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Resenha de Arquivo (Trilha Sonora): V FOR VENDETTA – Dario Marianelli


v_vendettaCDMúsica composta por Dario Marianelli
Selo: Astralwerks
Catálogo: ASW 58414
Lançamento: 21/03/2006
Cotação: star_3

Até meados da primeira década dos anos 2000, a carreira cinematográfica do compositor italiano Dario Marianelli estava restrita a produções de seu país, ou então pouco conhecidas. Até que, em 2005, ele criou duas obras de alta qualidade para filmes de língua inglesa – Os Irmãos Grimm (The Brothers Grimm) e Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice), esta última sendo inclusive indicada ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original. Com trabalhos caracterizados por belas harmonias, estruturas melódicas vibrantes e elaboradas orquestrações, à época Marianelli conquistou com justiça o reconhecimento de público e crítica, o que o tornaria a escolha certa para compor, ainda no mesmo ano, o score de V de Vingança (V for Vendetta, 2006), versão cinematográfica da graphic novel de Alan Moore publicada nos anos 1980, produzida pelos irmãos Wachowski (trilogia Matrix).

V (Hugo Weaving) é um sujeito misterioso que combate, num futuro próximo, o governo ditatorial na Inglaterra, com o rosto sempre coberto por uma sorridente máscara de Guy Fawkes (que, em 05 de novembro de 1605, quis explodir o Parlamento inglês). V salva a jovem Evey (Nathalie Portman) de agentes do governo, e a partir daí seus destinos ficam entrelaçados. Caçado pela polícia, V desvenda segredos do governo (que envolvem seu próprio passado) e prepara a explosão do Parlamento, anunciada para o dia 05 de novembro. Ao mesmo tempo os ideais de V, lentamente, começam a se propagar entre a população.

Como se nota, os elementos da trama deste filme cult ofereciam para o compositor óbvias e variadas possibilidades de tratamento musical para representar a figura romântica do protagonista (“um humilde veterano do vaudeville”, como se apresenta), seu envolvimento platônico mas profundo com Evey, a sombria ditadura fascista e até mesmo os elementos mais comuns do suspense e da aventura. Contudo, Marianelli optou por caminhos mais sutis. O roteiro destacava uma composição que não é de sua autoria, a “1812 Overture”, conhecida obra de Tchaikovsky inspirada pela fracassada invasão da Rússia pela França, durante as Guerras Napoleônicas de 1812. Ela é ouvida isolada no início do filme, durante o primeiro atentado de V. E nos dois minutos finais da faixa de encerramento “Knives and Bullets (and Cannons Too)”, enquanto na tela fogos explodem no céu, contemplados por milhares de pessoas usando máscaras de Fawkes, Marianelli integra de forma impressionante a grande obra de Tchaikovsky à sua partitura. Deste modo ele garante que, no lugar de uma composição original sua, esta será a peça musical que ficará nas mentes dos espectadores comuns, já que é ouvida de forma eloquente no clímax, o momento mais forte e simbólico da produção.

Provavelmente o leitor já desconfiou que, também neste caso, ocorre o problema recorrente da maioria das trilhas originais de hoje, que é a falta de temas principais marcantes. De fato, aqui Marianelli compõe com força, mas seu impacto emocional no ouvinte é atenuado. O compositor utiliza recorrentemente uma progressão de quatro notas – com maior ênfase em “Evey Reborn” – que simboliza tanto o crescimento da revolução de V como o desenvolvimento da personagem Evey, mas isto, por si, está longe de poder ser considerado um tema memorável, por ser incapaz de provocar no ouvinte uma maior conexão com o score como um todo. Dado o destaque já citado à criação de Tchaikovsky, neste caso pode ter havido um movimento deliberado (até inesperado), talvez inerente à mente criativa do compositor que, corajosa e não ambiciosa, pensou mais no conjunto do que em satisfazer seu próprio ego.

Marianelli criou um score de pretensões mais modestas que as de, por exemplo, The Brothers Grimm. No lugar da variedade e riqueza daquele, temos aqui a predominância de harmonias para cordas, apoiadas por vigorosas intervenções de metais e percussão militar. Também de modo diverso daquele trabalho, este score sombrio apresenta instrumentação eletrônica, bem equilibrada com a orquestra, de modo a lembrar ao espectador que o filme se passa num futuro (alternativo?) bem próximo. Mas a partitura de V for Vendetta também é mais modesta em paixões e emoções, algo que enriquecia a partitura de Pride and Prejudice. E talvez esteja nesta área a limitação maior deste trabalho: a ausência do romantismo que Marianelli demonstrou anteriormente, e que seria perfeito para caracterizar Evey e seu relacionamento não consumado com V, por exemplo. Ao contrário, aqui o compositor opta por tonalidades mais subliminares e contidas, sendo a maior exceção a tocante “Valerie”, onde Marianelli emprega o piano de forma suave e lírica para conduzir a faixa, acompanhado de cordas e coral.

O problema de Marianelli, se é que pode ser chamado assim, decorre também da própria estrutura do longa, que relega o alto drama, a ação e os efeitos visuais a um plano muitíssimo secundário e centra-se mais na despótica ameaça, na discussão das ideias motivadoras de V, na conscientização de Evey e, principalmente, na lenta propagação do seu movimento entre a população. Isto por si já exigiria uma partitura mais sutil, mas que, na minha opinião, poderia ser mais inspirada. Relativamente ao coral, este é composto de vozes adultas em apropriados crescendos. Não havendo uma oportunidade concreta de que as vozes soem com a majestade de outros trabalhos, o coral serve, basicamente, para aumentar o nível de dramaticidade e o senso de importância de determinadas faixas, como a sombria “Governments Should Be Afraid of Their People”, ou a eclesiástica “Lust at the Abbey”.

Dito tudo isso, contudo, quero deixar bem claro que, apesar de não ser tão satisfatória quanto seus outros trabalhos de 2005, V for Vendetta está longe de ser uma trilha sonora ruim. Ao contrário da maior parte de partituras que são atualmente produzidas, é uma obra sólida; mas que em disco, separada das imagens, mostra ser uma audição de assimilação mais difícil, provavelmente graças à falta de maior variação no material. Ainda assim, deve ser reconhecida a capacidade que Marianelli teve ao transpor para sua música, com razoável dose de sucesso, os tons sombrios e o clima político, opressivo do filme, e igualmente a de lançar mão (de forma inteligente) da obra de Tchaikovsky.

Também fazem parte do álbum três canções – “Cry Me a River”, “I Found a Reason” e “Bird Gerhl”, que diferentemente do que normalmente ocorre, complementam de forma adequada o score e a própria história do filme.

Faixas:

1. Remember Remember
2. “Cry Me a River” (Julie London)
3. “Governments Should Be Afraid of Their People”
4. Evey’s Story
5. Lust at the Abbey
6. The Red Diary
7. Valerie
8. Evey Reborn
9. “I Found a Reason” (Cat Power)
10. England Prevails
11. The Dominoes Fall
12. “Bird Gerhl” (Antony & The Johnson)
13. Knives and Bullets (and Cannons Too)

Duração: 63:01

Jorge Saldanha

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