Alice-Through-the-Looking-Glass

Resenha de Trilha Sonora: ALICE THROUGH THE LOOKING GLASS – Danny Elfman


alice_2_CDMúsica composta por Danny Elfman, regida por Rick Rentworth
Selo: Walt Disney Records
Catálogo: Download Digital
Lançamento: 27/05/2016
Cotação: star_4

Responda rápido: o que dá mais dinheiro hoje nos cinemas? Imagino que você provavelmente tenha respondido “super-heróis dos quadrinhos”, entretanto, talvez não devesse desconsiderar o imenso sucesso que a Disney tem conquistado ao transformar suas clássicas animações em aventuras live action. Tais longas tem atraído atores e diretores de alto nível, e apostado na nostalgia que as histórias exercem sobre os mais velhos e sua atração sobre os mais novos, para faturar rios de dinheiro para a Casa do Mickey. A recente aventura Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking Glass, 2016), em exibição nos cinemas, é a continuação do filme que iniciou essa tendência, Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010). Há seis anos, aquele longa havia faturado mais de um bilhão de dólares nas bilheterias, apesar das críticas ruins; assim, uma sequência era questão de tempo.

O novo filme traz a heroína Alice (Mia Wasikowska), aqui uma jovem determinada e decidida, que retorna ao País das Maravilhas (rebatizado como “Mundo Subterrâneo”, ou Underland, no original) para ajudar seu amigo, o Chapeleiro Louco (Johnny Depp), que enfrenta uma depressão ao se recordar da morte da família. Assim, Alice embarca numa jornada para roubar um artefato místico pertencente ao próprio Tempo (Sacha Baron Cohen), que a permitirá retornar ao passado e impedir o assassinato dos Chapeleiros pelas mãos de um dragão comandado pela Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter). Dessa forma, começa uma corrida por diversas eras do Mundo Subterrâneo, que poderá trazer graves consequências para seus habitantes bizarros.

As novas fantasias em live action da Disney, de alguma forma, têm inspirado compositores veteranos como James Newton Howard, Patrick Doyle e John Debney a escreverem alguns dos melhores scores de suas já vitoriosas carreiras. Porém, tudo isso começou com Elfman e sua excelente trilha indicada ao BAFTA e ao Globo de Ouro para o primeiro Alice. Esse score, capitaneado por três ótimos temas para a heroína, foi saudado por muitos críticos como o retorno do estilo mais fantasioso, emocional e gótico do compositor que lhe rendeu tantos fãs nos anos 1980 e 1990, ao mesmo tempo em que ainda mantinha traços do Elfman mais moderno ouvido do século XXI. Desde então, sua carreira se alternou entre esses dois estilos, com filmes fantásticos que permitiam o retorno do Elfman vintage, como Sombras da Noite (Dark Shadows, 2012), Frankenweenie (idem, 2012) e Goosebumps: Monstros e Arrepios (Goosebumps, 2015), e outros que o traziam seu lado modernista, como O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012), Grandes Olhos (Big Eyes, 2014) e Cinquenta Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey, 2015).

Entretanto, seu trabalho em filmes de fantasia nos últimos anos nunca atingiu exatamente os mesmos níveis alcançados por Alice ou por seus já clássicos scores ouvidos entre Beetlejuice: Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, 1988) até aproximadamente Marte Ataca (Mars Attacks!, 1996) e Os Espíritos (The Frightners, 1996). Elfman é um compositor com um som tão distinto que ele agora pode escrever trilhas nesse estilo enquanto dorme, de maneira que dificilmente seus trabalhos mais atuais podem ser considerados entre os greatest hits do californiano. Dessa forma, Alice Através do Espelho, se não iguala a qualidade de sua antecessora, ao menos consegue ser melhor que suas trilhas mais recentes em filmes fantásticos. Afinal, por um lado esse score não traz o frescor que o primeiro Alice possuía, nem nada de muito novo para a carreira de Elfman – ou seja, se você é um fã do trabalho do músico para filmes do tipo, certamente ficará satisfeito com sua nova trilha. Por outro, o talento de Elfman como contador de histórias através de sua música e o domínio que ele possui sobre seu grande conjunto de temas criam uma trilha que merece ser analisada de perto.

Novamente, a música do longa foi interpretada por uma orquestra e coro habitualmente grandes, e é complexa e altamente energética. Elfman aproveita a oportunidade para revisitar e produzir novas e interessantes variações para os três temas relacionados a Alice, introduzidos no filme anterior: um está ligado às suas aventuras no Mundo Subterrâneo; o outro, à sua vida complicada na Inglaterra Vitoriana, no “mundo real”; e o terceiro, relacionado a sua infância e seu passado. Este último é o mais interessante deles: levemente similar ao tema do compositor para Beleza Negra (Black Beauty, 1994), ele ganha contornos verdadeiramente heroicos em Através do Espelho, talvez refletindo a jornada da heroína rumo ao passado do Mundo Subterrâneo. Todos esses três temas estão ligados na excelente suíte que abre o disco, Alice, que consegue ser ainda melhor que o Alice’s Theme do álbum anterior. O tema heroico, claro, domina o cue, porém, os outros dois fazem belas participações, o de sua infância aos 2:54 e o de sua vida no mundo real aos 4:05. De toda forma, o senso épico predomina por toda a faixa, quase que funcionando como uma Overture para a trilha, dando mostras da aventura prestes a se desenrolar.

A complicada e bem orquestrada música de ação da trilha é onde melhor podemos ver Elfman brincando com os temas de sua heroína. Faixas como Saving the Ship, a metade final de The Chronosphere, Oceans of Time, Asylum Escape e Time’s Up seguem o estilo para esse tipo de música que Elfman vem empregando desde ao menos A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (Sleepy Hollow, 1999) e Homem-Aranha (Spider-Man, 2002) e trazem o tema heroico e o da infância passando aqui e ali por diversas seções da orquestra, ora ocultos em meio às complexas melodias do compositor, ora transformados em verdadeiras fanfarras heroicas para Alice. Em suma, quem aprecia a música de ação de Elfman estará bem servido aqui. Por outro lado, tais temas também são utilizados nos momentos mais agridoces da aventura da heroína: o início de Looking Glass e o final de Warning Hightopps, por exemplo, trazem uma variação triste do tema de sua infância e do principal, enquanto a conclusiva Goodbye Alice retorna com o tema de sua vida no mundo real, indicando que, novamente, as aventuras dela no País das…, digo, Mundo Subterrâneo, acabaram e é hora de voltar à vida real.

Outros personagens não foram esquecidos por Elfman: seu amigo, o Chapeleiro Louco, e seus antagonistas, a Rainha Vermelha e o Tempo, ganharam um motivo cada um. Porém, é a forma como eles dialogam entre si e com os relacionados a Alice que é o mais interessante. O tema do Chapeleiro, por exemplo, é uma melodia meio inocente e brincalhona para sopros, e poderia ser algo que Elfman pudesse ter escrito para outro personagem famoso de Depp, o Capitão Jack Sparrow, caso fosse ele o compositor dos filmes da série Piratas do Caribe. Porém, refletindo a jornada mais sombria do personagem na continuação, seu tema ganha ares dramáticos, como nas faixas Hatter House e Hatter’s Deathbed. Ambas acompanham sequências dramáticas envolvendo Alice e o Chapeleiro e, assim, trazem performances melancólicas dos temas de ambos, com o de Alice servindo como um reflexo nostálgico de suas aventuras passadas com seu amigo. Ao final, em Truth, o motivo do Chapeleiro ganha novamente ares mais otimistas, embora agridoces, para o encerramento do filme.

O personagem Tempo, segundo Elfman conta numa entrevista acerca de seu trabalho no longa, teve seus motivos inspirados por música russa, especialmente, do compositor Sergei Prokofiev. Watching Time, por exemplo, é uma interessante faixa que, como já seria de se esperar, traz Elfman utilizando sua orquestra e coro como um relógio, com ritmos de percussão, coral e violinos em pizzicato, com o segmento principal do tema ouvido em clarinetes e fagotes aos 2:15. Em The Chronosphere, ele retorna de forma igualmente cômica, mas, na altamente energética parte final do cue, ele ganha contornos grandiosos em meio a tanta ação. Já em Tea Time Forever, o tema do Tempo ganha ares mais ameaçadores e sinistros, enquanto em World’s End ele recupera um pouco de sua leveza e bom humor.

Finalmente, o tema da Rainha Vermelha é ouvido pela primeira vez na faixa que leva seu nome, The Red Queen. Trata-se de uma melodia tensa e repleta de ameaça ouvida nos baixos ou nos metais. Ele é ouvido sempre em momentos de triunfo da vilã, como ao final de Finding the Family. Entretanto, Elfman mostra sua inteligência como compositor quando, ao início de Truth, ele reapresenta o tema sob uma nova ótica, mais melancólica e terna, para uma cena chave para a Rainha, que, vista aqui mais como uma figura trágica, mostra a origem de sua vilania.

Mesmo assim, não podemos deixar de lado a estranha forma como o álbum está estruturado. As faixas 1 a 20 seguem mais ou menos a ordem do longa e, assim, apresentam a música como uma jornada plenamente satisfatória. Entretanto, a faixa 20 (a bela Kingsleigh & Kingsleigh, que conta com uma ótima e conclusiva performance do tema heroico de Alice) não é o fim do disco, pois ainda temos mais outros 14 minutos de música, incluindo uma dispensável canção pop da cantora Pink. Não que essas “faixas bônus” sejam ruins, pelo contrário: Friends United se alterna entre os temas de Alice e o do Chapeleiro, enquanto Time’s Castle e Clock Shop são mais carregadas de tensão. They’re Alive traz performances dramáticas dos temas de Alice e da Rainha Vermelha, enquanto Story of Time é uma boa faixa conduzida por vários dos temas das trilhas – e que seria mais adequada no início do disco. O problema não está nos cues, e sim nessa estranha forma de estruturar o álbum, que impede uma audição que poderia ser mais gratificante. Este é um problema que já tinha aparecido na trilha de Elfman para Goosebumps, e é o equivalente de, por exemplo, assistir um filme picotado do início ao fim e depois voltar para ver as cenas faltantes.

Mesmo assim, em termos puramente musicais, a trilha de Elfman para Alice Através do Espelho não deixa de ser um trabalho acima da média. Sua disposição em expandir os temas do filme anterior e desenvolvê-los aqui e, ao mesmo tempo, criar novos, seu domínio da orquestra e sua escrita complexa e enérgica resultam num bom score hollywoodiano (e um sopro de ar fresco numa temporada bem mediana até o momento). Ela pode não estar no mesmo nível de sua predecessora, mas não deixa de mostrar que Elfman ainda não perdeu a mão em filmes de fantasia.

Faixas:

1. Alice 6:36
2. Saving the Ship 3:41
3. Watching Time 5:11
4. Looking Glass 3:30
5. To the Rescue 0:56
6. Hatter House 3:47
7. The Red Queen 2:29
8. The Chronosphere 4:16
9. Warning Hightopps 2:24
10. Tea Time Forever 1:45
11. Oceans of Time 1:16
12. Hat Heartbreak 2:28
13. Asylum Escape 4:07
14. Hatter’s Deathbed 3:22
15. Finding the Family 2:05
16. Time Is Up 4:24
17. World’s End 1:51
18. Truth 4:10
19. Goodbye Alice 2:13
20. Kingsleigh & Kingsleigh 1:22
21. Seconds Song 0:12
22. Friends United 1:07
23. Time’s Castle 1:49
24. The Seconds 0:50
25. Clock Shop 1:55
26. They’re Alive 2:24
27. Story of Time 3:07
28. Just Like Fire (Pink) 3:36

Duração: 76:53

Tiago RangelEnhanced by Zemanta

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