Jack Black stars in Columbia Pictures' "Goosebumps."

Resenha de Trilha Sonora: GOOSEBUMPS – Danny Elfman


Goosebumps_CDMúsica composta por Danny Elfman
Selo: Sony Classical
Catálogo: SK 513220
Lançamento: 23/10/2015
Cotação: star_3_5

Quem foi criança nos anos 1990/2000, certamente se lembra da franquia Goosebumps, uma série literária criada pelo escritor R.L. Stine, e que depois foi adaptada para a televisão. Com suas histórias de fantasmas, vampiros e outras criaturas, ela costumava botar medo na garotada da época (e provocar risos em seus pais). Em seu auge, a franquia foi um sucesso, vendendo a quantidade absurda de mais de 200 milhões de livros no mundo todo, porém, nos dias de hoje, estava condenada a virar uma memória infantil obscura para muitos jovens de vinte ou trinta anos. Porém, a franquia foi mais uma a ser atacada pela “febre da nostalgia” que tem atingido Hollywood nos últimos anos, e agora Monstros e Arrepios: Goosebumps (Goosebumps, 2015), retorna aos cinemas, numa comédia de horror para toda a família, e com sustos moderados, contrabalançados com muito humor para que até crianças possam assistir. O longa é estrelado por Jack Black, que, numa brincadeira metalinguística curiosa, interpreta o próprio Stine, aqui representado como um sujeito ranzinza e que deve, com a ajuda de dois adolescentes, combater as criaturas bizarras saídas das páginas dos seus livros.

Espere um pouco, um filme com comédia, terror, criaturas bizarras e baseado em algo da cultura pop esquecido no tempo? Claro que a escolha do compositor não poderia ser outra: Danny Elfman, que ao longo de trinta anos de carreira fez diversos filmes no mesmo estilo. Fãs do compositor ficarão estáticos de felicidade ao saber que o score de Goosebumps está bem enraizado no estilo que ele estabeleceu em suas trilhas para os filmes de Tim Burton nos anos 80/90, além de longas como Darkman: Vingança sem Rosto (Darkman, 1990) e Os Espíritos (The Frighteners, 1996). Afinal, por mais que o compositor tente diversificar sua carreira, trabalhando em diversos gêneros (incluindo documentários), ele sempre será mais conhecido pelos acompanhamentos orquestrais góticos e grandiosos para filmes sobre criaturas como fantasmas, alienígenas, o Batman e, agora, os seres macabros saídos da imaginação de Stine.

De certa forma, sua nova trilha é como uma prima próxima da citada Os Espíritos, Marte Ataca (Mars Attacks!, 1996) e partes de A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolate Factory, 2005). Ele pega “emprestado” um elemento do seu score de ficção científica sobre marcianos de Burton, o teremim, – que, por sua vez, foi influenciado por Bernard Herrmann e seu clássico O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, 1951) – provavelmente para remeter aos clássicos de terror e ficção da década de 1950, que fizeram parte da infância de Elfman (e, possivelmente, de Stine, que nasceu em 1943) tanto quanto Goosebumps foi para muitos milennials. Além disso, o coral, uma ferramenta que Elfman simplesmente adora, aqui é usado de forma eficiente e grandiosa junto à orquestra. Junte as vocalizações do coro, o teremim e a orquestra sempre enérgica de Elfman, e você terá a trilha perfeita para um filme que é assustador, mas sem perder a piada, provavelmente por remeter a longas que, hoje, são tidos como “cafonas”. O tema principal, que aparece de forma chamativa na faixa inicial, utiliza todos esses elementos para dar uma ideia de como será o score.

Depois disso, é praticamente ação incansável do início ao fim. Afora um ou outro momento para respiro, uma parte imensa do disco é dedicada a mostrar Elfman fazendo o que faz de melhor: complexas e agitadas melodias orquestrais, cheias de ação e terror, alternando com alguns pequenos trechos cômicos (afinal, ainda é um filme para toda a família estrelado por Jack Black). Claro, a imensa maioria das faixas são relativamente curtas, mas todas são tão similares que o disco flui quase que como uma longa suíte para coro e orquestra. Dentre elas, destacam-se a épica Capture, que, com trompetes enérgicos, pratos e cordas frenéticas, é a típica faixa de ação “elfmaniana”; Slappy’s Revenge, que surge como uma mistura dos temas relacionados aos vilões de Batman: O Retorno (Batman Returns, 1992) com o já citado teremim dos marcianos de Marte Ataca; e a complexa Bus Escape, que traz o tema principal (provavelmente feito para representar os monstros que atacam os heróis) em enérgicos metais, acompanhados de coro e ostinatos frenéticos de violinos.

Lawn Gnomes provavelmente deve ser a faixa de ação mais grandiosa já composta para musicar um confronto com gnomos de jardim, e mostra mais uma vez o talento de Elfman e seu orquestrador Steve Bartek (que o acompanha desde a época do Oingo Boingo) para melodias complexas e orquestrações detalhadas. Já a décima terceira faixa Mantis Chase também é um ótimo cue, em que toda a orquestra californiana (regida pelo seu colaborador habitual Pete Anthony) é levada ao limite, sem que nenhuma sessão dela seja deixada de fora da festa de horror de Elfman. Aqui, os sopros rápidos e enérgicos e a percussão me lembraram vagamente de Zam the Assassin and The Chase Through Coruscant, da trilha de John Williams para Star Wars Episódio II: Ataque dos Clones (Star Wars Episode II: Attack of the Clones, 2002). O clímax, porém, é acompanhado por They’re Here, uma marcha ameaçadora que inclui também o coro, o teremim e até mesmo um órgão, lembrando um pouco o trabalho do músico na recente animação (e também gótica) Frankenweenie (idem, 2012), e Farewell, que começa dramática, mas logo incorpora mais ação, com participação do tema dos monstros, vocalização do coro, percussão e pratos, porém rumo a um final feliz, indicando o fim da batalha contra as criaturas. Credits, na sequência, é uma suíte repleta de tensão, conduzida por toda a orquestra, além de piano e celesta.

Em meio a tanta ação, como já foi dito, há alguns momentos mais leves e outros mais românticos e melancólicos, remetendo à relação entre os três protagonistas: os adolescentes Zach e Hannah e o pai desta, Stine. A bela Ferris Wheel traz um ar mágico e sonhador com sua melodia para cordas, madeiras e celesta, ao passo em que Camcorder tem um clima romântico. Ghost Hannah traz um triste solo de cello na orquestração, enquanto Hannah’s Back é mais otimista e calorosa.

Duas coisas, porém, impedem o disco de ganhar uma nota mais alta: a primeira é que nada disso é novo para Elfman. Ele já compôs esse mesmo tipo de trilha antes, principalmente nos anos 1990, e de forma mais memorável. A segunda, bem mais grave, é a organização do próprio álbum, simplesmente uma das piores que já vi até hoje. Veja bem: as 17 primeiras faixas, aparentemente, cobrem música do filme todo (sendo que a décima sétima é a dos créditos finais) e, se o disco tivesse apenas elas, seria um álbum eficiente, altamente energético e divertido, e todo mundo ficaria feliz. O problema é que alguém, aparentemente, deve ter se lembrado dos tempos sombrios em que os discos de trilha sonora, devido ao tamanho limitado dos CDs ou LPs, não poderiam conter todo o score e, assim, limitavam os discos apenas aos destaques das trilhas, ou, o que era pior, deixar boa parte de sua duração para as canções, mais comerciais, e limitar a trilha original a uma ou duas faixas – o que costumava gerar verdadeiras aberrações, como a partitura de Alan Silvestri para o primeiro De Volta para o Futuro (Back to the Future, 1985), cujo clássico score só foi ganhar uma edição completa em 2009, pela Intrada. Assim, aproveitando que hoje tais discos são cada vez mais raros (graças às famosas “Edições Especiais”, ou aos bootlegs que existem aos montes na internet), esse “alguém” não quis que acontecesse o mesmo com Goosebumps, e tratou logo de enfiar de qualquer jeito o restante da trilha que faltava no disco.

Porém, ao invés de adicionar os cues restantes respeitando o fluxo da música no disco e a ordem do filme, eles simplesmente os amontoaram depois de Credits como bonus tracks. E são muitas: 12 delas, totalizando 23 minutos de música adicional, pouco mais do que a metade dos 41 minutos ouvidos até então. Claro, eu não estaria reclamando tanto se as tais “faixas adicionais bônus” fossem ao menos interessantes ou contribuíssem para o score, mas a imensa maioria delas são cues bem curtinhos, cômicos, mas que não vão a lugar algum, e são o tipo de faixas que eu imagino ter sido obra de compositores adicionais. Algumas boas exceções, porém, são Werewolf, Panic e On the Run, repletas de ação, com a última sendo inesperadamente pesada, trazendo ecos do trabalho de Elfman em Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 2001) e Dragão Vermelho (Red Dragon, 2002), mas mesmo elas poderiam ter sido programadas junto à trilha principal, respeitando, claro, o fluxo e o desenvolvimento da música (dica: da próxima, basta seguir a ordem do filme). Normalmente, defendo que a melhor forma de apreciar a trilha de um filme é em sua completude, principalmente quando é um trabalho particularmente complexo, como por exemplo, os trabalhos de Williams na franquia espacial de George Lucas ou os de Howard Shore para a Terra-Média, mas, no caso de Goosebumps, considerando simplesmente a apreciação da trilha no disco, não acho que faria mal deixar de fora boa parte dessas bonus tracks.

Mesmo assim, os fãs de Elfman não terão muito do que reclamar aqui. Afinal, ele está de volta ao território em que ele conhece bem. E, se eu aprecio quando compositores saem fora de sua zona de conforto, também gosto de ver quando eles continuam exibindo um domínio invejável dela, mesmo muitas décadas de carreira depois. Como diria Tolkien, Elfman esteve “lá e de volta outra vez”, e continua a mostrar porque ele ainda continua no topo de trilhas fantásticas e aterrorizantes.

Faixas:

1. Goosebumps (02:11)
2. Ferris Wheel (04:44)
3. To The Rescue (01:16)
4. Camcorder (01:37)
5. Ice Rink (04:01)
6. Capture (01:11)
7. Slappy (01:48)
8. Confession (02:05)
9. Slappy’s Revenge (01:43)
10. Bus Escape (01:54)
11. Lawn Gnomes (02:52)
12. Ghost Hannah (00:54)
13. Mantis Chase (02:18)
14. Hannah’s Back (02:54)
15. They’re Here (02:29)
16. Farewell (05:28)
17. Credit (02:14)
18. Something’s Wrong (Bonus Track) (00:55)
19. Champ (Bonus Track) (01:18)
20. Break in (Bonus Track) (01:31)
21. The Books (Bonus Track) (04:24)
22. Instagram (Bonus Track) (01:48)
23. Floating Poodle (Bonus Track) (01:09)
24. Werewolf (Bonus Track) (03:16)
25. Lovestruck (Bonus Track) (01:00)
26. Panic (Bonus Track) (02:42)
27. On The Run (Bonus Track) (00:58)
28. Fun House (Bonus Track) (03:32)
29. The Twist (Bonus Track) (00:25)

Duração total: 64:37

Tiago Rangel

3 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: GOOSEBUMPS – Danny Elfman”

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