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Resenha de DVD: GODZILLA – ORIGENS


godzilla_origens_DVDGOJIRA – GODZILLA: KING OF MONSTERS! – THE BEAST FROM 20.000 FATHOMS
Produção: 1954 – 1956 – 1953
Duração: 256 min.
Direção: Ishiro Honda, Terry O. Morse, Eugène Lourié
Elenco: Takashi Shimura, Akihiko Hirata, Akira Takarada, Momoko Kôchi, Raymond Burr, Paul Hubschmid, Paula Raymond, Cecil Kellaway, Kenneth Tobey, Lee Van Cleef
Vídeo: 1.33:1 (Fullscreen)
Áudio: Inglês, Japonês, Português (Dolby Digital 2.0 mono)
Legendas: Português, Inglês, Espanhol
Região: 0
Distribuidora: Obras-Primas do Cinema
Discos: 2 DVD-9
Lançamento: 24/06/2015
Cotações (Médias): Som: *** Imagem: ***½ Filmes: **** Apresentação e Extras: ***½ Geral: ***½ 

SINOPSE
Disco 1
GODZILLA (1954, 96 min.) – Como resultado de testes nucleares realizados pelos Estados Unidos no Oceano Pacífico, um gigantesco réptil com mais de 50 metros de altura é revivido. Além do tamanho e força, a fera possui um sopro radioativo mortal e destruidor que usa para atacar a cidade de Tóquio, dizimando tudo o que encontra pela frente em uma fúria mortal.
GODZILLA: O REI DOS MONSTROS (1956, 81 min.) – Editado e relançado nos EUA, esta versão do clássico japonês de 1954 trás algumas mudanças na história, como a introdução do repórter norte-americano Steve Martin (Raymond Burr), que virou protagonista e narrador da história, relatando a invasão do gigantesco monstro a Tóquio.

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Disco 2
O MONSTRO DO MAR (1953, 79 min.) – Como resultado de um teste nuclear no Ártico, um dinossauro carnívoro desperta e segue em direção à costa norte-americana. Testemunha de sua existência, o desacreditado Professor Tom Nesbitt (Paul Hubschmid) tenta convencer o paleontólogo Thurgood Elson (Cecil Kellaway) dos perigos que a criatura pode trazer ao país. Chegando a Nova York, o Rhedossauro deixa um rastro de destruição, enquanto Nesbitt e os militares juntam forças para detê-lo.

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COMENTÁRIOS
O pesadelo nuclear, iniciado com a explosão da bomba H nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 1945, foi o início de décadas de temores e incertezas para a humanidade, e ele teve reflexos diretos na ficção científica cinematográfica a partir da década de 1950. E no cinema, nem sempre a ameaça era a bomba em si, mas também os efeitos de sua radioatividade, capaz de provocar mutações, morte lenta e, pelo menos no celuloide, trazer de volta à vida monstros pré-históricos.

Um dos subgêneros do sci-fi mais populares surgidos na época, o do “Monstro à Solta”, foi inaugurado pelo impactante O MONSTRO DO MAR (THE BEAST FROM 20.000 FATHOMS, 1953), cujo roteiro de Fred Freiberger (da série clássica de JORNADA NAS ESTRELAS) baseou-se em um conto do celebrado escritor Ray Bradbury, sobre um dinossauro que ataca um remoto farol litorâneo. Expandindo o conceito literário original, a produção em preto e branco de Us$ 200.000, dirigida por Eugène Lourié, mostra a tal criatura, agora batizada como Rhedossauro, ser tirada da sua hibernação por testes nucleares no Pólo Norte e iniciar uma jornada submarina rumo a Nova York, localizada onde, há milhões de anos, a espécie se procriava. Após atacar bascos pesqueiros, o farol do conto de Bradbury e um sino de mergulho, o monstro chega à metrópole e espalha terror e destruição no melhor estilo de KING KONG (1933).

O elenco praticamente desconhecido, do qual hoje são lembrados apenas Kenneth Tobey (que seria presença habitual nos filmes de ficção científica do período) e o futuro durão Lee Van Cleef, que surge numa ponta ao final, sem dúvida não é o forte do longa. Os verdadeiros astros, como em KING KONG, são os efeitos stop motion (animação quadro-a-quadro) do Mestre Ray Harryhausen, que aqui fez sua estreia nos longa-metragens. As cenas do Rhedossauro, devorando um policial e encurralado em meio a uma Montanha Russa em chamas, são especialmente memoráveis. O resultado foi tão empolgante que a Warner acabou adquirindo os direitos do filme independente, e o lançou mundialmente com grande sucesso. Em 1961, Eugène Lourié dirigiu na Inglaterra o similar GORGO, outro cultuado exemplar do gênero que trazia não um, mas dois monstros gigantes à solta em Londres.

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O sucesso de O MONSTRO DO MAR ecoou no Japão, então recém saído da ocupação norte-americana iniciada após o final da Segunda Guerra Mundial. Sem a presença ianque em seu território, os nipônicos finalmente estavam livres para mostrar os horrores da hecatombe nuclear por eles sofrida. GODZILLA (GOJIRA, 1954), dirigido por Ishiro Honda, não foi o primeiro e muito menos o último filme a tratar do assunto, mas sendo uma alegoria sci-fi repleta de destruição e efeitos visuais impressionantes para a época,  foi o mais eficaz por causa da repercussão mundial que teve. A exemplo do Rhedossauro, Godzilla foi trazido de volta à vida por testes nucleares, desta vez os realizados pelos norte-americanos no Pacífico, não muito distantes da costa japonesa. Fatos verídicos são citados ou adaptados no filme, como a contaminação radioativa de peixes e a morte da tripulação de um barco pesqueiro. Com um custo estimado de Us$ 1 milhão, GODZILLA substituiu os modelos animados stop-motion por uma técnica tradicional do kabuki, o teatro folclórico japonês: a de atores, devidamente caracterizados, representarem demônios ou animais. Assim, Haruo Nakajima foi encarregado de vestir a pesada (100 quilos!) fantasia de Godzilla e destruir detalhadas maquetes de Tóquio e carros e trens em miniatura.

As tocantes imagens da cidade em ruínas após a passagem do monstro e, principalmente, das vítimas da radiação por ele emitida, em cenas musicadas com força pelo maestro Akira Ifukube, refletem diretamente o pesadelo de Hiroshima e Nagasaki. Assim, através da ficção, os realizadores de GODZILLA se referem aos norte-americanos e cientistas criadores de armas de destruição em massa – estes representados no filme pelo Dr. Serizawa (Akihiko Hirata), que após usar contra Godzilla o “Destruidor de Oxigênio”, para evitar que sua invenção fosse usada para o mal, comete suicídio. Tirando os aspectos relativos à tragédia atômica e seus elementos de espetáculo, GODZILLA possui uma trama simplória, que envolve um triângulo amoroso nada convincente. Mas que garantiu a entrada do estúdio Toho para a história e inaugurou um popularíssimo “subgênero do subgênero”: o dos filmes de kaijus (monstros gigantes japoneses), que incluem várias continuações com o lagartão, longas de “colegas” como Rhodan e Mothra e até mesmo dois remakes estadunidenses.

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O grande sucesso internacional de GODZILLA fatalmente o levaria ao rentável mercado dos EUA, e isso aconteceu em 1956. Com seus direitos de distribuição adquiridos pelo produtor Joseph E. Levine e rebatizado como GODZILLA: O REI DOS MONSTROS (GODZILLA: KING OF THE MONSTERS!), o filme da Toho chegou por lá após passar por significativas mudanças de edição – tantas que parece outro filme. Para tornar o filme mais acessível ao público norte-americano, Terry O. Morse foi escalado para dirigir várias cenas com o ator canadense Raymond Burr (o futuro Perry Mason e Ironside da TV) interpretando o jornalista norte-americano Steve Martin, que acompanha e muitas vezes narra em off os acontecimentos do filme. Quase 30 minutos do filme original foram eliminados (que, “coincidentemente”, incluíam algumas cenas mais incisivas nas críticas aos testes nucleares do Pacífico), e boa parte dos diálogos em japonês foi redublada para o inglês. Basicamente, todo o filme foi remontado por Morse para que o personagem de Burr se tornasse o principal, relegando os demais à condição de coadjuvantes. Como as cenas adicionais foram rodadas nos EUA, em todas as tomadas onde Martin contracenava com os personagens originais foram usados dublês do elenco japonês, filmados de costas ou de lado. Apesar de adulterada (e talvez até por isso), essa versão inferior teve ótima recepção nos Estados Unidos e por muitos anos foi a mais popular. Felizmente, graças ao advento do home video a partir dos anos 1980, o GODZILLA original hoje é o mais conhecido mundialmente.

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SOBRE O DVD
A independente Obras-Primas do cinema chegou aparentemente disputando o mesmo nicho da Versátil, ou seja, para lançar filmes clássicos ou cults ignorados em nosso mercado de home video pelas grandes distribuidoras. Um dos seus primeiros e mais caprichados lançamentos é este GODZILLA – ORIGENS, que chega em uma embalagem digistack, enluvada, que inclui dois DVDs de dupla camada (região livre) e cards dos filmes nela contidos. Infelizmente, como as antologias da Versátil, apesar da ótima apresentação também este é um lançamento apenas no ultrapassado DVD, apesar da edição que lhe serviu de base estar disponível em Blu-ray lá fora. A matriz desta antologia é o BD lançado nos EUA pela Criterion que inclui GODZILLA e GODZILLA: O REI DOS MONSTROS (disco 1), de onde veio a maior parte dos extras presentes e até mesmo a cabeça do Godzilla que sai para fora quando abrimos o digistack, com a adição de O MONSTRO DO MAR (disco 2), até agora disponível por lá apenas em DVD mas que será relançado em BD no início de outubro. Assim, poderíamos ter também uma versão em Blu-ray, que incluísse O MONSTRO DO MAR como um extra em resolução SD (o que parece mesmo ser, tanto que está no mesmo disco do material suplementar principal).

Quanto à qualidade técnica, ela apresenta algumas variações de filme para filme, mas a grosso modo é similar em todos os casos. Os três longas, rodados em preto e branco originalmente na proporção de tela 1.37:1, possuem transfers adaptadas para fullscreen 1.33.1. Ou seja, há alguma perda de informação visual, mas ela é mínima. Todos os filmes foram restaurados mas empregam muitas cenas de arquivo reais, e nelas podemos notar sujeiras e riscos consideráveis. Nas demais temos qualidade e níveis de detalhe muito bons para uma resolução 480p, tanto que as deficiências dos efeitos visuais históricos tornam-se bem evidentes. Na remontagem norte-americana de GODZILLA, as cenas com Raymond Burr são limpas e claras, enquanto as do filme original estão um pouco mais escuras e possuem danos de película mais evidentes. Quanto ao áudio, as faixas originais em inglês, apesar de constarem como Dolby Digital 2.0, são todas mono, como originalmente gravadas. Diálogos e trilhas musicais, na maior parte do tempo, são reproduzidos com qualidade satisfatória, e os graves, como seria de esperar, são limitadíssimos. Mais uma vez é a remontagem norte-americana de GODZILLA que é a mais deficiente, por trazer um áudio com volume mais baixo e menos potente. Já O MONSTRO DO MAR é o único que inclui uma dublagem em português – a mesma ouvida originalmente na TV. Quanto às legendas, são amarelas e de bom tamanho, porém a Obras-Primas tem de caprichar mais na revisão. Além de alguns erros de grafia, por vezes são usadas gírias modernas, e a tradução às vezes é pior que a de muitas legendas baixadas da internet. Há um momento de GODZILLA: O REI DOS MONSTROS em que alguém fala “They’ve reached the bottom” (eles chegaram ao fundo), e na legenda se lê “Eles precisam chegar ao botão”… hilário.

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EXTRAS
A maior parte dos extras de GODZILLA – ORIGENS foi retirada do BD lançado em 2011 pela Criterion, nos EUA, e mais um trailer e um featurette vindo do DVD da Warner de O MONSTRO DO MAR, de 2004. Infelizmente, um considerável material interessante do BD da Criterion ficou de fora, como o excelente documentário de 50 minutos dedicado ao compositor Akira Ifukube. Os vídeos presentes são apresentados em formatos de tela diversos (4:3 e 16:9), em seu idioma original e com legendas em português:

Disco 1

  • Trailers: GODZILLA (3 min.) e GODZILLA: O REI DOS MONSTROS! (2 min.) – Trailers originais de cinema, com qualidade de vídeo satisfatória.

Disco 2

  • Entrevista com Haruo Nakajima (9:48 min.) – O ator que vestiu a fantasia de Godzilla, Haruo Nakajima, fala sobre a produção e a experiência que foi encarnar o monstro no longa original e nas suas primeiras continuações;
  • Entrevista com Tadao Sato (14:05 min.) – O especialista em cinema japonês e crítico de filmes Tadao Sato comenta o filme GODZILLA, o histórico da produção e sua importância cultural;
  • Efeitos visuais em Godzilla (9:05 min.) – Featurette que mostra alguns dos truques visuais empregados pelo filme. O diretor de efeitos Koichi Kawakita e o cameraman Motoyoshi Tomioka mostram algumas cenas de efeitos que ficaram de fora do filme;
  • O Dragão Terrível (9:38 min.) – Narrado pelo historiador Gregory M. Pflugfelder, este featurette relembra o trágico destino do barco de pesca Daigo Fukuryu Maru (Dragão da Sorte No. 5), no evento real que inspirou a cena de abertura de GODZILLA. O título original do vídeo, The Unluckiest Dragon (O Dragão mais Azarado), faz uma irônica referência ao nome do barco, que se perdeu totalmente na tradução “estranha” para o português;
  • A Sétima Arte após a Bomba (15 min.) – Documentário original da Obras-Primas do Cinema, narrado em português, que fala de GODZILLA e outros filmes japoneses dos anos 1950 que retrataram a tragédia nuclear;
  • Entrevista com Ray Harryhausen (6:05 min.) – Pequeno featurette onde Ray Harryhausen, que faleceu em 2013, fala sobre os efeitos visuais de  O MONSTRO DO MAR;
  • Trailer: O MONSTRO DO MAR (2:30 min.) – Trailer original de cinema, com ênfase total no monstro (The Beast!).

Jorge SaldanhaEnhanced by Zemanta

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