on-her-majestys-secret-service

Na Trilha: Ouvindo 007 – ON HER MAJESTY’S SECRET SERVICE, DIAMONDS ARE FOREVER, LIVE AND LET DIE (Parte 2)


Antecedendo à chegada, aos cinemas, do novo filme de James Bond, 007 Contra Spectre, nesta série de resenhas iremos levá-lo a uma viagem pelo universo musical do agente secreto mais famoso – e longevo – da história do cinema. O ano primeiramente indicado refere-se à edição da trilha sonora comentada, e não ao lançamento do filme.

Leia a Parte 1

ohmssCD007 A Serviço Secreto de Sua Majestade (On Her Majesty’s Secret Service, John Barry, 2003, star_5) – Eis aqui, provavelmente, o filme mais ignorado, e portanto o menos conhecido de toda a série Bond, apesar de que para muitos especialistas seja dos melhores. Ao analisar individualmente alguns dos aspectos da produção, estes também se posicionam entre os mais destacados da franquia. Um deles, sem dúvida, é a música. É opinião quase unânime de que esta trilha sonora, se não é a melhor da série, pelo menos é a melhor que John Barry já compôs para James Bond. Uma das particularidades deste trabalho é não se ajustar fielmente à estrutura musical tradicional dos filmes de Bond, apresentando várias novidades.

007 A Serviço Secreto de Sua Majestade (1969) marca a primeira vez em que Sean Connery não esteve no papel de Bond. Como protagonista foi escolhido o modelo australiano George Lazenby, que interpretou Bond somente nesta oportunidade. Talvez pensando em potencializar o novo protagonista, Barry decidiu compor para a sequência de créditos iniciais uma peça instrumental com o mesmo nome do filme. Adicionalmente, este tema foi utilizado para musicar várias seqüências, especialmente as de ação. Portanto, esta é a única aventura de James Bond onde, para os créditos principais, se utilizou um tema instrumental próprio, que não foi inspirado em nenhuma canção (007 Contra o Satânico Dr. No utiliza o “Tema de James Bond” e Moscou Contra 007 uma versão instrumental da canção “From Russia With Love”). Além disso, Barry também compôs em parceria com Al David uma canção romântica interpretada por Louis Armstrong denominada “We Have All the Time in the World”. Esta canção foi utilizada integralmente para acompanhar uma sucessão de sequências românticas entre James Bond e sua noiva Tracy Dracco.

Esta também foi a única vez na história musical de James Bond onde um tema cantado foi utilizado para musicar uma sequência (não consideramos neste caso Dr. No, cuja trilha sonora está baseada quase integralmente em canções jamaicanas, e outros filmes onde se escutam canções como parte do som ambiente do local onde se desenrola a ação – source music, ouvida em restaurantes, festas, cassinos, etc.). Adicionalmente, esta canção é utilizada como padrão instrumental para outras sequências, particularmente as românticas. Analisando a letra desta belíssima canção não é possível encontrar uma conexão direta com a trama ou algum elemento do filme (como é praxe na série), mas presumo que foi composta especialmente para que fosse interpretada magistralmente por  Louis Armstrong, que já estava no final de sua vida (foi sua última canção antes de morrer). A trilha sonora deste filme novamente volta ao estilo Bond, mas  baseando-se majoritariamente nos dois temas já mencionados. Aliás, a princípio é difícil de entender porque uma trilha sonora baseada quase que exclusivamente em dois temas seja tão apreciada, mas isto se explica plenamente pela adequada correspondência que houve entre a música utilizada para cada cena. Esta combinação resulta bastante empolgante para as cenas de ação, especialmente nas perseguições de esqui, e muito comovente para as cenas dramáticas.

Para este filme John Barry incorporou um novo arranjo musical para o “Tema de James Bond”, fortemente influenciado pelo som de sintetizadores. Esta orquestração é claramente distinta na Abertura (“Gun Barrel Sequence”) e na seqüência de pré-títulos (“This Never Happened To The Other Fella “). Além disso, na batalha final em Piz Gloria, o compositor adiciona integralmente o arranjo original utilizado em Dr. No. Barry também compôs outros temas acertados para algumas sequências específicas, como “Try” e “Journey To Blofeld’s Hideaway”. Como nas trilhas predecessoras, houve alguns temas que não foram incluídos no disco original, parte deles posteriormente sendo resgatados no álbum “Bond Back In Action” (“Bond Meets the Girls/Who Will Buy My Yesterdays?” e “Escape from Piz Gloria and the Ski Chase”). E do mesmo modo que em outras edições expandidas de Bond da EMI, praticamente toda a música que estava ausente da edição original foi agora incluída como faixas bônus.

Várias destas faixas também são suítes, mas nesta edição houve menos incoerência entre os temas incluídos, já que desta vez eles foram agrupados e ordenados por motivação. Diferentemente de outras edições, quase todos os novos temas são importantes e constituem um acréscimo de qualidade, ainda que se destaquem as composições “Gumbold’s Safe”, “Bond Meets The Girls”, “Escape From Piz Gloria” e “Bobsled Chase”, mesmo que os dois últimos sejam baseados em temas já conhecidos. De modo análogo às outras edições, as suítes contém reprises de temas já ouvidos, e quase inexistem segmentos que não tenham sido utilizados no filme (a única exceção é um trecho de “Dusk At Piz Gloria”). Outra novidade deste relançamento expandido é a modificação de algumas faixas originais. Finalmente, cabe assinalar que esta trilha sonora marca um dos pontos mais altos na historia da música de Bond. E as faixas bônus incluídas no relançamento da EMI correspondem ao indispensável complemento de uma das melhores partituras da série – se não, a melhor.

dafCD007 – Os Diamantes São Eternos (Diamonds Are Forever, John Barry, 2003, star_3_5) – 007 – Os Diamantes são Eternos (1971) marcou a a primeira “volta por cima” da série oficial de filmes do agente James Bond. Em 1969, quando foi lançado 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade, com o novato George Lazenby substituindo Sean Connery no papel do espião britânico, houve uma rejeição generalizada ao novo rosto do agente e o filme fracassou (injustamente) nas bilheterias. A fim de fazer a série retomar seu caminho de sucesso, para o filme seguinte os produtores Albert “Cubby” Broccoli e Harry Saltzman trouxeram de volta Connery pelo milionário (à época) cachê de Us$ 1.25 milhão, mais participação nos lucros. E o investimento valeu a pena, já que Diamonds are Forever foi um sucesso mundial, apesar de mostrar Connery grisalho e mais gordo e de o filme ser um retrocesso em relação a On Her Majesty´s Secret Service, que tentou mostrar um Bond mais humano e envolvido em uma missão mais realista.

A principal contribuição de Diamonds, que em sua trama batida mostra o vilão Blofeld (Charles Gray, um Blofeld por demais diferente daquele que anteriormente fora interpretado por Donald Pleasance e Telly Savallas) tentando mais uma vez extorquir os governos mundiais, é ter definido o rumo que a série adotaria a partir dos anos 1970, principalmente nos filmes que seriam estrelados por Roger Moore: o humor e a auto-paródia. As cenas de perseguição lembram filmes pastelão, e Connery deixa de lado seu sangue frio e cinismo e torna-se um Bond irônico e piadista que não se leva a sério. O grande achado do roteiro são os assassinos Mr. Kidd e Mr. Wint, impiedosos e gays. Na parte musical, John Barry, o pai do “Bond Sound”, compôs sua sexta trilha sonora para a série, inclusive a canção tema (letras de Don Black, que colaborara anteriormente com Barry em Thunderball), uma das mais belas e elegantes da série e novamente interpretada pela cantora inglesa Shirley Bassey (que anteriormente interpretara o tema de Goldfinger e retornaria em 1978 para cantar duas versões do tema de Moonraker). A partitura mostra que Barry iniciou uma mudança de rumo no estilo da música de Bond. Ainda que notemos a presença do estilo dos anos 1960 (“Moon Buggy Ride”), sem dúvida o som predominante corresponde ao tipo de música que o compositor começou a desenvolver no início da década de 1970, em faixas como “Circus Circus”, “Tiffany Case” e particularmente nos temas relacionados à dupla Kidd e Wint, para quem ele criou um motivo misterioso com sopros.

É interessante notar que, durante o filme, ouvimos duas versões instrumentais da canção principal, situação absolutamente incomum e que não recordamos de haver ocorrido anteriormente. Quanto ao uso do tema de James Bond, ele é bastante utilizado e Barry apresenta pela primeira vez uma composição (“Bond Meets Bambi and Thumper”) que combina como únicos elementos uma versão instrumental do tema principal e o “James Bond Theme”, sendo talvez este o maior acerto deste disco. O LP e CD originais aborreciam os colecionadores por duas razões principais: a primeira porque grande parte do underscore de ação foi deixado de fora, a segunda porque por demais source music e variações da canção tema (“Circus, Circus”, “Q’s Trick”, “Tiffany Case”, “Diamonds are Forever – Source Instrumental” e “Diamonds are Forever – Bond and Tiffany”) foram incluídas. Entre as omissões mais sentidas eram as das músicas ouvidas na luta entre Bond e o contrabandista Peter Franks em um elevador, e na sequência em que o espião elimina o “casal” de assassinos.

Pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que com mais este relançamento remasterizado e expandido da EMI as razões para queixas deixaram de existir, já que finalmente ele incluiu a partitura completa de Diamonds Are Forever, com a adição de versões alternativas de algumas faixas e outras que não foram utilizadas.  Para começar, a qualidade de som é excelente, sem o chiado da edição original. Os mais desavisados poderiam até achar que se trata de uma nova gravação digital. Além disso, grande parte das músicas conhecidas  tiveram trechos adicionados, inclusive a canção tema, que agora apresenta a mesma introdução ouvida no filme. Assim, composições memoráveis como “Moon Buggy Ride”, “Death At The Whyte House”, “007 and Counting” (utilizada para uma breve sequência espacial, ela é descendente direta de “Space March”, de You Only Live Twice) e “To Hell With Blofeld” (que retoma o segundo tema de James Bond, o “007” de Barry), ganharam um novo sabor.

Dentre as músicas inéditas, algumas anteriormente já haviam aparecido no álbum “Bond Back In Action” na forma de suítes (“Suite: Mr. Wint And Mr. Kidd/Moon Buggy Ride” e “Suite: Blofeld’s Laser/Killing Wint And Kidd”). A seção de bonus tracks do álbum inicia em  “Gunbarrel And Manhunt”, com a música para a tradicional seqüência de abertura da série que antecede os créditos principais e onde Barry, após o tema de James Bond, acompanha a caçada de Bond a Blofeld, que culmina com a morte do dublê do vilão ao som de cordas e piccolos. A partir daí temos, literalmente, todo o material que havia ficado de fora da edição original do score. Várias das faixas bônus são suítes compostas de composições de curta duração, razão pela qual em alguns casos elas são pouco coerentes. De todas elas, a mais interessante talvez seja “Slumber Inc.”, aquela composição para órgão, orquestra e coral ouvida quando os vilões tentam cremar Bond em uma funerária. É uma das composições mais atípicas de Barry, e apesar de propositalmente exagerada, constitui boa amostra do que seria uma trilha de sua autoria para um filme bíblico. A seção de faixas bônus encerra com “Additional and Alternate Cues”, nove minutos de música não utilizada no filme. Apesar de ser interessante para completistas e fãs, constata-se que efetivamente estas músicas pouco acrescentariam ao filme. O novo CD de Diamonds are Forever beneficiou-se da disponibilidade, em bom estado, de todo o material que Barry compôs e gravou para o filme.

liveandletdieCDCom 007 Viva e Deixe Morrer (Live and Let Die, George Martin, 2003, star_4) – Este Live and Let Die (1973) marcou mais um momento delicado para a série oficial de filmes de James Bond, já que Sean Connery, em Diamonds are Forever, se despedira do personagem e John Barry, depois de sete participações consecutivas na música (uma como arranjador do tema principal de Monty Norman, e as outras como compositor das trilhas sonoras), não estava disponível. Os produtores, que  haviam amargado o fracasso do australiano George Lazenby como 007 em On Her Majesty´s Secret Service, escolheram como protagonista Roger Moore, que já havia sido considerado para o papel em Dr. No, e num lance audacioso, contrataram o também britânico George Martin – ex-produtor musical dos Beatles – para compor a música. Martin desenvolveu uma relação muito boa com os integrantes do lendário grupo de rock, e uma prova disso foi o convite que fez a Paul McCartney para compor e interpretar a canção principal deste filme.

Paul compôs a canção em parceria com a esposa Linda, e a interpretou juntamente com seu grupo Wings. Sendo a primeira canção rock utilizada como tema principal de um filme de Bond, certamente ela quebrou a tradição de baladas utilizadas até então, e o fato é que o tema alcançou um sucesso sem precedentes, tendo inclusive sido indicado ao Oscar de Melhor Canção Original. A partir deste tema, Martin produziu a trilha mais pop até então, nela utilizando muita soul music – não esqueçamos que o filme, bem sucedido nas bilheterias e que garantiu a continuidade da série, inseria Bond na era dos filmes Blaxploitation, em voga no início dos anos 1970. O compositor inclusive adicionou uma atraente versão soul do tema principal interpretada pela cantora negra B.J. Arnau. A avaliar somente por sua primeira edição, esta era a única trilha na história de Bond que se baseava majoritariamente em uma única melodia composta especialmente para o filme, a qual podemos escutar reiteradamente em seis dos quatorze temas que compõem a versão original do disco. Esta melodia aparentemente faz referência ao conteúdo do vodu haitiano que aparece na produção, particularmente nas sequências relacionadas com o vilão Mr. Big/Dr. Kananga.

Das 14 faixas dos disco original, quatro não foram compostas por Martin, e dos dez temas restantes de sua autoria, somente quatro não contém esta melodia a que fizemos referência. Os outros seis temas contém esta melodia particular, que se insere nas várias composições, incluindo combinações com o “Tema de James Bond”. Ou seja, 60% dos temas presentes no álbum original se baseavam em uma mesma melodia. Isto poderia indicar falta de criatividade do compositor, que de resto se alinhou absolutamente à formula padrão para a música de Bond, utilizando instrumentalmente a canção principal e recorrendo razoavelmente a segmentos do “Tema de James Bond”. Muito da partitura seria o que hoje se classifica como lounge, especialmente nas faixas de source music, porém Martin mostrou ser um competente compositor de música para acompanhar a ação, em faixas dominadas por metais como “Snakes Alive”, “Baron Samedi’s Dance Of Death” (que a TV Globo utilizava nas chamadas da série Kung Fu) e “Sacrifice”.

De um modo geral é um trabalho que atende satisfatoriamente às necessidades do filme, e certamente difere do que foi feito anteriormente por Barry. As composições funcionam bem com as sequências, à exceção de algumas nas quais a falta de experiência do compositor com o estilo musical da série fica em evidência. Isto significa que houve trechos que tradicionalmente são acompanhados de música e que neste caso não o foram, e vice versa. Um exemplo representativo é a longa perseguição de lanchas nos pântanos de Louisiana, que em sua maior parte não teve o acompanhamento de nenhuma nota musical. No livro “The Incredible World of 007” de Lee Pfeiffer e Philip Lisa, quando é analisado este assunto, é imediatamente destacado que “faltou a sensibilidade de John Barry para a musicalização de algumas cenas”. Mas a maior curiosidade sem dúvida fica por conta das músicas adicionais que iniciam a partir da faixa 15 do relançamento da EMI, contendo a totalidade dos temas ausentes da edição original e que dão uma nova dimensão à trilha.

O lançamento desses temas tem o poder de mudar a opinião daqueles que tinham reservas quanto a esta trilha sonora (notadamente dos apreciadores do padrão imprimido à música da série por Barry). No mínimo, a inclusão das músicas adicionais faz baixar significativamente o índice de inclusão do tema característico do filme sobre o total da partitura, melhorando sua qualidade. Sob este ponto de vista, a música adicional deste score e a de On Her Majesty´s Secret Service constituem os maiores avanços para melhorar a qualidade de cada um deles. “Gunbarrel / Snakebite” (ouvida na seqüência inicial do filme) e “Bond and Rosie” são apenas dois exemplos de músicas que, injustamente, ficaram de fora da edição original. Já “Bond To New York” contém simplesmente alguns dos melhores momentos musicais do filme. Adicionalmente, foi incluída uma agradável versão alternativa de “San Monique”, em ritmo de reggae. É importante destacar que as faixas bônus nos dão a oportunidade de, finalmente, ouvirmos em disco versões instrumentais do tema de Paul e Linda McCartney integradas ao score, funcionando muito bem em cenas de ação.

Além destas faixas extras, muitas das já conhecidas, como “Bond Meets Solitaire”, “Baron Samedi´s Dance of Death” e o próprio “James Bond Theme” são apresentadas em versões estendidas. Falando nesta última, a versão “setentista” de George Martin para o “James Bond Theme” (então a primeira a não ter o arranjo de John Barry) pode hoje soar nostálgica, mas está longe de estar antiquada. É interessante notar que, posteriormente, o compositor David Arnold foi muito elogiado pelo modo como combinou o estilo tradicional de Barry com a música contemporânea, quando George Martin já havia feito a mesma coisa na partitura de Live and Let Die – com a notável diferença de que a música de Martin possui um som mais clássico e atemporal, enquanto que as composições eletrônicas de Arnold certamente ficam mais datadas com o passar dos anos. Após escutarmos a esta trilha completa, podemos afirmar com certeza de que se trata de um dos scores não compostos por John Barry mais destacados da série, possivelmente disputando o segundo lugar logo após Tomorrow Never Dies, de Arnold.

Hugo Moya Arancibia
Jorge Saldanha

Leia a Parte 3

8 opiniões sobre “Na Trilha: Ouvindo 007 – ON HER MAJESTY’S SECRET SERVICE, DIAMONDS ARE FOREVER, LIVE AND LET DIE (Parte 2)”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s