revenant_CDMúsica composta por Ryuichi Sakamoto e Alva Noto, música adicional por Bryce Dessner
Selo: Milan Records
Catálogo: 399 785-2
Lançamento: 25/12/2015
Cotação: star_3_5

Principal estreia nos cinemas tupiniquins no feriado de carnaval, o drama O Regresso (The Revenant, 2015) é também um dos filmes mais cotados para o Oscar desse ano, com nada menos que 12 indicações ao prêmio da Academia. Dirigido pelo cineasta mexicano Alejandro G. Iñárritu (vencedor dos Oscar de diretor e roteirista no ano passado por Birdman), o filme conta a saga do caçador e explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) que, ferido após um ataque de urso durante uma expedição e deixado para morrer por seus companheiros, se arrasta por centenas de quilômetros pelas paisagens geladas do Canadá, em busca de vingança contra John Fitzgerald (Tom Hardy), que havia assassinado seu filho. A trilha do filme foi composta pelo lendário músico japonês Ryuichi Sakamoto e por seu colaborador Carsten Nicolai, também conhecido pelo nome artístico Alva Noto, trazido para o projeto para auxiliar Sakamoto, que, após enfrentar uma longa batalha contra um câncer de garganta em 2014, sentiu que teria dificuldades em trabalhar em um longa deste escopo. Além disso, o compositor e guitarrista da banda The National, Bryce Dessner, também contribuiu com música adicional para o longa.

Durante boa parte de sua carreira, Iñárritu havia estabelecido uma bem sucedida colaboração com o compositor Gustavo Santaolalla, que inclusive rendeu ao guitarrista argentino o segundo Oscar de sua carreira por Babel (idem, 2006). Em Birdman, porém, o diretor optou por chamar o baterista Antonio Sanchéz para compor e gravar seu score jazzístico inteiramente em solos de bateria, uma escolha incomum que dividiu críticos e ouvintes (e gerou uma série de reclamações do diretor quando Sanchéz não foi indicado ao Oscar de trilha sonora). Por outro lado, por ser um épico em grande escala, O Regresso pedia por um tipo diferente de trilha. Segundo o encarte do disco, o cineasta revelou que havia sido um fã do trabalho de Sakamoto há pelo menos 30 anos: na década de 1980, quando Iñárritu trabalhava como DJ para uma rádio, ele tocava o vinil com a trilha de Sakamoto para Furyo: Em Nome da Honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence, 1983), estrelado por David Bowie e pelo próprio compositor, “até que o vinil se esgotasse e não pudesse ser tocado mais”. Anos mais tarde, Iñárritu inclui na a trilha de Babel algumas peças de Sakamoto, em especial Bibo no Aozora, ouvida durante a última cena do filme. Agora, quase uma década depois, finalmente, ele conseguiu que o músico japonês lhe escrevesse um score original para seu épico.

Considerando tudo isso, pode-se dizer que O Regresso também foi parte integral de uma das narrativas mais fortes e interessantes da Música de Cinema em 2015: diretores relativamente jovens, que haviam crescido ouvindo os trabalhos de seus compositores cinematográficos prediletos, finalmente conseguiram que os próprios escrevessem uma trilha original para seus novos longas. Esta alegria foi compartilhada por J.J. Abrams, Quentin Tarantino e agora Iñárritu, e, ainda que isto tenha ocorrido de forma completamente acidental, é maravilhosamente reconfortante notar o poder inspirador, capaz de atravessar gerações, da Música de Cinema. Sakamoto, embora não seja tão ilustre quanto John Williams ou Ennio Morricone, foi um dos principais nomes da música eletrônica durante a década de 1980, seja trabalhando no cinema, seja em sua carreira como músico solo ou como membro do grupo de música eletrônica Yellow Magic Orchestra. Ao longo das décadas, ele seguiu amealhando fãs por seu trabalho de vanguarda, enquanto, no cinema, colaborou com cineastas como Pedro Almodóvar, Brian De Palma e Bernardo Bertolucci, cujo épico O Último Imperador (The Last Emperor, 1987) rendeu a Sakamoto o Oscar de trilha sonora (dividido com David Byrne e Cong Su).

A produção da trilha de O Regresso foi bastante globalizada: Sakamoto gravou sua porção do score em Seattle, com músicos da The Northwest Sinfonia e regência do próprio compositor, enquanto Nicolai ficou responsável pelos trechos mais eletrônicos, gravados em seu estúdio em Los Angeles. Já a parte de Dessner foi gravada pela orquestra conhecida como s t a r g a z e, em Berlim, regida por André de Ridder. Além disso, a trilha do filme também inclui música de compositores como John Luther Adams e Olivier Messiaen, bem como peças anteriores dos próprios Sakamoto e Noto. Por outro lado, a colaboração constante entre os três compositores e o diretor impediu que a música saísse completamente desconjuntada, permitindo, inclusive, que, em certos momentos do longa, Iñárritu combinasse os cues dos três compositores em um só, como revelado por Sakamoto numa interessante entrevista à Rolling Stone. O disco da Milan respeita essa separação, creditando cada faixa a seu(s) respectivo(s) compositor(es).

A música do trio é adequada ao espírito do filme: fúnebre, triste e melancólica, mas também contida e introspectiva, tal como os personagens do longa, acostumados a uma existência dura e violenta no extremo norte. É interessante notar que o protagonista, interpretado por DiCaprio, tem pouquíssimas falas ao longo das quase duas horas e meia de projeção, de forma que a música acaba servindo como sua voz, e dando um indicativo de sua personalidade: um homem de poucas palavras, endurecido após uma vida de violência e privações, e enlutado pela morte do filho, cujo único objetivo é se vingar.

A maioria dos cues de Sakamoto segue este estilo dramático: cordas graves e solenes, em geral com o acompanhamento das texturas eletrônicas de Nicolai/Noto, percussão e do ondes martenot, um instrumento similar ao teremim, popularizado no mundo da Música de Cinema hollywoodiana por compositores como Maurice Jarre e Elmer Bernstein. Ele tem presença particularmente marcante em faixas como Carrying Glass, Goodbye to Hawk e Out of Horse, enquanto as similarmente nomeadas Discovering River e Discovering Buffalo trazem crescendos quase místicos das cordas. Aqui, o estilo empregado por Sakamoto lembra um pouco o utilizado por Hans Zimmer em trabalhos como Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998), Batman Begins (idem, 2005) e O Código Da Vinci (The Da Vinci Code, 2006) – o que é curiosamente apropriado, visto que uma das principais influências de Iñárritu foi o cineasta Terrence Malick, diretor do primeiro.

A trilha possui um tema principal, também de autoria de Sakamoto, e apresentado logo na primeira faixa. Trata-se de uma melodia triste e solene, com longas e espaçadas notas a cargo de cordas mais graves, e uma escrita descomplicada que também representa a personalidade mais simples, interiorana, porém determinada, de Glass. Mais tarde, ele é utilizado novamente em Killing Hawk, numa versão torturada do tema principal em cellos, com intervenções de violinos horripilantes, representando um dos momentos mais dramáticos para Glass no longa. Em Glass and Buffalo Warrior Travel, ele é apresentado primeiramente no sintetizador e depois na orquestra, porém com suas notas separadas por longas pausas, um estilo que me lembrou um pouco de partes da bela trilha de Johan Söderqvist para Deixa Ela Entrar (Låt Den Rätte Komma In, 2008). Já em Church Dream ele ganha uma nova e ainda mais dramática versão, com uma maior participação de violinos e um tom quase religioso. Além disso, o disco também inclui outras duas suítes do tema: a primeira, intitulada The Revenant Main Theme Atmospheric, é interpretada basicamente por violoncelo e piano, enquanto a outra, que traz o subtítulo Alva Noto Remodel, foi processada eletronicamente para soar como um eco distante, quase como se saindo de um rádio velho (ou assim entendi).

Há também um tema secundário no score, porém bem menos proeminente. Em sua versão para concerto (ouvida durante os créditos finais do filme e em The Revenant Theme 2 no disco), ele é interpretado por cello e piano, e é mais masculino e vigoroso, ainda que menos melódico, que o tema principal. No disco, uma versão desse tema também pode ser ouvida em Carrying Glass e Powaqa Rescue, nos baixos, embora praticamente soterrados em meio ao ondes martenot e às texturas eletrônicas e de sound design de Noto. Não que isso seja um problema, nesse caso: o design e as atmosferas eletrônicas aqui são particularmente excelentes, e bastante evocativos das florestas e dos rios nevados onde se passa a história, bem como da solidão dos homens acostumados a essas condições. Destaco especialmente um efeito peculiar adicionado pelo compositor em ambas as faixas que parece simular ao barulho de chuva, o que, novamente, é apropriado às condições climáticas do local.

Para as sequências de delírio de Glass, reminiscentes do cinema de Malick, Sakamoto e Noto escreveram cues surrealistas e atmosféricos, com texturas sintetizadas e cordas processadas eletronicamente. First Dream, por exemplo, traz um solitário cello perdido em meio a paisagens eletrônicas desoladoras, enquanto Second Dream mistura cordas e um violino aparentemente “beliscado” com os dedos, com o som produzido amplificado no computador, dando um efeito surreal à faixa.

As cenas de ação do longa, por sua vez, não são acompanhadas por enérgicas melodias orquestrais, como seria de se imaginar: a citada Powaqa Rescue traz mais de cinco minutos de cordas e eletrônicos cada vez mais dramáticos. Já o clímax do longa traz a música dos três compositores combinada, resultando numa audição caótica: Cat & Mouse mistura percussão quase tribal, cordas abstratas e efeitos eletrônicos e violinos tensos, numa faixa que remete ao estilo mais experimental de scores como Sob a Pele (Under the Skin, 2013), de Mica Levi, ou Gravidade (Gravity, 2013), de Steven Price. Já Final Fight, com sua escrita quase aleatória para percussão e cordas, poderia ter saído do trabalho absolutamente não melódico de Brian Reitzell para a série Hannibal. Em seguida, The End reprisa novamente o tema principal de forma solene, encerrando o filme num tom melancólico.

Quanto às contribuições de Dessner, além das cenas de ação, o disco da Milan traz dois cues creditados apenas a ele. Imagining Buffalo traz combinações de violinos e violas, resultando em sonoridades dramáticas, enquanto Looking for Glass tem uma atmosfera tensa, quase sufocante, construída com cordas e percussão. Também deve se destacar Hawk Punished, escrita por Noto e Dessner, porém enraizada no estilo empregado por Sakamoto no restante do score, com violoncelos tristes acompanhados por ambientações eletrônicas.

A música de O Regresso é perfeitamente adequada ao longa: melancólica, introspectiva e atmosférica. É também bem desafiadora de se ouvir separada do filme, devido a seu estilo mais lento e esparso, de modo que muita gente, acostumada à empolgação dos trabalhos mais orquestrais, poderá achá-la até mesmo tediosa de se ouvir, enquanto os 70 minutos de audição do álbum podem ser bem cansativos. Por outro lado, quem estiver disposto a se arriscar poderá descobrir um score, triste, com belas melodias para cordas combinadas com um ótimo e altamente evocativo trabalho eletrônico textural e de sound design. Certamente, merecia ter tido mais sorte durante a temporada de premiações do ano.

Faixas:

1. The Revenant Main Theme (02:41)
Ryuichi Sakamoto
2. Hawk Punished (02:14)
Alva Noto & Bryce Dessner
3. Carrying Glass (03:07)
Ryuichi Sakamoto & Alva Noto
4. First Dream (03:05)
Ryuichi Sakamoto & Alva Noto
5. Killing Hawk (03:49)
Ryuichi Sakamoto
6. Discovering River (01:11)
Ryuichi Sakamoto
7. Goodbye to Hawk (03:41)
Ryuichi Sakamoto
8. Discovering Buffalo (02:43)
Ryuichi Sakamoto & Alva Noto
9. Hell Ensemble (02:38)
Ryuichi Sakamoto
10. Glass and Buffalo Warrior Travel (01:51)
Ryuichi Sakamoto
11. Arriving at Fort Kiowa (01:21)
Ryuichi Sakamoto
12. Church Dream (02:38)
Ryuichi Sakamoto & Alva Noto
13. Powaqa Rescue (05:35)
Ryuichi Sakamoto, Alva Noto & Bryce Dessner
14. Imagining Buffalo (02:39)
Bryce Dessner
15. The Revenant Theme 2 (01:54)
Ryuichi Sakamoto
16. Second Dream (01:13)
Ryuichi Sakamoto & Alva Noto
17. Out of Horse (03:57)
Ryuichi Sakamoto
18. Looking for Glass (02:51)
Bryce Dessner
19. Cat & Mouse (05:42)
Ryuichi Sakamoto, Alva Noto & Bryce Dessner
20. The Revenant Main Theme Atmospheric (02:50)
Ryuichi Sakamoto
21. Final Fight (06:35)
Ryuichi Sakamoto & Bryce Dessner
22. The End (02:16)
Ryuichi Sakamoto
23. The Revenant Theme (Alva Noto Remodel) (04:00)
Ryuichi Sakamoto & Alva Noto

Duração total: 70:31

Tiago Rangel
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