The-Walk

Resenha de Trilha Sonora: THE WALK – Alan Silvestri


The_Walk_CDMúsica composta por Alan Silvestri
Selo: Sony Classical
Catálogo: 512267
Lançamento: 25/09/2015
Cotação: star_3_5

Desde sua fundação, em 1973, até a sua derrubada, no fatídico 11 de setembro de 2001, as Torres Gêmeas do World Trade Center foram consideradas como os prédios mais altos já criados. Seus mais de 110 andares se estendiam por mais de 400 metros rumo ao céu, mais altos do que qualquer outro edifício no coração de Manhattan. E foi sobre esta altura imensa que o artista circense francês Philippe Petit realizou sua façanha mais famosa: ele atravessou, sobre um fino cabo de metal, do terraço de uma Torre para a outra, indo e voltando, por mais de 45 minutos – e sem equipamentos de proteção, que ele acreditava que prejudicariam sua performance. O novo filme do renomado diretor Robert Zemeckis, A Travessia (The Walk, 2015), atualmente em cartaz nos cinemas tupiniquins, narra justamente esta inacreditável história real, mostrando como Philippe (Joseph Gordon-Levitt) se apaixonou pelas Torres Gêmeas, e montou uma equipe para ajudá-lo na façanha de atravessá-las no ar (tudo, claro, sem a autorização da polícia e das autoridades nova-iorquinas). Musicando o longa está Alan Silvestri, em sua décima quinta colaboração com Zemeckis.

De certa forma, o filme, da forma como foi concebido por Zemeckis e o roteirista Christopher Browne, representa um interessante desafio para qualquer compositor, jovem ou veterano, como é o caso de Silvestri. Ao invés de simplesmente se contentar em ser um típico drama biográfico, do tipo que vemos aos montes aportando nos cinemas na temporada de premiações hollywoodianas, o longa se equilibra (com o perdão do trocadilho) entre vários gêneros e estilos: parte comédia, parte aventura, parte trama de espionagem, parte filme de golpe e, sim, parte drama. Navegar por todas essas águas e sair incólume já seria uma tarefa árdua para qualquer músico, que pede por sutileza e cuidado para que a trilha seja coerente, e, infelizmente, Silvestri nunca foi um compositor muito sutil. Assim, ainda que, aqui e ali, ele erre ao transitar de um estilo de trilha sonora para o outro, felizmente, em ao menos um aspecto ele se sai extremamente bem: a música do ítalo-americano oferece o peso dramático necessário para dar uma dimensão tocante à jornada de Philippe.

Quem acompanha a carreira de Silvestri sabe que ele, nos últimos anos, tem procurado se afastar do estigma de compositor de trilhas bombásticas de ação, trabalhando em projetos como a série de documentários televisivos sobre o espaço Cosmos (idem, 2014), que lhe rendeu um Emmy, e o próprio A Travessia. E uma das bandeiras que mais defendo no universo dos film scores é que os compositores saiam de suas zonas de conforto, e trabalhem em projetos que, maiores ou menores do que os que eles estão acostumados, sirvam para desafiá-los a escrever música diferente da que estão acostumados a fazer. Assim, admiro o esforço de Silvestri em procurar diversificar sua carreira nos últimos tempos. Por outro lado, como mencionei no parágrafo anterior, A Travessia é um tipo de filme que pede por um score muito delicado, que saiba transitar por vários gêneros sem soar desconjuntada e, dos compositores atualmente na ativa, o único que considero ideal para este tipo de tarefa está atualmente ocupado finalizando sua partitura para um pequeno drama independente de baixo orçamento, chamado Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens, 2015).

Por outro lado, analisando a trilha de Silvestri para o longa, percebe-se que este ter trabalhado em um filme fora de sua zona de conforto foi extremamente benéfico para exercitar sua criatividade. De fato, seu score perpassa vários estilos (embora não exatamente da forma sutil como eu gostaria que fosse), mas ainda é uma tentativa válida do maestro ítalo-americano. A melhor parte do score ainda é o seu tema principal, que também age como um tema para Philippe. Ele aparece logo na primeira faixa, e consiste numa tocante melodia para cordas e piano, que mostra toda a determinação quase cega de Philippe em atingir seu insólito objetivo. Muitos podem argumentar que não é um tema muito original de Silvestri, e, de certa forma, eles teriam razão. A melodia lembra um pouco trilhas como as que James Horner compunha durante os anos 1990 e parte dos anos 2000, como O Homem sem Face (The Man Without a Face, 1993), Impacto Profundo (Deep Impact, 1998), O Homem Bicentenário (The Bicentennial Man, 1999) e Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001), mas, por outro lado, isto não me incomodou tanto porque, do ponto de vista da pura apreciação musical, é um dos temas mais belos do ítalo-americano nos últimos anos. Além disso, é válido notar que foi com Zemeckis que Silvestri compôs alguns de seus scores mais sensíveis, como o indicado ao Oscar Forrest Gump: O Contador de Histórias (Forrest Gump, 1994), Contato (Contact, 1997), a curta Náufrago (Cast Away, 2000) e, mais recentemente, O Voo (Flight, 2012).

Espelhando o filme, a trilha se divide em dois momentos: o início, na França, contando os primeiros anos de Philippe, e depois a segunda parte, em Nova York, em que o “golpe” é planejado e executado. E, tal como o longa que acompanha, a parte mais fraca da trilha é também a primeira. O tema de Philippe aparece logo ao início das duas primeiras faixas, porém logo some sem cerimônias, sendo substituído por um jazz leve e bem humorado, em Pourquoi?, e pelos inevitáveis acordeões e melodias tipicamente francesas, em Young Philippe. Aqui, cabe a crítica mencionada acima da falta de sutileza e sensibilidade em se passar de um estilo ao outro no mesmo cue, embora seja curioso ver Silvestri evocar a Joie de vivre típica dos músicos de lá. Two Loves acompanha o romance nascente entre Philippe e sua então namorada na época do feito, Annie (Charlotte Le Bom), e, como tal, é interessante ver um compositor tão hollywoodiano como Silvestri evocar Delerue, por exemplo. Por outro lado, ele nunca foi muito especializado em love themes e aqui não é diferente, com uma melodia romântica bonita, porém esquecível, e que dificilmente será ouvido posteriormente na trilha. Em seguida, The Towers of Notre Dame perpassam uma variedade de estilos: os acordeões e bandolins europeus, aludindo à origem de Philippe, um jazz malicioso representando seu lado mais malicioso, e um final orquestral, que demonstra toda a sua determinação.

A partir de It’s Something Beautiful, a trilha e o filme ganham novos ares, conforme mudam sua ambientação para Nova York. Tal faixa lembra de leve o estilo de Alexandre Desplat, com seus famosos pulsos eletrônicos, acompanhando melodias para cordas. Spy Work, por sua vez, traz uma divertida melodia setentista de espionagem, com trompetes, percussão e baixo, enquanto, por outro lado, Full of Doubt é uma faixa que conta com orquestrações sombrias e ameaçadoras, para representar musicalmente as dúvidas e a ansiedade de Philippe antes do seu feito. O estranho contraste entre esses dois cues dá mais uma mostra do quão diversificado é o longa de Zemeckis, aumentando ainda mais a tarefa de musicá-lo.

A partir de Time Passes, porém, começa o “golpe” de Philippe e seus cúmplices. A invasão do WTC é representada por Silvestri de forma surpreendentemente óbvia: com seus acordes e orquestrações de ação tão comuns, que ele vêm utilizando desde a trilha de De Volta para o Futuro (Back to the Future, 1985). Porém, essa faixa, que acompanha um dos momentos mais marcantes do longa (afora a própria caminhada), se destaca das demais graças a um “tique-taque” de relógio, acompanhando cordas tensas, porém decididas. É uma bela composição de Silvestri no disco, e que no filme fica ainda melhor, acompanhando a espera de Philippe e seus “comparsas” para o melhor momento para agir. The Arrow e We Have a Problem, por sua vez, trazem toda a orquestra interpretando as tensas melodias de ação que estiveram presentes em boa parte da carreira de Silvestri até o momento, com a segunda contando inclusive com alguns sintetizadores presentes nos scores mais recentes do compositor, incluindo a premiada Cosmos (idem, 2014).

A sequência que dá nome ao filme é acompanhada por três cues do compositor. The Walk traz de volta o tema de Philippe, inicialmente com hesitação, mas depois de forma cada vez mais confiante, conforme o equilibrista vai se dando conta do seu destino. Fãs de Horner devem ficar felizes com os acordes típicos do falecido compositor, que inclui até mesmo um coro feminino sintetizado junto às cordas e ao piano, não muito diferente do ouvido em Titanic (idem, 1997). Já I Feel Thankful começa com a famosa peça de Beethoven Für Elise (que você pode não reconhecer pelo nome, mas certamente vai se lembrar quando a ouvir), primeiro para piano e depois para orquestra. Entretanto, a caminhada de Philippe não foi tão tranquila assim, com a polícia nova-iorquina, pega de surpresa pelo ato, tentando de todas as formas remover o equilibrista de seu cabo sem derrubá-lo. Silvestri acompanha os policiais com uma melodia cômica e pomposa, para trompetes e percussão. É interessante como, ao longo da faixa, o compositor contrapõe as melodias relacionadas aos policiais com as orquestrações quase sonhadoras e mais otimistas do tema de Philippe, como que musicando a percepção que o próprio tinha do seu feito, e a forma como outros “de fora” o percebiam. A última, They Want to Kill You, começa com melodias de ação similares às da décima faixa, mas logo o tema principal emerge triunfante, com toda a orquestra, representando a glória final de Philippe.

As melhores faixas do disco, porém, são as últimas. Como dito no início do texto, se tem uma coisa em que Silvestri foi bem sucedido com esta trilha, foi em adicionar uma dimensão tocante ao longa, e isto funciona particularmente bem no belo final do longa. There is no Why traz a orquestra e o piano em belas performances do tema de Philippe, conforme seu arriscado feito entra para a história e, embora, entre 1:50 e 2:07 na faixa, Silvestri traga uma versão re-orquestrada de um motivo ouvido em A Promise, de seu score para Os Vingadores (The Avengers, 2012), o cue ainda permanece como um dos mais belos escritos pelo músico nos últimos anos, talvez superado apenas pela faixa seguinte, Perhaps You Brought Them to Life/Give them a Soul. Esta, que acompanha a última cena e os créditos finais, traz o tema de Philippe em suas interpretações mais emocionais, com toda a orquestra. Muitas pessoas (principalmente quem não vive nos EUA, ou, melhor, em Nova York), podem acusar Zemeckis e Silvestri de manipular as emoções do público. Afinal, hoje em dia, é impossível fazer um filme sobre o WTC sem abordar o atentado de 11 de setembro, e a cena final do longa toca de leve no assunto, sem fazer uma abordagem direta, mas prestando uma homenagem às torres e à cidade, tornada explícita pela música emocional do compositor. Porém, considerando apenas a música de Silvestri, eu apreciei bastante a melodia tocante do compositor, no melhor estilo de seus scores para dramas como Forrest Gump ou Contato.

Mesmo com suas falhas, A Travessia ainda é um belo score (e um belo filme). Conforme mencionado, este é um longa muito difícil de se musicar, mesmo para um veterano de mais de 100 filmes como Silvestri, porém suas melhores partes não estão muito distantes das melhores colaborações entre o músico e Zemeckis. Outros trabalhos desta dupla inseparável serão muito bem-vindos.

Faixas:

1. Pourquoi ? (03:30)
2. Young Philippe (02:10)
3. Two Loves (03:19)
4. The Towers of Notre Dame (01:49)
5. “It’s Something Beautiful (02:56)
6. Spy Work (01:36)
7. Full of Doubt (02:30)
8. Time Passes (04:01)
9. The Arrow (03:15)
10. “We Have a Problem” (05:16)
11. The Walk (06:23)
12. “I Feel Thankful” (07:19)
13. “They Want to Kill You” (03:56)
14. “There is no Why”03 (03:56)
15. “Perhaps You Brought Them to Life – Given Them a Soul” (04:20)

Duração total: 56:16

Tiago Rangel

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s