creed

Resenha de Trilha Sonora: CREED- Ludwig Göransson


Creed_CDMúsica composta por Ludwig Göransson
Selo: WaterTower Music
Catálogo: WTM39745
Lançamento: 18/12/2015
Cotação: star_4

Mais um exemplar da onda nostálgica que atinge Hollywood nos últimos anos, o drama Creed: Nascido para Lutar (Creed, 2015), dirigido pelo cineasta Ryan Coogler e estrelado por Michael B. Jordan como o personagem-título, se passa no mesmo universo dos antigos longas da franquia Rocky, que contou com seis filmes produzidos entre 1976 e 2006. Ele conta a história de Adonis “Donnie” Johnson, jovem boxeador que descobre ser filho do lendário Apollo “O Doutrinador” Creed (interpretado por Carl Weathers nos quatro primeiros filmes), que fora rival e depois amigo de Rocky Balboa (Sylvester Stallone). Jovem problemático e sem rumo, Donnie procura a ajuda de Rocky, que aceita ser seu treinador e prepará-lo para um confronto decisivo com um lutador mais experiente, ao passo em que o próprio “Garanhão Italiano” contempla a própria mortalidade, ao se ver sozinho, sem sua esposa Adrian e o melhor amigo Paulie, e doente. O longa recebeu ótimas críticas e foi um sucesso de bilheteria nos EUA, mas infelizmente acabou “esnobado” pelo Oscar, com uma indicação apenas para Stallone (sua primeira desde, bem, o Rocky original de 1976). É uma pena, pois ele merecia outras menções, inclusive para seu compositor, o sueco Ludwig Göransson.

A tal onda nostálgica mencionada no parágrafo anterior, se por um lado tem levado muitas pessoas criticarem a suposta falta de originalidade de Hollywood, mais preocupada em ressuscitar sucessos do passado do que em produzir novos, por outro lado representa uma ótima oportunidade, no mundo das trilhas sonoras, para compositores mais novos se testarem ao trabalhar junto a temas clássicos do passado (especialmente em franquias musicalmente memoráveis) e, ao mesmo tempo, deixar sua própria marca na franquia. Em 2015, dois compositores cumpriram o desafio e foram extremamente bem sucedidos: o primeiro foi Michael Giacchino, em Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, 2015), enquanto o outro foi Göransson, alguns meses depois, em Creed. Porém, enquanto Giacchino já é um músico experiente, acostumado a assumir a batuta de franquias clássicas, Göransson é um sujeito ainda novato, com poucos trabalhos no currículo, incluindo o filme anterior de Coogler, Fruitvale Station: A Última Parada (Fruitvale Station, 2013), comédias televisivas como Community e New Girl, além de servir de compositor de música adicional em scores de Theodore Shapiro, como Trovão Tropical (Tropic Thunder, 2008) e Marley & Eu (Marley & Me, 2008). Enfim, um autêntico underdog no mundo das trilhas sonoras – o que, claro, espelha a própria temática dos longas da franquia. E, tal qual Balboa no primeiro e agora Donnie em Creed, Göransson superou os obstáculos e foi bastante bem sucedido, pois, a depender da boa recepção de seu score, ele poderá colocá-lo no mapa dos fãs e figurões de Hollywood.

A saga Rocky, claro, foi embalada pelos clássicos temas compostos pelo lendário Bill Conti, que veio a musicar cinco dos seis longas anteriores – apenas o quarto filme não pôde contar com o músico, tendo sua trilha composta por Vince DiCola. As melodias de Gonna Fly Now (o famosíssimo tema da saga) ou de Going the Distance marcaram época, e são até hoje reconhecíveis pelos fãs em todo o mundo, ao mesmo tempo em que se tornaram sinônimos não apenas de filmes como de eventos esportivos no geral. Enfim, tanto Coogler como Göransson tinham como desafio não apenas respeitar o legado da franquia, uma das mais queridas do cinema das últimas décadas, como também criar algo por si próprios, darem suas próprias contribuições ao universo de Rocky Balboa. A resposta que o jovem compositor sueco deu a esse desafio foi similar à de Giacchino: relegar os temas clássicos a um papel de coadjuvante (sem, contudo, esquecê-los), e estruturar sua trilha em torno de um novo – e ótimo – tema.

O tema de Göransson para Creed tem a marca de Conti, e provavelmente deixou o hoje aposentado maestro orgulhoso. Ele é praticamente onipresente em todo o score (são poucas as faixas em que ele não aparece) e, se normalmente trilhas que repetem um tema só até o fim costumam ser cansativas, não apenas a melodia de Göransson é de ótima qualidade, como também é extremamente adaptável aos diversos momentos pedidos pela música no filme. Sua primeira introdução é, após alguns sintetizadores sombrios e urbanos, aos 1:50 da primeira faixa, Juvy, num melancólico piano, e logo em seguida já começa a mostrar sua adaptabilidade: ele é interpretado de forma mais romântica, porém hesitante, para a relação do protagonista com Bianca (Tessa Thompson) em First Date e depois mais tarde em Caught in the Shadows; de maneira mais leve e com um estilo mais urbana acompanhando a crescente amizade do herói com Rocky, em Moving In With Rocky; e é também uma verdadeira fanfarra heroica, com metais e percussão, para demonstrar o lado lutador de Creed, vide o final da faixa Adonis, que quase lembra alguns dos scores para filmes de super-heróis compostos por Brian Tyler. Tudo isso, claro, reflete a personalidade complexa do personagem interpretado por Michael B. Jordan: sua determinação em se tornar um boxeador tão bom quanto Apollo fora, e sua complexa relação de pai-e-filho com Rocky, mas também seu lado mais jovial, inocente e apaixonado, como se ainda estivesse descobrindo seu lugar no mundo.

Além disso, as orquestrações utilizadas por Göransson também tem destaque: o sujeito, claro, emprega uma grande orquestra e coral, mas estes são utilizados, em sua maioria, para as cenas que pedem uma música grandiosa, ou seja, as sequências de treinamento e as lutas de Creed. Junto à orquestra, ele também utiliza sintetizadores, guitarras e piano, para criar ritmos urbanos de hip hop, rap e R&B, que, claro, refletem o ambiente e a cena musical das grandes metrópoles americanas da atualidade. Ou seja, mais ou menos o que Conti fez nos scores originais, em que também se valia dos ritmos setentistas característicos da época. Bons exemplos disso são as citadas Juvy, Moving in with Rocky e a primeira metade de Front Street Gym, em que o tema do protagonista aparece de forma mais sutil, em guitarra, sintetizadores e vocalizações processadas. Na segunda metade da faixa, ele retorna novamente ao se modo orquestral e heroico, mas sempre com o acompanhamento eletrônico e “das ruas”.

Os temas originais de Conti, como dito acima, são secundários no score (tal qual Rocky, antes personagem-título da saga, aqui é o coadjuvante de Creed), mas suas aparições são pontuais e eficientes. As primeiras (e icônicas) notas de Gonna Fly Now podem ser ouvidas ao final (mais especificamente, em 2:14) de First Date, enquanto Rocky is Sick é tão triste quanto seu titulo sugere, trazendo uma melancólica performance do tema de Conti para o velho boxeador no piano. Ao fim da faixa, os temas de Creed e de Rocky aparecem ligados, demonstrando a amizade crescente entre os dois.

Enquanto isso, The Sporino Fight, é uma ótima faixa que constrói toda a tensão da primeira luta de Adonis após treinar com Rocky de forma gradual e inteligente: começando com texturas eletrônicas e percussão, ele lembra um pouco o outro grande score de boxe do ano, Nocaute (Southpaw, 2015), de James Horner. Porém, o cue logo vai ganhando em intensidade e dramaticidade, conforme novos instrumentos e a orquestra vão sendo adicionados, culminando, porém, numa performance grandiosa e triunfal do tema de Creed nos metais, assim que o personagem ganha a luta. Além disso, um filme de Rocky (ou sobre lutas em geral) não seria o mesmo sem uma épica montagem de treinamento, mostrando a preparação do herói para o confronto final nos ringues. If I Fight, You Fight (Training Montage) é uma ótima faixa que leva o tema de Creed ao seu ápice até agora, em metais e percussão que lembram mais o trabalho de Jerry Goldsmith nos anos 1980, em especial seus scores para o outro personagem igualmente famoso de Stallone: Rambo. A melodia para orquestra segue em potência máxima, até que, em 3:54, um motivo secundário da trilha ganha suas próprias letras (fighting hard, climbing strong, fighting harder and harder), o que faz do cue praticamente o herdeiro de Gonna Fly Now.

Assim, o embate final ocorre acompanhado por Conlan Fight, em que o tema de Creed aparece finalmente transmutado num grandioso motivo de ação orquestral. Göransson, claro, reúne todas as suas referências musicais (não apenas Conti e Goldsmith, como também Morricone, através de pontuais participações de um coro feminino ou de um piano), numa potente faixa de ação que corre ao longo de mais de seis minutos – que terminam, porém, de forma dramática. You’re a Creed, porém, provavelmente será a faixa pela qual Göransson será mais lembrado: ela começa com um novo arranjo orquestral de dois temas de Conti para o Rocky original, a Fanfare for Rocky e Going the Distance, porém, com um estilo mais moderno. Na sequência, o compositor mistura de forma inteligente e emocionante tais temas com o seu próprio, num cue simultaneamente nostálgico para quem cresceu acompanhando a saga de Rocky, enquanto também abre um novo caminho para a franquia, agora capitaneada por Adonis.

As três últimas faixas do disco o encerram com chave de ouro, ao mesmo tempo em que resumem todas as qualidades do score. You Can See the Whole Town from Here traz os temas de Rocky e de Creed, porém agora de forma mais calorosa e amigável, em cordas, piano e trompas, levando direto aos End Credits que, misturando orquestra, coral e eletrônicos interpretando o tema principal, encerram o longa de forma heroica e bombástica. E ainda há tempo de mais uma suíte ao fim do disco, reprisando o tema principal.

Em meio ao score do filme em si, Göransson escreveu três pequenos “interlúdios”, Grip, Breathe, e Shed You, que são as canções que a personagem Bianca compõe e interpreta durante o longa. Elas também respondem pelas partes mais desafiadoras do disco: Bianca trabalha com uma espécie de música eletrônica experimental, e assim tais faixas são uma mistura de hip hop e beats eletrônicos vanguardistas. Valem como curiosidade, e também para mostrar o talento que Göransson, que trabalha para a gravadora de Jay-Z Roc Nation, possui como compositor e produtor de canções, mas quem busca música puramente orquestral provavelmente estranhará tais faixas.

Menos bem-vindas, porém, são as inclusões de diálogos do próprio longa em meio às faixas – um problema que costumava castigar os amantes de trilha sonora na época em que Conti ainda compunha seus scores para acompanhar as aventuras de um Stallone bem mais jovem. Nós pensávamos que esse problema já havia sido exorcizado, porém ele retornou com proeminência para assombrar os fãs em nada menos que dois scores do ano passado, este e Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015) – porém, ao menos no caso da recente trilha indicada ao Oscar de Morricone, os diálogos ficaram confinados a faixas específicas, sem atrapalhar a música. Aqui, eles costumam aparecer justamente em meio à música, não apenas impossibilitando que as falas ditas por Jordan e Stallone possam ser programadas de fora da audição, como também quase atrapalhando a audição de faixas como Meeting Rocky, Front Street Gym, Conlan Fight e Creed Suite. Afinal, a razão da existência de um disco de trilhas sonoras é para que fãs, amantes e críticos possam justamente escutar e apreciar a música, suas nuances e sutilezas fora do contexto do longa, sem os diálogos, os efeitos sonoros ou qualquer outro som da faixa de áudio dos filmes. Incluir diálogos ou outros sons do filme é quase tão prejudicial para a audição quanto, por exemplo, a aparição de microfones ou câmeras nas cenas dos filmes.

Esse puxão de orelhas de lado, Creed: Nascido para Lutar ainda é um ótimo e surpreendente score, que mostra que Göransson é um músico talentoso e com um grande futuro pela frente. Assim como Adonis triunfou perante o legado de Rocky e de seu pai, Apollo, o sueco foi capaz de compor um tema que, ainda que não seja tão memorável quanto o de Conti (isso, só o tempo realmente dirá), possui qualidades suficientes para se tornar tão referente quanto seu predecessor. O primeiro Rocky foi o filme que efetivamente lançou a brilhante carreira de Bill Conti e, a depender da qualidade desse score de Göransson, ele também tem tudo para ser bem sucedido no mundo da Música de Cinema.

Faixas:

1. Juvy (02:19)
2. Adonis (02:27)
3. Meeting Rocky (04:02)
4. Conlan (Redemption) (01:28)
5. Grip (Interlude) (02:05)
6. First Date (02:30)
7. Moving In With Rocky (01:20)
8. Breathe (Interlude) (02:27)
9. Front Street Gym (03:21)
10. The Sporino Fight (04:34)
11. Shed You (Interlude) (02:40)
12. I Got You (01:02)
13. Rocky Is Sick (02:17)
14. Caught In The Shadow (01:20)
15. If I Fight, You Fight (Training Montage) (04:54)
16. Boxing Shorts (01:43)
17. Conlan Fight (06:37)
18. You’re a Creed (04:26)
19. You Can See The Whole Town From Here (02:11)
20. End Credits – Creed (03:08)
21. Creed Suite (02:36)

Duração total: 59:27

Tiago Rangel

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