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PAS DE DEUX: O Último Concerto de James Horner


pas_de_deux_CDVocê provavelmente não conhece nenhum filme chamado Pas de Deux – ou, pelo menos, nenhum que tenha sido musicado por James Horner. Isto porque o disco que tratarei neste artigo não é a trilha de um filme, mas sim a gravação, lançada pela Mercury Records, do último concerto do prematuramente falecido compositor. Sua estreia foi em Liverpool, ao final do ano passado, interpretado pela Royal Liverpool Philharmonic Orchestra, regida pelo maestro Vasily Petrenko, e pelos irmãos noruegueses Mari e Hakon Samuelsen, no violino e no cello, respectivamente.

Quem conhece a história do músico, sabe que Horner foi, inicialmente, um compositor “tradicional”, do tipo que escreve músicas para concertos, ao invés de filmes. De lá, ele migrou para as ficções científicas de baixo orçamento de Roger Corman e, depois, para o estrelato, na década de 1980. Horner, desde então, compôs apenas para o cinema, numa carreira que, ao longo de mais de quatro décadas, lhe rendeu o reconhecimento da crítica, dois Oscar, muito dinheiro e, claro, o carinho e o amor de milhões de fãs ao redor do mundo.

Entretanto, na época em que escreveu Pas de Deux, Horner, já um dos maiores compositores da história do cinema, estava se tornando cada vez mais desgostoso com o universo hollywoodiano. Em entrevistas sombrias, ele se dizia cansado de ter que musicar enormes sequências de ação e batalha (embora ele tivesse um talento inigualável para fazer isto). Ao mesmo tempo, a crítica de cinema reservava a Horner comentários mordazes e impiedosos, sugerindo que figuras como ele e John Williams, por exemplo, haviam se tornado “ultrapassadas”. O que esses sujeitos (os mesmos que, por outro lado, demonstraram luto e respeito no falecimento do compositor, em 22 de junho) não entendiam é que, mesmo em blockbusters como Karatê Kid (The Karate Kid, 2010) e O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012), Horner nunca deixava de colocar seu coração e sua sensibilidade característica nas trilhas. Hollywood havia virado as costas a James Horner, como prova sua substituição por trilhas mais modernas e pop, “adequadas ao gosto dos jovens da geração conectada de hoje”, em O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro (The Amazing Spider-Man 2: Rise of Electro, 2014) e O Jogo do Exterminador (Ender’s Game, 2013).

Por outro lado, Horner também virou suas costas a Hollywood. Sem precisar mais ter que trabalhar em projetos que simplesmente não lhe interessavam, ele se tornou cada vez mais seletivo em seus novos projetos: escreveu Wolf Totem (idem, 2015) para seu amigo e colaborador Jean-Jacques Annaud, pagou do próprio bolso para trabalhar em Nocaute (Southpaw, 2015), simplesmente por se sentir tocado pela história (e pela possibilidade de tentar algo diferente na carreira), e voltou ao universo da música para concerto com Pas de Deux, após mais de 30 anos.

Talvez você, mais acostumado a ouvir música escrita para acompanhar imagens, tenha certas dúvidas em ouvir uma obra como Pas de Deux. Afinal, a música de cinema e a música tradicional podem ser considerados como parentes distantes uma da outra. Porém, se você acompanhou a carreira de Horner, sabe que ele foi um dos compositores mais pessoais da história do cinema. Como mencionei logo acima, seu coração estava em cada trilha que escrevia, seja para um drama de baixo orçamento, seja para um enorme blockbuster de ação (claro, ele tem alguns trabalhos mais burocráticos em sua carreira, mas, tendo composto tantas trilhas, isto já era esperado). Seus scores emocionais, com longas peças de música que fluíam através dos filmes (e faziam a alegria dos fãs que as escutavam em disco), tem mais a ver com peças de concerto do que com a música de cinema tradicional. Para Horner, cada trilha era pessoal.

Mesmo assim, ele ainda estava preso aos longas que musicava. Horner foi um mestre em contar histórias através da sua música, porém elas não eram histórias criadas por ele. Sob certo ponto de vista, ainda que ele se entregasse completamente a cada novo longa, ele era apenas mais um dos elementos que ajudavam a contar uma história – junto com os atores, a direção, fotografia, roteiro, etc. Em suma: Horner não criava as histórias que contava, apenas as acompanhava e adicionava seus comentários pessoais sobre a narrativa ou sobre os arcos dos personagens, e sua música estava inserida em um todo orgânico que formavam seus filmes.

Não é isto o que acontece em Pas de Deux. Aqui, Horner não está preso por convenções de narrativa ou pela métrica às vezes impiedosa dos filmes, cujo ritmo e montagem determinam onde deve entrar e sair a música, qual a sua duração, tom, etc. Horner, nesta obra, estava livre para, simplesmente, fazer o que quisesse, com o tempo que desejasse. Assim, livre da interferência e dos palpites de outros profissionais (diretores, montadores, produtores, etc.), ele poderia escrever o que lhe desse na telha.

E esta talvez seja a grande diferença da música de cinema para a música de concerto tradicional. Ainda que esta última ofereça menos dinheiro e menos fama que a outra, ela possui uma liberdade que o cinema simplesmente não pode oferecer (haja vista os incontáveis casos de brigas e disputas entre compositores e outros profissionais do cinema, que, no fundo é uma criação coletiva). Não é à toa que compositores do calibre de John Williams, Jerry Goldsmith e Ennio Morricone tem diversas obras para concerto em seus currículos (nesta mesma linha, recomendo o disco Montage – Great Film Composers and the Piano, que inclui peças para piano escritas por Michael Giacchino, Alexandre Desplat, Randy Newman, Bruce Broughton, Don Davis e o próprio Williams, e interpretadas pela pianista Gloria Cheng).

Com isto claro, como podemos descrever Pas de Deux? Em primeiro lugar, Horner conta aqui com a colaboração inestimável dos irmãos Samuelsen, excelentes músicos que interpretam a obra com talento. Segundo consta a história, Horner foi apresentado aos dois por Harald Zwart, diretor de Karatê Kid que fez amizade com o compositor durante as sessões de gravação daquele score. Impressionado com o talento dos Samuelsen, Horner lhes deu o protagonismo de sua nova obra para concerto, que, como o próprio nome indica, se trata de uma dança. O violino de Mari e o cello de Hakon dançam entre si e conduzem a melodia, com acompanhamento da orquestra, em três longas suítes.

Em termos musicais, é como se a música trouxesse os solos de violino de Joshua Bell em Iris (idem, 2002) para a grandiosa contemplação da natureza das primeiras faixas de O Novo Mundo (The New World, 2005) – que, particularmente, é uma de minhas favoritas do compositor. Isto fica claro no primeiro movimento, em que a beleza da interpretação dos Samuelsen é acompanhada por orquestrações coloridas. Uma audição mais atenta revela alguns clássicos tropos de Horner, que andavam sumidos há algum tempo (não, nada do motivo de quatro notas), como o pianinho que acompanha a melodia, no melhor estilo de Impacto Profundo (Deep Impact, 1998), O Homem Bicentenário (Bicentennial Man, 1999) e Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001) e os sopros nostálgicos reminiscentes de Titanic (idem, 1997) e a citada O Novo Mundo. Mas o protagonismo é mesmo dos irmãos Samuelsen: Horner, aparentemente, estava tão encantado com a dupla que lhes deu o completo protagonismo do concerto, e os dois respondem à altura, com interpretações expressivas e emocionais, que desenvolvem alguns pequenos motivos aqui e ali.

O segundo movimento (que também é o mais longo, com quase 14 minutos de duração) inicia com cordas, madeiras e piano que poderiam ter saído dos momentos mais intimistas de O Homem Bicentenário, antes dos Samuelsen retomarem o protagonismo. O início da faixa é mais contido e tímido, com a música assumindo tons mais contemplativos. A partir da marca de 6 minutos, porém, o tom da música aumenta, com grandiosos crescendos a cargo da orquestra e dos Samuelsen, levando a um final onde a interpretação do violino, do cello e das diferentes seções da orquestra se confundem e se misturam entre si, como num grandioso final feliz de algum longa hollywoodiano.

O terceiro movimento é o que provavelmente vai mais agradar os fãs do compositor: mais dinâmico e menos restrito que os outros, ele traz cordas, percussão e os solistas numa melodia dinâmica e reminiscente dos grandiosos finales de Star Trek II: A Ira de Khan (Star Trek II: The Wrath of Khan, 1982) e Rocketeer (The Rocketeer, 1991). A melodia é excitante e, ainda assim, profundamente bela e alegre, provavelmente uma das melhores coisas escritas por Horner recentemente.

Qualquer restrição que você possa ter com a música de concerto, saiba que Pas de Deux é tão acessível quanto uma trilha de cinema, e mostra um Horner ainda mais pessoal do que de costume. É quase como uma expressão direta dos sentimentos do compositor para o público, sem precisar da intermediação de um filme para isto. Além disso, se Wolf Totem, Southpaw e The 33 apontavam para um novo caminho estilístico a ser seguido pelo compositor (que, tragicamente, nunca saberemos onde iria dar), Pas de Deux ainda é reconfortantemente nostálgica, e o trabalho de Horner mais “horneriano” dos últimos anos. Altamente recomendada..

Tiago Rangel

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