Resenha de Trilha Sonora: BRIDGE OF SPIES – Thomas Newman


bridge_spies_CDMúsica composta por Thomas Newman
Selo: Hollywood Records
Catálogo: Download Digital
Lançamento: 16/10/2015
Cotação: star_4

Entre os meses de Janeiro e Fevereiro de 1983, nos famosos estúdios Abbey Road, em Londres, a London Symphony Orchestra se reunia mais uma vez para gravar a trilha de O Retorno de Jedi (The Return of Jedi, 1983), o grande blockbuster daquele verão, que prometia trazer o encerramento épico à saga Star Wars (mal sabiam eles que outros três filmes viriam nas décadas seguintes, e com mais um prestes a estrear no fim deste ano). Regendo a lendária orquestra londrina, estava o compositor responsável pela música, John Williams, que, na década anterior havia tido uma ascensão meteórica ao estrelato, graças à clássicos do calibre de Tubarão (Jaws, 1975), Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977), Superman: O Filme (Superman, 1978), Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981), E.T.: O Extraterrestre (E.T., 1982), que viria a lhe render seu terceiro Oscar de trilha sonora poucos meses depois, e, claro, os dois primeiros filmes da trilogia criada por George Lucas, Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977) e O Império Contra Ataca (The Empire Strikes Back, 1980). O orquestrador “oficial” daquele score era Herbert W. Spencer, colaborador habitual de Williams naquela época. Porém, trabalhando junto à equipe do maestro, estava também um jovem músico promissor, na época com 27 anos: Thomas Newman.

Williams sempre foi próximo da família Newman, provavelmente o clã mais poderoso da história das trilhas de cinema. Afinal, o pai de Thomas, o legendário Alfred Newman, um dos “pais fundadores” dos film scores, ajudou um jovem “Johnny” Williams no início de sua carreira, oferecendo a ele trabalhos como pianista em muitas das suas trilhas. Os dois se tornaram grandes amigos, com Alfred servindo de mentor para Williams, e auxiliando-o a entrar no mundo das trilhas sonoras. Assim, quando finalmente deixou de ocupar o posto de “aluno” e passou para o de “mestre”, Williams percebeu que teria como retribuir ao seu velho amigo, oferecendo uma oportunidade imperdível para seu filho “Tommy”, então um jovem cheio de potencial, para trabalhar no score do seu aguardado blockbuster. Quer ver e ouvir ao primeiro trabalho de Thomas Newman para o cinema? Então tire aquele seu empoeirado DVD (ou Blu Ray) de O Retorno de Jedi da estante e pule para a cena em que Darth Vader morre, para ouvir a trilha composta por Williams e orquestrada por Newman. Um ano depois, ele ganharia seu primeiro trabalho como compositor solo, para o drama Jovens sem Rumo (Reckless, 1984), e o resto é história.

Vindo do sucesso de scores como 007: Operação Skyfall (Skyfall, 2012), Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks, 2013) e O Juiz (The Judge, 2014), foi com certa surpresa que Newman foi anunciado como o compositor do novo longa de Steven Spielberg, Ponte dos Espiões (Bridge of Spies, 2015). Afinal, a saúde de Williams, compositor oficial de Spielberg pelas últimas quatro décadas, estava debilitada, e ele já estava comprometido com o novo Star Wars. Já um senhor de 83 anos de idade, Williams simplesmente não tinha mais energia para trabalhar em dois filmes tão complicados e distintos como esses. Mesmo assim, o longa ainda precisaria de alguém para musicá-lo. Quem Spielberg chamaria? Discípulos do grande maestro, como Joel McNeely ou Michael Giacchino? O ocupado, porém sempre confiável Alexandre Desplat? Hans Zimmer, de quem Spielberg é um fã assumido? Porém, diante de escolha tão complicada, Williams não teve dúvidas: sugeriu a Spielberg que confiasse em Newman, seu antigo aprendiz, e que se tornou, na opinião do famoso maestro, “um dos compositores mais impressionantes de sua geração”.

Ponte dos Espiões, o segundo filme para os cinemas de Spielberg sem trilha de Williams (o anterior foi A Cor Púrpura, em que o produtor executivo Quincy Jones insistiu em compor a trilha), é um thriller passado durante a Guerra Fria, e conta a história de James Donovan (Tom Hanks), um advogado contratado para defender Rudolf Abel (Mark Rylance), acusado de ser um espião soviético. Algum tempo depois, quando um avião americano sobrevoando a Rússia é abatido e seu piloto, o tenente Francis Gary Powers (Austin Stonewell), é capturado pelos soviéticos, os americanos enviam Donovan à Berlim Oriental para uma troca: um espião pelo outro.

É interessante, e muito reconfortante, notar que Newman não tentou simplesmente imitar Williams em seu score. Afinal, por maior que seja a afinidade entre eles, os dois homens simplesmente são compositores muito diferentes, com estilos distintos, e muito característicos. Williams ainda escreve suas composições com papel e caneta, Newman adora trabalhar com sintetizadores, elementos eletrônicos e de sound design, e instrumentos incomuns junto à sua orquestra. Em suma: filme de Spielberg ou não, Ponte dos Espiões ainda é um score muito enraizado no típico estilo Newman, e, melhor ainda, no Newman ouvido nos anos 1990 e início dos 2000 – de longe, sua melhor fase. E eu fico muito feliz de saber que, depois de um período, na segunda metade da década passada, que eu considero ser o mais fraco de sua carreira (tirando seus obscuros trabalhos nos anos 1980, claro) e que engloba trilhas das quais eu não sou lá um grande fã, como O Segredo de Berlim (The Good German, 2006) e Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road, 2009), que Newman, com scores como esse, O Juiz  e Walt nos Bastidores de Mary Poppins, esteja retornando ao estilo que o consagrou (não que ele tenha se afastado muito, porém).

O tema principal do score, por exemplo, traz excelentes recordações da obra prima do compositor: Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994). Tal como aquele maravilhoso trabalho (certamente um dos melhores das últimas décadas), Bridge of Spies traz um tema principal primariamente orquestral, nobre, otimista e esperançoso, e aqui é relacionado ao Donovan de Tom Hanks. Porém, enquanto o tema do drama dirigido por Darabont é mais abertamente sentimental e grandioso, falando sobre a liberdade aspirada pelos personagens do filme, o do atual longa é mais comedido, porém ainda repleto de dignidade, nobreza e o heroísmo do homem comum a la Frank Capra – a principal referência de Spielberg aqui, segundo os críticos de cinema, e bem retratado por Newman com sua música. Ele aparece primeiro na segunda faixa, Sunlit Silence, após uma introdução com trompas patrióticas não muito diferentes das utilizadas por Williams em Cavalo de Guerra (War Horse, 2011) e Lincoln (idem, 2012), numa bela melodia para cordas típica do músico, reminiscente não só de Shawshank, como também de seu belíssimo score para a minissérie da HBO Angels in America (idem, 2003).

Porém, durante boa parte do disco, o tema de Donovan fica ausente, com pequenas participações nas madeiras ao final de Standing Man, por exemplo. A maior parte da trilha traz texturas orquestrais e eletrônicas cheias de suspense, e tensos ostinatos de cordas e pianos ansiosos, utilizados por ele para manter a ação fluindo em longas tão distintos quanto seu trabalho no último 007 e nas animações da Pixar. Faixas como Ejection Protocol, Rain, West Berlin e Friedrichstraße Station são bons exemplos disso. Enquanto isso, a citada Standing Man e Private Citizen farão a alegria dos fãs de longa data do sujeito, com suas tocantes e atmosféricas texturas de cordas, piano e sintetizadores, ouvidas em obras como O Encantador de Cavalos (The Horse Whisperer, 1998), À Espera de um Milagre (The Green Mile, 1999) e Estrada para a Perdição (Road to Perdition, 2002).

Além disso, é digno de nota também a inclusão de elementos musicais do Leste Europeu na trilha. Newman é um sujeito que não perde a oportunidade de utilizar instrumentos e orquestrações incomuns (pelo menos do ponto de vista da música orquestral ocidental), e um filme como Ponte dos Espiões simplesmente pedia por este tipo de música. Um coral russo sombrio aparece logo na primeira faixa, Hall Of Trade Unions, Moscow, lembrando um pouco a trilha de Hans Zimmer para O Pacificador (The Pacifier, 1997), por exemplo. Mais para a frente, The Wall faz uma bela integração entre o coro eslávico e a orquestra, mais ou menos como James Horner fez na trilha para outro filme que também lidava com a União Soviética, Círculo de Fogo (Enemy at the Gates, 2001). Trilhas como essa e Oscar e Lucinda (Oscar and Lucinda, 1997) mostram o quanto Newman é bom quando escreve para o coral, e é uma pena que ele faça isto tão raramente. Representando o outro lado da Guerra Fria, porém, estão metais grandiosos e militaristas em The Article, não muito diferentes das trompas utilizadas por ele no tema de M em Skyfall ou para representar o juiz de Robert Duvall no filme do ano passado.

As últimas três faixas do álbum fazem um apanhado de todas as ideias levantadas até então, num clímax satisfatório. Glienicke Bridge, que acompanha a troca de espiões, começa com melodias melancólicas e tristes para orquestra e piano, cheias de dúvida e apreensão, visto que qualquer erro ali poderia levar a uma catástrofe. Aqui e ali há participações das balalaikas e do coro eslávico, representando os soviéticos, e das trompas, para os americanos, mas de um modo geral, a tensão da troca de prisioneiros domina boa parte dos mais de 10 minutos da faixa. Porém, mais para o fim da faixa, metais e percussão militar confirmam que tudo deu certo, num trecho grandioso e heroico.

Em seguida, a longa Homecoming é completamente baseada no tema principal, numa amável e calorosa melodia orquestral, com belas participações de piano, violão e flautas, representando, como o próprio título indica, a volta para casa de Donovan e Powers, e sua recepção. Claro que, novamente, os críticos acusaram Spielberg e a música de seus filmes de ser extremamente emocional e de manipular o público, porém, quem aprecia as melodias mais tocantes de Newman também vai gostar bastante da faixa. E, encerrando o disco, Bridge of Spies (End Title) serve como um resumo de toda a trilha: os corais russos, os tensos pianos e ostinatos de cordas e, ao fim da faixa, uma última e bonita performance do tema de Donovan.

É incerto ainda se Newman irá virar o novo compositor de Spielberg, ainda mais porque Williams já está marcado para trabalhar no próximo longa do diretor, a aventura The BFG, com estreia marcada para julho do ano que vem. Porém, Ponte dos Espiões é um começo com o pé direito para a potencial parceria da dupla. E, se com Williams os filmes do diretor de E.T. costumam ser um ímã para indicações ao Oscar de trilhas sonoras (e potenciais vitórias), uma indicação para Newman no fim do ano não seria surpreendente, ainda mais com todo o amor (infelizmente, ainda não consumado numa estatueta) que a Academia sente pelo sujeito. Trinta e dois anos atrás, ao retribuir a oportunidade ganha em sua juventude e ajudar o filho de um amigo, Williams deu início à carreira de um dos músicos mais talentosos de sua geração, e agora entrega a ele uma nova oportunidade, com potencial de alterar novamente a carreira de Newman: a chance de trabalhar com Steven Spielberg. É uma oportunidade e tanto, que pode ser até meio assustadora. Porém, Thomas Newman fez por merecê-la.

Faixas:

1. Hall of Trade Unions, Moscow 0:43
2. Sunlit Silence 4:04
3. Ejection Protocol 1:56
4. Standing Man 2:11
5. Rain 1:21
6. Lt. Francis Gary Powers 3:04
7. The Article 1:36
8. The Wall 2:14
9. Private Citizen 1:35
10. The Impatient Plan 1:35
11. West Berlin 1:12
12. Friedrichstrasse Station 1:20
13. Glienicke Bridge 10:51
14. Homecoming 7:46
15. Bridge of Spies (End Title) 6:57

Duração total: 48:25

Tiago Rangel
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8 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: BRIDGE OF SPIES – Thomas Newman”

  1. Essa trajetória do Thomas Newman explica a forte influência do estilo de Williams nessa trilha, o que de forma alguma é um contra, pelo contrário, funciona como uma bela homenagem. E sobre ele substituir o John Williams (tenho comigo que o velho mestre vai anunciar a sua aposentadoria depois de The BFG), creio que o Michael Giacchino é quem deveria cuidar das músicas das vindouras aventuras do diretor, visto que ambos não só trabalharam juntos antes, como a sua sensibilidade tem muito mais a ver com o estilo aventureiro e emocional de Williams.

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  2. Não gosto muito da ideia de um substituto no sentido literal da palavra. A aliança entre Spielberg e Williams fez história, mas acho que até mesmo em respeito à ela, em caso do “Johnny Love” se afastar do trabalho, seria interessante que o diretor trabalhasse com vários compositores. Sujeitos como Newman, Desplat ou Giacchino, ou até mesmo Brian Tyler, camaradas que não deixam a desejar frente a um trabalho com orquestra e compositores menos conhecidos, porém, com talento para receberem essa oportunidade.

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