every thing will be fine

Resenha de Trilha Sonora: EVERY THING WILL BE FINE – Alexandre Desplat


Everything wiil fine CDMúsica composta por Alexandre Desplat
Selo: Wenders Music
Catálogo: Digital Download
Lançamento: 25/09/2015
Cotação: star_3_5

É impressionante a habilidade que Alexandre Desplat tem para conquistar e trabalhar com grandes diretores do cinema mundial, responsáveis por importantes longas da Sétima Arte. Diretores do calibre de David Fincher, Roman Polanski, Wes Anderson (cuja bem sucedida parceria com o francês lhe rendeu seu primeiro Oscar, no início do ano), Terrence Malick e Kathryn Bigelow já caíram no feitiço do compositor. O mais novo mestre do cinema a contar com os talentos de Desplat é o veterano Wim Wenders, cineasta alemão responsável por clássicos como Paris, Texas (idem, 1984) e Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin, 1987), que agora lança seu novo longa, Tudo Vai Ficar Bem (Every Thing Will Be Fine, 2015).

O drama conta a história de Tomas (James Franco), um escritor de sucesso que atropela e mata uma criança. Assim, ao longo dos 12 anos seguintes, ele e a mãe do garoto, Kate (Charlotte Gainsbourg), tentam lidar com o trauma da tragédia. Apesar, porém, de ter um elenco com estrelas hollywoodianas e um diretor de renome, o longa foi recebido friamente pela crítica durante sua exibição no Festival de Berlim, em fevereiro deste ano, com muitos elogiando o uso de Wenders do 3D no longa (algo inovador para um drama), mas criticando a história parada e as atuações.

A trilha de Desplat, porém, é a primeira dele a ser lançada em álbum desde sua vitória no Oscar, para a alegria dos seus fãs. Porém, enquanto estes podem garantir uma audição relativamente satisfatória, os scoretrackers em geral certamente sairão ligeiramente decepcionados – ainda mais depois da temporada matadora do francês, no ano passado. O score de Every Thing Will Be Fine utiliza um elenco bastante reduzido de músicos, basicamente apenas piano e cordas, para criar uma atmosfera introspectiva e melancólica, como um longa como esse pede. A música intimista de Desplat aqui surge como um cruzamento entre os momentos melancólicos de trilhas como O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008) e A Rainha (The Queen, 2007), embora dificilmente se juntará a estas no panteão dos melhores scores de sua carreira.

A partitura traz dois temas principais, que eu suponho que sejam para Tomas e para Kate. O primeiro, na verdade, é dividido em dois subtemas, que aparecem, um após o outro, na faixa inicial. O primeiro tema de Tomas é uma melodia para o piano, com acompanhamento do baixo, vagamente parecido com um austero hino religioso, executado em igrejas durante as cerimônias. O segundo já é mais melódico, com uma escrita para cordas ao mesmo tempo esperançosa e melancólica, retratando a personalidade do personagem de Franco. Ele pode ser ouvido pela primeira vez a partir de 0:50 na faixa.

O de Kate é ainda mais dramático, aparecendo na segunda faixa, The House in the Snow. A forma como Desplat extrai toda a tristeza e a melancolia da personagem a partir de seu pequeno elenco de cordas, inclusive fazendo com que os violinos atinjam as notas mais agudas, lembram o estilo do seu compatriota, o grande Georges Delerue, de quem Desplat pode se proclamar um “descendente” digno – embora, no caso específico de Tudo Vai Ficar Bem, seu score seja mais contido do que o do falecido maestro. Assim, é interessante notar como o tema de Kate de Desplat pode ser considerado um descendente direto e “atualizado” do memorável Theme de Camille, da trilha de O Desprezo (Le Mépris, 1963), por exemplo.

Performances posteriores do tema de Kate, nas faixas Suicide Attempt e Kate’s House At Night destacam a tristeza e o vazio emocional que se tornou a vida da personagem após a perda do filho. Já os dois motivos de Tomas são mais proeminentes, como o piano “religioso” dominando cues como On the Ferry e Tomas’s Success, e o tema para cordas aparece em performances tocantes em Thomas Writes e Christopher’s Sorrow – nesta última a cargo dos registros mais agudos dos violinos e violas, me remetendo à partes do score de Delerue para Platoon (idem, 1986). A última faixa, Reconciliation, é dominada pelos dois motivos de Tomas. A julgar por sua duração, e até mesmo pelo seu título, imagino que esta seria a oportunidade perfeita para Desplat “soltar as rédeas” e entregar as interpretações mais poderosas aqui, porém, mesmo assim, a melodia ainda continua emocionalmente distante e fria – o que pode prejudicar a conexão dos ouvintes com a trilha.

Mesmo assim, é bom perceber que, mesmo nas músicas em que os temas principais estão ausentes, Desplat não deixa de mostrar sua excelência como compositor e orquestrador. Looking for the Light é provavelmente a melhor faixa do disco, em que os violinos e o piano transmitem a sensação do tempo passando, como um relógio batendo, porém com o acompanhamento de uma melodia triste a cargo de cordas, demonstrando que a passagem do tempo pode ser bem dolorosa para todos. Mais para a frente, este belo motivo retorna na igualmente triste Kate Leaves the House. Além disso, em The Accident (que eu imagino que acompanhe a sequência da morte da criança), Desplat se permite fazer um exercício de construção de suspense, e se saindo exemplarmente com seu elenco reduzido de músicos (estranhamente, a mesma melodia ouvida aqui retornará em The Fairground Disaster; imagino que, no contexto do filme, ambas as cenas estejam relacionadas). Já A Strange Phone Call e The Letters quebram o clima triste e introspectivo do score, a primeira com uma valsa ligeiramente pomposa, e a segunda com uma melodia genuinamente cômica e divertida para o piano e as cordas.

A passagem do tempo parece ser um tema recorrente no longa, e Desplat o retrata através de quatro cues, um para cada estação do ano. Autumn traz cordas e pianos atmosféricos e misteriosos e Spring tem a melodia principal conduzida por um cello solo, junto à ostinatos de cordas e um pianinho. Winter, por sua vez, é conduzida por violinos em pizzicatto e pianos, novamente representando um relógio, e Summer, a última, é simplesmente uma das faixas mais estranhas já escritas por Desplat. Ao invés de uma melodia bem definida, o que temos aqui são apenas dois minutos de texturas de cordas e piano, além de um solitário violino solo ligeiramente desafinado. Me lembrou um pouco do trabalho totalmente experimental de Brian Reitzell na série Hannibal (idem, 2013).

Enfim, uma crítica que costuma aparecer aqui e ali é que muitos ouvintes não se sentem “tocados” ou “emocionados” pela música do trilheiro francês mais bem sucedido da atualidade, e agora eles podem ganhar um novo argumento com este score, que não é tão “palatável” quanto outros de Desplat. Claro, ainda estamos falando de um compositor extremamente talentoso, capaz de entregar ótimos momentos. Porém, considerando a carreira de Desplat como um todo, a trilha de Tudo Vai Ficar Bem está para ela assim como a de Bobby Jones: A Lenda do Golf (Bobby Jones: Stroke of Genius, 2003) está para a de James Horner ou a de A Corrente do Bem (Pay it Forward, 2000) está para a de Thomas Newman. Todas elas tem elementos suficientes para agradar aos fãs que ficaram encantados pelas trilhas anteriores de seus respectivos compositores, porém outros ouvintes podem não apreciar tanto assim.

Faixas:

1. Everything Will Be Fine 2:46
2. The House in the Snow 1:58
3. The Accident 2:36
4. Autumn 2:25
5. Looking for the Light 2:38
6. Spring 2:31
7. Thomas Writes 1:37
8. On the Ferry 0:59
9. A Strange Phone Call 1:21
10. The Letters 2:49
11. Suicide Attempt 2:18
12. Book Signing in the Park 2:34
13. The Fairground Disaster 2:38
14. Winter 2:30
15. Tomas’s Success 0:55
16. Kate Leaves the House 1:30
17. Summer 2:45
18. Kate’s House at Night 2:23
19. Christopher’s Sorrow 1:29
20. Reconciliation 4:03

Duração total: 44:45

Tiago Rangel

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