA pela renomada Criterion Collection.

Há uns 5 anos o filme passou por um novo processo de restauração, mais moderno, o que resultou em uma imagem prestigiosa. Na Europa, a nova restauração foi lançada em Blu-Ray e DVD pela Eureka, sob o selo “Masters of Cinema”. Agora, em 2016, essa mesma edição é lançada no Brasil, apenas em DVD, pela Versátil, distribuidora especializada em grandes clássicos do cinema mundial.

large_the_passion_of_joan_of_arc_blu-ray_x15SOBRE O DVD
A Versátil lançou no Brasil, em agosto deste ano, o DVD com a restauração mais recente do filme. A obra merecia uma edição em alta definição em Blu-ray, mas o DVD não faz feio. O filme é apresentado em duas versões de velocidade de projeção, 20fps (frames per second; quadros por segundo) e 24fps. O nosso padrão atual de velocidade de projeção é de 24fps, mas foi estabelecido no final dos anos 20 quando os filmes deixaram de ser mudos e passaram a contar com uma trilha de áudio. Para manter o áudio na forma natural como gravado, o padrão mundial de 24fps foi estabelecido.

Já os filmes mudos não tinham essa preocupação com sincronia de áudio, motivo pelo qual as velocidades de filmagem e de projeção podiam variar entre 16fps, 18fps, 20fps e 24fps. Com relação a “A Paixão de Joana D`arc” não houve um consenso entre os cinéfilos sobre a verdadeira velocidade de projeção nos anos 20. Há relatos de que o diretor Dreyer preferia a velocidade de 24fps, mas os movimentos dos atores ficam um tanto acelerados. A versão em 20fps é mais natural, mais suave. Para evitar descontentamentos e agradar a todos, a mais recente restauração do filme produziu as duas versões de velocidade, ambas presentes no DVD da Versátil. Em função da diferença de velocidade, cada versão tem uma duração diferente. A de 24fps, mais rápida, tem 81 minutos, enquanto a de 20fps, mais lenta, tem 97 minutos.

O filme é apresentando em tela-cheia, seu formato original, na proporção aproximada de 1.37:1. A imagem é sensacional, principalmente considerando os 90 anos de idade do material original. Riscos e manchas na película foram removidos digitalmente, bem como a imagem estabilizada. A nitidez salta aos olhos, com presença forte de detalhes nos rostos dos atores. O contraste está excelente também, com pretos bem definidos. Em suma, o filme parece ter sido rodado ontem, dada a excelência dos esforços na restauração.

large_the_passion_of_joan_of_arc_blu-ray_x14Como é um filme mudo, há intertítulos, aqui apresentados no original em dinamarquês, com legendas em português. Dreyer determinava que o filme fosse exibido sem música, absolutamente mudo, para que a música não interferisse na experiência. No entanto, com o passar dos anos várias trilhas foram compostas para acompanhar ao filme. Neste DVD da Versátil, cada versão do filme é apresentada com sua própria trilha sonora. Sem prejuízo, quem quiser experimentar o filme na forma como desejado por Dreyer, pode simplesmente desligar o som. A versão em 24fps possui a trilha musical composta por Loren Connors. É uma música experimental, sombria e depressiva. Ela casa bem com as imagens, mas é pesada. A versão em 20fps possui a trilha do compositor japonês Mie Yanashita, especializado na gravação de músicas para acompanhamentos de filmes mudos. É uma trilha de piano, mais tradicional e melódica. É a melhor trilha presente no disco e a preferível para acompanhar ao filme. Em razão da diferença de velocidade e da trilha musicada, cada versão do filme é uma experiência diferente. Vale conferir as duas. Infelizmente essa edição em DVD não traz a brilhante trilha sonora orquestrada e com coral “Voices of Light”, de Richard Einhorn, que está presente no DVD americano da Criterion Collection.

Para quem quiser uma versão em alta definição, na Europa é vendido o Blu-ray pela distribuidora Eureka, mas com código de bloqueio “B”. No Brasil, como na América em geral, é adotado o código “A”. Então é necessário um player destravado ou multi-região para reproduzir o Blu-ray europeu. A edição europeia contém as mesmas duas versões do filme apresentadas no DVD da Versátil (20fps e 24fps), além da versão remontada nos anos 50, conhecida como “Lo Duca”.

large_the_passion_of_joan_of_arc_blu-ray_x06EXTRAS
O DVD da Versátil possui dois extras:

  1. Um excelente documentário dos anos 60, com 30 minutos de duração, com um apanhado geral das obras de Dreyer e entrevistas de François Truffaut, Henri-Georges Clouzot e outros renomados do cinema francês;
  2. Entrevista de 11 minutos com Helene Falconetti, filha da atriz, que narra as lembranças de sua mãe sobre as filmagens.

CONCLUSÃO
“A Paixão de Joana D`Arc” é um dos mais importantes lançamentos em DVD neste ano de 2016. É um dos melhores filmes da história do cinema e essa caprichada edição da Versátil faz jus à importância da obra. Altamente recomendado para os apreciadores da sétima arte.

 

the-passion-of-joan-of-arc-12617_1Luiz Felipe do Vale Tavares

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4 opiniões sobre “Resenha de DVD: A PAIXÃO DE JOANA D’ARC (EDIÇÃO DEFINITIVA)”

  1. Luiz Felipe, excelente resenha, mas aproveitando que você tocou no assunto, você sabe se algum fabricante vende blu-ray player multi-região no Brasil? Olhando no Google o máximo que encontrei foi os caríssimos importados no Mercado Livre.

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    1. Fernando, o único player multi-região que conheço é o da Tec-Toy, fora de linha há anos. Eu tenho um e escolho a região do Blu-ray com comandos no controle remoto.

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    2. Tenho um Pioneer BDP-140 que é multi-região, desde que atualizado com um firmware russo. Ele também já saiu do nosso mercado há alguns anos, mas no próprio Mercado Livre ainda se acha pra vender. O problema são os preços…

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