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Na Trilha: Ouvindo 007 – FOR YOUR EYES ONLY, OCTOPUSSY, A VIEW TO A KILL (Parte 4)


Antecedendo à chegada, aos cinemas, do novo filme de James Bond, 007 Contra Spectre, nesta série de resenhas iremos levá-lo a uma viagem pelo universo musical do agente secreto mais famoso – e longevo – da história do cinema. O ano primeiramente indicado refere-se à edição da trilha sonora comentada, e não ao lançamento do filme.

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fyeoCD007 – Somente Para os Seus Olhos (For Your Eyes Only, Bill Conti, 2003, star_3) – Em 1981 John Barry novamente não estava disponível para compor a música para 007 – Somente Para os Seus Olhos, e ele mesmo sugeriu como seu substituto o músico norte-americano Bill Conti. Na ocasião, Conti já se aproximava dos quarenta anos e sua carreira havia sido bastante irregular, tendo como trabalho mais destacado a trilha sonora do filme Rocky e três de suas continuações. Em 1983 Conti conquistou o Oscar por sua partitura para o filme Os Eleitos, e posteriormente compôs a música para películas como a trilogia Karatê Kid, Mestres do Universo, alguns filmes de Sylvester Stallone e algumas comédias de Leslie Nielsen. Possivelmente For Your Eyes Only tenha sido a grande chance de Conti para consolidar-se, porém isto não ocorreu, já que esta trilha sonora em hipótese nenhuma pode ser considerada uma das melhores da série.

Claramente o maior destaque, que transcendeu este trabalho, foi a canção principal “For Your Eyes Only”, composta por Bill Conti em parceria com Michael Leeson e interpretada por Sheena Easton. Esta canção deve ser uma das mais clássicas da série, disputando para valer o título de ser a melhor de todas. Esta canção é uma das poucas de Bond que resistiram ao tempo, e sua letra é muito romântica, ainda que não tenha muita relação com o conteúdo do filme. Esta trilha sonora, do mesmo modo que o trabalho de Marvin Hamlisch para O Espião Que me Amava, foge bastante do estilo musical que vinha sendo estabelecido por John Barry. A música dá a impressão de que foi gerada em sua maior parte em um sintetizador, o que resultou em um som pouco elaborado e demasiadamente eletrônico. Sem dúvida um grande contraste em relação à sua antecessora, Moonraker.

De qualquer modo, este intento inovador foi absolutamente legítimo, já que cada compositor tratou de utilizar seu próprio estilo para poder diferenciar-se da regra. Isto também havia sido feito por George Martin e Marvin Hamlisch. Então, qual é a diferença entre Conti e os outros dois compositores mencionados anteriormente? Na minha opinião, Conti não conseguiu criar um diálogo entre a música que compôs e suas cenas associadas, isto significa que, de um modo geral, a música não refletiu o conteúdo dramático das seqüências. Podemos ilustrar esta situação com os seguintes exemplos:

1. Diferentemente de Hamlisch, Conti compôs uma série de temas bastante novos e agradáveis de ouvir isoladamente, contudo absolutamente fora de contexto com a seqüência associada. Um exemplo claro disso é uma série de perseguições ou cenas de grande suspense nas quais o acompanhamento musical não complementou a dramaticidade da situação, como abaixo assinalamos:

  • A seqüência pré-títulos (“Melina´s Revenge”)
  • A perseguição no interior da Espanha (“A Drive In The Country”)
  • Perseguição na neve (“Runaway”)
  • A descida do submarino (“Submarine”)

2. Buscando aproveitar-se do tipo de música que imperava na época, Conti incorpora em vários temas (incluindo o “Tema de James Bond”) arranjos baseados na música “disco”. Sem dúvida uma inovação, mas que não combinava com a idade do protagonista. À época Roger Moore já tinha cinqüenta e quatro anos, e já se começava a notar claramente seu envelhecimento, o que tornava bastante inverossímil ver nosso herói em ação com uma música de fundo mais adequada a um personagem bem mais jovem.

Sem prejuízo do assinalado anteriormente, há outros temas que se ajustam satisfatoriamente às cenas correspondentes, e dentre eles podemos mencionar “St. Cyrill Monastery”, “Ski… Shoot… Jump…” e “Recovering the ATAC”. Também se incluem duas composições no mais puro estilo Barry, porém utilizadas basicamente para introduzir alguma locação ou paisagem específicas. (“Cortina” e “Gonzalez Takes a Dive”). Conti, da mesma forma que seus predecessores, se ajusta cabalmente à fórmula padrão, já que compôs a canção principal, a utiliza instrumentalmente durante o filme, especialmente para seqüências românticas, e usa abundantemente o “Tema de James Bond”, inserindo-o em suas composições originais e com o tipo de arranjos citados anteriormente. No há nenhuma passagem em que Conti inclua na íntegra o “Tema de James Bond”, sendo a mais próxima a faixa “Submarine”. Resulta bastante curioso escutar segmentos do “Tema de James Bond” com os arranjos “disco” da época.

O álbum original continha somente doze faixas, omitindo grande parte da música utilizada no filme. Esta nova versão remasterizada inclui a quase totalidade da música ouvida no filme, que havia sido omitida no disco original. Em resumo, Conti não conseguiu sensibilizar-se com o estilo Bond, criando música que pouco funcionou em relação aos requerimentos dramáticos do filme, sendo claramente o melhor de seu trabalho a canção principal.

octopussyCD007 Contra Octopussy (Octopussy, John Barry, 2003, star_3) – Em 1983, James Bond teve um inesperado competidor: ele mesmo. Este fato ocorreu porque naquele ano estreou o filme não oficial de James Bond Nunca Mais Outra Vez, cuja principal atração era seu protagonista principal Sean Connery, situação que gerou uma grande expectativa. A produtora oficial da série 007, EON Productions, tentou de todos os modos evitar o lançamento do filme, mas diante do fracasso de seus esforços, inclusive judiciais, não lhe restou outra alternativa a não ser preparar-se da melhor maneira possível para competir e ganhar. Foi neste cenário de forte pressão que ocorreram as filmagens de 007 contra Octopussy, com Roger Moore, película que tratou de resgatar os melhores e mais destacados componentes da série.

Um destes componentes era claramente a música e seu compositor. John Barry regressou, em princípio, pela última vez à série, mas ao final acabou compondo a música para este e os dois filmes seguintes. Uma das principais limitações que teve Nunca Mais Outra Vez foi a impossibilidade de usar o “Tema de James Bond”, já que este era propriedade da EON Productions. Em contraste e como forma de marcar a diferença, Octopussy o utilizou em abundância, talvez de modo inédito. Não me lembro de outra trilha sonora de Bond composta por Barry que empregue tanto o “Tema de James Bond”, e ainda por cima que ele esteja tão presente no disco. O concreto é que o disco possui onze faixas, e três delas contém o referido tema:

  1. “Bond Look Alike”, que corresponde à seqüência de pré-títulos e cujo arranjo constitui uma inovação, já que nunca fora utilizado e cuja principal característica é ser uma versão bem lenta e misteriosa do tema;
  2. “009 Gets The Knife and Gorbinda Attacks”;
  3. 3. “The Palace Fight”.

Nestas duas últimas faixas, Barry usa a modalidade de inserir sua versão sinfônica do tema na composição original. Ambas  são bastante similares, já que acompanham cenas de lutas e perseguições de ação abundante. Além do mais, durante o filme, segmentos destes temas são repetidos em sequências de conteúdo similar. Na ocasião, John Barry associou-se a Tim Rice para compor a canção principal do filme. E, pela segunda vez na história da série, o título da canção não coincidiu com o do filme: ela chamou-se “All Time High” e foi interpretada por Rita Coolidge. Duas observações sobre esta canção antes de prosseguirmos:

  • A canção, aparentemente, é uma espécie de agradecimento que uma mulher faz a James Bond, portanto novamente poderíamos estar frente a uma alegoria do personagem, situação absolutamente compreensível se recordamos as pressões sob as quais o filme foi produzido;
  • Como poucas vezes na série, a canção principal de Bond foi entregue a um(a) intérprete pouco conhecido(a). Dizem que a escolha de Rita Coolidge foi influenciada pela filha de Albert R. Broccoli, Barbara.

A canção apresenta uma letra com certa tendência romântico-erótica, combinada com uma bela melodia e que foi interpretada satisfatoriamente por Rita Coolidge. John Barry utilizou instrumentalmente a canção para as sequências românticas do filme, tal como era sua tradição. E não há muito mais o que dizer desta trilha sonora, já que fora o assinalado anteriormente pouco há a destacar, basicamente porque não existe muito mais música. Em resumo, esta trilha somente será recordada pela grande utilização feita do  “Tema de James Bond”. O resto não apresenta muita criatividade, característica que podemos demonstrar ao fazer a seguinte análise das faixas do álbum (que possui o mesmo conteúdo da edição lançada alguns anos antes pela Rykodisc):

  • Faixas 1 e 13 são a mesma canção, utilizada nos créditos iniciais e finais;
  • Faixas 2, 3 e 10 correspondem a composições onde se inclui o “Tema de James Bond”. Na faixa 2, com um arranjo novo, e nas demais em sua versão sinfônica;
  • Faixas 4 e 7 correspondem à versão instrumental da canção principal, sendo quase idênticas, salvo a pequena introdução presente na faixa 7;
  • As faixas 5, 6 e 9 poderiam ser consideradas como absolutamente originais, já que não se inspiram nos temas destacados no resumo anterior;
  • A faixa 8 é quase igual às 3 e 10, porém sem a inclusão do “Tema de James Bond”.

Apesar da reduzida quantidade de música presente no disco, quase não há omissões em relação à que ouvimos no filme, salvo alguns pequenos trechos que, ainda que atraentes, não tiveram maior relevância.

viewtoakillCD007 – Na Mira dos Assassinos (A View to a Kill, John Barry, 2003, star_3) – O ano de 1985 é um marco para a música de James Bond, já que pela primeira vez na história da série, a canção principal ficou em primeiro lugar nas paradas de sucesso da Inglaterra e dos Estados Unidos. A canção tinha o mesmo título que o filme em inglês, “A View To A Kill”, foi composta por John Barry e Jason Corsaro e interpretada pelo então destacado grupo britânico Duran Duran. Ela se ajusta perfeitamente ao estilo pop predominante da época, que aliás se encaixava absolutamente com o estilo musical e interpretativo do Duran Duran. Esta canção, além disso, tinha algumas reminiscências das primeiras canções da série, como “Goldfinger”, “Thunderball” ou “On Her Majesty’s Secret Service”. Seguindo a tendência de canções anteriores, sua letra não tem qualquer relação com o argumento da película. Salvo a transcendência da canção principal e de um apropriado tema de ação recorrente, esta trilha sonora não possui atrativos especiais. John Barry novamente se ajusta à fórmula padrão, mas sem o brilho de ocasiões anteriores.

Com este trabalho, de alguma maneira se regressa à normalidade, já que as duas trilhas anteriores compostas por Barry foram um tanto especiais (leia as análises da música de Moonraker e Octopussy). Novamente o “Tema de James Bond” é utilizado de forma moderada, ainda que neste caso tenha sido ainda menos que isso, já que foi ouvido apenas em uma seqüência (“May Day Jumps”), inserido dentro de outra composição original. Nesta breve aparição do tema, novamente é utilizada sua versão sinfônica, porém de forma menos majestosa que em trilhas anteriores. A canção principal foi utilizada instrumentalmente, mas não em seu espírito original, já que serviu para acompanhar cenas românticas. Esta situação implicou na necessidade de que fosse adaptada para uma interpretação mais lenta, trabalho que resultou surpreendentemente satisfatório (em especial se recordarmos o ocorrido em The Man With The Golden Gun). Se alguém fosse assistir 007 – Na Mira dos Assassinos apenas para ouvir Duran Duran, sairia do cinema muito frustrado, já que ele é escutado apenas nos créditos principais e finais, e acredito que a versão instrumental não tenha agradado aos fãs do grupo.

Como Barry quase não utilizou o “Tema de James Bond”, ele compôs o tema que referi ao início, para substituí-lo nas  sequencias principais do filme, denominado genericamente no álbum como “He’s Dangerous”. Esta melodia é ouvida inicialmente na seqüência pré-títulos (“Snow Job”), na cena culminante do filme sobre a ponte Golden Gate, na perseguição pelas ruas de São Francisco e finalmente no enfrentamento dentro da residência de Stacey. Este tema certamente corresponde ao estilo Bond, ainda que se possa discutir se foi apropriada sua utilização. O restante da trilha sonora é constituída de música sem maior importância, a qual estranhamente – dado o estilo musical de Barry – não resulta em uma audição muito agradável, de modo que não vale a pena tecer maiores comentários sobre ela.

Como em várias de suas antecessoras, existe música ouvida no filme que não foi incluída no disco original, e tampouco nesta reedição remasterizada. O disco “Bond Back In Action 2” resgata somente uma destas composições (“Fanfare”), uma poderosa fanfarra sinfônica baseada no estribilho da canção principal. Em resumo, se John Barry não estava em sua melhor forma para este trabalho, tampouco o protagonista e o próprio filme.

Hugo Moya Arancibia

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