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Resenha de Trilha Sonora: THE MONKEY KING 2 – Christopher Young


monkey_king_2_CDMúsica composta por Christopher Young, regida por Allan Wilson
Selo: Intrada (Special Collection Vol. 358)
Formato: CD
Lançamento: 11/07/2016
Cotação: star_4

Conhecido no original como Xi You Ji Zhi: Sun Wukong San Da Baigu Jing e em inglês como The Monkey King 2, este épico de ação e aventura é um blockbuster chinês que serve como continuação do longa original de 2014. Tal como seu antecessor, ele também é baseado em Jornada para o Oeste, um clássico da literatura chinesa (conhecido no Ocidente por inspirado o mangaká Akira Toriyama a criar seu famoso Dragonball). Na trama, Sun Wukong (Aaron Kwok), o Rei Macaco do título, ficou aprisionado por 500 anos debaixo de uma enorme montanha por Buda como punição por espalhar o caos no Paraíso, até ser libertado pela Deusa da Misericórdia (Kelly Chen) para proteger o monge Tang Sanzang (William Feng), que está numa busca para recuperar misteriosas escrituras budistas. A dupla ganha a companhia do porco humanoide glutão Zhu Bajie (Xiao Shen Yang) e do demônio de pele azul Sha Wujing (Him Law) e, assim, esse estranho grupo terá de enfrentar vilões como Lady White Bone (Gong Li), que quer possuir o poder da imortalidade – e acredita que Tang Sanzang pode ser a chave para isso.

O primeiro The Monkey King (infelizmente, ainda não lançado no Brasil, tal como sua continuação) foi um dos principais blockbusters orientais dos últimos anos, que se aproveitaram do enorme crescimento do mercado cinematográfico chinês para lançar longas que em nada deviam em escala e escopo aos americanos. Assim, o grande orçamento do longa permitiu grandes investimentos em cenários, figurinos, maquiagens e efeitos especiais – e também a contratação do americano Christopher Young, para providenciar ao longa uma trilha épica, na melhor tradição dos grandes scores hollywoodianos. Young, claro, nunca havia trabalhado para um filme chinês (ou mesmo um que não fosse falado em inglês), mas aceitou a empreitada, com resultados extremamente positivos: seu score para The Monkey King foi elogiado por diversos críticos e indicado como Trilha do Ano ao IFMCA Award em 2014 (além de aparecer na minha lista de trilhas do ano passado que você provavelmente não ouviu, mas deveria). Além disso, ele também iniciou um curioso (ainda que incipiente) movimento, em que compositores de Hollywood viajam até o Extremo Oriente para emprestarem seus talentos aos arrasa-quarteirões de lá. No ano passado, o espanhol Javier Navarrete escreveu o score de Zhong Kui: Snow Girl And The Dark Crystal (idem, 2015), ao passo em que John Debney foi contratado para musicar League of Gods, uma fantasia de ação estrelada por Jet Li.

Já Young felizmente aceitou retornar para a sequência, colaborando novamente com o diretor Soi Cheang (que comandou as duas aventuras de Sun Wukong até agora). Assim como foi no primeiro longa da nova franquia, sua trilha foi executada pela Orquestra Nacional Sinfônica Eslovaca e o Coral Lucnica, conduzidos por Allan Wilson, além de uma grande quantidade de solistas, que interpretam instrumentos tipicamente orientas, como o erhu e o koto. Entretanto, enquanto o primeiro se passava no Paraíso, com batalhas que pediam grandiosas e épicas faixas de ação, o segundo é ambientado principalmente na Terra. Dessa forma, o compositor procurou adotar um tom mais espiritual em sua trilha, que retratasse a jornada emocional dos personagens, e que servem de contraponto aos (novamente ótimos) momentos mais explosivos da música.

Mais uma vez, a trilha no disco é estruturada não como cues para cenas específicas, mas sim como longas suítes, que representam os personagens do universo fantástico do longa. Eu tenho alguns problemas com esse tipo de abordagem, mas, por outro lado, Young fica livre para criar longas peças de música, com início, meio e fim, sem ficar à mercê de cortes impiedosos que sua trilha poderia sofrer na montagem do filme. A primeira dessas suítes é Jinguzhou, The Golden Hoop, uma longa faixa, de cerca de 11 minutos, que já prepara o ouvinte para a música que será aparecerá ao longo do disco. A faixa faz uma bela mistura da orquestra e do coro ocidental com os instrumentos típicos do Oriente, com uma melodia dramática, cujo impacto é acentuado pelas breves participações do coro. Ela me lembrou o tema principal de Young para seu ótimo score de Padre (Priest, 2011). Aos 5:25 na faixa, o compositor introduz outro elemento recorrente da trilha: sua própria voz, processada eletronicamente, que lhe garante um caráter místico e sinistro – um “monge doente”, como o próprio Young descreveu. Por fim, a segunda metade da faixa apresenta o tema principal da trilha, uma melodia determinada, ainda que inocente, ouvida no erhu e em flautas étnicas, acompanhado de orquestrações nobres e misteriosas, que prometem que uma grande aventura está pela frente.

A seguir, a primeira das faixas de ação do disco: Xiyi Yaoguai, The Basilisk Demon, um cue fortemente enraizado no trabalho de Young em filmes de horror. Começa com um coral ameaçador e cordas quase góticas, e logo se converte numa faixa de ação extremamente seca e nervosa. As orquestrações são dissonantes, combinando violinos dignos de Psicose (Psycho, 1960), percussão metálica e metais dissonantes, com frases mais longas e dramáticas para violas e trombones. Aqui, Young demonstra grande domínio da orquestra, conquistado após décadas escrevendo música principalmente para thrillers, suspenses e filmes de terror. Mais adiante, os vilões do filme ganham uma faixa cada: Baigujing, Lady White Bone inicia-se com trompas e trombones agressivos e ameaçadores, que escancaram o lado cruel da personagem. Porém, logo o tom muda, e a música passa a ser mais misteriosa e enigmática, com notas intrigantes a cargo das trompas e o erhu, alterado eletronicamente para lhe dar um som distinto, quase alienígena. Já Yun Hai Xi Guo, The King of Yun Hai Xi Kingdom é ainda mais sombria: ela traz o retorno dos vocais processados de Young e os combina com um gongo, pratos, violinos desconcertantes e, mais ao fim da faixa, gritos do coro, criando texturas para o terrível reino do título da faixa tão gélidas, fantasmagóricas e aterrorizantes como as ouvidas em scores seus como A Filha da Luz (Bless the Child, 2000) e O Exorcismo de Emily Rose (The Exorcism of Emily Rose, 2005).

Por outro lado, Zhu Bajie, The Pig Demon é uma faixa brincalhona e divertida para cordas, madeiras e instrumentos étnicos da China, dedicada ao estranho e glutão companheiro do Rei Macaco do título. O tema introduzido nessa faixa, depois, será o grande destaque de Sha Heshang, The Sand Monk, uma faixa de ação orquestral extremamente enérgica, como uma versão chinesa da música do clímax de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012), mas que ganha um fundo cômico com a participação do motivo do tal porco demônio.

Tang Sanzang, The Monk inicia-se de forma mais melancólica e reflexiva, com cordas e o erhu, e logo se converte numa faixa grandiosa para coro e orquestra, do tipo que Young costuma fazer tão bem desde Hellraiser II: Renascido das Trevas (Hellbound: Hellraiser II, 1988). A bonita e delicada Jingu Bang, The Monkey King’s Staff combina orquestrações pacíficas e coros angelicais, resultando num belo cue pastoral representando o interior da China. Por fim, Guanyin Pusa, The Goddess of Mercy adiciona à arregimentação um belo solo de violino, numa tocante faixa para cordas, harpa e, novamente, o coro.

Entretanto, o melhor do disco ficou mesmo para o final, ou, mais especificamente, as três últimas faixas. Bianfu Yaoguai, The Bat Demon é a maior faixa de ação do disco. Tal como no clímax do primeiro The Monkey King ou em Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 2007), Young combina a orquestra com guitarra e bateria, além de um leve acompanhamento eletrônico. Assim, mesmo que esta faixa não alcance a mesma grandiosidade de sua similar no longa predecessor, ela ainda é um ótimo cue, com os riffs roqueiros da guitarra acrescentando um novo dinamismo à música – os fãs de heavy metal sinfônico, ou do disco S&M, do Metallica, provavelmente irão apreciar. Bailongma, The White Dragon Horse começa com cordas dramáticas e solenes, mas logo a música ganha ares de celebração, num estilo similar aos de alguns épicos do final da carreira de Jerry Goldsmith, como Lancelot: O Primeiro Cavaleiro (First Knight, 1995) e O 13º Guerreiro (The 13th Warrior, 1999), com percussão, coro e belíssimas fanfarras para os metais. E, por fim, Sun Wukong, The Monkey King, que eu imagino que seja a suíte dos créditos finais, reprisa a maioria dos temas ouvidos anteriormente na trilha, num excelente encerramento para o score. O início e o fim da faixa, com suas fanfarras para metais, percussão e violinos, são de fato brilhantes, entretanto, seu “miolo”, com belas performances dos temas de Lady White Bone e Tang Sanzang, em orquestra, coro e o erhu, é igualmente espetacular, contribuindo para o impacto emocional da faixa. Com sua música, Young encerra mais uma aventura do Rei Macaco, com a promessa de outras por vir (literalmente, uma vez que a terceira parte da saga será lançada em 2018).

Apesar de ser mais conhecido pelos diversos filmes de terror em sua carreira, Christopher Young é provavelmente um dos compositores mais talentosos (e mais subestimados) da atualidade, e suas duas trilhas para as aventuras do Rei Macaco são a prova disso. Assim, se os poderosos engravatados hollywoodianos são incapazes de perceber esse enorme talento e preferem ignorá-lo ao escolher compositores para seus blockbusters ou filmes de maior prestígio, os chineses não cometeram esse erro, e forneceram a Young uma tela maior e mais ampla para pintar. Bem, pior para os norte-americanos – e melhor para nós, fãs de trilhas sonoras de ótima qualidade.

Faixas:

1. The Golden Hoop 11:12
2. Basilisk Demon 6:27
3. The Pig Demon 4:12
4. Lady White Bone 5:32
5. The Monk 6:13
6. The King of Yun Hai Xi Kingdom 6:25
7. Monkey King’s Staff 4:06
8. The Sand Demon 3:18
9. The Goddess of Mercy 5:20
10. Bat Demon 10:34
11. White Dragon Horse 5:37
12. The Monkey King 7:19

Duração: 76:15

Tiago Rangel

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