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Resenha de Trilha Sonora: PAN – John Powell


pan_CDMúsica composta por John Powell, regida por Gavin Greenaway
Selo: WaterTower Music (EUA) / Sony Classical
Catálogo: 8875164042
Lançamento: 08/10/2015
Cotação: star_4

Um dos maiores clássicos da literatura infantil mundial, a peça teatral Peter Pan; or, the Boy Who Wouldn’t Grow Up, do autor inglês J.M. Barrie, foi adaptada diversas vezes para o cinema, televisão, quadrinhos, etc., sob várias formas. Porém, apesar de seus personagens tão icônicos, nunca viemos a conhecer a história de origem dos seus heróis (e vilões), como Peter Pan, o Capitão Gancho (ou Hook, no original), a Princesa Tigrinha e os Garotos Perdidos. Esta é a proposta de Peter Pan (Pan, 2015), nova aventura baseada nos personagens criados por Barrie. Dirigido por Joe Wright (em seu primeiro blockbuster hollywoodiano, depois de uma premiada carreira em dramas adaptados de clássicos da literatura), o longa conta a história de Peter (o novato Levi Miller), um garoto órfão de 12 anos na Londres devastada pela Segunda Guerra. Sequestrado pelo malvado pirata Barba Negra (Hugh Jackman), ele é levado até a mágica Terra do Nunca. Lá, ele descobre ser o herdeiro de uma antiga profecia, e, junto ao seu futuro inimigo, o capitão James Hook (Garret Hedlund) e a Princesa Tiger Lily (Rooney Mara, cuja escalação para o papel causou pesadas críticas ao projeto), devem lutar para derrotar o pirata.

A história de Peter e seus amigos já inspiraram vários compositores famosos, como, mais recentemente, John Williams e James Newton Howard. O primeiro entregou mais um dos seus deliciosos scores de aventura para Hook: A Volta do Capitão Gancho (Hook, 1991), que trazia Robin Williams interpretando um Peter adulto que retornava depois de anos à Terra do Nunca. Já o outro compôs uma interessante trilha para Peter Pan (idem, 2003), adaptação mais direta da obra de Barrie, e que trazia um dos temas do compositor mais lembrado pelos fãs (a faixa Flying). Para a atual versão da história, Dario Marianelli, que havia estabelecido uma bem sucedida colaboração com Wright, estava contratado para musicar a aventura. Porém, depois de sua trilha ter sido rejeitada por ser “europeia” demais, ele foi substituído por John Powell, uma escolha mais segura. Normalmente, eu reclamaria bastante quando um talentoso compositor europeu, especializado em música orquestral, é substituída por alguém saído da Remote Control, a fábrica de compositores de Hans Zimmer. Mas não quando o sujeito em questão é Powell, que atualmente deve ser o maior especialista na boa e velha orquestra sinfônica dentre seus companheiros da RC.

Claro, o inglês atingiu este patamar depois de quase duas décadas dedicadas ao seu ótimo trabalho em filmes animados, que começou com Formiguinhaz (Antz, 1998), composta em parceria com Harry Gregson-Williams. De lá para cá, ele seguiu aperfeiçoando e aprimorando seu estilo em trabalhos como A Fuga das Galinhas (Chicken Run, 2000), Shrek (idem, 2001), Robôs (Robots, 2005), Happy Feet: O Pinguim (Happy Feet, 2006), três filmes da série A Era do Gelo (Ice Age), Kung Fu Panda (idem, 2008), Rio (idem, 2011), e culminando com suas obras primas, o score para Como Treinar seu Dragão (How to Train Your Dragon, 2010) e sua continuação. Tais trilhas, principalmente os scores para as aventuras de Soluço e Banguela, capacitaram Powell como um dos principais compositores da atualidade para compor grandiosas trilhas de aventura, e a de Peter Pan é bem enraizada neste estilo. Ou seja, ainda que não seja uma animação propriamente dita (e este é o primeiro longa live action de Powell em cinco anos), ela traz todos os elementos que fizeram dele um compositor tão querido, ou seja, uma orquestra imensa, coral e toques étnicos.

A primeira coisa que deve ser dita a respeito desta trilha é que ela, ao longo de mais de uma hora, não contém um único momento monótono. Mesmo quando não estamos escutando uma das faixas de ação (e há muitas delas no disco), sempre há uma orquestração ou ideias interessantes que ajudam a manter a trilha sempre fresca e envolvente. Desta forma, o ouvinte dificilmente ficará entediado e estará sempre descobrindo coisas novas a cada audição. Além disso, a abordagem de Powell pode ser considerada como uma herdeira espiritual da obra de Williams para a aventura dirigida por Steven Spielberg, embora, como já foi dito, ela ainda se mantenha no estilo muito particular de Powell, e não tente imitar o do grande maestro. Na verdade, o que percebemos aqui são pequenos indícios da influência que o score de Williams teve sobre o músico inglês (e agradeçam a Odin por ele não ter sido influenciado por Newton Howard também e trazido de volta aqueles estranhíssimos sintetizadores de seu score para a aventura de 2003).

A trilha é conduzida por dois temas principais, que, estranhamente, fazem sua primeira aparição, no disco, ao piano. O primeiro, que eu acredito que deva representar Peter e seus atos heroicos, é introduzido logo ao início de Opening Overture (refresquem minha memória: qual foi a última vez em que tivemos uma trilha que abria com uma faixa chamada Overture?), e o segundo aparece duas faixas depois, em Kidnapped/Galleon Dog Fight. Ambos os temas não fariam feio num score para alguma animação com mais “aventura” composto por Powell, em particular o segundo, que poderia ter saído de suas trilhas para Como Treinar seu Dragão. Ao longo do disco, eles irão receber performances grandiosas, épicas e até como fanfarras heroicas, como uma típica trilha de capa-e-espada (Piratas do Caribe não conta, pessoal) deve ser.

E não demora muito para que sejamos jogados já direto na ação: após duas faixas iniciais mais leves e cômicas, a já citada Kidnapped/Galleon Dog Fight é um incrível e rítmico cue de aventura, em que a melodia é conduzida pela orquestra e também pela percussão e baixos, apimentada por explosões de trompetes latinos, lembrando um pouco o trabalho do compositor em trilhas como Sr. e Sra. Smith (Mr. and Mrs. Smith, 2005) e Encontro Explosivo (Knight and Day, 2010). Em seguida, Floating/Neverland Ahoy! traz um bom fechamento para tanta ação, incluindo uma bela performance do tema secundário em cordas e harpas.

Este ótimo início já resume como será o restante do disco: muita ação, aventura e momentos de heroísmo, com alguns poucos minutos entre si para respiro. Dentre estes, destacam-se Murmurs of Love and Death, uma interessante faixa conduzida por cordas e permeada por violinos solo de estilo experimental, de forma parecida com a trilha composta há poucos meses por Zimmer e Richard Harvey para O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince, 2015), e a bela Crocodiles and Mermaids, que inclui misteriosos coros femininos. Tramp Stamp, por sua vez, é conduzida principalmente por vários instrumentos de percussão, além de palmas.

Já as faixas Origin Story e A Warrior’s Fate estão para a trilha de Powell assim como You are the Pan está para o score de Williams. Explicando melhor: o filme musicado por Powell é sobre a descoberta de um garoto de que ele é o escolhido para ser o famoso herói da Terra do Nunca, enquanto o de Williams fala sobre um adulto que, depois de ter esquecido, acaba descobrindo o mesmo propósito. E tanto Powell quanto o maestro de Star Wars decidiram abordar esta descoberta da mesma maneira épica: com orquestrações nobres e coros épicos, quase religiosos, que indicam o destino grandioso para o garoto – inclusive, o cue de Williams, apesar de belo, deixa claro a influência da temp track, no caso, o score de Georges Delerue para Agnes de Deus (Agnes of God, 1985), mas isto é conversa para outra hora. Voltando a Powell, é importante notar que Origin Story ainda introduz um novo e heroico tema para Peter, que será muito importante no clímax.

Quanto às faixas de ação, elas estão concentradas em três enormes setpieces. O primeiro, discutido acima, está concentrado principalmente na terceira faixa. O segundo começa em Mine Escape, que inclusive inova ao trazer violões e gaitas, como num típico western – possivelmente aludindo à juventude retratada aqui do Capitão Gancho. Mas não demora muito até que as orquestrações heroicas de Powell englobem estes instrumentos, fazendo com que nós tenhamos uma ideia de como seria um score para uma aventura do Zorro composta por ele. O setpiece prossegue com Inverted Galleon que traz o tema principal como em ritmo de marcha, e muita ação a cargo de metais e percussão, e depois com Neverbirds, de sabor levemente celta, e destacando as criativas ideias para orquestrações criadas por Powell e seu grupo de orquestradores.

Finalmente, o excelente clímax do disco (e, imagino eu, do filme) é representado pelas massivas Flying Ship Fight e A Boy Who Could Fly, que, juntas, somam mais de 12 minutos de duração. E, se no ano passado, Powell nos deixou sem fôlego com a brilhante sequência de Battle of the Bewilderbeast, Hiccup Confronts Drago e Stoick Saves Hiccup, aqui ele também entrega um clímax sensacional, que certamente irá ranquear entre as melhores faixas de ação do ano. A enorme Flying Ship Fight traz a orquestra e o coral a plena potência, e, apesar de todo o aspecto massivo, Powell ainda consegue manter o controle temático, contrapondo os temas principais, mais heroicos, com motivos ameaçadores, relacionados ao Barba Negra. Amantes de típicos scores de swashbuckling (capa-e-espada) não terão muito do que reclamar aqui. Na sequência, A Boy Who Could Fly começa de forma até simples, com o tema principal interpretado num piano, como na primeira faixa, mas não demora muito até que a batalha recomece. Nesta faixa, o novo tema do destino heroico de Peter, introduzido na faixa treze, e que já tinha tido grande participação na anterior, aqui assume o papel de protagonista, com performances enormes a cargo de metais, cordas e um coral grandioso, em passagens gloriosamente épicas.

Transfiguration e Fetching the Boys providenciam uma conclusão satisfatória para o disco, com belas interpretações do tema principal. Powell, através da sua música, deixa claro que novas aventuras virão para Peter Pan e seus amigos na Terra do Nunca – embora, a depender da fraca bilheteria até agora, tais aventuras ficarão apenas nos livros de Barrie e em outras versões do personagem.

O disco lançado pela Water Tower, porém, não traz apenas o score de Powell. Permeando a trilha instrumental, há também duas canções da cantora Lilly Allen, que, infelizmente, não são muito boas – pelo contrário, elas são as típicas canções pop clichês que costumam pipocar nos filmes para toda a família. Além disso, há também bizarras versões interpretadas na tela pelo elenco para os clássicos Smell Like a Teen Spirit, do Nirvana, e Blitzkrieg Bop, dos Ramones. Esta última, com acompanhamento orquestral, me lembrou dos arranjos de Junkie XL para War Pigs, da banda Black Sabbath, em seu 300: A Ascensão do Império (300: Rise of An Empire, 2014), que acabaram se saindo melhor do que aqui.

Ouvir a trilha de John Powell para Peter Pan só confirma minha teoria de que o compositor inglês é atualmente o maior especialista da Remote Control em grandiosas trilhas orquestrais – sim, incluindo o próprio alemão, que, salvo raras exceções, nunca foi muito interessado nesse tipo de coisa, para começo de conversa. E, ainda que sua trilha não traga a mesma profundidade emocional de seus scores para os dois Como Treinar Seu Dragão, ele ainda traz arroubos épicos e heroicos o suficiente para deixar tanto os seus fãs de longa data quanto os ainda não iniciados com um sorriso no rosto. Aprecie sem moderações.

Faixas:

1. Opening Overture 2:41
2. Air Raid / Office Raid 1:40
3. Kidnapped / Galleon Dog Fight 5:09
4. Floating / Neverland Ahoy! 2:29
5. Smells Like Teen Spirit (Cast) 2:11
6. Blitzkrieg Bop (Cast) 0:58
7. Murmurs of Love and Death 3:27
8. Mine Escape 5:01
9. Inverted Galleon 1:56
10. Neverbirds 1:54
11. Something’s Not Right (Lily Allen) 3:20
12. Tramp Stamp 2:33
13. Origin Story 3:57
14. Pirates vs Natives vs Heroes vs Chickens 4:21
15. Crocodiles and Mermaids 3:23
16. A Warrior’s Fate 4:10
17. Flying Ship Fight 7:23
18. A Boy Who Could Fly 5:10
19. Transfiguration 2:18
20. Fetching the Boys 3:10
21. Little Soldier (Lily Allen) 2:37

Duração total: 69:48

Tiago Rangel

5 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: PAN – John Powell”

  1. Como faz falta em território brasileiro não ter o prazer de comprar uma trilha sonora como esta e apreciar em sua totalidade a qualidade musical impecável que John Powell desenvolveu para este filme.
    Os encartes, as fotos, as informações que todo fã de trilhas sonoras tanto curte em seus compact discs, enquanto aprecia em bom som stereo a orquestra tomando conta do espaço com tamanha alegria. Fantástica trilha para ouvir muitas e muitas vezes. Parabéns John Powell.
    E pensar que o primeiro mundo está lançando até discos de vinyl de novas trilhas, relançando edições especiais e estendidas de outros score, além de um vasto acervo renovado nos tradicionais cds ao custo de 10,12,15 dinheiros americanos a ser cobrado de seus cidadãos que saíram nas ruas e conseguiram arduamente o seu respeito no comércio de um modo geral. Aqui nem nos próximos 1.000 anos, salvo se formos invadidos por uma nação que nos ensine o caminho das pedras. Ao menos temos a internet para atender a nossa nação de terceiro mundo. Abraços e boa audição.

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