zootopia

Resenha de Trilha Sonora: ZOOTOPIA – Michael Giacchino


zootopia_CD Música composta por Michael Giacchino
Selo: Walt Disney Records
Catálogo: 002228002
Lançamento: 04/03/2016
Cotação: star_3

Atualmente em exibição nos cinemas nacionais, a divertida animação Zootopia: Essa Cidade é o Bicho (Zootopia, 2016) é uma das mais interessantes produzidas pela Disney nos últimos anos. A casa do Mickey, depois de anos sendo eclipsada por estúdios como a Pixar, finalmente parece ter voltado à antiga forma, com animações premiadas e sucessos de público e crítica. O longa se passa num universo onde os animais evoluíram de seus comportamentos primitivos para uma sociedade civilizada, que permite que antes presas e predadores convivam lado a lado na cidade do título. Na trama, a coelha Judy Hopps (Ginnifer Goodwin na versão original, e Mônica Iozzi na dublagem brasileira) se muda para Zootopia para perseguir o sonho de ser policial. Lá, porém, apesar de se formar como a primeira “oficial coelha” da história, o preconceito de outros animais maiores a obriga a atuar como guarda de trânsito. Um dia, ela esbarra com a raposa esperta e golpista Nick Wilde (Jason Bateman no original, e Rodrigo Lombardi na dublagem), que vive de aplicar pequenos golpes nas ruas. Por serem inimigos naturais, a rivalidade entre ambos é mútua, entretanto, eles deverão superar suas diferenças e preconceitos quando esbarram num perigoso caso policial que ameaça o equilíbrio da cidade.

Comandando a trilha sonora, está o incansável Michael Giacchino que, depois de ter escrito música para nada menos que quatro blockbusters em 2015, não tirou folga e emendou mais um ao fim do ano – e ele ainda fará a trilha do novo Star Trek, previsto para estrear em julho. Para Zootopia, o oscarizado compositor resolveu aproveitar que a cidade do título reunia mamíferos de diversas partes do planeta e retratou isso musicalmente com uma trilha que, além de sua costumeira orquestra, reúne influências de diversos lugares – além de paródias musicais particularmente hilárias. Por outro lado, o score também sofre de um problema que outras trilhas do sujeito para animação raramente possuem: é uma trilha bastante discreta e anônima, que dificilmente se faz notar no contexto do longa, fornecendo apenas uma contribuição superficial ao filme. No disco, esses problemas se acentuam, pois, a não ser que você tenha visto o filme e, assim, consiga relacionar a música a cada cena, provavelmente achará a audição da trilha bem chata, um problema que poucos scores de Giacchino possuem.

Os dois protagonistas da história, Judy e Nick, ganham cada um seus próprios temas do compositor. O tema da heroína é uma quase canção de ninar, refletindo o idealismo puro e inocente que Judy possui, ao menos no início do filme. Ele aparece ao início de faixas como Foxy Fakeout e Jumbo Pop Hustle, em arranjos com violões e xilofones, e é também o principal destaque da suíte da trilha, na última faixa, no qual ele aparece com toda a orquestra, incluindo um belo e grandioso arranjo para cordas, ouvido aos 5:57. Já o tema de Nick é adequado ao jeito malandro e esperto do personagem, e é ouvido principalmente em baixos, percussão, violão e teclado, em faixas como Jumbo Pop Hustle, Walk and Stalk e Weasel Shakedown, que contam com um estilo cool reminiscente dos trabalhos de Lalo Schifrin nos anos 1960 e 1970.

Mesmo assim, um tema que é mais proeminente do que esses dois é um motivo ouvido sempre que um personagem é tratado de forma preconceituosa – o que, afinal, é a principal metáfora do longa. Ele aparece nos cues Grey’s uh-Mad at Me, Not a Real Cop e na bela The Nick of Time, e, apesar de melancólico e triste, consiste na mesma combinação de cordas e piano que Giacchino tem usado pelo menos desde a série Lost, há doze anos. Ao final de Ewe Fell For It, ele ganha contornos mais otimistas e sonhadores, com toda a orquestra, para o final feliz do longa. Por outro lado, apesar de não incluir este tema, talvez a faixa mais emocionalmente impactante da trilha seja a dramática Some of My Best Friends Are Predators, com orquestrações solenes e pesadas.

Mas, claro, o grande destaque dessa trilha nem são os temas ou sua aplicação, e sim mais as divertidas referências musicais utilizadas por Giacchino para dar o tom cômico do longa. A trilha inclui ritmos tropicais de salsa em Ticket to Write (o compositor e sua equipe, como sempre, se divertindo ao nomear os cues*), a música em estilo indiano/hippie em The Naturalist, uma valsa para guitarra, fagote e caixinha de música representando os bichos-preguiça do Departamento de Trânsito de Zootopia em Work Slowly and Carry a Big Shtick e, finalmente, uma divertida paródia de Nino Rota e seu clássico score para O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972) em Mr. Big.

O disco possui também bastante ação: na dinâmica Hopps Goes (After) The Weasel, Giacchino inclui na orquestração guitarras típicas de thrillers policiais dos anos 1970, além de breves participações do tema de Judy, num ritmo mais agitado nos saxofones no início da faixa, e depois de forma vitoriosa nas trompas, no fim. Tal estilo depois retorna na enérgica Ramifications, mas aqui com orquestrações mais grandiosas. Já em Case of the Manchas, os metais e a percussão são os principais destaques, lembrando um pouco o estilo do músico ouvido mais recentemente em Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, 2015). Já em World’s Worst Animal Shelter e na primeira metade de Ewe Fell For It, a música assume tons mais discretos, de suspense, que funcionam no filme mas nem tanto no disco.

No fim das contas, Zootopia é uma trilha divertida, bem escrita, com alguns bons e criativos momentos, mas, no fim das contas, é certamente um trabalho menor na vitoriosa carreira de seu compositor. Talvez ele tenha sentido o desgaste de ter emendado um blockbuster seguido do outro, ou talvez tenha sido simplesmente instruído pelos cineastas a escrever música que não seja tão chamativa. De qualquer forma, é um score funcional, no melhor dos casos, o que é uma pena pois, de Os Incríveis (The Incredibles, 2004) a Divertida Mente (Inside Out, 2015), seus trabalhos em animações costumam ser consistentes e de ótima qualidade. Esperemos que ele se recupere novamente em seus futuros scores.

* Para saber mais sobre os títulos de faixas repletos de trocadilhos que se tornaram tão marcantes na carreira de Giacchino, confira esta ótima matéria do site Birth. Movies. Death. sobre como surgiu essa ideia. Alerta de spoiler: não foi exatamente o próprio compositor, em pessoa, que começou essa tendência

Faixas:

1. Try Everything (Shakira) 3:16
2. Stage Fright 0:39
3. Grey’s Uh-Mad At Me 1:44
4. Ticket To Write 1:07
5. Foxy Fakeout 2:08
6. Jumbo Pop Hustle 1:50
7. Walk And Stalk 1:29
8. Not A Real Cop 1:34
9. Hopps Goes (After) The Weasel 2:19
10. The Naturalist 3:09
11. Work Slowly And Carry A Big Shtick 0:44
12. Mr. Big 2:47
13. Case Of The Manchas 4:00
14. The Nick Of Time 5:02
15. World’s Worst Animal Shelter 4:24
16. Some Of My Best Friends Are Predators 3:47
17. A Bunny Can Go Savage 1:45
18. Weasel Shakedown 2:04
19. Ramifications 3:58
20. Ewe Fell For It 6:37
21. Three-Toe Bandito 0:43
22. Suite From Zootopia 7:28

Duração total: 62:34

Tiago Rangel

2 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: ZOOTOPIA – Michael Giacchino”

  1. Uma coisa que o Christopher Young disse sobre ao fazer o score de Homem-Aranha 3, foi que, quando um compositor pega um determinado projeto, ele precisa deixar os temas em “gestação”.

    Eu ouvi Zootopia umas três vezes (não vi o filme) e percebi que o Giacchino trabalhou mais rapido do que o costume. Segundo o Film Music Reporter, ele foi anunciado em novembro (provavelmente, no fim de outubro ele já tinha começado). E em fevereiro, o score já estava pronto. Ou seja, ele teve pouco tempo para escrever e deixar esse score numa gestação tematica aceitavel.

    Já ouvi Giacchino falar que, quando compõe para um filme, ele procura representa-lo com um tema simples. E parece que, para Zootopia, ele não encontrou esse tema, essa voz.

    Esse score tem seus momentos, mas é aquém do que o Giacchino é capaz de nos dar.

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