33_CDMúsica composta por James Horner
Selo: WaterTower Music
Catálogo: Download Digital
Lançamento: 06/11/2015
Cotação: star_4

A história do desastre numa mina no Chile, ocorrida em 2010, é cinematográfica por natureza: a mina de ouro e cobre de San José, de mais de 100 anos de idade, acabou colapsando numa catastrófica explosão, deixando 33 mineiros que lá trabalhavam enterrados vivos por mais de dois meses. Felizmente, graças aos esforços do governo, que conseguiu escavar até onde estavam os trabalhadores, todos os 33 foram resgatados com vida. Assim, pouco mais de cinco anos depois do acidente, chega aos cinemas o drama Os 33 (The 33, 2015), que conta justamente a história do desastre e do posterior resgate dos trabalhadores. O longa é uma produção chileno-americana, dirigido pela cineasta mexicana Patrícia Higgen e falado em inglês, com os principais personagens interpretados por atores hollywoodianos, como Antonio Banderas, Rodrigo Santoro e Juliette Binoche, o que irritou bastante gente, que queriam ver um elenco totalmente latino-americano no longa. Por outro lado, caso o filme não fosse produzido e estrelado por profissionais de Hollywood, provavelmente ele não seria capaz de trazer o compositor James Horner na trilha, em um de seus últimos trabalhos completados antes de sua trágica morte, em junho deste ano.

Durante a década de 1990 até meados dos anos 2000, um gênero em que Horner trabalhou bastante foi o de filmes de desastres, em que alguma catástrofe acontecia e deixava seus personagens expostos aos perigos da natureza, com seus obstáculos sendo superados com muita força e persistência. Apollo 13 (idem, 1995) é uma das melhores e mais famosas trilhas da carreira de quase 40 anos do músico, enquanto Impacto Profundo (Deep Impact, 1998) e Mar em Fúria (The Perfect Storm, 2000) são duas pequenas joias escondidas que merecem ser redescobertas, fora o fato que, de certa forma, o oscarizada Titanic (idem, 1997) também é um filme-desastre. Claro, se fossem feitos hoje, tais blockbusters dificilmente teriam sidos musicados por Horner, não apenas porque os gostos de Hollywood mudaram (provavelmente, para pior) nestes vinte anos, como também o próprio compositor não teria interesse neles.

“Mas, se for assim então, como ele acabou indo trabalhar em Os 33?”, você deve estar se perguntando. Em primeiro lugar, segundo informações do ótimo site James Horner Film Music, Horner se sentiu tocado e emocionado pela inacreditável história dos mineiros chilenos. Numa entrevista, a diretora Higgen declarou sobre Horner: “Ele só queria fazer filmes que ele realmente se importava, e ele queria fazer Os 33 porque o filme o emocionou profundamente, segundo ele me contou. Eu descobri que era verdade porque nós sentávamos juntos na sala de gravação e eu o via chorando quando nós chegávamos em determinados momentos do filme. Era algo que realmente o tocou”. Além disso, o longa não é nenhum caríssimo blockbuster de Hollywood, o que permitiu a Horner atingir o que ele mais buscava na fase final de sua carreira: compor trilhas menores, mais intimistas, com um elenco reduzido de músicos. Depois de passar a vida conduzindo orquestras enormes e corais, incluindo a renomada London Symphony Orchestra, Horner tinha o desejo de trabalhar em filmes nos quais ele precisasse explorar sua faceta dramática sem precisar recorrer a um elenco de mais de 100 músicos.

No caso de Os 33, o resultado é um score que, por conta da própria natureza do longa, traz ecos do Horner mais “épico” dos tempos de outrora, porém, com sua sensibilidade mais intimista e pessoal dos dias de hoje. Ou seja, imagine uma trilha com o arco musical de Apollo 13, por exemplo, porém interpretada por instrumentos tipicamente latino-americanos, como flautas e violões andinos, e um elenco de cordas reduzido, como os ouvidos em O Menino do Pijama Listrado (The Boy in the Stripped Pajamas, 2008) e, mais recentemente, em Nocaute (Southpaw, 2015). Pode parecer estranho, porém, o talento do compositor e suas belas melodias garantem que qualquer um que tenha apreciado sua música sairá satisfeito.

Dois temas principais conduzem o score. O primeiro é uma melodia gentil, calorosa, geralmente a cargo de instrumentos tipicamente latino-americanos. Na primeira faixa, The Atacama Desert, ele aparece junto a um clima mais abrasivo, que traz à mente o trabalho de Horner no faroeste Desaparecidas (The Missing, 2003). Tanto neste filme quanto em Os 33, o compositor procurou evocar a dureza das condições da vida nos cenários onde ambos os longas se ambientam (respectivamente, o interior do Novo México em 1885 e o deserto do Atacama) utilizando texturas eletrônicas, um baixo e um velho conhecido seu, o shakuhachi, uma flauta japonesa. Assim, em Os 33, o tema dos mineiros age como um contraste entre as duras condições de trabalho no deserto com sua personalidade humilde, gentil, porém, de certa forma resignada, com sua interpretação a cargo de um violão e uma flauta, lembrando, por exemplo, a faixa The Princess Pleads for Wallace’s Life, do score de Coração Valente (Braveheart, 1995). Na sequência, em Empanadas for Dario, o tema aparece de forma melancólica, com acompanhamento dos violinos minimalistas que Horner parecia valorizar tanto em seus últimos anos.

O outro tema representa a esperança mantida pelos mineiros enquanto aguardam por um resgate que pode ou não chegar. Ele é uma melodia folk, tipicamente da América Latina, aparecendo a cargo de um elenco de instrumentos locais, como flautas, violões (interpretados por dois antigos colaboradores de Horner, Tony Hinnigan e George Doering, respectivamente), e percussão típicos, incluindo palmas. Tal tema é introduzido na sexta faixa, Drilling, The Sweetest Sound!, e depois tem presença marcante em cues subsequentes como Prayer – Camp Hope e We Are All Well in the Refuge, The 33.

Porém, o destaque principal da trilha é como ela mostra que Horner, mesmo nos últimos anos de sua carreira, ainda sabia contar uma história com sua música. Ele tinha um talento especial para destacar os aspectos mais emotivos dos longas e, assim, manipular os sentimentos do público com relação à história, o que, claro, fez dele um animal em extinção em Hollywood e objeto de ódio dos críticos de cinema. Em The 33, se no início sua música descreve a amizade e a bondade dos mineiros, logo não demora muito para que o desastre aconteça e a vida dos trabalhadores fique por um fio. To the Heart of the Mountain, a terceira faixa, traz uma percussão quase industrial e cordas dramáticas, lembrando os momentos mais climáticos da trilha de Casa de Areia e Névoa (House of Sand and Fog, 2003), como Break-In e The Shooting, A Payment For Our Sins. Já The Collapse é um cue de ação em que Horner conduz a tensão contando para isso com seu elenco reduzido de cordas, percussão real e eletrônica e sintetizadores. Pode parecer incomum, e de fato é, para quem passou a vida toda ouvindo faixas do tipo, porém com orquestras maiores (e, em alguns casos, até mesmo coral), porém o talento do compositor faz com que ele consiga elevar a tensão e o nervosismo da situação.

Na sequência, com os trabalhadores já presos dentro da mina, a música de Horner é apropriadamente dramática, quase sem esperanças. Buried Alive traz de volta os efeitos eletrônicos e o shakuhachi da primeira faixa, porém agora combinados com violinos repletos de tristeza. Além disso, a primeira metade de Prayer – Camp Hope e The Drill Misses (and the dreams fade…) são repletas de melancolia e tristeza, conduzidas por cordas e uma harpa solitária. Na segunda, o tema principal ainda tenta emergir na flauta de Tony Hinnigan, como a esperança tentando brotar em meio à uma situação desesperadora, porém ele logo é engolido pela melancolia ao seu redor.

Aiming to Miss traz aqui pela primeira vez um piano, que conduz a melodia junto à harpa e a cordas sintetizadas, de forma minimalista, porém ainda lembrando ao espectador (e ao ouvinte) do perigo que os personagens correm. Novamente, o tema dos mineiros faz uma participação, como se representasse a esperança dos trabalhadores enquanto aguardam pacientemente o resgate. A dramática Always Brothers, porém, traz a flauta de Hinnigan, antes utilizada para descrever a esperança, de forma mais triste e oprimida, antes de uma bela participação do tema principal no violão.

A esperança, aos poucos, parece retornar, com Fénix trazendo cordas rítmicas e harpa, enquanto First Accent mostra um otimismo restrito, com um ligeiro senso de esperança, porém comedido, para evitar decepções, rumo a um final progressivamente mais tenso. Entretanto, quem acompanhou a história pelo noticiário na época sabe que tudo acabou bem para os mineiros, e Horner evoca a alegria da liberdade encontrada novamente pelos trabalhadores de forma exemplar. Celebrations começa com uma melodia para cordas e sopros reminiscente de seu clássico score para Tempo de Glória (Glory, 1989), e, em 1:27, um motivo seu que havia sido utilizado antes em Meu Pai, uma Lição de Vida (Dad, 1989) e na brilhante Lendas da Paixão (Legends of the Fall, 1994). Nesta mesma faixa, ele também acrescenta um coro (que pode ter sido sampleado nos sintetizadores), enquanto desenvolve os motivos do cue. Já Family is All We Have é mais contida e restrita, com o tema principal no violão de Doering acompanhado por cordas reflexivas.

O álbum conclui com duas suítes. A primeira, The 33, traz o tema mais otimista interpretado pelos instrumentos andinos, com um leve acompanhamento de cordas. Já Hope is Love (clássico título cafona de faixa do compositor) traz o tema principal em sua versão mais completa, com sua orquestração dominada por violão e cordas trazendo à mente os End Credits do disco de Bobby Jones: A Lenda do Golfe (Bobby Jones: Stroke of a Genius, 2004) – que também contou com Doering como violonista.

É triste imaginar que essa é a última trilha inédita de James Horner que iremos ouvir – pelo menos, enquanto não se confirmar toda a bizarra história de que ele havia escrito todo o score do remake de The Magnificent Seven antes das próprias filmagens do longa, de modo que ainda não é possível dizer o quanto de sua música será aproveitada no corte final. Apesar disso, porém, é reconfortante pensar que The 33 confirmou que nós fãs da Música de Cinema vimos em 2015 o lançamento de trabalhos nada menos que exemplares do grande compositor. Wolf Totem (idem, 2015) foi sua última incursão no mundo das trilhas orquestrais épicas e grandiosas, enquanto Nocaute (Southpaw, 2015) demonstrou que ele, taxado de repetitivo durante todas as décadas de sua carreira, estava disposto a arriscar e a sair de sua zona de conforto. Os 33, por sua vez, é uma combinação do minimalismo do Horner da atualidade com seu estilo mais emotivo que permeou seu trabalho desde, pelo menos, Coccoon (idem, 1985).

Mesmo sem ter orquestras grandiosas à sua disposição, seu trabalho aqui não traz os efeitos mais industriais e abrasivos de Nocaute, o que pode agradar aos fãs que foram pegos de surpresa pelo clima pesado e urbano daquela trilha. Além disso, conseguir produzir um score de qualidade utilizando poucos recursos deve ser um atestado do talento do compositor responsável. Que o espírito de James Horner descanse em paz pela eternidade, e que novos músicos sejam inspirados não apenas por seu talento musical, mas também por seu grande coração.

Faixas:

1. The Atacama Desert 1:59
2. Empanadas for Darío 1:45
3. To the Heart of The Mountain 2:29
4. The Collapse 4:13
5. Buried Alive 3:45
6. Drilling, The Sweetest Sound! 1:06
7. Prayer – Camp Hope 2:35
8. The Drill Misses (And Dreams Fade…) 5:39
9. Gracias A La Vida (Cote de Pablo) 4:50
10. Aiming To Miss 3:38
11. We Are All Well in the Refuge, The 33 3:46
12. Always Brothers 2:21
13. Fénix 2:31
14. First Ascent 4:58
15. Celebrations 3:55
16. Family Is All We Have 2:59
17. Al Final De Este Viaje En La Vida (Los Bunkers) 3:22
18. The 33 3:43
19. Hope is Love 3:36

Duração total: 63:10

Tiago Rangel
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