Na Trilha: Ouvindo 007 – THE LIVING DAYLIGHTS, LICENCE TO KILL, GOLDENEYE (Parte 5)


Antecedendo à chegada, aos cinemas, do novo filme de James Bond, 007 Contra Spectre, nesta série de resenhas iremos levá-lo a uma viagem pelo universo musical do agente secreto mais famoso – e longevo – da história do cinema. O ano primeiramente indicado refere-se à edição da trilha sonora comentada, e não ao lançamento do filme.

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livingCD007 – Marcado Para a Morte 
(The Living Daylights, John Barry, 2003, star_4) – The Living Daylights foi a última trilha sonora que John Barry compôs para a famosa série, e há o consenso de que se trata de um de seus melhores trabalhos para Bond. Este filme marcou a estréia de Timothy Dalton no papel do agente secreto. Dalton, vinte anos mais jovem que Roger Moore, trouxe à série ares novos e dinâmicos, mas também um lado mais sombrio e realista. John Barry aproveitou este novo cenário para introduzir algumas modificações no estilo musical que havia utilizado durante todo o período de Roger Moore. Em Marcado Para a Morte tivemos sonoridades mais modernas e rápidas, com novos estilos de instrumentação, entre os quais se destacou fortemente a incorporação de sintetizadores. Dado o sucesso obtido pela canção principal de Na MIra dos Assassinos, os produtores novamente insistiram com uma banda da moda para interpretar a canção dos créditos iniciais. A escolha recaiu no grupo norueguês a-ha para interpretar o tema “The Living Daylights”, composto por John Barry e Paul Waaktaar (membro do grupo).

Esta canção era de um tom bem mais suave que sua antecessora e se ajustava bem ao estilo musical da banda. É interessante notar que o título do filme e da canção principal, “The Living Daylights”, é uma expressão típica dos países de língua inglesa, que literalmente significaria algo como “As horas do dia em que há luz natural”. No entanto, pelo que pesquisei em diversos dicionários, esta expressão não possui tradução literal, seu significado recorrente está associado a situações tais como “dar um susto tremendo” ou “deixar os cabelos em pé”. Em quase todos os países onde não se fala inglês o filme foi rebatizado com títulos que não tinham nenhuma conexão com o original (por exemplo, no restante da América Latina o título ficou sendo 007 Su Nombre Es Peligro). A canção não repetiu o êxito alcançado por sua predecessora, ainda que tenha tido um bom desempenho nas paradas de sucesso. De 1974 até 1985 (seis filmes), a fórmula musical padrão para Bond manteve-se inalterada, inclusive nas trilhas compostas por outros compositores, mas para este filme John Barry incorporou um par de mudanças.

Pela primeira vez na história musical de Bond também foi criada uma canção para os créditos finais, “If There Was A Man”, composta por Barry e a cantora Chrissie Hynde, e interpretada por sua banda The Pretenders. Este tema é uma balada romântica no mais puro estilo das canções da década de setenta. As duas canções foram abundantemente utilizadas como padrão para a música incidental do filme: o tema principal para acompanhar sequências de ação e o tema dos créditos finais para acompanhar cenas românticas. Além das duas anteriores, John Barry se deu ao luxo de compor uma terceira canção em parceria com Chrissie Hynde, que também foi interpretada pelo grupo The Pretenders. Esta canção, “Where Has Everybody Gone”, foi utilizada principalmente em forma instrumental para acompanhar as cenas em que aparecia o assassino Necros, e circunstancialmente sua versão cantada surgia quando este mesmo personagem a escutava em seu walkman. Esta canção quase poderia ser definida como diabólica, já que sua melodia e estilo de interpretação rapidamente sugerem que estamos frente a algo maligno. Sobre estas três canções e o “Tema de James Bond”, baseiam-se nove das doze faixas do álbum original lançado em 1987, que resultou em um trabalho muito satisfatório e novo em relação ao que estávamos acostumados.

O “Tema de James Bond” continuou sendo interpretado em sua versão sinfônica, porém em ritmo mais acelerado e com a adição de alguns sons e acompanhamentos de sintetizador, situação que é bastante lógica, considerando que estávamos diante da estréia de um Bond bem mais jovem que seu antecessor. Por muitos anos o álbum original esteve fora de catálogo, o que dificultava sua aquisição. Em 1999 o selo RYKO colocou à disposição do público uma nova versão desta trilha sonora, remasterizada e com nove temas adicionais, ou seja, toda a música do filme. Este foi um fato importante, já que até então nenhuma trilha sonora de Bond havia sido lançada em sua totalidade. Este mesmo processo (relançamento do disco com músicas não incluídas na versão original) repetiu-se posteriormente com as trilhas sonoras de Somente Para os seus Olhos (novamente pelo selo RYKO), O Amanhã Nunca Morre e o relançamento pela EMI/Capitol de quinze trilhas sonoras da série, seis das quais contendo temas nunca antes lançados. Note-se que esta versão da EMI/Capitol de Living Daylights repete o mesmo conteúdo da edição da RYKO, com as músicas adicionais iniciando a partir da faixa 13.

Finalizando, John Barry despediu-se da série em sua melhor forma, com excelente música, interessantes inovações e um adequado uso do “Tema de James Bond”. Mas atenção, quando falo na “despedida de Barry”, não estou dizendo que intencionalmente o compositor tenha decidido que este seria seu último trabalho para a série, mas sim que, por distintas circunstâncias, ele não voltou a compor para Bond até a sua morte, ocorrida em 2011.


ltkcdcover007
 – Permissão Para Matar (Licence To Kill, Michael Kamen, 1989, star_3) – Em 1989 John Barry sofria de uma grave uma infecção intestinal que quase lhe custou a vida, e que o obrigou a submeter-se a quatorze intervenções cirúrgicas. Ele voltou a trabalhar em 1990, quando compôs a trilha sonora ganhadora do Oscar Dança com Lobos. Apesar das esperanças dos produtores da franquia James Bond de que Barry se recuperaria a tempo para compor o score de 007 – Permissão para Matar, isto não ocorreu. Por esta razão, a ausência de Barry propiciou uma série de mudanças que finalmente fariam com que a música de Bond se afastasse substancialmente de suas tradições. Tudo faz supor que em 1989 os produtores assumiram, explicitamente, a importância que tinha a trilha sonora como um produto comercial acessório do filme. Esta “descoberta” fez com que esta trilha se afastasse bastante da tradição musical de Bond.

Os produtores contrataram o falecido compositor Michael Kamen (1948-2003), encarregado somente de compor a partitura incidental do filme. Esta condição fica absolutamente clara na seqüência dos créditos iniciais, onde está registrado: “Score composed by Michael Kamen”. Esta situação significou que Kamen teve de criar uma trilha sonora sem ter idéia de quais canções seriam incluídas no filme, impossibilitando que ele pudesse utilizá-las como padrão em sua partitura. De fato, esta foi a primeira vez em que um compositor de trilhas sonoras de Bond não utilizou a canção principal como padrão para suas composições instrumentais.

Kamen era um destacado músico que compôs as partituras de filmes conhecidos, tais como os três primeiros Duro de Matar, os quatro Máquina Mortífera, Brazil – O Filme, Robin Hood: Príncipe dos Ladrões, Os Três Mosqueteiros, Os 101 Dálmatas e Don Juan de Marco, e cujo estilo de trabalho se caracterizava exatamente por participar na composição e posterior utilização instrumental das canções incluídas em suas trilhas sonoras. Há rumores que, originalmente, o tema principal desta película seria uma composição instrumental interpretada por Vic Flick (o guitarrista original do “Tema de James Bond”) e Eric Clapton, mas posteriormente os produtores decidiram continuar com a tradição de utilizar canções. Além disso, pela primeira vez desde 1963 (Moscou Contra 007), os produtores decidiram deixar a composição das canções para músicos completamente independentes do compositor da partitura principal. Foi assim que distintos músicos compuseram quatro diferentes canções para serem utilizadas no filme, as quais fazem parte do álbum. A respeito das canções utilizadas, registro o seguinte:

  • “Licence To Kill”, composta por Narada Michael Walden, Jeffrey Cohen e Walter Afanasieff e interpretada por Gladys Knight, utilizada somente nos créditos principais. Trata-se de um tema que traz muitas reminiscências da canção principal de 007 Contra Goldfinger, inclusive seus primeiros acordes são muito parecidos. Isto implica, portanto, que se trata de uma canção no estilo utilizado na década de 1960 para as canções de Bond. A intérprete Gladys Knight possui características similares a Shirley Bassey ou Tom Jones, o que deu à canção o toque de energia e força necessários. Apesar de todas estas características, a canção não teve nenhum destaque nas paradas de sucesso, e tampouco é lembrada como uma das mais destacadas da série, de fato é uma das mais ignoradas;
  • “If You Asked Me Too”, composta por Diane Warren e interpretada por Patti La Belle, utilizada apenas nos créditos finais. Como no filme anterior, a canção composta para os créditos finais é bem melhor que a principal. Ela possui um estilo semelhante a “If There Was A Man” de 007 – Marcado Para a Morte, ou seja, é uma bonita balada romântica interpretada por uma cantora de grande força. Atreveria a dizer que, se ela fosse a canção principal, teria uma aceitação muito boa, tanto que alguns anos depois foi popularizada mundialmente pela famosa cantora Celine Dion;
  • “Wedding Party”, composta por Jimmy Duncan e Phillip Brennan e interpretada por Ivory, é uma canção dançante utilizada nas cenas da festa de casamento de Felix Leiter e Della;
  • “Dirty Love”, composta por Steve Dubin e Jeff Pescetto e interpretada por Tim Feehan, utilizada para acompanhar uma violenta cena de luta entre Bond e seus inimigos em um bar da Flórida.

Frente a este cenário, Michael Kamen não teve outro caminho que não o de compor uma boa trilha sonora, sabendo de antemão de que somente não poderia prescindir da utilização do “Tema de James Bond”. Neste aspecto Kamen foi extremamente generoso, já que são muito poucos os filmes de Bond onde o uso desta assinatura musical é tão abundante. Das seis composições instrumentais que Kamen compôs para este disco, em quatro o tema está bem presente. Tenho a impressão de que pela primeira vez na história de Bond, a trilha sonora é interpretada por uma grande orquestra em termos de número de componentes e instrumentos utilizados. A música foi interpretada pela National Philharmonic Orchestra, o que inevitavelmente produz um efeito de grandiosidade no mais puro estilo das grandes trilhas sonoras compostas por John Williams.

Em relação à música incidental composta por Kamen devo mencionar que por muito tempo a considerei espetacular, inclusive cheguei a considerá-la como a segunda melhor após 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade. Mas com o passar do tempo, a chegada de trilhas sonoras posteriores e a reavaliação das trilhas anteriores, terminei por mudar de opinião. Claramente até aquele momento era a partitura que melhor soava ao ouvinte, basicamente devido à grande orquestra que a interpretou, ainda que haja algumas passagens que não resultam muito interessantes de escutar, pelo menos sem imagens. Esta situação tende a atenuar-se com a inserção do “Tema de James Bond”, mais a incorporação de alguns acordes latinos. Em todo caso, estas passagens um tanto sem atrativos de ouvir eram uma constante no estilo de composição de Kamen, que se caracterizava por ter muitos efeitos sonoros, trocas violentas de melodia e utilização excessiva de instrumentos de percussão, que em grandes orquestras adquirem um destaque especial.

Mas como assinalado antes, aqueles fatores convertem em um trabalho bastante satisfatório e digno. É necessário destacar que, apesar de tratar-se de uma obra notadamente sinfônica, a interpretação do “Tema de James Bond” não se inspirou na versão  sinfônica de John Barry, mas sim na que era utilizada na década de 1960. Tanto que marcou a volta de Vic Flick para que contribuísse com as interpretações da guitarra. Além disso, é justo registrar que Kamen incorporou uma grande variedade de arranjos para o “Tema de James Bond”, incluindo mais de um dentro de uma mesma composição, como no caso de “Licence Revoked”. Isto lhe deu um mérito adicional, já que de um modo geral o uso deste tema se resumia a um ou no máximo dois tipos de arranjos por filme.

Outro aspecto destacado da música de Kamen foi a novidade introduzida na “Gun Barrel Sequence”, onde ele mudou totalmente sua introdução, mantendo somente o arremate musical da sequência. A partir de Kamen, todos os compositores sentiram-se com mais liberdade para inovar esta marca registrada que se havia mantido por quase toda a série, salvo por una pequena variação introduzida por Marvin Hamlish em 007 – O Espião Que Me Amava. Mantendo a tradição das trilhas anteriores, parte da música utilizada no filme não foi incluída no disco, e até agora não houve interesse em  resgatá-la em um álbum expandido ou em alguma compilação (inclusive este título, por não pertencer à EMI, não foi incluído nos relançamentos de trilhas da série ocorrido em 2003).

Em resumo, a música funciona bem e as canções utilizadas no início e no final são satisfatórias, ainda que fique a curiosidade de como teria sido se Kamen tivesse participado de sua composição. Outras participações do músico como compositor de canções para filmes e sua posterior utilização instrumental nas trilhas sonoras indicam que ele teria feito um bom trabalho, basta mencionar como exemplos “Everything I Do, I Do It For You” de Robin Hood: Príncipe dos Ladrões e “All For One” de Os Três Mosqueteiros.


goldeneyeCD007 Contra Goldeneye
 (Goldeneye, Eric Serra, 2003, star_2) – Após 007 – Permissão para Matar, seis anos e meio se passaram até Bond retornar às telas. A maioria dos membros históricos da equipe de produção foram substituídos, alguns inclusive por terem morrido. Um novo rosto estreava no papel do espião – Pierce Brosnan -, e a quase totalidade dos atores que interpretavam os personagens fixos da série também foram trocados. No controle da série não estava mais Albert R. Broccoli, que à época já se encontrava doente, mas sim a sua filha e Michael G. Wilson. Sob este novo cenário foi criado o regresso de 007. No Chile a informação sobre este novo filme era escassa, porque então não havia o acesso massivo à Internet e as únicas fontes de informação eram os canais de TV pagos ou as revistas e jornais estrangeiros. Um mês antes da estréia no Chile, vi no interior de um cinema o cartaz publicitário da película, e de imediato procurei ter acesso a ele para poder me inteirar do elenco e da equipe de produção. Não nego que um dos meus principais interesses era saber quem estava encarregado da música. Tampouco poderia negar que senti certa preocupação e incerteza quando li o nome de Eric Serra como compositor da trilha sonora.

Minha preocupação não se baseava em considerar Serra um mal compositor, mas sim que, tendo conhecido alguns dos seus trabalhos anteriores, tinha razoáveis dúvidas sobre  se ele era um compositor apropriado para musicar um filme de Bond. Serra se caracteriza por compor toda sua música em sintetizadores e utilizar um estilo bastante pausado, obscuro e de muita profundidade, algo assim como uma espécie de sons submarinos ou subterrâneos com muitos ecos. Este estilo é facilmente identificável em filmes como Imensidão Azul, Nikita ou O Profissional. Minha primeira impressão, antes de ver ou escutar alguma coisa, foi que este estilo não combinaria com Bond, mas ainda tinha esperanças de que Serra mudaria seu estilo em Goldeneye, ou pelo menos recorreria a um estilo mais sinfônico, como o que ele utilizou em Atlantis. Nada disso ocorreu, e pelo contrário, Serra se aferrou mais do que nunca ao seu estilo característico, o que finalmente o aniquilou como compositor para Bond, convertendo seu trabalho no pior de toda a série.

Diante desta situação, surge a seguinte pergunta: este desastre é responsabilidade de Serra ou dos produtores, que não souberam escolher o compositor apropriado? Creio que ambos têm sua quota de responsabilidade: Serra por negar-se a considerar os códigos mínimos e básicos para musicar os filmes da série, e o que é pior, tratando de destruí-los ou ridicularizá-los; e os produtores por não corrigir a tempo este equívoco. Neste último aspecto, a falta de critério dos produtores foi incrível, já que é bastante lógico supor-se que tiveram conhecimento da música durante o processo de produção, quando ainda poderia ser feita alguma modificação, e ainda assim nada fizeram.

No filme anterior critiquei que se havia quebrado a tradição de que a partitura instrumental e a canção principal fossem criadas pelo mesmo compositor. Em Goldeneye isto se repetiu, ainda que nesta ocasião a decisão tenha sido acertada. A canção principal “Goldeneye” foi composta por Bono e The Edge, e interpretada por Tina Turner. Musicalmente falando, esta canção é claramente a melhor do filme, com um estilo absolutamente fiel às canções da década de 1960. Na interpretação, Tina Turner está soberba, lembrando-nos de certo modo Shirley Bassey. A música também está bastante coerente com o estilo das canções “Goldfinger” e “Thunderball”, e a letra, seguindo a tradição, não tem qualquer relação com a trama do filme.

Como a incorporação de uma canção exclusiva para a seqüência de créditos finais já tivesse se consolidado, Eric Serra não quis perder a oportunidade de compor uma canção para o final do filme, também interpretada por ele. Outro grande equívoco de Serra, já que esta canção pode facilmente ser considerada como a pior de toda a série. É uma canção absolutamente plana, sem nenhum momento de quebra, sem uma estrofe identificável e absolutamente chata, tornada ainda pior pela interpretação vocal do próprio Serra. Poucas vezes em minha vida vi um filme – por pior que tenha sido – com uma canção final tão ruim. Da letra é melhor nem falar já que está absolutamente fora de contexto, tanto em relação ao filme quanto à sequência final. A exemplo de seu predecessor Michael Kamen, Eric Serra não utilizou a canção principal como padrão para a música incidental, o que igualmente não fez com aquela por ele mesmo composta. Este último detalhe é válido para o filme, porém no álbum existe uma faixa (“The Scale To Hell”) que possui alguns acordes da dita canção, os quais não foram utilizados no filme. Tal como assinalamos  anteriormente, Eric Serra não apenas evitou ao máximo utilizar o “Tema de James Bond” no score, como também, nas poucas oportunidades em que o fez, tratou de ridicularizá-lo ou de rebaixar seu perfil, de tal forma que quase não se notamos a sua presença. Duas sequências do filme contém o “Tema de James Bond”:

  • A primeira corresponde à sequência pré-títulos, que no disco se denomina “The Goldeneye Overture”. Nesta composição escutamos, muito bem disfarçado, um pequeno fragmento da melodia característica do tema. Como toda a música foi composta com sintetizador, se chega ao extremo de que estes acordes tenham sido supostamente interpretados por um tambor. Qualquer um que conheça algo de música sabe que um tambor não é capaz de executar notas musicais, já que se trata de um instrumento de percussão, mesmo assim neste tema podemos escutar as breves citações ao “Tema de James Bond” interpretadas por este instrumento. Certamente trata-se de uma degradação desta melodia, que elimina completamente a relevância que sempre teve. Adicionalmente Serra incorpora neste tema sons de coral digitalizado que dão à música um clima mais apropriado ao terror do que a cenas de ação, o que colabora para que esta composição não atinja o efeito emotivo que habitualmente possui a música que acompanha uma cena de ação de James Bond, particularmente quando nela está incluído seu tema característico;
  • A segunda sequência corresponde à perseguição do tanque pelas ruas de São Petersburgo, que no disco se chama “A Pleasant Drive in St. Petersburg”. Este tema deve ser um dos casos mais insólitos da história musical de toda a série. Em várias trilhas sonoras de Bond houve temas que acabaram não sendo utilizados no filme, uma vez que as cenas correspondentes não foram incluídas na montagem final do filme, mas neste caso temos algo diferente. Em primeiro lugar, devo afirmar que este tema realmente constitui uma afronta à tradição musical da série. O arranjo musical do “Tema de James Bond” chega a ser ridículo por várias razões – teve a incorporação de algumas vozes um tanto sinistras, o ritmo está absolutamente desconectado do sentido dramático da sequência e de um modo geral a sonoridade da composição é absolutamente alheia à tradição musical de Bond, especialmente neste tipo de cenas. Esta situação colocou aos produtores a urgente necessidade de pedir ao orquestrador de Serra, John Altman, que compusesse uma música substituta, mais próxima da tradição musical da série e que, principalmente, claramente incluísse o “Tema de James Bond”, que deveria ser interpretado com o respeito devido e ajustado à sua transcendência histórica. O resultado foi um tema bastante satisfatório, onde podemos ouvir claramente, e com a intensidade e emotividade apropriada, ao “Tema de James Bond”. Este tema foi posteriormente incluído no disco “Bond Back In Action 2”, com o título de “Tank Drive Around St. Petersburg”. O peculiar desta situação é que, pela  primeira vez, um tema é substituído por outro composto por um músico diferente e posteriormente ao lançamento do disco com a trilha sonora, situação que resulta evidente ao compararmos o tema que está no CD com o ouvido no filme. Esta situação não ficou registrada em nenhum lugar, nem mesmo nos créditos finais, onde habitualmente fica registrado quando outro autor compõe “Música Adicional”. É provável que anteriormente, em outras películas da série, alguns temas tenham sido substituídos, porém mesmo nestes casos as novas músicas certamente foram de autoria do mesmo compositor, e isso ocorreu antes do lançamento do álbum e do filme. De tal sorte que nem sequer temos certeza de que isso efetivamente tenha ocorrido.

Para não parecer tão negativo, devo assinalar que nem tudo foi ruim e que existem alguns temas interessantes, que mesmo não se encaixando perfeitamente no estilo musical de Bond, resultam em uma audição agradável. Como exemplos podemos mencionar os seguintes: “We Share The Same Passions”, “Run, Shoot, and Jump” e “The Severnaya Suite”. O que fica muito claro depois desta experiência é a relevância que adquire a música, na aceitação ou reprovação do público por um filme. A música é determinante da emoção que pode provocar cada cena ou seqüência. Certamente a trilha sonora de 007 Contra Goldeneye – diferentemente de quase todas as outras trilhas sonoras de Bond – não consegue fornecer quotas significativas de emoção (salvo exceções) ao público, o que provoca uma sensação de vazio e desânimo ao terminar o filme. É tal a relevância da música que, somente por este único fator, às vezes não parece que estamos à frente de um filme de Bond. Ao final, ficou muito claro que os produtores se deram conta da decepção generalizada, já que para o filme seguinte trouxeram outro compositor, que começaria a escrever uma nova página na história da música de James Bond.

Hugo Moya Arancibia

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