Everest_CDMúsica composta por Dario Marianelli
SeloVarèse Sarabande
Catálogo: 302 067 368 8
Lançamento: 18/09/2015
Cotação: star_3_5

A ousadia faz parte do espírito humano. Sempre que vemos um novo desafio, não importa o quão difícil, temos o impulso de nos esforçar e pensar nas melhores estratégias para superá-lo, seja para demonstrar força, seja por uma simples questão de sobrevivência. Tais desafios podem ser imposições da natureza, com seus lugares inabitáveis, oceanos intransponíveis, tempestades mortais e montanhas que tocam o céu, teimando em desafiar a ousadia incansável do ser humano. Hollywood já percebeu isso há muito tempo, e aprendeu a colocar nos cinemas histórias reais de pessoas que embarcam em jornadas arriscadas, possivelmente mortais e, mesmo contra todas as probabilidades, conseguem sobreviver para contar o que houve. O último exemplar a chegar aos cinemas é Evereste (Everest, 2015). Dirigido pelo islandês Baltasar Kormákur, o filme conta com um elenco estelar, que inclui Jason Clarke, Josh Brolin, Jake Gyllenhaal, Keira Knightley e Emily Watson, e é baseado numa história real de um grupo de alpinistas que, em 1996, tentaram escalar a mítica montanha, no Himalaia, mas que acabaram presos por causa de uma nevasca e terminaram lutando por sua sobrevivência. O oscarizado italiano Dario Marianelli assina a trilha sonora.

Esse subgênero de filme, graças à sua temática e ambientação, costuma inspirar ótimas trilhas sonoras. Dentre elas, destacam-se o score de Bruce Broughton para o telefilme Glory & Honor (idem, 1998), que lhe rendeu um Emmy, e o de James Newton Howard para Vivos (Alive, 1993), grandes trilhas que merecem ser redescobertas pelas novas gerações de fãs (a primeira ganhou uma edição especial em 2010 pela Intrada, e a segunda ainda está à espera de que uma gravadora a resgate do esquecimento, embora versões bootleg de baixa qualidade possam ser achadas na internet). Mais recentemente, A.R. Rahman conquistou sua segunda indicação ao Oscar por 127 Horas (127 Hours, 2010), e o excelente Johan Söderqvist compôs uma das mais belas trilhas de 2012 (e, provavelmente, da década) para o drama A Aventura Kon Tiki (Kon Tiki, 2012). Assim, devo dizer que minhas expectativas estavam altas para o que um compositor talentoso como Dario Marianelli poderia fazer com tal temática.

Assim, após ouvir o disco lançado pela Varése, é interessante notar como as abordagens de Marianelli, Söderqvist e Rahman são parecidas: ambos procuraram, a partir de orquestrações esparsas e etéreas, que incluem o uso de instrumentos exóticos e incomuns, demonstrar os amplos espaços abertos e desprovidos de humanos de seus respectivos longas, com a música representando quase a natureza em sua forma intocada – um estilo utilizado algumas vezes por James Horner, especialista em longas nos quais a ambientação em grandes paisagens naturais eram personagens quase tão importantes quanto os de carne e osso. Ao mesmo tempo, os compositores procuraram contrastar a música mais “natural” com melodias mais esperançosas e otimistas, demonstrando a inocência dos exploradores frente aos seus desafios e a sua coragem e persistência ao enfrentá-los.

Marianelli seguiu essa linha à risca, com dois estilos musicais perpassando seu score, um dedicado à montanha, e outro para os personagens humanos. Para o Monte Evereste, o italiano compôs um tema que, em suas próprias palavras, funciona quase como uma “voz chamando, um canto de sereia distante”, que, ao mesmo tempo, representa a “antiguidade quase divina da montanha, mas também um chamado irresistível do destino”. Ele aparece logo na primeira faixa, intitulada The Call, a cargo de um cello solo e da voz da cantora Melanie Pappenheim, junto a texturas eletrônicas atmosféricas evocativas. Tal conjunto demonstra bem a imensidão solitária e fria da montanha, embora as vocalizações de Pappenheim me lembrem um pouco de Lily’s Theme, da trilha de Alexandre Desplat para Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows Part 2, 2011).

Curiosamente, porém, o tema da montanha, durante boa parte do disco, não aparece apenas cargo da bela voz da cantora, mas sim interpretados pelos igualmente talentosos solistas Caroline Dale e David La Page, respectivamente, violoncelista e violinista. Cada um dos três solistas dá sua representação particular para a representação musical do Monte Evereste, com a beleza dos solos de Dale complementando o violino folk de La Page. Destacam-se suas aparições no violino de La Page em 0:42 de Setting Off From Kathmandu e de forma e melancólica ao início de Beck Gets Up, na voz de Pappenheim em Someone Loves Us, e numa triste interpretação do cello de Dale em Last Words.

A última faixa do disco, Epilogue, é completamente dominada pelo tema da montanha, em interpretações minimalistas para violino, cello, piano e a voz da cantora. É uma versão atmosférica e evocativa, representando a solidão da montanha e o poder sutil que emana de seus cumes. De certa forma, lembra uma possível faixa instrumental que alguma banda de rock progressivo dos anos 1970 pudesse ter lançado naquela época.

Entretanto, é interessante notar que o tema do Monte Evereste não costuma aparecer completamente isolado na trilha. Muitas vezes, ele é seguido, complementado ou aparece em contraponto a outro tema igualmente importante: o tema dos humanos, que pretendem escalar a montanha. Mais forte e masculino, ele é interpretado na maioria das vezes por cordas graves e trompas, e traz um ar nobre e heroico para os exploradores. Na maioria das vezes, ele também ganha o acompanhamento de uma percussão quase tribal, que me trazem a memória a percussão “selvagem” utilizada por Clint Mansell em Noé (Noah, 2014).

O tema humano é inicialmente sugerido em um evocativo piano, na faixa Setting Off From Kathmandu, antes de passar para as cordas e a percussão, em contraponto ao tema do Evereste no violino. Depois disso, ele se torna bastante presente ao longo de todo o disco. Perceba como, no início do álbum (e do filme), ele aparece de forma mais heroica e grandiosa, a cargo de toda a orquestra, como em First Trek Base Camp, The Lowdown e A Close Shave, como se representasse a arrogância dos humanos frente ao insuperável. Starting the Ascent é um belo cue, que mistura o tema humano, no piano e na orquestra, junto ao do Monte Evereste, no violino. Já em Someone Loves Us ele é interpretado de forma mais lenta e melancólica, sem o acompanhamento da percussão tribal, mas ainda remetendo à coragem dos alpinistas. Porém, sua melhor interpretação se dá em Summit, num grandioso crescendo para toda a orquestra e a percussão, e bastante reminiscente da memorável Evey Remembers, do score de Marianelli para V de Vingança (V for Vendetta, 2006) – prevejo ela sendo utilizada em trailers para futuros blockbusters hollywoodianos daqui para a frente.

Entretanto, conforme a tragédia se abate sobre os alpinistas, e eles passam a correr perigo de vida, o tema humano fica ausente. Para representar a situação desesperadora dos escaladores, Marianelli utiliza desde eletrônicos abrasivos, passando por uma grande variedade de pratos e instrumentos de percussão, até frases fortes para metais. Tais partes podem ser de difícil audição e apreciação, ainda mais para aqueles que vieram a apreciar a música mais lírica do italiano.

Além disso, para alguns momentos de ação, em faixas como Time Runs Out e Chopper Rescue, Marianelli emprega alguns ostinatos para cellos e baixos, junto a percussão, que podem fazer a alegria dos fãs das trilhas de Hans Zimmer para o Batman e o Superman – e decepcionar os fãs de longa data de Marianelli, que vieram a admirar o compositor por seus scores para longas como Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, 2005), Desejo e Reparação (Atonement, 2007) e a maravilhosa Alexandria (Agora, 2009), sua obra prima, em minha opinião. Mesmo contando com uma orquestra completa à sua disposição, a London Session Orchestra, regida pelo próprio compositor (pelo visto, Marianelli agora tem atuado também como maestro depois que seu principal colaborador, Benjamin Wallfisch, passou a seguir uma carreira solo em ascensão), o italiano achou que esta seria uma boa oportunidade para “modernizar” suas técnicas de composição.

Assim, eu devo admitir que não gostei muito do score de Evereste na primeira vez que o ouvi. Achei-o duro demais, abrasivo demais e até mesmo frio demais para o que eu esperava do compositor e da temática do filme. Porém, que bom que nunca escrevo minhas reviews depois de apenas uma audição, pois precisei voltar ao disco algumas vezes para apreciar os muitos momentos de pura beleza da trilha. Ela pode não ter as maravilhosas melodias líricas de Kon Tiki, enquanto o filme não tem o mesmo prestígio da crítica do que 127 Horas (o que deve tornar uma indicação ao Oscar para Marianelli uma possibilidade distante), mas ainda é um bom score, que vale uma (ou muitas) conferidas. Afinal, se você nunca tiver a oportunidade de ir escalar o Monte Evereste, a música de Dario Marianelli pode lhe ajudar a imaginar justamente como seria.

Faixas:

1. The Call (03:11)
2. Setting Off from Kathmandu (01:16)
3. First Trek: Base Camp (02:30)
4. Arriving at the Temple (01:01)
Performed by The Monks of Tharig Monastery
5. The Lowdown (02:36)
6. A Close Shave (03:25)
7. Starting The Ascent (03:06)
8. To Camp Four (02:09)
9. Someone Loves Us (01:56)
10. Summit (04:57)
11. Time Runs Out (06:58)
12. Lost (02:23)
13. Last Words (02:58)
14. Beck Gets Up (02:55)
15. Chopper Rescue (02:20)
16. Epilogue (05:11)

Duração total: 48:52

Tiago Rangel
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