Na Trilha: Ouvindo 007 – DR. NO, FROM RUSSIA WITH LOVE, GOLDFINGER, THUNDERBALL (Parte 1)


Antecedendo à chegada, aos cinemas, do novo filme de James Bond, 007 Contra Spectre, nesta série de resenhas iremos levá-lo a uma viagem pelo universo musical do agente secreto mais famoso – e longevo – da história do cinema. O ano primeiramente indicado refere-se à edição da trilha sonora comentada, e não ao lançamento do filme.

drNoCD007 Contra o Satânico Dr. No (Dr. No, Monty Norman, 2003, star_2_5) –Em um filme com orçamento total de US$ 1 milhão, não poderíamos mesmo esperar muito da sua trilha sonora, e este foi o caso da música composta por Monty Norman para 007 Contra o Satânico Dr. No (1962). Norman, apesar de sua especialidade não ser a composição de música incidental para filmes, mas sim de canções, conseguiu este trabalho graças unicamente à amizade que possuía com Harry Saltzman (um dos produtores). Esta situação fica claramente ilustrada ao escutarmos a música da película, que em sua maioria é integrada por canções de origem jamaicana (a Jamaica foi a principal locação utilizada para o filme). Sem dúvida se trata de uma trilha sonora bastante atípica.

Em geral, quando se adquire uma trilha sonora, o que se espera ouvir são as melodias que foram utilizadas durante a película. Esta expectativa se cumpre neste disco somente no que concerne às canções, que são bastante ouvidas. A diferença está na música incidental, já que quase nenhum dos poucos temas instrumentais que aparecem no disco foram utilizados no filme, à exceção, por certo, do “Tema de James Bond”, cujos arranjos foram preparados por John Barry. Esta situação é dramaticamente certa, tanto que a música incidental efetivamente ouvida no filme, mas que não aparece no disco original, foi regravada há alguns anos e lançada no álbum “Bond Back In Action”, em interpretação da Orquestra Filarmônica da Cidade de Praga, sob a regência de Nic Raine. Aquele disco reproduziu trechos das trilhas sonoras de 007 Contra o Satânico Dr. No até 007 – Os Diamantes são Eternos, e apresentou como grande novidade a inclusão de temas nunca antes editados nos discos das trilhas sonoras respectivas. A suíte de Dr. No é um dos grandes méritos daquele álbum, e é de se lamentar que a EMI, para este relançamento de 2003, não teve acesso às gravações originais dos temas instrumentais, provavelmente perdidos para sempre por falta de preservação.

De qualquer modo esta trilha sonora não conta com o estilo espetacular que futuramente caracterizaria a música de James Bond, já que se tratou do primeiro filme e seu compositor não foi o criador do estilo Bond. Recordemos que até mesmo o “Tema de James Bond”, que debutou em Dr. No, teve seu som característico moldado por John Barry. Apenas um pequeno exemplo para ilustrar o assinalado, e para ressaltar que nunca mais, na música de James Bond, uma trilha sonora seria baseada em canções. Sempre foram partituras instrumentais por excelência, sem exceção.

russiawithloveCDMoscou Contra 007 (From Russia With Love, John Barry, 2003, star_4) – Até 1987, falar da música para filmes de James Bond praticamente se resumia a um único nome: John Barry, já que ele havia composto a música para onze dos quinze filmes oficiais que haviam sido produzidos até então. Moscou Contra 007 (1963) foi sua primeira trilha sonora para a série (ainda que ele tenha participado em 007 Contra o Satânico Dr. No fazendo os arranjos do tema principal). De 1963 a 1971, Barry compôs a música de todas as películas de James Bond filmadas durante esse período (seis no total), compondo a música incidental e também a das canções principais. Posteriormente retornaria a compor cinco trilhas, mas não de forma contínua. Para Moscou Contra 007 Barry não foi a escolha inicial para a música (Harry Saltzman queria Lionel Bart), porém a pressão de algumas pessoas influentes ligadas à produção levaram à contratação de Barry. Neste filme ele somente compôs a trilha sonora, não tendo participando na criação da canção principal (trabalho encomendado a Lionel Bart). Mesmo assim, Barry utilizou a canção abundantemente, como padrão para a sua música incidental.

O tema principal “From Russia with Love” foi interpretado por Matt Monro e basicamente é uma balada romântica com o som próprio da época. Nada espetacular, mas bastante satisfatória. Esta trilha sonora marca um dos melhores trabalhos de Barry para a série, ainda que no filme não se note tão claramente o estilo agressivo e rítmico que teria posteriormente a música para Bond. É uma trilha bastante melódica, baseada na canção principal e temas específicos compostos para a película. O “Tema de James Bond” é utilizado apropriadamente, mas não em excesso. Barry incorpora os primeiros arranjos alternativos baseados no tema original, ainda que não lhe tenha sido imposta qualquer restrição à utilização de seu arranjo original (que é o que escutamos nos créditos iniciais de Dr. No, e que além disso é a versão mais conhecida mundialmente).

Neste filme John Barry incluiu, pela primeira, vez sua composição conhecida como “007”,  utilizada posteriormente em várias das trilhas compostas por ele para a série. Aparentemente este seria o tema que Barry comporia para Bond no primeiro filme, ainda que ele nunca tenha tido a força e a transcendência do “Tema de James Bond” de Monty Norman, mesmo sendo usado em várias produções. O curioso deste tema é que, em cada trilha sonora em que surgiu, ele teve títulos diferentes: “007”, “007 Takes The Lextor” (Moscou Contra 007), “007” (007 Contra a Chantagem Atômica), “To Hell With Blofeld” (007 – Os Diamantes são Eternos), “Boat Chase” (007 Contra o Foguete da Morte). Ele também foi ouvido em Com 007 só se Vive Duas Vezes, porém não foi incluído no disco.

Curiosamente, em um par de sequências importantes do filme (a perseguição de helicóptero e a perseguição marítima ao final), foram utilizadas composições de Dr. No, compostas por Monty Norman. Por outro lado, no disco da trilha sonora foi incluído um tema bastante atraente chamado “The Golden Horn”, que não foi utilizado na película. Em resumo, um trabalho bastante agradável de escutar e muito bem aplicado às sequências durante o filme.

GoldfingerCD007 Contra Goldfinger (Goldfinger, John Barry, 2003, star_4) – Após Moscou Contra 007 (1963), John Barry retornou para compor aquela que provavelmente ainda seja a mais popular e conhecida trilha sonora de James Bond. 007 Contra Goldfinger (1964), quase com certeza, ocupa o primeiro lugar em vários tipos de rankings efetuados para a série Bond: melhor filme, melhor trilha sonora, melhor vilão (Auric Goldfinger), melhor assassino (Oddjob), melhor canção, etc. O certo é que a maioria das pessoas reconhecem instantaneamente a melodia de sua canção principal, “Goldfinger”. Composta por John Barry, Leslie Bricusse e Anthony Newley e interpretada por Shirley Bassey, claramente ela é a canção para James Bond mais popular de todos os tempos, quase tão assimilável como o próprio “Tema de James Bond”. Quando alguém escuta o “Tema de James Bond” imediatamente o associa com o agente 007, e o mesmo ocorre quando escutamos a melodia de Goldfinger. Percebi em vários programas de televisão que, quando houve uma referência a James Bond, musicalmente se recorreu a Goldfinger e não ao “Tema de James Bond” como seria de se esperar. Isto explica a transcendência que este tema recebeu ao longo do tempo. O curioso é que a canção jamais se refere a Bond, mas ao contrário, trata-se de uma alegoria ao vilão Auric Goldfinger.

Em Goldfinger definitivamente estreia o “Som de James Bond”. A trilha sonora está fortemente baseada na canção principal, já que esta impõe um tipo de som característico que seria o padrão de todas as trilhas sonoras compostas por Barry para as películas de Bond dos anos 1960. O estilo desta música é um tanto agressivo, porém muito melódico, tão eficaz para algumas cenas que, prescindindo do “Tema de James Bond”, pode ser facilmente reconhecida como uma trilha sonora de Bond. De qualquer forma, John Barry igualmente intercala seqüências mais melódicas que matizam o estilo Bond, que às vezes pode ser um pouco repetitivo, particularmente neste score. Curiosamente o disco original era um dos de menor duração e de pior qualidade de áudio, e mesmo assim se impôs como um dos preferidos dos colecionadores. Pessoalmente não é a minha trilha favorita, apesar de reconhecer a importância e a transcendência que tem para o mundo de James Bond.

No mês de fevereiro de 2003 a EMI relançou 15 das trilhas sonoras da série, todas com som remasterizado, o que garantiu a todas maior fidelidade e qualidade de áudio. Alguns destes CDs apresentaram material original adicional que nunca havia sido lançado anteriormente, e a maior novidade deste nova edição de Goldfinger, além do áudio superior, foi a inclusão de quatro novas faixas. Estas composições foram lançadas somente no LP original inglês, mas em relançamentos posteriores elas foram eliminadas. Outra novidade foi a separação ou reordenamento de alguns temas, em relação à sua versão original.

É necessário referir que o tema “Oddjob’s Pressing Engagement” é completamente diferente na nova versão. Corresponde à primeira parte da versão original do tema “Bond Back In Action Again”. Dos quatro temas adicionais chama a atenção que dois deles correspondem a sequências-chave do filme. Estas são a da garota completamente pintada com tinta dourada (“The Golden Girl”) e aquela onde Goldfinger tenta matar Bond com o raio laser (“The Laser Beam”). As outras duas faixas são “Death Of Tilley” e “Pussy Galore’s Flying Circus”. Apesar de os dois primeiros temas serem ouvidos em cenas clássicas da série, sua música não corresponde a melodias que produzam uma sensação especial, já que de fato são bastante apagados e monótonos. A mesma sorte tem “Death Of Tilley”. Em nenhum caso estas faixas se incluem entre as melhores do disco, porém sua inclusão é valiosa no sentido de possuirmos, agora, uma trilha sonora mais completa. Distinto é o caso de “Pussy Galore’s Flying Circus”, que é uma composição mais atraente e agradável de se escutar, além de tratar-se de uma faixa complementar de “Dawn Raid On Fort Knox”. Em resumo, as quatro faixas adicionais são um acréscimo interessante, ainda que sua qualidade não seja visivelmente superior à das composições lançadas originalmente.

ThunderballCD007 Contra a Chantagem Atômica (Thunderball, John Barry, 2003, star_4) – 007 Contra Goldfinger teve duas importantes características musicais que seriam determinantes para o desenvolvimento futuro dos filmes de James Bond. Uma delas foi a consolidação da fórmula, que estabelece os elementos mínimos necessários para a música de cada título; a outra é o estilo musical de Bond. Este estilo, tal como afirmei nos outros comentários, se manteve por várias películas e somente foi variando na medida em que chegaram novos compositores à série, bem como graças à própria evolução de John Barry. No ano seguinte a Goldfinger estreou 007 contra a Chantagem Atômica (1965), e novamente John Barry esteve encarregado da música. Esta manteve quase intacto o estilo de Goldfinger, a ponto de a canção principal “Thunderball”, composta por John Barry e Don Black, ser praticamente uma cópia do estilo de sua predecessora. A tal extremo chegou esta situação que Terence Young, o diretor do filme, quando a ouviu chamou-a de “Thunderfinger”. As diferenças básicas foram a melodia, a letra e o interprete, neste caso o famoso cantor britânico Tom Jones, uma espécie de equivalente masculino de Shirley Bassey.

Esta trilha sonora, no entanto, teve  alguns percalços em sua confecção, o que a debilitou em comparação à anterior. Os principais decorreram do título da canção principal. Em inglês o filme se chama Thunderball, o que significa “Bola de Trovão”, o que não possui significado algum, de modo que compor uma canção com base nesse título era praticamente impossível. John Barry, frente ao problema, recordou que na Itália e no Japão James Bond era conhecido como “Mr. Kiss Kiss Bang Bang”, e pensou que esta denominação poderia servir de inspiração para uma canção. Em seguida, Barry pediu a Leslie Bricusse que compusesse a letra para uma canção com este nome e claramente inspirada em James Bond. Uma vez composta a canção, ela foi gravada separadamente por Shirley Bassey e Dionne Warwick. Posteriormente esta canção foi apresentada aos produtores, que optaram pela versão de Dionne Warwick e a elegeram como canção principal. Uma vez resolvida esta situação, Barry passou a compor a partitura utilizando este tema – como era seu costume – como padrão para a instrumentação de várias sequências. Pouco tempo antes de terminar a produção do filme e com a trilha sonora quase terminada, os produtores inesperadamente mudaram de opinião, decidindo que a canção principal deveria ter o mesmo nome do filme, e solicitaram a Barry que compusesse outra com esse título.

Nesta ocasião Bricussse não estava mais disponível, e o compositor recorreu a Don Black para compor uma canção chamada “Thunderball”. Black comentou em uma entrevista que buscou em inúmeros livros algum significado para este conceito, mas ele simplesmente não existia. Frente a isso Black decidiu compor uma canção inspirada em James Bond, insinuando que ele era a tal “Bola de Trovão” (!). Esta repentina mudança implicou em que Barry teve de modificar alguns temas da partitura para incluir instrumentalmente a nova canção. Mesmo assim, não foram muitas as passagens do filme em que escutamos esta música, em contraposição à maior quantidade de instrumentações baseadas em “Mr. Kiss Kiss Bang Bang”. O resto da música incidental é de um estilo muito semelhante à utilizada para Goldfinger, mais algumas inclusões do “Tema de James Bond”, que nesta película foi usado bem menos que nas anteriores. Uma boa quantidade de temas utilizados durante o filme, tais como nas sequências “A perseguição no Junkanoo”, “A Batalha Submarina” e “Créditos Finais” não foram incluídos no disco original, sendo recentemente resgatados e lançados como suítes no CD “Bond Back In Action”. Duas curiosidades:

  • Ao que parece, os produtores decidiram trocar a canção principal para evitar um possível processo de Shirley Bassey, por ter sido preterida como a intérprete da canção inicialmente escolhida;
  • Relativamente à música dos créditos finais existem duas versões: a primeira é uma versão instrumental da canção principal, combinada com um breve segmento do “Tema de James Bond”; a outra corresponde integralmente à versão original do “Tema de James Bond”.

Esta edição estendida e remasterizada da trilha sonora original de Thunderball possui muita música adicional, enquanto os temas originais não sofreram qualquer alteração. A grande quantidade de música adicional agregada demonstra o assinalado anteriormente, em relação à ausência anterior de músicas que efetivamente são ouvidas no filme. Se há uma crítica a fazer é que os temas não foram separados de acordo com a seqüência que musicam, mas sim agrupados na forma de suítes, com o inconveniente de que, em alguns casos, os temas componentes da suíte não correspondem à seqüências similares ou complementares, resultando em uma união desordenada de segmentos musicais correspondentes a distintas cenas do filme, que às vezes nem sequer respondem a uma mesma motivação (romântica, ação, suspense, etc.).

Em geral a música adicional se ajusta ao padrão da que foi lançada originalmente, mantendo absolutamente vivo o estilo musical de Bond. Em vários trechos a música corresponde a uma reiteração dos temas lançados no disco original, por outro lado também foram incluídos segmentos musicais que nunca foram utilizados na película (o mais notório é “Shark Tank”). Entre todas as faixas bônus, creio que o melhor acréscimo resida em “Street Chase”, já que considero esta melodia (que também é utilizada na batalha submarina) uma das melhores composições de John Barry para a série Bond e um dos temas-chave neste filme, fornecendo grandes quotas de emoção a cada cena em que esteve presente. Sem dúvida, este era um dos grandes temas perdidos da série. Em resumo, uma valiosa adição para os colecionadores e para as trilhas sonoras da franquia.

Hugo Moya Arancibia

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