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Na Trilha: Ouvindo 007 – TOMORROW NEVER DIES, THE WORLD IS NOT ENOUGH (Parte 6)


Antecedendo à chegada, aos cinemas, do novo filme de James Bond, 007 Contra Spectre, nesta série de resenhas iremos levá-lo a uma viagem pelo universo musical do agente secreto mais famoso – e longevo – da história do cinema. O ano primeiramente indicado refere-se à edição da trilha sonora comentada, e não ao lançamento do filme.

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tnd007 – O Amanhã Nunca Morre (Tomorrow Never Dies, David Arnold, 1997, star_4) –   Depois das inovações de Eric Serra em Goldeneye, que não agradaram, os produtores da mais longa série do cinema resolveram retornar ao clássico “Bond Sound”,  celebrizado nos anos 1960 e 1970 por John Barry, e por conseqüência foi gerado um grande interesse a respeito do compositor que seria designado para compor a trilha sonora do filme seguinte, O Amanhã Nunca Morre. Definitivamente esta matéria se havia convertido em um elemento crítico. Também houve o temor (infundado) de que Serra continuaria na função, já que os produtores jamais se pronunciaram formalmente a respeito do decepcionante trabalho daquele compositor, situação que foi entendida como conformidade (um dos fatos que gerou este temor foi a musicalização do trailer de Tomorrow Never Dies).

Mas com a confirmação de David Arnold como compositor, imediatamente nos vieram à memória duas de suas partituras anteriores: Stargate e Independence Day, o que nos levou a esperar pelo menos uma trilha sonora predominantemente orquestral, mais ajustada com a música de James Bond. Graças a entrevistas posteriores, soubemos que Arnold era um fanático pela música de Bond, particularmente a composta na década de 1960, e que pouco tempo antes de ser designado como compositor de Tomorrow Never Dies ele havia produzido um álbum com novas versões de canções e temas utilizados na série, intitulado “Shaken And Stirred: The David Arnold James Bond Project”. Em uma entrevista posterior Barry declarou que casualmente conheceu Arnold quando este estava produzindo “Shaken And Stirred”. Depois de uma longa conversa com Arnold, Barry ligou para Barbara Bróccoli e lhe disse que havia encontrado o cara perfeito para ficar encarregado da música do novo filme. Contratado, Arnold teria pelo menos três objetivos a atingir: fazer esquecer a experiência anterior com Serra, retornar a música à melhor das suas origens e lançar as bases de um novo som para uma nova era. Arnold declarou que compôs este score com um pé na década de 1960 e outro na de 1990, o que é comprovado graças à sua grande versatilidade, que lhe permite compor todo tipo de música.

Como já vinha ocorrendo, a composição da canção principal não foi responsabilidade do compositor da partitura principal. “Tomorrow Never Dies” foi composta por Sheryl Crow e Mitchel Froom e interpretada por Crow, sendo uma balada cuja letra é bastante dramática, mas apresenta como principal característica musical ser bastante plana e sem momentos de grande emoção. Apesar de não ser uma canção ruim, dificilmente passará para a história como uma das mais destacadas da série. A canção não tem nenhuma relação com o argumento do filme e David Arnold jamais a utilizou como inspiração para seus temas instrumentais, até porque, imediatamente após ter sido contratado para este trabalho, ele havia composto juntamente com Don Black (antigo compositor de letras para a série) um tema para ser proposto como canção principal. Este tema se chamava “Tomorrow Never Dies” e foi interpretado por k.d Lang. A canção ao final não foi a escolhida, e Arnold teve de se conformar em utilizá-la nos créditos finais, rebatizada como “Surrender” (já que a canção finalmente selecionada tinha o mesmo nome).

Quase todos os críticos consideram esta canção muito superior à que foi escolhida como tema principal, já que é claramente inspirada nas primeiras canções da série, com  força e melodia absolutamente apropriadas para Bond, e interpretada soberbamente por k.d Lang. De qualquer sorte, mesmo não sendo ouvida nos créditos principais, Arnold restabeleceu uma velha tradição, utilizando-a abundantemente como padrão instrumental para seus temas incidentais, seja isoladamente ou combinada com o “Tema de James Bond”. A letra desta canção, apesar de igualmente não refletir o argumento do filme, se aproxima dele bem mais do que o habitual para a série.

A trilha sonora de O Amanhã Nunca Morre possui uma série de características que a torna uma das favoritas dos fãs, já que pela primeira vez desde a época de John Barry existe a sensação de que o compositor, além de fazer um bom trabalho, também o apreciou como talvez nenhum outro pudesse fazê-lo (incluindo o próprio Barry). Para Arnold, cumprir esta tarefa foi realizar um sonho de infância, e portanto nela pôs o melhor de si. Ao percorrer páginas da internet dedicadas a Bond ou à música de filmes, é quase unânime a opinião de que este é um grande trabalho. Também é certo que esta opinião é em boa parte influenciada pelo deficiente trabalho efetuado por Eric Serra em Goldeneye, mas esta situação não desmerece em nada a trilha sonora de Arnold, que apresenta as seguintes características principais:

  1. Arnold, ao contrário de Serra, caracteriza a música de Bond recorrendo, em várias oportunidades, ao “Tema de James Bond”, utilizando-o acertadamente e nos momentos precisos, de acordo com as necessidades do roteiro. Segundo muitos críticos, Arnold revive o estilo de John Barry ao ponto extremo de tomar emprestadas algumas passagens compostas por este último para filmes anteriores da série. De fato, apesar de o estilo característico de David Arnold estar presente, em determinados momentos o que ouvimos é puro Barry dos tempos de Goldfinger ou Thunderball.  Em outras circunstâncias poderíamos até achar que é plágio, porém tratando-se de trilhas sonoras de um filme de James Bond, cuja fórmula deve ser tão “imexível” quanto a da Coca-Cola que sorvemos no cinema, acabamos por saborear com prazer o prato musical que nos é servido;
  2. Arnold incorpora tanto arranjos sinfônicos como eletrônicos, tendo o feeling suficiente para determinar que tipo de música utilizar em cada sequência. Depois do desastre de Serra ficaram dúvidas se a música eletrônica servia para Bond, mas Arnold deixou bem claro que, sabendo utilizá-la corretamente, pode converter-se em um perfeito complemento para as cenas;
  3. Abundante utilização de sua canção “Surrender” como padrão dos temas instrumentais. Inclusive até se poderia dizer que este tema é um pilar fundamental da partitura.

Já ao escutarmos as primeiras notas na seqüência de abertura (“Gun Barrel Sequence”), pressentimos  que este trabalho percorrerá um caminho bem distinto do seu predecessor. Esse pressentimento se confirma no tremendo arranjo orquestral que acompanha a sequência de pré-títulos. Dali em diante devemos estar preparados para sermos surpreendidos com vários temas que aparecerão durante o filme: “Company Car”, “Backseat Driver”, “Hamburg Break Out”, “The Bike Chase”, “Kowloon Bay” e “All in a Day’s Work”.  Já que Arnold não utilizou a canção principal como padrão instrumental, ele se viu na obrigação de compor um tema romântico especial, o qual é utilizado em um par de cenas protagonizadas por Bond e Paris Carver. As cenas de ação em general foram acompanhadas por arranjos sinfônicos fortemente baseados no “Tema de James Bond” e na canção “Surrender”. Também existe uma espetacular perseguição no estacionamento de um hotel, brilhantemente musicada pelo tema “Backseat Driver”, que corresponde a um arranjo eletrônico que Arnold compôs juntamente com o grupo Propellerhead, e que demonstra que se pode utilizar música eletrônica nos filmes de Bond.

Mesmo se considerarmos que não há pontos baixos na trilha, nos parece que as composições “Dr Kauffman”, “The Sinking of Devonshire” e “Underwater Discovery” não estão à altura do restante dos temas. De modo contrário à música de Goldeneye, que prejudicou o filme, em O Amanhã Nunca Morre houve o efeito contrário, a ponto de que parte importante do seu êxito de público e crítica se deve à trilha sonora. No CD original de 007 – O Amanhã Nunca Morre, praticamente metade da partitura ficou de fora já que o compositor, à época em que o álbum chegou às lojas, ainda estava concluindo as gravações. Em janeiro de 2000 Arnold conseguiu lançar a partitura completa em um CD da extinta gravadora Chapter III, com exceção das duas canções e de “Station Break”. Este disco, em relação ao original, adiciona 27 minutos de score e inclui uma entrevista (apenas áudio) com o compositor.

twine_cd007 – O Mundo Não é o Bastante (The World is Not Enough, David Arnold, 1999, star_3_5) – Depois da fascinação provocada pela música de Tomorrow Never Dies,  o “clamor popular” pedia que David Arnold continuasse a cargo da música da série 007, e assim como os produtores deram ouvidos ao descontentamento com a música de Goldeneye e mudaram de rumo, neste caso tomaram a decisão correta em manter o compositor no filme seguinte. Musicalmente, The World is Not Enough marcou alguns acontecimentos que me parecem dignos de nota: pela primeira vez um músico que não John Barry compôs mais de uma trilha sonora para a série; estes trabalhos ocorreram de forma consecutiva e foi restabelecida a antiga tradição de que toda a música do filme é de responsabilidade do compositor da partitura principal. Assim, tendo Arnold como dono absoluto da música desta película, que tem as seguintes características:

  1. Existe uma canção principal, “The World Is Not Enough”, composta por David Arnold e Don Black e interpretada pelo grupo Garbage, que acompanha a sequência de créditos iniciais. A sequência de créditos finais utiliza, depois de muito tempo, uma versão instrumental do “Tema de James Bond”;
  2. A canção principal serve como padrão para ser utilizada instrumentalmente dentro da trilha sonora, especialmente em cenas de ação;
  3. Durante o filme se escuta o “Tema de James Bond”.

A canção principal, “The World Is Not Enough”, é um tema atípico, já que é difícil classificá-la claramente em alguma categoria. De fato, é uma balada interpretada por um grupo mais identificado à musica pop/rock. A interpretação da vocalista do grupo, Shirley Manson, é bastante sensual e dá um toque especial ao tema. Esta canção é bem superior à sua antecessora “Tomorrow Never Dies”, ainda que seja inferior a “Surrender”, também de Tomorrow Never Dies. Seguindo com a tendência, novamente esta canção não possui qualquer conexão com o argumento do filme. Além da canção principal composta por Arnold e Black, a dupla também compôs outra canção que serviu de padrão para inspirar a música incidental para as cenas românticas. Esta canção tem por título “Only Myself To Blame”, e a escutamos somente ao final do CD, já que nunca foi utilizada durante o filme. Segundo a lógica ou de acordo com experiências anteriores, esta canção deveria ter constado na sequência dos créditos finais, onde finalmente se optou por uma versão instrumental do “Tema de James Bond”, que resultou igualmente satisfatória. Esta canção tem uma particularidade nunca antes vista na série, já que foi a única canção incluída em uma trilha sonora somente utilizada para inspirar temas instrumentais, e que jamais foi ouvida no filme. Alguns poderão mencionar outros casos similares, como temas instrumentais nunca utilizados ou substituídos por outros, porém nenhum deles está na mesma situação que esta. Se alguém está pensando na canção de Thunderball “Mister Kiss Kiss Bang Bang”, também ela não se  encontra nesta condição, já que nunca foi incluída na edição original da trilha sonora e permaneceu desconhecida até ser incluída em um CD comemorativo ao trigésimo aniversário da série.

Confesso que, depois da experiência musical de Tomorrow Never Dies, minhas expectativas para esta trilha sonora eram bastante altas. No entanto, o resultado mostrou ser um tanto diferente. Neste trabalho, Arnold continuou com sua tendência de manter uma equilibrada combinação de arranjos instrumentais e eletrônicos. Em alguns casos inclusive combinou ambos em um mesmo tema, o que nem sempre funcionou bem. A utilização do “Tema de James Bond” se restringiu a um par de cenas bem evidenciadas. Especialmente destacado é o arranjo musical da sequência de pré-títulos. No caso do combate na fábrica de caviar, a música não tem a grandiosidade da composição anterior. Neste trabalho Arnold definitivamente trata de mostrar seu estilo de composição, utilizando recursos mais pessoais e não amparando-se tanto no “Tema de James Bond” ou nas canções. Neste este sentido se destacam “Ice Bandits”, “Pipeline”, “I Never Miss” e “Submarine”.

O arranjo para o tema romântico de Elektra King (baseado en “Only My Self To Blame”) é realmente belíssimo e emotivo, ainda que a cena correspondente não o seja (recomendo ouvir este tema em um sistema de áudio, sem nenhuma imagem associada). Outros arranjos baseados nesta mesma canção não resultam tão satisfatórios (“Casino”, “Remember Pleasure”).  Devo assinalar que sob o meu ponto de vista, o momento musical mais emocionante do filme não foi incluído no disco, se trata da sequência de esqui quando Bond e Elektra se lançam do helicóptero. É um arranjo instrumental muito breve baseado na canção principal, e que constitui uma verdadeira homenagem ao estilo de orquestração que caracterizou John Barry. Se não soubéssemos que Arnold está por trás deste tema, facilmente poderíamos atribuí-lo a Barry. Talvez sua brevidade tenha sido a causa de sua não inclusão na edição final do disco.

Retomando uma afirmação feita em outros comentários a respeito da influência que possui a música para elevar ou diminuir um filme, quando me perguntam qual é o melhor filme entre Goldeneye ou Tomorrow Never Dies, respondo prontamente a favor deste último, mas reconheço que esta preferência se deve basicamente à música, já que nos demais aspectos ambos são bem semelhantes. Em resumo, sem a grandiosidade da trilha sonora de Tomorrow Never Dies, este trabalho ainda se mantém satisfatoriamente, mostrando os primeiras sinais do estilo mais pessoal de David Arnold na série – situação absolutamente previsível e  legítima.

Hugo Moya Arancibia

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2 opiniões sobre “Na Trilha: Ouvindo 007 – TOMORROW NEVER DIES, THE WORLD IS NOT ENOUGH (Parte 6)”

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