Resenha de Trilha Sonora: GODS OF EGYPT – Marco Beltrami


Gods Of Egypt_CDMúsica composta por Marco Beltrami
SeloVarèse Sarabande
Catálogo: 302 067 401 8
Lançamento: 18/03/2016
Cotação: star_4

Um dos raros blockbusters “originais” (ou seja, sem ter sido baseado em livros, quadrinhos ou qualquer outro material pré-existente) a estrear nos cinemas este ano, Deuses do Egito (Gods of Egypt, 2016) se passa numa versão fantasiosa da antiga nação à beira do Rio Nilo, na qual humanos e deuses coexistem juntos. No longa, o ladrão Bek (Brenton Thwaites) se alia ao deus Horus (Nikolaj Coster-Waldau) após roubar seu olho, perdido numa luta contra o cruel deus Set (Gerard Butler). Este havia usurpado o trono de seu irmão Osiris (Geoffrey Rush), pai de Horus, e assassinado o rei, com o objetivo de governar o Egito com mão de ferro. Agora, Bek, que deseja resgatar sua amada Zaya, e Horus, com sede de vingança, se unem numa missão para salvar o Egito das mãos de Set. O filme foi dirigido por Alex Proyas (que, curiosamente, também é egípcio), um talentoso cineasta que tem no currículo obras de ficção científica e fantasia como os cults O Corvo (The Crow, 1994) e Cidade das Sombras (Dark City, 1998), além do blockbuster Eu, Robô (I, Robot, 2004). Seu talento para criar filmes originais, porém, não impediu que o longa fosse castigado com críticas terríveis e bilheteria pífia. Além disso, o filme ainda foi criticado por ter escalado atores brancos para interpretar personagens do norte da África.

Apesar dos pesares, fantasias épicas como essa, fracassando ou não, são uma ótima oportunidade para compositores exercitarem seu talento na escrita orquestral. Em Deuses do Egito, o escolhido foi Marco Beltrami, que já havia estabelecido uma bem sucedida parceria com Proyas e escrito alguns dos melhores trabalhos de sua carreira para o diretor, como Eu, Robô e Presságio (Knowing, 2009). Felizmente, Deuses do Egito consegue superar essas duas em escopo e qualidade. Beltrami se inspirou na ambientação do filme e imbuiu seu score com a clássica música hollywoodiana “do deserto”, popularizada por Maurice Jarre e seu seminal Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962), além do senso de aventura e grandiosidade ouvido em longas mais fantásticos ambientados no Egito, como Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981), de John Williams, A Múmia (The Mummy, 1999), de Jerry Goldsmith e sua continuação, composta por Alan Silvestri. O resultado é um score profundamente enraizado no estilo desenvolvido por estes mestres para representar o exotismo e as aventuras no Egito, mas que também carrega o DNA do compositor, ouvido em fantasias como Hellboy (idem, 2004) e O Sétimo Filho (Seventh Son, 2015). O que é sempre interessante, afinal, trilhas como essas mostram que Beltrami possui um talento especial para filmes fantásticos, e que infelizmente não é utilizado com tanta frequência.

O tema principal é um ótimo exemplo disso: ouvido aos 0:45 na primeira faixa, ele traz consigo aquele romântico som do deserto, com orquestra e coral. Suas aparições em faixas como Osiris’ Garden, ao final de Straight Out of Egypt e em Channeling Zaya são altamente evocativas – Jarre certamente ficaria orgulhoso. Além disso, em Coronation Beltrami adapta seu tema e o transforma numa heráldica marcha, claramente inspirada por Miklós Rózsa, o rei desse tipo de música épica no cinema. Para completar, adicionando outra camada de misticismo à trilha, está o tema de Hathor (Elodie Yung), a amante de Horus, que ganha de Beltrami um bonito e misterioso motivo, ouvido num duduk em Hathor’s Bedroom e Return Of The Mistress Of The West, antes de ganhas sua própria suíte, na última faixa.

Porém, o destaque da trilha é realmente o love theme para Bek e Zaya. Ele é ouvido pela primeira vez em Bek and Zaya, e consiste numa bela e romântica melodia que deve muito aos antigos mestres da Música de Cinema – e que não é ouvida com muita frequência nos dias de hoje. Ele faz belas participações num coro e orquestra ao fim de Shot Through The Heart e depois num solo de violoncelo em Channeling Zaya, enquanto em faixas como Underdog e Chaos ele ganha arranjos mais ameaçadores, demonstrando o perigo vivido pelos dois amantes nas mãos de Set. Porém, o tema verdadeiramente brilha em sua versão para concerto, Bek and Zaya’s Theme, uma belíssima faixa, com Beltrami demonstrando ser um ótimo aluno da escola John Barry de love themes expressivos e românticos (sem soar como um mero copiador do grande compositor inglês, porém).

A trilha também inclui uma grande quantidade de música de ação, e Beltrami não decepciona. Para ancorar a música, ele utiliza motivos bem simples para os vilões, com eletrônicos e um coro masculino ameaçador ouvido pela primeira vez em All Quiet On Set, e para os heróis, uma fanfarra para metais em meio à ação. Set Vs. Horus traz algumas ótimas performances da seção de metais e percussão da orquestra, com o motivo heroico como o grande destaque, antes de ser eventualmente superado pelo motivo de Set. Bek Steals the Eye, por sua vez, é mais dissonante e caótica, enquanto Shot Through The Heart integra o tema principal e o love theme em meio às melodias mais agitadas. Wings and A Prayer é puro Beltrami, com os intensos crescendos orquestrais ouvidos em trilhas como Eu, Robô e Hellboy, com o motivo heroico em coro, orquestra e eletrônicos. Snakes on a Plain é um dos destaques do disco, uma ótima faixa de ação incrivelmente orquestrada, com muita percussão, fanfarras heroicas e violinos enérgicos simulando o ataque das cobras do título.

O final do disco nos reserva a música mais vibrante de toda a trilha: a ironicamente nomeada Elevator Music traz performances musculares do motivo heroico junto a orquestrações grandiosas, enquanto as duas Obelisk Fight são dois excelentes cues de ação, com muita percussão, potentes melodias orquestrais, metais violentos e cânticos do coro, com a primeira parte se encerrando numa apresentação do tema principal absurdamente grandiosa. Em seguida, God of the Impossible recupera o tema de amor e o tema principal, encerrando o filme de forma excitante e épica.

Se uma trilha como a de Deuses do Egito fosse lançada há uns vinte anos, quando Beltrami começou sua carreira, ela poderia ser vista como uma obra menor. O problema é que, naquela época, a maioria dos grandes mestres ainda estava viva, e trabalhos de qualidade superior surgiam com bem mais frequência do que hoje (ao menos na Música de Cinema hollywoodiana). Em 2016, por outro lado, dificilmente teremos nos blockbusters um tema romântico tão belo quanto o love theme desta trilha. Ou uma ação orquestral tão dinâmica quanto a ouvida aqui. Beltrami estava inspirado e compôs uma das melhores trilhas de sua carreira, e, como muitos fracassos que, apesar de naufragarem, inspiraram música de ótima qualidade, os problemas do filme não devem lhe impedir de apreciar este ótimo score.

Faixas:

1. Gods of Egypt Prologue (02:41)
2. Bek and Zaya (00:44)
3. Market Chase (00:30)
4. Coronation (02:26)
5. All Quiet on Set (00:41)
6. Set vs. Horus (03:40)
7. Hathor’s Bedroom (03:42)
8. Bek Steals the Eye (04:08)
9. Shot Through the Heart (03:01)
10. Underdog (01:25)
11. Red Army (01:40)
12. Wings and a Prayer (03:01)
13. Osiris’ Garden (01:29)
14. Snakes on a Plain (03:12)
15. Toth’s Library (03:27)
16. Straight out of Egypt (02:28)
17. Channeling Zaya (02:29)
18. Return of the Mistress of the West (02:28)
19. Chaos (03:42)
20. Set Confronts Ra (03:29)
21. Elevator Music (03:06)
22. Obelisk Fight Part 1 (04:12)
23. Obelisk Fight Part 2 (03:32)
24. God of the Impossible (05:39)
25. Bek and Zaya’s Theme (04:37)
26. Hathor’s Theme (03:35)

Duração total: 75:04

Tiago Rangel
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10 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: GODS OF EGYPT – Marco Beltrami”

  1. Falando em épico, o que vocês esperam da trilha do novo Independence Day? Questiono isso, porque a trilha do filme original, feita pelo grande David Arnold, é marcante, e agora, o score dessa continuação caiu nas mãos da dupla Harald Kloser e Thomas Wanker, que até o momento, não se destacou em nada.

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  2. Depois da perda de vários mestres da música instrumental(ainda temos,graças a Deus,John Williams) Chegou a vez de Beltrami despontar. Sentiu o gosto da fama com um filme menor chamado Pânico(Scream),e agora é requisitado para alguns dos chamados “blockbusters”.Não podemos esquecer que compôs também este ano a trilha para refilmagem de Ben-hur,que com certeza a redação desse estimado site o fará brevemente.
    Grande abraço a todos.

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