pawnsacrifice

Resenha de Trilha Sonora: PAWN SACRIFICE – James Newton Howard


pawn_CDMúsica composta por James Newton Howard
SeloLakeshore Records
Catálogo: LKS 345292
Lançamento: 11/09/2015
Cotação: star_3

Eu tenho um carinho especial pelo diretor Edward Zwick, principalmente pela música que seus filmes inspiram. Afinal, nada menos que dois de seus longas estiveram entre os principais responsáveis pelo meu amor incondicional pela Música de Cinema: Lendas da Paixão (Legends of the Fall, 1994) e O Último Samurai (The Last Samurai, 2003). Estas duas belíssimas trilhas, respectivamente de James Horner e Hans Zimmer, combinadas ao escopo épico das narrativas de Zwick, me despertaram para o poder da música composta para os filmes. Aliás, o sujeito parece ter um talento especial para inspirar grandes compositores: com ele, o próprio Horner compôs um de seus scores mais famosos e queridos, Tempo de Glória (Glory, 1989) e, ao longo da última década, James Newton Howard entregou para Zwick a ótima Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006), e conquistou uma indicação ao Oscar por Um Ato de Liberdade (Defiance, 2008). Howard, claro, também é um dos meus compositores favoritos de sempre, então foi com boas expectativas que fui ouvir este Pawn Sacrifice.

O longa é uma espécie de thriller biográfico, que conta a história do enxadrista Bobby Fischer (o eterno Homem-Aranha Tobey Maguire) e sua disputa com o russo Boris Spassky (Liev Schreiber) durante a Guerra Fria. Apesar de ter estreado no Festival de Toronto, em 2014, só agora, em setembro, que o longa conseguiu uma data de estreia nos cinemas dos EUA. E, sobre a temática do longa, vale ressaltar também mais uma conexão entre os dois James, além do diretor: na década de 1990, um dos muitos filmes do então prolífico Horner naquela época foi Lances Inocentes (Searching for Bobby Fischer, 1993), que, diferentemente do filme de Zwick, não é uma biografia de Fischer, e sim de outro jovem enxadrista, Josh Waitzkin, que é influenciado por seu treinador a seguir as estratégias de vitória de Fischer. A trilha de Horner, que recentemente ganhou uma bela edição especial pela La La Land Records, era doce, inocente e fazia parte de uma bela linhagem de scores que também incluía Impacto Profundo (Deep Impact, 1998), O Homem Bicentenário (The Bicentennial Man, 1999) e a indicada ao Oscar Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001). Porém, mesmo com essas conexões, os trabalhos de Horner e Newton Howard não poderiam ser mais diferentes.

Howard é considerado por muitos críticos como um verdadeiro camaleão da Música de Cinema, já tendo composto para filmes de todos os tamanhos e gêneros. Assim, dentre todos os estilos de scores que ele compôs, certamente o menos preferido pelos seus fãs são aquelas trilhas mais discretas, eletrônicas e sombrias que o compositor parece gostar tanto. Trabalhos como o recente O Abutre (Nightcrawler, 2014) e Conduta de Risco (Michael Clayton, 2007) – uma das mais bizarras indicações ao Oscar de Melhor Trilha da última década –, que Howard costuma fazer provavelmente pelo prestígio artístico que tais longas possuem, mas que, na imensa maioria das vezes, rendem seus trabalhos menos interessantes. E, infelizmente, é o caso de Pawn Sacrifice: mesmo contando com uma pequena orquestra, que inclui cordas, clarinete, harpa e piano, boa parte da trilha consiste em texturas eletrônicas tensas e ameaçadoras. Aparentemente, Zwick quis deixar de lado o lirismo e a dimensão épica de suas trilhas anteriores em favor de um trabalho mais low key, bem menor que os outros, inclusive na duração: o disco lançado pela Lakeshore contém apenas 23 minutos (!) de música.

E o pior é que o álbum começa até bem: There’s Usually One Right Move traz texturas eletrônicas e acústicas que criam uma ambientação urbana e melancólica, destacada em especial na segunda parte, com sua bela melodia para cordas, lembrando um pouco o dramatsmo de Um Ato de Liberdade. Já Bobby Plays Carmine começa com pianos tensos e sons quase industriais, mas logo depois incorpora uma interessante melodia para cordas, clarinete e piano.

Talvez se o disco seguisse nessa mesma linha ele fosse mais interessante, porém, a partir da terceira faixa, logo dá para ver que estamos diante de outro trabalho discreto e pouco inspirado de Howard. E Ping Pong é a síntese disso: seus três minutos consistem em eletrônicos e guitarras, que começam discretos, mas que logo sobem até um final dramático, que inclui a orquestra e percussão eletrônica (ainda não vi o filme, mas, a julgar pela música, este deve ser o jogo de ping-pong mais tenso da história). Boris Spassky, a quarta faixa, consegue ser ainda menos interessante, contando apenas com uma melodia repetitiva para piano sobre tensos violinos e percussão sintetizada.

Em Reading About Spassky, é o clarinete que comanda a melodia, acompanhado de violinos e piano. A longa Fortfeit, por sua vez, resume todos os problemas do disco: ela intercala os sintetizadores tensos e industriais de Howard com melodias atmosféricas (e quase inaudíveis, se você não estiver prestando atenção, o que pode acontecer com frequência) para cordas e eletrônicos. Bobby Plays Boris, por sua vez, traz apenas um tema para cordas, de clima bastante pesado, e sem sinal da elegância mostrada pelo compositor em outros trabalhos.

Porém, quando tudo parecia perdido, eis que surge a última faixa, Bobby Wins. Assim como o disco de Conduta de Risco se encerrava com uma sombria melodia para cordas, que, de longe, era a sua parte mais interessante (25 Dollars Worth), a oitava faixa consiste numa dramática elegia e uma interpretação triste do tema principal. Contando com a mesma sensibilidade das orquestrações de Howard, a faixa pode até acabar entrando na playlist dos fãs do compositor, ou mesmo nas listas de melhores do ano de 2015.

Mesmo assim, é pouco para salvar um disco que, dado o seu tema, o diretor e o compositor, poderia ter saído bem mais interessante. Talvez Zwick queira ter tentado algo diferente na carreira, e viu a oportunidade em seu novo músico favorito, que, apesar das críticas, adora trabalhar em longas que pedem uma trilha mais discreta. Talvez a música curta e sombria acabe se encaixando bem no longa. Mas o fato é que os fãs da música de Howard provavelmente sairão decepcionados desta – e eu não consigo deixar de pensar o que o seu falecido xará poderia fazer com o mesmo material.

Faixas:

1. There’s Usually One Right Move 3:09
2. Bobby Plays Carmine 1:58
3. Ping Pong 3:35
4. Boris Spassky 1:51
5. Reading About Spassky 1:29
6. Forfeit 4:37
7. Bobby Plays Boris 1:05
8. Bobby Wins 5:46

Duração total: 23:30

Tiago Rangel

2 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: PAWN SACRIFICE – James Newton Howard”

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