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Resenha de Trilha Sonora: CAPTAIN AMERICA – CIVIL WAR – Henry Jackman


ca3_CDMúsica composta por Henry Jackman, regida por Gavin Greenaway
Selo: Hollywood Records
Catálogo: HR002227702
Lançamento: 06/05/2016
Cotação: star_3

Iniciando a chamada Fase 3 do Universo Cinematográfico da Marvel, Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, 2016) é também tido como o último capítulo da trilogia do herói do título. O filme retrata um momento difícil e crucial para os Vingadores, em que, após uma ação na Nigéria terminar com a perda de vidas inocentes, os governos mundiais criam os Acordos de Sokovia (nomeados como a cidade destruída na batalha final contra Ultron, no longa anterior), que sujeitam os heróis às autoridades da ONU. Alguns membros da superequipe, como Tony Stark, o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), e James Rhodes, o Máquina de Combate (Don Cheadle), se dizem a favor, enquanto Steve Rogers, o Capitão América (Chris Evans), faz oposição à nova lei, desconfiado das autoridades no poder após os eventos de Capitão América 2: O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier, 2014). Logo os Vingadores serão divididos em dois lados em conflito, turbinado pelo retorno de Bucky Barnes, o Soldado Invernal (Sebastian Stan), um antigo amigo de infância de Rogers, transformado num assassino frio e desmemoriado pela HIDRA, e a introdução de dois novos heróis, o Pantera Negra (Chadwick Boseman) e ninguém menos que o Homem-Aranha (Tom Holland), fazendo sua estreia no Universo Cinematográfico Marvel. Comandando a aventura, estão os irmãos diretores Joe e Anthony Russo, retornando á Marvel depois de um elogiado trabalho em O Soldado Invernal, assim como o compositor inglês Henry Jackman.

A trilha de Jackman para O Soldado Invernal foi recebida com péssimas críticas. Primeiro, por tentar ao máximo se afastar do estilo mais orquestral e “à moda antiga” que Alan Silvestri havia estabelecido para o primeiro filme do herói, Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger, 2011), facilmente a melhor trilha do MCU até agora. Além disso, o score de Jackman se tornou símbolo do que havia de pior na Música de Cinema moderna: tediosa, sem imaginação, sem vida e com orquestrações risíveis, mal misturadas aos eletrônicos, de modo que sua orquestra soava ainda menor. Entretanto, devemos sempre nos lembrar que Jackman não é um mau compositor, mas sim um dos melhores da Remote Control em atividade hoje em dia, mas que precisa ser guiado corretamente, se quiser explorar seu talento, e um filme com o tamanho e o escopo de Guerra Civil era a oportunidade que ele precisava. Afinal, julgando pelo novo trabalho, o sujeito é mais versátil do que se pensava.

Aqui sua trilha é grandiosa e, diferentemente de sua predecessora, realmente soa como um score orquestral. Se no longa anterior ele poderia demitir sua orquestra e simplesmente sampleá-la em seus sintetizadores, junto aos demais elementos mais industriais do score sem que se percebesse muito a diferença, aqui a trilha parece ter sido escrita e pensada para uma grande orquestra sinfônica, potencializada ainda mais pela ótima gravação, que valoriza cada uma das seções da orquestra. Assim, a versatilidade e a disposição de Jackman em decidir fazer algo diferente é elogiável. Guerra Civil é um filme cujo escopo e tamanho são bem maiores que os de O Soldado Invernal e, portanto, precisaria de um estilo diferente.

Porém, isto nos leva a um problema da trilha: sua curiosa falta de especificidade, ainda mais considerando os outros scores do MCU. Jackman pode até ter optado por um caminho mais orquestral, entretanto, este é dificilmente um caminho pouco explorado, e seu trabalho aqui não difere muito do estilo de Brian Tyler ou mesmo de Silvestri nos longas anteriores com os Heróis Mais Poderosos da Terra, por exemplo. Enfim, não estamos diante de um desastre como a de O Soldado Invernal, mas o fato é que, no futuro, vai ser difícil diferenciar um score do MCU do outro, de tal forma que o crítico do site Indiewire, em sua review do filme, declarou que a Marvel “essencialmente usa a mesma trilha em todo filme”. Claro, é uma afirmação que não é de todo correta (ainda mais considerando os ótimos e distintos esforços de Silvestri, Tyler e Christophe Beck com os longas da Casa das Ideias), mas ilustra bem o que acontece em Guerra Civil.

Além disso, Jackman não faz nenhum esforço em estabelecer uma continuidade temática entre os filmes da Marvel. Os temas de Silvestri para o Capitão ou para os Vingadores? Nenhum sinal deles por aqui, nem mesmo da versão de Danny Elfman para o tema de Silvestri ouvida em Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, 2015). E o mesmo vale para o tema de Tyler para o Homem de Ferro, o de Beck para o Homem Formiga, e por aí vai. Na realidade, até o próprio tema de Jackman para o Capitão América, composto para O Soldado Invernal, tem uma participação muitíssimo discreta no longa. No lugar deles, o compositor criou um novo conjunto temático, que é particularmente curioso.

Das novas caras vistas no filme, o Pantera Negra e Zemo ganham um tema cada. Um motivo associado ao herói africano é ouvido em flautas étnicas “selvagens”, nas cenas de ação com o personagem, como em The Tunnel, Standoff e Larger than Life. Entretanto, é nas cenas mais “calmas” e voltadas a desenvolver o herói (e seu alter-ego, o príncipe de Wakanda T’Challa) que podemos ouvir também um maior desenvolvimento de seu tema. Em Ancestral Call, ele aparece em meio a orquestrações nobres, aos 0:57, também numa flauta tribal, e com uma melodia que me lembrou vagamente de um dos temas da trilha de Roque Baños para No Coração do Mar (In the Heart of the Sea, 2015). Já o tema de Zemo consiste numa melodia conspiratória e ameaçadora, ouvida ora nas madeiras, ora nas cordas. Introduzido logo ao início da primeira faixa, em Siberian Overture, onde aparece junto a um crescendo de cordas associado à parte orquestral do tema do Soldado Invernal, ele também tem destaque nos momentos de maior suspense do score, como em Zemo e Revealed. Em Boot Up, ambos os temas de Zemo e do Soldado Invernal, criam uma tensão cada vez maior, com explosões da orquestra e depois com atmosferas eletrônicas, após uma cena particularmente tensa com os dois personagens no meio do filme. Ao fim do disco, em Closure, o tema do vilão aparece junto ao do Pantera Negra, num diálogo musical que representa o encerramento do arco de ambos os personagens no longa.

Para os heróis, Jackman escreveu uma fanfarra, que já é a terceira que os Vingadores ganharam nos últimos anos, e que também não está muito distante dos temas do compositor para Operação Big Hero (Big Hero 6, 2014) ou Kingsman: Serviço Secreto (Kingsman, 2015). Aqui, ela não é associada a nenhum herói específico, mas aparece sempre que alguém, seja de que lado estiver lutando na Guerra Civil, fizer algo particularmente heroico ou emocionante, ou mesmo se estiver dizendo algo edificante para o companheiro (como em A New Recruit, onde aparece de forma mais nobre e sutil, em cordas e piano). Por outro lado, o músico também compôs um tema para representar a fratura dentro da equipe de heróis, que podemos chamar de Avengers Disassemble (citando um famoso arco dos quadrinhos) – ou, no bom e velho português, o tema da desunião. Ele consiste numa fanfarra orquestral trágica e elegíaca, ouvida sempre que algo contribui para o distanciamento cada vez maior entre os dois lados dos Vingadores.

Obviamente, ambos os temas tem maior destaque nas faixas de ação, que, de longe, são a melhor coisa do disco. Ao invés de seguirem no típico estilo da RC, aqui elas lembram uma combinação dos trabalhos de Michael Giacchino em franquias como Star Trek e Missão: Impossível com a música de Jackman e de John Powell para animações – com a notável exceção, porém, da primeira faixa desse tipo, Lagos. Acompanhando a primeira cena de ação do filme, ela é a faixa mais próxima do estilo de Jackman em O Soldado Invernal, com muito acompanhamento eletrônico e o pavoroso horn of doom, padrão nos scores desse pessoal já há seis anos (embora, por outro lado, o álbum aqui não a favoreça, pois ainda há um punhado de música em tal cena que não aparece aqui). De qualquer forma, mais adiante, The Tunnel é um cue altamente energético, que redime a trilha, com a melodia conduzida por cordas frenéticas, metais, pratos e percussão, e participações do citado tema do Pantera Negra e o do Capitão América, culminando com uma tensa performance do tema da desunião ao final.

A muito comentada batalha do aeroporto de Leipzig, travada entre os dois times de Vingadores, é acompanhada pela música orquestral mais grandiosa e complexa já escrita por Jackman. Stepping Up começa de forma sutil, mas termina dramática, com o tema da desunião em metais grandiosos que quase lembram o estilo do sumido Elliot Goldenthal. Mas o combate começa mesmo em Standoff e depois prossegue em Civil War e Larger than Life, que trazem violinos frenéticos, participações ocasionais de percussão e da fanfarra heroica nos metais, trazendo um pouco de heroísmo à tensão da batalha. O tema da desunião também aparece, em especial, numa grandiosa performance ao início de Civil War, ao passo em que a fanfarra tem participações de destaque em Larger than Life, acompanhando os feitos de ambos os times. Já em Catastrophe, o tema da desunião aparece de forma quase elegíaca na orquestra, que segue crescendo em intensidade, até um final triste e melancólico, mostrando que o embate foi prejudicial a todos.

Já a última grande setpiece do filme, o confronto final entre Rogers e Stark começa em Clash, um intenso cue, que traz o tema da desunião agora bem integrado às melodias de ação, em sua forma mais grandiosa, rumo a um final trágico, indicando que a conflito entre os Vingadores atingiu o ápice. Em seguida, Closure é mais tensa e sisuda, com orquestrações tristes e pessimistas e uma performance trágica do tema da desunião, embora a faixa pareça sofrer uma certa falta de foco ou coesão, que acaba prejudicando sua audição em disco. Logo depois, ao fim do filme, Cap’s Promise também começa de forma igualmente pesada, mas que logo leva à suíte dos créditos finais, em 1:44, uma melodia  enérgica conduzida pelo tema heroico e pelo tema da desunião e com orquestrações vigorosas e heroicas, quase lembrando o estilo mais masculino para filmes de ação de Silvestri ou mesmo de Jerry Goldsmith.

Além disso, o álbum também inclui alguns cues mais discretos e intimistas, como a dramática Consequences e a atmosférica Celestial Bodies, mais focada em violinos e texturas eletrônicas.  Por outro lado, faixas como Boot Up, Revealed ou Fracture são mais focadas em criar um clima de tensão e ameaça, enquanto Making Amends, precedendo o clímax, traz uma performance verdadeiramente inspiradora do tema heroico. Além disso, a última faixa, Adagio (que, aparentemente, foi gravada apenas para o álbum) encerra o disco com crescendos orquestrais que novamente me lembraram de Elliot Goldenthal, em especial de seus scores ouvidos em seus filmes de ação e ficção científica nos anos 1990.

Vista por si só, a trilha de Capitão América: Guerra Civil não é de modo algum ruim. Energética e vigorosa, rende uma boa audição, enquanto faz o básico num filme de ação, que é ajudá-lo a gerar empolgação. Além disso, a produção impecável da trilha, que deixou o som da orquestra claro como cristal, é um destaque, ainda mais no mundo de hoje. O problema é que, quando colocada no contexto dos outros filmes da Marvel, percebemos que existe pouco para diferenciá-la dos trabalhos de outros músicos que passaram pelos filmes da Casa das Ideias. Ao mesmo tempo, a falta de continuidade musical incomoda, afinal, a jornada de Steve Rogers, Tony Stark e os outros Vingadores poderia ser ainda mais contundente e emocionante se tais personagens fossem acompanhados de temas fortes e reconhecíveis que se adaptassem às diferentes situações vividas pelos heróis. Aparentemente, a Marvel não tem como objetivo que seus filmes sejam lembrados pela música e, no lugar de trilhas fortes e distintas e uma continuidade musical estável, prefere simplesmente repetir scores similares e perfeitamente úteis, ainda que não muito memoráveis, nos mesmos filmes, um problema levantado (de leve) pela crítica, como as de sites como o Cinema com Rapadura, o Birth. Movies. Death. e o Hitfix. Porém, se quisermos pensar pelo lado positivo, Guerra Civil é uma evolução clara da música de O Soldado Invernal e, já que Jackman provavelmente fará a música dos dois próximos filmes dos Vingadores (também dirigidos pelos irmãos Russo), seu trabalho neste novo longa mostra que o sujeito tem capacidade para compor música grandiosa e bombástica nos épicos super-heroicos lotado de personagens da Marvel.

Faixas:

1. Siberian Overture (02:56)
2. Lagos (02:10)
3. Consequences (02:22)
4. Ancestral Call (02:37)
5. Zemo (03:09)
6. The Tunnel (03:51)
7. Celestial Bodies (01:44)
8. Boot Up (05:16)
9. New Recruit (01:47)
10. Empowered (01:59)
11. Standoff (04:01)
12. Civil War (04:26)
13. Larger Than Life (03:40)
14. Catastrophe (02:36)
15. Revealed (05:38)
16. Making Amends (01:34)
17. Fracture (04:00)
18. Clash (03:54)
19. Closure (05:32)
20. Cap’s Promise (03:46)
21. Adagio (Bonus Track) (02:18)

Duração total: 69:16

Tiago Rangel

12 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: CAPTAIN AMERICA – CIVIL WAR – Henry Jackman”

  1. “Aparentemente, a Marvel não tem como objetivo que seus filmes sejam lembrados pela música”

    Ao que parece, as coisas estão mudando, e pra melhor. Sexta-feira, o Michael Giacchino anunciou no Twitter que fará a trilha sonora de O Doutor Estranho. É esperar que a colaboração dele com o Scott Derrickson resulte em algo memorável.

    Sobre o Jackman… lembro até hoje de quando assisti X-Men: Primeira Classe. Não esperava absolutamente nada da trilha, e sai do cinema com o tema do Magneto na cabeça. Ainda espero que esse compositor me surpreenda de novo. E uma das poucas coisas que eu realmente gostei nesses filmes da Marvel Studios é justamente a trilha sonora. Da ‘quebradeira musical’ do Ramin Djawadi no primeiro Homem de Ferro, passando pela trilha surpreendentemente boa de Thor: Mundo Sombrio (e há quem diga que essa é a trilha de um filme da Marvel Studios preferida do Kevin Feige), à igual surpresa de Christophe Beck em O Homem Formiga. O tema era digno de ser usado em uma sequência de créditos como a do primeiro Homem Aranha (2002), pena que, assim como tudo nesse filme, a trilha foi completamente desperdiçada.

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    1. De fato a trilha de X-Men: Primeira Classe foi o melhor trabalho de Jackman (NMO) para um filme live-action. A de Kingsman não é tão boa, mas sem dúvida é melhor que a dos 2 Capitão América que fez. Pelo jeito, para a Marvel, ele fez trilhas de acordo com as exigências dos diretores, e se for o caso, é bom não ter muita esperança de nada melhor para Guerra Infinita.

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    1. E quem disse que a Marvel não dá segundas chances? Olha o cara ai outra vez! Mas, seria bem interessante se o Danny Elfman assumisse o posto…

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      1. Felizmente prevaleceu o bom senso. É triste não ouvir, em nenhuma cena de Guerra Civil, o tema do Capitão composto pelo Silvestri. Pelo menos em O Soldado Invernal, por um breve momento reutilizaram a trilha do primeiro filme. E em Era de Ultron, a coisa que mais se destaca na trilha de Elfman/Tyler é o tema original, portanto nada mais lógico que utilizar direto o Silvestri. De resto, é torcer para que ele crie trilhas mais inspiradas para esses dois filmes.

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        1. Ah! Sem duvida. O tema do Capitão é o melhor tema dos heróis da Marvel. E convenhamos: embora o Silvestri tenha escrito o tema d’Os Vingadores, faltou-lhe uma elaboração melhor. Coisa que o Elfman, felizmente, soube trabalhar muito bem. E, Guerra Infinita sai em 2018 e 2019. Silvestri terá MUITO tempo para trabalhar nesses filmes :D

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          1. Estranho anunciarem o compositor tão cedo, a parte I sai em 2018 e sendo que ainda nem sabemos quem serão os compositores da maioria dos blockbusters do ano que vem… ¯\_(ツ)_/¯

            Mas gostei da escolha, os temas do Capitão e dos Vingadores do Silvestri são praticamente os hinos da Marvel Studios, e nada mais coerente do que chamá-lo de volta para este que promete ser o “grand finale” – ao menos desses arcos iniciados lá em 2008, com Homem de Ferro e Incrível Hulk. Já não era sem tempo deles começarem a querer buscar uma maior coesão musical para seus filmes.

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