Resenha de Trilha Sonora: THE YOUNG MESSIAH – John Debney


Young Messiah_CDMúsica composta por John Debney
Selo: Lakeshore Records
Catálogo: LKS 346192
Lançamento: 26/02/2016
Cotação: star_3_5

Baseado num romance da escritora Anne Rice, o drama religioso O Jovem Messias (The Young Messiah, 2016), dirigido por Cyrus Nowrasteh, se propõe a contar a infância de Jesus Cristo, quando, aos sete anos, ele retorna do Egito para Nazaré e começa a descobrir a verdade sobre sua vida. Porém, o cruel herdeiro do rei Herodes está à espreita, e espera apenas uma oportunidade para assassiná-lo. Lançado nas últimas semanas nos cinemas americanos, o filme não atraiu uma bilheteria muito grande, nem foi sucesso entre os críticos, mas quem assistiu parece ter aprovado.

Compondo a trilha do longa, está o absurdamente prolífico John Debney,  na primeira das seis produções musicadas por ele marcadas para estrear em 2016 – inclusive substituindo o falecido James Horner em uma delas, o drama de guerra Hacksaw Ridge, dirigido por Mel Gibson. Católico, Debney pode se orgulhar de ser provavelmente o único compositor vivo a escrever música para o início e o fim da vida terrena de Jesus: há doze anos, o polêmico e violento A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004) chegava aos cinemas, e meses depois lhe garantiria sua primeira (e até agora única) indicação ao Oscar. Assim, além de uma conexão pessoal com o tema, Debney já havia colaborado com o diretor Nowrasteh antes em O Apedrejamento de Soraya M. (The Stoning of Soraya M., 2008) e, assim, seria uma escolha natural para o filme.

Independente de pensamentos ou credos, é interessante notar que filmes religiosos inspiraram algumas das melhores trilhas sonoras já ouvidas no cinema, nas mãos de mestres do calibre de Newman, Rózsa, Jarre e Morricone. O score de Debney para A Paixão de Cristo, apesar de não estar no mesmo nível dos trabalhos de tais compositores no gênero, trazia uma eficiente combinação dos instrumentos étnicos do Oriente Médio e as vocalistas femininas lamentosas tão em voga no início do século, pós-Gladiador (Gladiator, 2000), com coros épicos e potentes melodias orquestrais para acompanhar as últimas horas da vida de Cristo. Porém, para musicar o início de Sua trajetória na Terra, ele foi por um caminho inteiramente diferente, mais sutil e menos chamativo.

Aqui, o compositor combina os obrigatórios instrumentos do Oriente Médio com música simples e inocente, como o jovem Jesus, mas também melancólica e comovente, para uma orquestra baseada principalmente em cordas e madeiras. No entanto, nada dos proeminentes corais religiosos que costumam marcar esse tipo de produção. Afinal, além do orçamento menor que o do épico de Gibson, Debney aqui se foca na formação de Jesus como o Messias, ao invés da grandiosidade de seus feitos. Dessa forma, sua trilha parece ser mais uma continuação do trabalho de Debney no filme anterior de Nowrasteh, O Apedrejamento de Soraya M., através desta combinação entre orquestra e instrumentos étnicos com uma abordagem mais humana e sensível.

Dessa forma, Debney, que havia mostrado talento para tocar o ouvinte em trabalhos como Cavalos Domados (Broken Horses, 2015) e O Mistério da Libélula (Dragonfly, 2002), aqui demonstra uma sensibilidade que dificilmente seria encontrada num compositor americano nos dias de hoje. Seu estilo elegante e comovente o aproxima mais de um músico europeu, particularmente do grande Georges Delerue, do qual Debney se prova um discípulo digno. Isso é evidente no tema principal, ouvido na primeira faixa, uma melodia simples e inocente, porém ao mesmo tempo resoluta e fatídica. Ao longo da trilha, ele é ouvido diversas vezes, o que pode fazer com que a música se torne repetitiva, principalmente se o disco for ouvido mais vezes (um dos benefícios/ossos do ofício de ser um reviewer de Música de Cinema). Por outro lado, o tema apresenta cerca de três ou quatro “subdivisões” em motivos menores, que se alternarão ao longo da trilha. Sua suíte para concerto, na primeira faixa, deixa isso bem claro. Nela, as ideias que compõem o tema se apresentam um após o outro, numa bonita melodia conduzida pela orquestra, com acompanhamento da percussão.

As primeiras faixas do disco são mais sombrias, combinando música orquestral dramática com abrasivas participações dos instrumentos étnicos do Oriente Médio. Cues como Salome Reminds Jesus, Herod Is Dead, Mary and Joseph/Don’t You See Him! são sombrios e tristes, com participações dramáticas do tema principal ora num cello solo, ora na harpa, enquanto, em The Carved Camel ele recebe uma bela performance em toda a orquestra. Por outro lado, em faixas como Alexandria, Egypt, Jesus Heals Eleazer e Herod Reprimands Severus os instrumentos do Oriente Médio tem destaque, sendo utilizados para criar tensão. Também podemos encontrar faixas de ação em Jesus Encounters Romans e Rape Victim, na qual Debney combina ostinatos de violinos e percussão. A longa Not Just a Child/Crucifixes, por sua vez, combina texturas eletrônicas e orquestrações sombrias, que podem afastar um pouco o ouvinte casual.

Porém, se estes perdurarem ao longo do disco, poderão encontrar algumas das mais belas melodias já escritas por Debney: Jesus Heals Cleopus, Reveal of Nazareth, The Messiah Will Save Us! e Mary Presents Baby Jesus são mais otimistas, e quase religiosas, demonstrando a alegria dos personagens ao se depararem com seu salvador. Já Sister, Come to Nazareth e, em especial, a belíssima A Son Named Jesus são mais introspectivas e melancólicas, com esta última contando com um arranjo particularmente emocional do tema principal. Aliás, a partir desse cue, tal tema se torna quase onipresente: em Travel to Jerusalem, ele aparece como uma típica “música de viagem”, enquanto em Jerusalem for Passover ele é interpretado na harpa e no violoncelo, me fazendo recordar das dramáticas contribuições de Yo-Yo Ma em Memórias de uma Gueisha (Memoirs of a Geisha, 2005).

O álbum atinge seu clímax emocional nas duas últimas faixas, as maiores do disco por uma boa margem. The Blind Rabbi é uma faixa que aumenta a tensão e a dramaticidade em seus seis minutos, rumo a um final impactante e quase elegíaco. Porém, a linda Mary Reveals the Truth to Jesus/Jesus Talks to God, é a faixa que faz o disco valer a pena. Com sete minutos de duração, ela encerra o disco e já é uma das mais belas já escritas por Debney, igualando cues memoráveis como Emily’s Message Revealed, de O Mistério da Libélula, ou a música da crucificação de Jesus em A Paixão de Cristo. Aqui, o compositor utiliza todos os elementos mais emocionais da trilha até então (o solo de violoncelo, a vocalista feminina) para atingir o ouvinte. Suas belíssimas melodias culminam numa decisiva apresentação do tema principal, demonstrando que Jesus havia abraçado seu destino.

Apesar disso, talvez esta não seja uma trilha que agrade a todos, em especial se você não for um fã completista de Debney, ou não tiver paciência para 70 minutos de escrita sombria, solene e triste para cordas e/ou instrumentos étnicos. O Jovem Messias não traz os corais épicos e orquestrações grandiosas que aprendemos a esperar de filmes bíblicos. Por outro lado, é certamente um dos mais belos scores já escritos pelo compositor, com um encerramento verdadeiramente excelente e, só por isso, já merece uma conferida.

Faixas:

1. The Young Messiah Theme (02:36)
2. Alexandria Egypt (05:23)
3. Salome Reminds Jesus (01:47)
4. Jesus Heals Eleazer (02:52)
5. Herod Is Dead (02:18)
6. Mary And Joseph / Don’t You See Him? (02:20)
7. The Carved Camel (01:09)
8. Jesus Encounters Romans (02:08)
9. Severus Lets Jesus’ Family Go (01:56)
10. Herod Reprimands Severus (02:39)
11. Jesus Heals Cleopus (03:07)
12. Rape Victim (01:15)
13. Sister, Come To Nazareth (02:08)
14. Not Just A Child / Crucifixes (04:13)
15. Reveal Of Nazareth (01:33)
16. The Messiah Will Save Us! (01:16)
17. A Son Named Jesus (04:27)
18. Jerusalem For Passover (02:35)
19. Travel To Jerusalem (01:51)
20. Mary Presents Baby Jesus (01:03)
21. Jesus Leaves Alone (02:26)
22. He Wants Answers (02:25)
23. He’s In The Temple (01:25)
24. Herod’s Rage (00:56)
25. The Blind Rabbi (06:17)
26. Mary Reveals The Truth To Jesus / Jesus Talks To God (07:37)

Duração total: 79:42

Tiago Rangel
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2 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: THE YOUNG MESSIAH – John Debney”

  1. Gostei particularmente do Debney nos filmes Hocus Pocus,Predators,Fim dos dias e a Ilha da Garganta Cortada.Fico feliz que ainda está na ativa,já que não ouço scores com mais frequência deste compositor.Espero que esteja em forma e possa nos trazer ainda grandes trabalhos futuros.
    Grande Abraço a todos.

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