Daniel-craig-spectre

Resenha de Trilha Sonora: SPECTRE – Thomas Newman


Spectre CDMúsica composta por Thomas Newman
Selo: Decca
Catálogo: 4759509
Lançamento: 23/10/2015
Cotação:

Depois do sucesso sem precedentes de 007: Operação Skyfall (Skyfall, 2012), chega agora aos cinemas o que é, essencialmente, uma continuação direta daquele longa: 007 Contra Spectre (Spectre, 2015) traz o famoso agente inglês (Daniel Craig, reprisando aqui o papel pela quarta vez) enfrentando a sombria organização do titulo, que revela ser a responsável por todos os problemas que ele enfrentou nos três longas anteriores estrelados pelo ator. No elenco, um verdadeiro time dos sonhos de qualquer fã, incluindo as belas Monica Belucci e Léa Seydoux como Bond Girls, Andrew Scott e Christoph Waltz como os principais antagonistas, Dave Bautista como o capanga musculoso no melhor estilo Oddjob e Jaws, além do retorno do diretor de Skyfall, Sam Mendes. Infelizmente, porém, o filme não teve a mesma aclamação conquistada pelo anterior, graças a uma produção complicada do início ao fim, que incluiu um orçamento acima do previsto, conflitos entre a equipe do longa e a sua distribuidora, a Sony (revelados no que foi conhecido como o “Sony Hack” do ano passado), e o comportamento bizarro de seu astro principal, que, antes da estreia do longa, chegou a declarar que preferia cortar os pulsos a interpretar o papel de novo.

Claro, onde o diretor Mendes vai, também vai o seu compositor preferido, Thomas Newman. Graças ao cineasta inglês, Newman teve a oportunidade de musicar o que foi basicamente seu primeiro blockbuster de ação com Skyfall, e apesar da recepção mista da comunidade de trilhas sonoras e dos fãs, o compositor ainda conseguiu beliscar uma indicação ao Oscar – que pode ter tido mais a ver com a Academia querendo dar um “prêmio de consolação” a um filme relativamente prestigiado como Skyfall, um assunto que discuto com mais profundidade em meu texto sobre Mr. Turner (idem, 2014). Como dito no parágrafo anterior, a produção não foi nenhum parque de diversões para nenhum dos envolvidos, incluindo Newman, que chegou a dizer que estava “extremamente cansado” após a produção do longa.

Aparentemente por causa da produção apertada, Newman teve de começar a compor seu score quando o longa ainda estava sendo filmado, ao invés de iniciar seus trabalhos já na pós-produção, e foi graças ao talento e ao profissionalismo de Newman que a trilha não soou completamente desconjuntada. Mesmo assim, apesar de ser um trabalho esforçado do compositor, aqui e ali fica a impressão de que o score, como um todo, poderia ser melhor trabalhado, para se integrar mais organicamente ao longa que acompanha. Talvez se Newman tivesse tido mais tempo e calma para compor a trilha, ela pudesse ter saído mais polida.

A música aqui segue bem o estilo do score de Skyfall, com cordas frenéticas, trompas e percussão sintetizada e acústica nas faixas de ação, e ambientações eletrônicas para os momentos de suspense – o que significa que, caso você não tenha gostado da trilha do filme de 2012, provavelmente gostará menos ainda dessa aqui. A principal contribuição de Newman para Spectre são alguns temas novos para o longa. O tema da maléfica organização do título é uma perturbadora e desconcertante melodia para violinos atmosféricos, percussão sintetizada e efeitos eletrônicos distorcidos. Depois de ser sugerido no início do disco, ele aparece proeminentemente em faixas como Silver Wraith e a atmosférica A Reunion, que conseguem criar um senso de ameaça e perigo passados pela organização e por seu líder, o cruel Blof… digo, Oberhauser (talvez até melhor que o próprio filme).

Porém, quem é fã de longa data do compositor deve ficar feliz com algumas das novas adições à música de 007. Para as duas conquistas amorosas de Bond em Spectre, Newman cria melodias extremamente românticas e sensuais, como as ouvidas em Whisper of a Thrill, da trilha de Encontro Marcado (Meet Joe Black, 1998), até hoje seu love theme mais famoso. No disco do novo Bond, elas podem ser encontradas em faixas como Donna Lucia e Madeleine. Esta última, porém, é a principal Bond Girl no longa e, dessa forma, Newman decidiu não apenas musicar o seu romance com o agente, mas também dar maior profundidade à personagem, que traz consigo um passado traumático. Assim, quem assistir ao longa vai perceber que as vidas de Madeleine e Bond estão intimamente conectadas à Spectre, que conseguiu trazer muita dor e sofrimento a ambos. Dessa forma, Newman cria uma triste e melancólica melodia que, se no início aparenta ser o tema de Madeleine, na verdade pode ser interpretada como um tema para o passado de ambos, e a forma como conseguem superá-lo.

No disco, este tema é introduzido em pianos atmosféricos e cordas tristes aos 0:52 de Secret Room, e é reminiscente do estilo já consolidado por Newman em scores como Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994), O Encantador de Cavalos (The Horse Whisperer, 1998), Angels in America (idem, 2003), além de seus primeiros trabalhos com Mendes, Beleza Americana (American Beauty, 1999) e Estrada para a Perdição (Road to Perdition, 2002). Mais tarde, ele é trazido de volta em Safe House e depois de forma conclusiva e tocante em Out of Bullets, mostrando que, ao fim do longa, Bond e Madeleine finalmente puderam seguir com suas vidas, mesmo depois do que a Spectre fez com elas. Em seguida, Spectre (End Title) funciona como uma reprise de todos os principais temas novos do longa, como o tema da organização, o motivo romântico e o tema do passado de Madeleine e Bond.

Porém, um filme de James Bond não estaria completo sem seus tiroteios, perseguições e explosões (embora uma das principais críticas recebidas pelo longa foi que faltava ação nele). Como foi dito acima, o estilo aqui empregado por Newman é o mesmo de Skyfall, o que já seria de se esperar – afinal, se Skyfall foi o primeiro filme de ação do compositor, então Spectre foi o segundo. No disco, Backfire é a primeira faixa do tipo a aparecer, e combina cordas frenéticas, explosões de metais, guitarra, ligeiras participações do tema principal de Bond, percussão eletrônica e até um elemento pouco comum, tanto nas trilhas de 007 quanto na carreira de Newman: um coral feminino angelical, aos 2:15, remetendo ao fato de que tal faixa acompanha a perseguição de carro em Roma, passando pelo Vaticano. É um tipo de descrição musical meio óbvia, mas suponho que faz tanto sentido quanto, por exemplo, o duduk empregado quando os personagens hollywoodianos viajam para o Oriente Médio/Norte da África, ou violões andinos quando eles se encontram na América Latina. Tal elemento já havia aparecido antes, em The Eternal City, acompanhando a chegada de Bond à capital italiana.

Para a sequência que abre o longa, passada no México durante o Dia de Los Muertos (ou o Dia dos Mortos, um típico feriado do país), Newman, segundo os créditos do álbum, teve a ajuda de  Tambuco, que, segundo sua página na Wikipédia, é um premiado grupo mexicano de percussão contemporânea. Em Los Muertos Vivos Estan, o grupo faz uma bela participação, com sua percussão acompanhando o plano sequência que abre o filme, enquanto Newman contribui trazendo de volta o tema de Bond a cargo da orquestra e da guitarra, para retratar a volta do agente. Mais para a frente, Day of the Dead é uma das composições mais estranhas a aparecer num disco do compositor, parecendo ter sido retirada diretamente da celebração do Dia dos Mortos no México.

Snow Plane, por sua vez, tem como destaque uma ótima escrita para cordas, num frenético e tenso ostinato para violinos, cellos e violas, quase como se o compositor estivesse musicando um ataque de insetos, por exemplo. Tudo isso segue rumo a um final caótico e nervoso, com metais explosivos e uma heroica participação do tema de Bond nos trompetes. Hinx, por sua vez, traz arroubos violentos de metais e percussão e bastante tensão, ao passo em que Tempus Fugit é extremamente frenética e brutal.

O clímax do filme, em Londres, por sua vez, é acompanhado por alguns dos cues mais pesados já compostos pelo músico. As faixas Blindfold, Careless, Detonation e Westminster Bridge fluem com elegância e coerência ao longo de quase 15 minutos, aumentando progressivamente a tensão. Em Careless, Newman introduz um riff de guitarra junto à sua orquestra, quase remetendo a uma canção de hard rock ou heavy metal, enquanto na tensa Detonation ele utiliza tímpanos e outros instrumentos de percussão de maneira similar a alguns da última fase da carreira de James Horner, como Avatar (idem, 2009) e O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012), junto a uma frenética aparição do tema de Bond ao final. Encerrando o clímax, Westminster Bridge traz de volta a guitarra de Careless, com seu acorde interpretado não apenas pelo instrumento mas também pelos violinos, e um arroubo do tema do agente nos trompetes.

É justo notar que Newman consegue manter a tensão durante as sequências mais explosivas do longa, mas, de minha parte, senti falta de uma maior participação dos metais. Newman, talvez por opção artística, escolheu não utilizar a escrita elegante de John Barry (ainda o rei das trilhas de Bond) ou mesmo os metais frenéticos e cheios de adrenalina dos anos de David Arnold. Ele optou apenas por arroubos explosivos de sua seção de metais, ora interpretando o tema do agente, ora repetindo um pequeno motivo para trompas que permeia quase todas as faixas de ação do disco, mas sempre relegando-os a um papel mais secundário do que seria o costume (principalmente no caso de Bond). Além disso, a constante presença de instrumentos eletrônicos (que sempre fizeram parte da carreira de Newman desde seus anos iniciais, lá na década de 1980) pode irritar os fãs de longa data, mas felizmente aqui eles surgem bem integrados com a orquestra, remetendo a 007 Marcado para a Morte (The Living Daylights, 1987), de Barry, ou aos trabalhos de Arnold na fase de Pierce Brosnan como Bond.

Também é de se notar a ausência da principal música tema do longa, Writing’s on the Wall, a cargo do jovem cantor inglês em ascensão Sam Smith. Esta foi a terceira vez que a canção tema de um filme de Bond não aparece na trilha oficial: as duas anteriores foram com You Know My Name, de 007 – Cassino Royale (Casino Royale, 2006), e com a própria Skyfall, tema do filme de mesmo nome. E tudo isso é ainda mais estranho quando consideramos que Newman possui o costume de introduzir canções de terceiros em seus discos. Por outro lado, imagino que isto tenha acontecido justamente porque o compositor não teve participação alguma em sua criação, tanto na canção vencedora do Oscar de Adele, quanto no caso de Writing’s on the Wall. Assim, embora comercialmente, tal ausência seja discutível (ambas foram sucesso de público), ao menos os discos as compensam com versões instrumentais das canções, aqui aparecendo na décima quinta faixa, acompanhando, no filme, uma cena de amor entre Bond e Madeleine.

É difícil recomendar a trilha de Spectre. Por mais que Newman tenha se esforçado, a produção complicada do filme e sua própria inexperiência com blockbusters repletos de ação e efeitos especiais podem ter entrado no caminho. Tal trilha provavelmente será a última de Newman para o agente secreto, já que Mendes declarou (várias vezes) que não pretende voltar para um próximo Bond, e ele foi o principal responsável pela entrada de Newman. Eu consegui apreciar bastante os novos temas compostos por ele para o longa, ou mesmo a energia por vezes brutal de suas faixas de ação, porém seu score dificilmente agradará aos fãs do agente secreto ou mesmo aos admiradores do compositor. Caso, mesmo assim, você queira arriscar, recomendo não ter a mente fechada para o que “deveria” ser uma trilha de Bond, ou ao menos assistir ao longa antes.

Faixas:

1. Los Muertos Vivos Estan (02:48)
featuring Tambuco Percussion Ensemble
2. Vauxhall Bridge (02:19)
3. The Eternal City (04:34)
4. Donna Lucia (02:03)
5. A Place Without Mercy (01:04)
6. Backfire (04:54)
7. Crows Klinik (01:41)
8. The Pale King (02:55)
9. Madeleine (02:58)
10. Kite In A Hurricane (02:09)
11. Snow Plane (05:24)
12. L’Americain (01:42)
13. Secret Room (05:22)
14. Hinx (01:21)
15. Writing’s On The Wall (Instrumental Version) (02:10)
16. Silver Wraith (02:15)
17. A Reunion (05:36)
18. Day Of The Dead (01:26)
featuring Tambuco Percussion Ensemble
19. Tempus Fugit (01:21)
20. Safe House (03:55)
21. Blindfold (01:28)
22. Careless (04:39)
23. Detonation (03:53)
24. Westminster Bridge (04:14)
25. Out Of Bullets (01:51)
26. Spectre (End Titles) (05:40)

Duração total: 79:42

Tiago Rangel

6 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: SPECTRE – Thomas Newman”

  1. Adoro esse compositor. A melhor pra mim é a lindíssima Out of bullets. Não canso de ouvir. Melancólica e tocante ao mesmo tempo.

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s