pixels_movie

Resenha de Trilha Sonora: PIXELS – Henry Jackman


Pixels_CD Música composta por Henry Jackman
Selo: Varèse Sarabande
Catálogo: 302 067 359 8
Lançamento: 24/07/2015
Cotação: star_3_5

E se vídeo games da época dos arcades dos anos 1980 aparecessem na Terra dos dias de hoje? E se eles tivessem intenções perigosas para a raça humana? Esta é a curiosa premissa de Pixels (idem, 2015), comédia de aventura estrelada por Adam Sandler, Josh Gad, Kevin James, Michelle Monaghan e Peter Dinklage, que conta a história de um grupo de nerds especialistas em games antigos, que são convocados para deter a invasão de alienígenas disfarçados como personagens de jogos de arcades, como Pac Man e Donkey Kong. A direção é de Chris Columbus, e a trilha foi composta por Henry Jackman.

O experiente Columbus tem uma carreira de quase trinta anos em filmes voltados para toda a família, tanto como roteirista como diretor. Em seu auge, durante a década de 1990 e início da de 2000, ele colaborou com compositores do calibre de Howard Shore, em Uma Babá Quase Perfeita (Mrs. Doubtfire, 1994), James Horner, em O Homem Bicentenário (Bicentennial Man, 1999) e, claro, John Williams, em Esqueceram de Mim (Home Alone, 1990) e sua continuação, além de Lado a Lado (Stepmom, 1998) e as duas primeiras partes da saga Harry Potter. Porém, nos anos mais recentes, conforme seus filmes eram cada vez menos bem sucedidos, Columbus passou a utilizar compositores menos “tradicionais”, por assim dizer. Não que as trilhas tenham sido ruins (ainda que nenhuma seja um clássico): Christophe Beck escreveu um dos melhores scores de sua carreira com Percy Jackson e o Ladrão de Raios (Percy Jackson and the Olympians: The Lightning Thief, 2010), e agora Jackman também realiza um bom trabalho em Pixels.

Teoricamente, Jackman seria uma boa escolha para o longa. Afinal, a obra prima de sua carreira também foi para um filme sobre vídeo games antigos, a ótima Detona Ralph (Wreck-It Ralph, 2012). Apesar disso, Jackman aqui toma um caminho bem diferente: enquanto no score da animação da Disney ele misturava de forma criativa sintetizadores oitentistas típicos de jogos em 8 bits com sons tradicionais, em Pixels ele toma um caminho mais orquestral e reminiscente de seus trabalhos que misturavam comédia e aventura, como Gato de Botas (Puss in Boots, 2011), A Entrevista (The Interview, 2014), e, principalmente Monstros vs. Alienígenas (Monsters vs. Aliens, 2009). Porém, isso não é uma má notícia, pois Jackman tende a se sair melhor em filmes mais bem humorados e leves do que nos mais sérios.

Dessa forma, Jackman entrega uma divertida partitura, que, assim como o próprio longa é uma homenagem à cultura dos anos 1980, também remete a esta saudosa época, antes da dominação mundial da Remote Control (a mesma que revelou o talento de Jackman, diga-se de passagem). Assim, um ouvinte desavisado poderia dizer que o responsável pela trilha, na verdade, é Alan Silvestri, tamanha a semelhança nas melodias e na orquestração do score – e não é de hoje que Jackman parece perseguir o objetivo de se tornar o novo Silvestri, principalmente considerando que ele já substituiu o maestro ítalo-americano em duas franquias.

O próprio tema principal, uma heroica e patriótica melodia em duas partes para representar os heróis nerds do longa, remete aos scores de ação mais militaristas da carreira de Silvestri, como O Juiz (Judge Dredd, 1995) e G.I. Joe: A Origem de Cobra (G.I. Joe: Rise of Cobra, 2009). A primeira parte é introduzida logo em The Arcaders, e mostra mais a força da equipe (obviamente, retratada de forma paródica por Jackman, que, com seus trabalhos para as comédias de Seth Rogen, já provou ser eficiente nisto). Ela é repetida na sexta faixa, Hand-Eye Coordination, seguida pela introdução da segunda parte do tema, que já é mais diretamente heroica, na marca de 1:14, a cargo de percussão, metais e coro. Mais para a frente no disco, este tema, seja de forma completa, seja em apenas uma de suas partes, recebe vibrantes interpretações em cues como Call In The Cavalry, ao início de A Dream Come True, e ao final do disco, de forma triunfal, em High Score. Porém, é nas faixas de ação, onde Jackman o incorpora às suas enérgicas melodias, que o tema realmente mostra seu poder.

Cues como Centipede, Pest Control, Power Up, Gobble Or Be Gobbled e Shoot ‘Em Up são repletas de energia, com metais agitados, acompanhamento de cordas, aparições do coral, e heroicas e dramáticas participações do tema principal. Ao fim do disco, Mothership e Roll Out The Barrels servem como o potente clímax, onde a orquestra (de 75 músicos, segundo o press release do disco) não tem descanso. Mesmo com as diversas semelhanças com um típico score de aventura de Silvestri, compare a criatividade e a energia empregadas por Jackman nessas faixas com o amontoado de clichês que são trilhas como G.I. Joe: Retaliação (G.I. Joe: Retaliation, 2013) e a medonha Capitão América 2: O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier, 2014). Mesmo sendo um Remote Control, Jackman (assim como John Powell e Harry Gregson-Williams antes dele) sempre se saiu muito melhor quando escrevia partituras orquestrais vibrantes e coloridas.

Além disso, em faixas como Invasion, Conspiracy Theory e Q*Bert, Jackman demonstra ter se inspirado em partituras como Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977), de Williams, e Cocoon (idem, 1985), de Horner, para musicar a maravilha e o mistério do encontro com civilizações alienígenas – embora, obviamente, ele não esteja no mesmo nível desses clássicos eternos da Música de Cinema. Claro, Pixels é um longa diferente desses dois filmes, em que os extraterrestres se mostraram amigáveis e permitiram a Williams e Horner compor os belíssimos encerramentos dos longas. Mesmo assim, Jackman de fato entrega algumas belas melodias românticas, que aparecem nas tristes Unconditional Love e Sweet Spot. A primeira, que tem a participação de cordas, harpa e celesta, remete aos momentos mais melancólicos do score de Horner para a ficção oitentista de Ron Howard, enquanto a segunda novamente lembra os trabalhos de Silvestri, desta vez, em seus cues mais românticos.

Encerrando o disco vem a surpreendente bonus track Arcaders ’82, em que, pela primeira vez, Jackman faz uso dos teclados utilizados na época. Aqui, o tema principal é reapresentado como uma típica melodia oitentista, com toda a “cafonice” que isto implica.

A trilha de Pixels pode não estar na mesma linha de outros clássicos compostos para os longas de Columbus, mas ainda rende um álbum enérgico, divertido e relativamente curto – são pouco mais de 38 minutos no total. Novamente, Jackman compõe melhor quando deixa os tropos da Remote Control em casa e escreve coloridas trilhas orquestrais, como é o caso aqui. Espero, sinceramente, que ele próprio perceba isso e utilize a mesma criatividade daqui em seus futuros scores, em especial, a temível partitura de Capitão América 3: Guerra Civil. Scoretrackers no mundo todo agradecem.

Faixas:

1. Invasion (01:31)
2. The Arcaders (00:55)
3. To The White House (01:28)
4. Conspiracy Theory (01:34)
5. Level 2 (00:40)
6. Hand-Eye Coordination (01:27)
7. Centipede (03:01)
8. Pest Control (00:37)
9. Call In The Cavalry (02:03)
10. Unconditional Love (01:21)
11. Power Up (01:33)
12. Gobble Or Be Gobbled (02:59)
13. Trophy For The Victors (01:04)
14. Sweet Spot (02:24)
15. Q Bert (01:03)
16. Shoot ‘Em Up (01:53)
17. A Dream Come True (01:42)
18. Mothership (01:51)
19. Roll Out The Barrels (05:28)
20. High Score (02:03)
21. Arcaders ’82 (01:33) Bonus track

Duração total: 38:10

Tiago Rangel

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