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Na Trilha: Ouvindo 007 – THE MAN WITH THE GOLDEN GUN, THE SPY WHO LOVED ME, MOONRACKER (Parte 3)


Antecedendo à chegada, aos cinemas, do novo filme de James Bond, 007 Contra Spectre, nesta série de resenhas iremos levá-lo a uma viagem pelo universo musical do agente secreto mais famoso – e longevo – da história do cinema. O ano primeiramente indicado refere-se à edição da trilha sonora comentada, e não ao lançamento do filme.

Leia a Parte 1 – Leia a Parte 2

ManwithgoldengunCD007 Contra O Homem da Pistola de Ouro (The Man With The Golden Gun, John Barry, 2003, star_2_5) – 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro é considerado quase unanimemente como o filme mais fraco da série de James Bond, e sua música não tem uma sorte muito distinta. É justo assinalar que esta trilha sonora não é a pior, ainda que seja a pior composta por John Barry, que voltou para este filme após Com 007 Viva e Deixe Morrer, cuja trilha  foi de George Martin. Sem dúvida não foi um regresso glorioso de Barry já que, francamente, a música que compôs para este filme foi bastante deficiente, inclusive o próprio compositor evita falar muito a respeito por não sentir que tenha feito um bom trabalho. Igual situação ocorre com o co-autor da canção principal, Don Black.

O problema desta trilha já começa com a canção principal, “The Man with the Golden Gun”, que talvez seja ainda hoje, musicalmente a mais deficiente já composta para a série, por se tratar de uma canção muito pouco atraente e que, fato raro, é muito difícil de classificar. Não poderia dizer que se trata de uma balada, ou tampouco que se trata de um rock. O que posso afirmar é que a letra da canção é, definitivamente, um resumo do argumento do filme, que retrata como nenhuma outra o que posteriormente veremos na tela. Nenhuma outra canção da série conseguiu isso, nem a consagrada “Goldfinger”. Apesar da letra muito apropriada, esta canção não foi acompanhada por uma boa melodia, que é o que finalmente se exige, especialmente para os países onde não se fala inglês. Mesmo a canção sendo débil, o compositor utilizou-a abundantemente como padrão instrumental, e o resultado obtido foi uma trilha sonora ainda mais fraca. Diferentemente de trabalhos anteriores, Barry utilizou esta canção para todo o tipo de cenas, o que funcionou relativamente bem, exceto nas sequências românticas. A utilização da canção principal para estas cenas significou forçar ao máximo a situação. Em primeiro lugar porque, ainda que se trate de uma versão instrumental, ela não é romântica, e por outro lado, para obter o efeito romântico, foi necessário desacelerar ao máximo seu ritmo, o que provocou sua descaracterização. Talvez o melhor fosse compor um tema especial para essas cenas, mas que de qualquer modo não foram muitas.

A utilização do “Tema de James Bond” merece uma atenção especial: durante todas as películas anteriores de Bond em que Barry participou, ele sempre incorporou o “Tema de James Bond” em sua versão original, a qual correspondia ao arranjo feito por ele mesmo para Dr. No. Excepcionalmente incluiu algumas variações, as quais nunca repetiu, mas foi em 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro que Barry debutou a versão sinfônica do tema, mantida sem maiores variações até sua aposentadoria da série. Nunca mais se ouviu nas trilhas compostas por Barry o típico som da guitarra elétrica utilizado na década anterior. A partir deste filme sempre escutaríamos a versão sinfônica, que em termos gerais era igual à anterior, salvo uma pequena passagem que não altera a essência do tema. Trata-se por certo de uma versão mais elaborada e de melhor sonoridade, e que talvez demonstre a intenção de Barry em criar uma versão mais identificada com ele, e desta forma estabelecer uma diferenciação entre o tema original e esta nova versão. No disco “Moviola II”, que é uma compilação das melhores composições de Barry, a versão incluída do “Tema de James Bond” é a sinfônica. Quanto aos outros compositores que vieram posteriormente, em geral a versão inspiradora era a original.

O resto da trilha não oferece maiores atrativos, por constituir-se de peças bastante obscuras e algumas com clara inspiração étnica (a história se passa principalmente na Tailândia), mesmo assim destaco “Let’s go get ‘em” (que contém a versão sinfônica do “Tema de James Bond”) e “Kung Fu Fight”, ambas por sua grande força. De resto, não se nota uma grande ausência de músicas no disco em comparação ao que ouvimos no filme, ainda que o CD “Bond Back In Action 2” apresente um par de faixas que não foram incluídas nem no disco original e nem nesta reedição remasterizada (“Slow boat from China” / “Nick Nack”). Finalmente, um dado curioso: a canção dos créditos finais (que é a mesma dos créditos principais) começa com uma letra diferente e em ritmo mais lento, para desembocar finalmente na letra e ritmo originais.

spywholovedmeCD007 – O Espião Que Me Amava (The Spy Who Loved Me, Marvin Hamlisch, 2003, star_3) – Para 007 – O Espião Que Me Amava, a responsabilidade de compor a trilha sonora foi entregue a Marvin Hamlisch, compositor falecido em 2012, à época com trinta e três anos e que havia ganho três prêmios Oscar em 1973, dois pelo filme The Way We Were (melhor partitura e melhor canção original) e o terceiro pelo filme Golpe de Mestre (The Sting, melhor partitura adaptada). Para a música de The Spy Who Loved Me, Hamlisch ajustou-se por completo à fórmula padrão que caracterizava as trilhas sonoras de Bond.

Em primeiro lugar compôs a canção principal “Nobody Does It Better” juntamente com Carole B. Sayer, que foi interpretada por Carly Simon. Esta foi a primeira vez na história de Bond em que a canção dos créditos principais teve um título diferente do filme. Seu conteúdo é uma clara alegoria às “virtudes” de James Bond e sem dúvida deve ser uma das canções mais destacadas da série. Como se pode notar, estamos quase à frente de uma alegoria erótica de James Bond. Hamlisch declarou que já era tempo de se dedicar ao personagem uma canção relativa às façanhas amorosas pelas quais era conhecido. “Nobody Does It Better” marca o retorno da balada às canções de Bond, estilo que se manteria pelos três filmes seguintes.

Comentar a trilha sonora de O Espião Que Me Amava é bem difícil para mim, devido à contradição que ela me provoca. Para poder compreender esta contradição peço licença para contar-lhes o seguinte relato pessoal: até 1993, havia assistido somente três filmes de Bond, e entre eles não estava O Espião Que Me Amava, o qual, pelo que haviam comentado e tinha lido, era uma das películas mais espetaculares e lembradas da série. Como não tinha nenhuma possibilidade de assisti-la ou comprá-la, tive de me conformar em possuir sua trilha sonora e aguardar que aparecesse para locação em vídeo. Quando comprei a trilha minha expectativa era altíssima, porém esta rapidamente se desvaneceu. Ao terminar de ouvi-la minha reflexão foi: como um filme supostamente tão espetacular poderia ter uma trilha sonora tão débil e curta? Esta reflexão posso sustentar com os seguintes argumentos:

O disco contém somente 11 faixas e tem uma duração de 36 minutos, enquanto o filme tem 125. Esta diferença de duração poderia nos fazer supor que no disco foi omitida muita música, contudo não foi assim, já que é muito pouca a música que falta, ou dizendo de outra forma, não é muita a música ouvida no filme. Em todo caso, para ser justo devo reconhecer que a duração aproximada de quase todos os discos originais é a mesma, porém diferentemente de outros filmes, alguns temas foram usados em mais de uma cena, situação que é bastante incomum nas trilhas sonoras de Bond. Analisemos o disco:

  •  As faixas 1 e 11 são as mesmas, correspondem à canção principal composta por Marvin Hamlisch e Carole B. Sager e interpretada por Carly Simon. Na faixa 11 há uma pequena introdução instrumental, mas  no fundo é a mesma canção. O curioso é que a seqüência de créditos finais do filme é distinta, já que começa com uma versão com coral masculino da mesma canção;
  • A faixa 2 corresponde ao tema utilizado em todas as cenas de perseguição de Bond (na neve, na estrada, sob o mar). Erroneamente o disco assinala entre parênteses “James Bond Theme”, já que há somente uma breve referência ao tema, ouvida na seqüência de pré-títulos. Nas demais perseguições somente escutamos a composição original;
  • A faixa 3 é uma das melhores do disco, sendo muito agradável ao ouvido, ainda que não seja fácil relacioná-la com um tema composto para James Bond. Ainda assim, é um bom tema, que foi muito bem utilizado no filme;
  • As faixas 4 e 9 correspondem aos temas mais absurdos e ilógicos do filme. Quando se filma em locações exóticas ou lugares com culturas chamativas, usualmente se inclui sua música típica em algumas cenas, porém esta música não é parte da música incidental, já que se trata de música ambiental retirada do folclore local para ser incluída na montagem da seqüência (source music). Como exemplos podemos destacar a música que se ouve em restaurantes, teatros, feiras, etc.). Para este filme, Hamlisch compôs este tipo de música para um par de cenas, as quais correspondem a duas danças típicas egípcias que são parte do show apresentado no Clube Mojave. Seu efeito dramático é nulo, já que esta música não tem vinculação com o desenvolvimento argumental do filme. Na minha opinião, dois temas desnecessários para esta trilha;
  • A faixa 5 corresponde exatamente ao indicado no disco, uma versão instrumental da canção principal, que não é muito ouvida durante o filme;
  • A faixa 6 é ouvida somente no álbum, nunca é utilizada no filme. Outro tema desnecessário, que demonstra que a edição do disco não foi feita com o cuidado apropriado;
  • A faixa 7 é claramente a melhor da trilha, de grande força e efetividade ao melhor estilo Bond, e muito bem sucedida na cena em que foi utilizada;
  • As faixas 8 e 10 correspondem a uma mesma seqüência. Quando ouvidas isoladamente resultam bastante hostis, apesar de que no filme funcionam eficientemente. O segundo tema, em todo o caso, não corresponde à conclusão do filme, mas somente à de uma seqüência do filme.

Então, poderíamos resumir esta trilha da seguinte forma:

  1. Total de faixas: 11
  2. Relacionadas com a canção principal: 3
  3. Sem efeito dramático: 2
  4. Não utilizadas no filme: 1
  5. Realmente música incidental: 5

Creio que este resumo indica a pobreza da trilha. Mas onde está a contradição? Bem, tal como assinalei anteriormente, ao escutar a música isoladamente ela claramente não agrada, mas ao ouvir toda esta música inserta no filme e combinada com as cenas, a percepção muda bastante. Efetivamente se trata da mesma música que aparece no disco (apesar de algumas diferenças na instrumentação indicarem que para o álbum a música foi regravada), mas que então resulta absolutamente funcional e útil às sequências que acompanha, exceto, obviamente, as duas danças do Clube Mojave. Esta é a contradição, absolutamente impopular para o ouvido, mas absolutamente funcional para a visão, quando a escuto não me agrada muito,  mas quando combinada com as imagens, a encontro absolutamente consistente com o que estou vendo. Pelo jeito o mesmo pensou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas ao indicar esta trilha ao Oscar de Melhor Canção Original e Melhor Trilha Sonora Original.

A respeito do uso do “Tema de James Bond”, Marvin Hamlisch não teve nenhum  problema. Não o combinou nem o inseriu dentro de suas composições originais. Simplesmente quando o utilizou, o incluiu  sem nenhum arranjo especial e com um som bastante similar ao que lhe deu Barry na década de sessenta. Durante o filme se pode escutar este tema em quatro cenas, não muito extensas. Conforme já referido, há alguns temas que se ouvem no filme mas não no disco, mas que também não fazem falta. Em resumo esta é uma trilha sonora absolutamente funcional para a película, mas não muito atraente para desfrutá-la unicamente em uma aparelhagem de som.

MoonrakerCD007 Contra O Foguete da Morte (Moonracker, John Barry, 2003, star_4) – Após a relativa desaprovação que teve a música incidental de 007 – O Espião Que Me Amava, John Barry foi novamente convocado para compor a trilha sonora de um dos mais controvertidos filmes da série, 007 Contra O Foguete da Morte. Moonraker é o nome com que Ian Fleming batizou um míssil em seu livro de mesmo nome, e que posteriormente no filme foi utilizado para denominar um ônibus espacial. O relevante é que este nome não possui qualquer significado. Como conseqüência, John Barry teve de enfrentar o mesmo problema ocorrido em 007 Contra a Chantagem Atômica  para compor a canção principal.

Desta vez, a difícil missão de escrever a letra da canção foi do compositor Al David (que já havia participado da série, sendo o co-autor da canção “We Have All The Time in The World”, de 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade). Ao ler a letra desta canção, muitos irão achá-la sem sentido, no entanto, considerando que o motivo principal da canção é um conceito inexistente, aparentemente a missão foi cumprida dignamente. Bem diferente é o aspecto musical desta canção, já que se trata de uma melodia realmente belíssima, que é mais valorizada com a doce e firme interpretação de Shirley Bassey, que retornou pela terceira e última vez para cantar uma canção de Bond. A canção é uma balada suave que não tem momentos de grande intensidade, e talvez seja essa carência que a faz tão doce e agradável de ouvir. Além disso, é um prazer escutar Bassey interpretando temas mais melódicos.

Uma das causas da popularidade de John Barry são suas composições para Bond, ainda que a música criada por ele para a série fosse uma espécie de exceção, relativamente ao tipo de música que habitualmente compunha para outros filmes. Este estilo se caracterizava por ser extremamente melódico, harmonioso e pausado, provavelmente um tanto repetitivo, mas igualmente belo. Barry era capaz de compor para qualquer tipo de filmes sem afastar-se significativamente desta regra musical. Talvez as expressões máximas deste estilo de composição sejam encontradas nas trilhas sonoras ganhadoras do Oscar Entre dois Amores e Dança com Lobos, bem como na belíssima e aclamada Em Algum Lugar do Passado. Provavelmente, um ouvinte não muito familiarizado com o compositor poderia supor que estas três trilhas sonoras corresponderiam ao mesmo filme.

De fato, como dado anedótico, lembrei de que minha irmã uma vez me comentou “como é longo o disco que você está ouvindo”, quando na realidade havia escutado três! Este exemplo pode refletir o estilo uniforme de Barry, o qual torna tão fácil reconhecer uma trilha sonora por ele composta. Outros destacados exemplos deste estilo são Robin e Marian, O Especialista, Chaplin, Proposta Indecente, etc. Como já disse, a música para Bond se afastava um tanto deste estilo, mas houve uma exceção: Moonraker. Na época, esta talvez tenha sido a mais prolífica trilha de Barry em termos de desenvolvimento de seu estilo musical, e provavelmente ele quis pela primeira vez transplantar este estilo para a música de Bond. Assim como cada compositor tratou de diferenciar-se do estilo Barry para a música Bond, Moonraker é a trilha sonora na qual ele se diferencia de si mesmo, em relação aos seus outros trabalhos para a série.

Ao escutar a música de Moonraker já não encontramos temas fortes e agressivos característicos de épocas anteriores, mas sim música eminentemente melódica e às vezes pausada. Existem cenas de ação ou suspense nas quais a música é pausada e uniforme, e ainda assim, absolutamente funcional. Destacamos entre elas “Space Lazer Battle”, “Cable Car And Snake Fight” e “Centrifuge And Corrine Put Down”. Ainda assim Barry não se afasta um milímetro da fórmula padrão da série, utilizando para cenas românticas a versão instrumental do tema principal e, ocasionalmente, a versão sinfônica do “Tema de James Bond” (em grande parte ausente do disco). Nesta trilha se encontra, na minha opinião, um dos temas mais belos jamais compostos para a série, “Bond Lured To Pyramid”, cuja belíssima melodia, combinada com a paradisíaca seqüência para a qual foi utilizada, resulta realmente comovedora.

Outro tema a destacar é “Flight Into Space”, que acompanha todo o trajeto dos ônibus espaciais da Terra à estação espacial. Este tema é uma verdadeira sinfonia de seis minutos em que se combinam três temas diferentes, de acordo com a etapa do trajeto espacial em que é utilizado, e que desemboca em uma bela melodia na cena da chegada à estação. Na mesma linha anterior não posso deixar de destacar como um das melhores faixas do disco “Space Lazer Battle”, que acompanha a sequência da batalha espacial entre dois grupos de astronautas, e cuja melodia tem muito pouco em comum com as típicas composições que se utilizam para musicar este tipo de cenas. Nesta película foi utilizado pela última vez o tema “007”, durante a perseguição de lanchas (“Boat Chase”). Para a seqüência de créditos finais John Barry utilizou uma versão “disco” do tema principal, com bons resultados.

Do mesmo modo que em álbuns anteriores, muita música ouvida no filme foi omitida, e é de se lamentar que este relançamento da EMI não seja expandido como outros títulos. Um par de faixas inéditas (“Arrival At Chateau Drax / Freefall”) foi resgatado no disco “Bond Back In Action 2”. Em resumo, a trilha original de 007 Contra o Foguete da Morte apresenta o melhor do estilo de John Barry, incorporado pela primeira vez à música de James Bond.

Hugo Moya Arancibia

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