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Resenha de Trilha Sonora: THE BFG – John Williams


BFG_CDMúsica composta e regida por John Williams
Selo: Walt Disney Records
Formato: CD
Lançamento: 1º/07/2016
Cotação: star_4

Se existe um compositor vivo que soube capturar com perfeição o olhar de uma criança e retratá-lo com sua música, este é John Williams. De E.T.: O Extraterrestre (E.T.: The Extraterrestrial, 1982) até A Menina que Roubava Livros (The Book Thief, 2013), o octogenário maestro sempre teve um talento especial para compor para longas estrelados por crianças e adolescentes. Em muitas das obras mais famosas de sua longa carreira, do dramatismo de Império do Sol (Empire of the Sun, 1987) à inocência natalina de Esqueceram de Mim (Home Alone, 1990), da magia de Harry Potter aos tons sombrios de A.I.: Inteligência Artificial (A.I., 2001), as trilhas do compositor retratavam o ponto de vista infantil frente a um mundo que poderia ser divertido e cheio de descobertas – mas também perigoso e cruel. Não à toa, sua música é querida por tantas pessoas de gerações diferentes, que vem crescendo com a música do compositor por quase meio século.

Agora, chega aos cinemas mais um longa cuja trilha de Williams tem a chance de capturar a imaginação de uma nova geração: O Bom Gigante Amigo (The BFG, 2016). Dirigido por Steven Spielberg, este filme, baseado num clássico da literatura infantil de Roald Dahl, conta a história da jovem garotinha órfã Sophie (Ruby Barnhill) e o gigante do título (Mark Rylance), uma enorme criatura que trabalha levando sonhos às crianças do mundo. Entretanto, o gigante, um ser bondoso e bem intencionado, sofre nas mãos de seus pares, por se recusar a devorar crianças. Para ajudar seu novo amigo e impedir os gigantes malvados, Sophie terá de recorrer à ajuda de ninguém menos que a Rainha da Inglaterra (Penelope Wilton).

O Bom Gigante Amigo é a segunda trilha de Williams a aportar nos últimos seis meses, depois do seu score indicado ao Oscar para Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens, 2015). É também sua primeira trilha para Spielberg em cerca de três anos e meio, depois que problemas de saúde e seus compromissos com o sétimo episódio da saga espacial o impediram de trabalhar em Ponte dos Espiões (Bridge of Spies, 2015). Infelizmente, a recepção crítica do longa foi um tanto quanto morna e ele afundou nas bilheterias, uma raridade para Spielberg, mas sintomática do fato de que ele hoje, infelizmente, já não possui mais o poder de arrastar multidões aos cinemas. Ainda assim, a colorida e deliciosa trilha de Williams não deve passar despercebida, especialmente por quem gosta dos trabalhos mais inocentes do compositor.

O score de O Bom Gigante Amigo, portanto, pode ser visto como um primo próximo de outros trabalhos similares na carreira de Williams, que além dos já citados incluem obras como Hook: A Volta do Capitão Gancho (Hook, 1991) e As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin, 2011). Sua música é estruturada em torno do tema da protagonista Sophie, uma melodia simples, doce e inocente, como uma criança ansiosa por descobrir os mistérios do mundo. Tal tema é também bastante similar a um ouvido em Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Sorcerer’s Stone, 2001), o que tira um pouco do seu impacto (embora não deixe de ser divertido para os fãs de longa data do compositor). Introduzido na curta Overture, ele é quase onipresente no disco depois disso, com performances que vão do melancólico e gentil, em Building Trust, até uma variação mais enérgica, como em Snorting and Sniffing e logo ao início de Giants Netted.

O tema da jovem protagonista tem também uma “segunda parte”, mais triste e melancólica. Afinal, Sophie é uma órfã solitária, que encontra um amigo apenas no gigante, tão sozinho quanto ela – um tema recorrente na filmografia de Spielberg, conforme o próprio diretor indica numa entrevista ao site Omelete. Williams, assim, retrata isso com um motivo agridoce, ouvido aos 2:10 da segunda faixa, The Witching Hour, numa flauta solo, tanto quanto os dois protagonistas da história. Mais adiante, esse tema, junto ao tema principal de Sophie, se destaca em There Was a Boy, uma das mais bonitas da trilha. Porém, assim que Sophie e o gigante aprofundam sua amizade, esse relacionamento ganha um novo tema do compositor. Ouvido em sopros, aos 0:56 de Blowing Dreams, ele é mais otimista, nostálgico e caloroso, como a grande amizade entre os dois personagens. Na bela Sophie’s Future, ele vem logo depois de uma performance mais triste do tema da protagonista, como se trouxesse otimismo e esperança à vida da menina. Os três temas acima convergem na penúltima faixa do disco, a ótima Finale, onde aparecem de forma agridoce e melancólica, para a despedida dos amigos. Tal cue inclui também uma tocante performance dos temas de Sophie no piano, reminiscente do belo solo de Gloria Cheng para o finale de Cavalo de Guerra (War Horse, 2011).

Os sonhos e os pesadelos são uma temática recorrente no longa, uma vez que o trabalho do gigante é lidar com eles. Cada um deles ganha um motivo próprio na trilha. Os sonhos são representados principalmente pelas flautas, o verdadeiro destaque do score. Williams, que sempre soube compor para esses instrumentos, lhes dá aqui um papel de protagonismo, especialmente para os sonhos. Aqui, as flautas brincam e dançam ao redor da orquestra, beirando o mickeymousing, embora isso, provavelmente, seja proposital. Enfim, lembra um pouco da música que Williams escreveu para Tinkerbell em Hook. Já os pesadelos recebem, naturalmente, um tema mais agressivo e sombrio, ouvido principalmente em metais emudecidos. Esses dois motivos são apresentados na longa Dream Country, uma faixa com mais de dez minutos de duração – uma raridade na filmografia de Williams que, com exceção de sequências climáticas de ação ou suítes, não tende a escrever cues tão longos. De toda forma, Dream Country ainda é uma bela faixa, cujas texturas delicadas, calorosas e amigáveis para cordas, harpa, sopros e carrilhão são reminiscentes de sua trilha para E.T., especialmente nos primeiros atos do longa, quando Elliot está construindo sua amizade com a icônica criatura espacial do clássico oitentista.

Depois disso, o motivo dos sonhos vai se destacar em Blowing Dreams e, mais especificamente, em Dream Jars. Esta última vê Williams simplesmente se divertindo com os flautistas de sua orquestra durante boa parte da faixa – se você toca esse instrumento, talvez se impressione com a habilidade que Williams demonstra aqui ao escrever para eles. Já o tema dos pesadelos, ouvido especialmente em Sophie’s Nightmare e The Queen’s Dream, tem uma energia quase maníaca e responde pelos principais (ainda que curtos) momentos de ação da trilha.

Os gigantes malvados comedores de pessoas também não foram esquecidos pelo compositor, embora sua abordagem aqui não seja exatamente o que se imagina: ao invés de retratá-los como criaturas monstruosas, a música de Williams os pinta como vilões pimpões e atrapalhados. Seu motivo, ouvido em Fleshlumpeater, é uma marcha cômica para trombones, similar ao tema dos obtusos assaltantes que tentam roubar a casa do menino Kevin em Esqueceram de Mim. Já Frolic começa com o motivo nas madeiras, mas logo a música se transforma numa dança circense para toda a orquestra, digna das sequências de perseguição surrealistas dos antigos desenhos animados, o que é divertido, embora ressalte o tom mais-infantil-do-que-de-costume do novo longa de Spielberg. Ao fim do disco, Giants Netted traz de volta tanto o tema dos pesadelos como o dos gigantes do mal, num clímax que mostra que os vilões receberam sua justa punição.

A participação no longa da Rainha da Inglaterra forneceu a Williams a oportunidade de escrever música nobre e pomposa para a realeza. Seu motivo aparece pela primeira vez, nas trompas, aos 2:41 em The Queen’s Dream, mas é explorado em maior profundidade em Meeting the Queen. Nesta faixa, ele ganha o acompanhamento de percussão militar, e aparece em conjunto ao tema da amizade de Sophie e o gigante, retratando o encontro entre os três personagens.

Por fim, a longa suíte Sophie and The BFG funciona como um encerramento satisfatório para a trilha, trazendo a interpretação de alguns dos temas principais: o dos gigantes malvados, os motivos do sonho e do pesadelo, o tema da amizade e, por fim, o tema principal de Sophie. Tudo isso costurado com a habilidade costumeira de Williams, rendendo mais uma de suas excelentes suítes para os créditos finais.

Após o lançamento da trilha, fãs e críticos se dividiram quanto ao novo trabalho do lendário compositor. Muitos argumentavam que os novos temas não eram memoráveis, ou que o estilo constantemente infantil da música poderia mais afastar do que atrair os fãs adultos. Afinal, é um score que não traz épicas faixas de ação, grandiosos arroubos orquestrais, ou mesmo momentos extremamente emocionais, como é de costume nas trilhas do compositor. De certa forma, eles não estão errados: considerando apenas os trabalhos de Williams nesta década, eu diria que The BFG é inferior a O Despertar da Força, Lincoln (idem, 2012) e, especialmente, a maravilhosa Cavalo de Guerra. Por outro lado, ainda estamos falando de John Williams, cujo talento já garante ao menos uma trilha de qualidade superior. Afinal, mesmo um trabalho dito “menor” de Williams ainda consegue ser melhor que a maior parte da música escrita para o cinema hollywoodiano em 2016. Um trabalho sólido, eficiente e com momentos de pura magia do lendário maestro.

Faixas:

1. Overture  1:18
2. The Witching Hour  4:41
3. To Giant Country  2:33
4. Dream Country  10:10
5. Sophie’s Nightmare  1:57
6. Building Trust  3:25
7. Fleshlumpeater  1:37
8. Dream Jars  3:30
9. Frolic  1:44
10. Blowing Dreams  3:46
11. Snorting and Sniffing  2:13
12. Sophie’s Future  2:30
13. There Was a Boy  3:30
14. The Queen’s Dream  3:08
15. The Boy’s Drawings  3:05
16. Meeting the Queen  3:00
17. Giants Netted  2:03
18. Finale  2:14
19. Sophie and the BFG  8:0

Duração: 64:33 min.

Tiago Rangel

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