Resenha de Trilha Sonora: SOUTHPAW – James Horner


Southpaw_CDMúsica composta por James Horner
Selo: Sony Classical
Catálogo: SK509935
Lançamento: 24/07/2015
Cotação: star_3_5

Nocaute (Southpaw, 2015) é um drama estrelado por Jake Gyllenhaal, interpretando um boxeador cuja vida se deteriora após a morte da esposa. Completamente destruído, e na iminência de perder a guarda da filha, ele aceita voltar aos ringues para um último confronto. O longa, que tem direção de Antoine Fuqua, tem estreia marcada nos cinemas brasileiros para 10 de setembro de 2015. Originalmente, o rapper Eminem seria a estrela principal, porém, depois de ter sido substituído por Gyllenhaal, ele acabou contribuindo com a trilha sonora e compondo a canção principal.

Normalmente, esse longa não seria do tipo que chamaria muito a atenção de nós, Scoretrackers. Tais dramas urbanos e pesados pedem por um tipo muito específico de trilha, mais ou menos como as que Harry Gregson-Williams já fez tantas vezes para filmes como esse (estranhamente, ele era para ser o compositor original do longa, depois de ter colaborado várias vezes com Fuqua). Porém, esta não é uma situação comum, pois Nocaute é simplesmente a última trilha composta e gravada por James Horner, antes do trágico acidente que tirou sua vida, no mês passado, e deixou uma legião de fãs (eu incluso) arrasada – The 33 será lançada mais para a frente no ano, mas foi gravada antes. Assim, foi com certa antecipação que o mundo esperou o disco lançado pela Sony: como seria a última trilha de um dos compositores do Cinema mais marcantes das últimas décadas?

De certa forma, é surpreendente. Na verdade, chega a ser irônico que o homem que, durante toda a sua carreira, foi perseguido e acusado de roubar obras de outros e de si mesmo, se despeça do mundo com uma trilha tão… diferente de tudo que ele já tinha feito antes. Fãs de Horner que vierem a Southpaw procurando por uma última partitura épica e grandiosa do compositor, certamente irão se decepcionar (para isto Wolf Totem está aí).

Definir esta trilha não é uma tarefa fácil, mas é possível dizer que ela é uma descendente direta do score indicado ao Oscar de Horner para Casa de Areia e Névoa (House of Sand and Fog, 2003), combinada com os sons eletrônicos e industriais de Amor Sem Fronteiras (Beyond Borders, 2003) e o minimalismo de O Menino do Pijama Listrado (The Boy in the Stripped Pajamas, 2008). Porém, enquanto mesmo estas eram mais melodiosas e temáticas, Nocaute é ainda mais extrema, raivosa e angustiada. Para atingir esse efeito, Horner utiliza um elenco reduzidíssimo de músicos, basicamente algumas poucas cordas, percussão, piano e muitos eletrônicos, de modo a criar texturas depressivas, urbanas e pesadas.

Não é um score de fácil audição, e eu já posso até imaginar muitos fãs o classificando como “chato”, “parado” ou “pesado”. Porém, além de derrubar o argumento de que Horner só sabia se repetir a cada trilha, ela também mostra que, em sua nova fase de sua carreira (que, infelizmente, acabou sendo a última), ele estava disposto a se arriscar mais em filmes diferentes. E ele de fato é bem sucedido em sua intenção de criar uma atmosfera pesada, para representar a solidão e o desespero do protagonista.

O estilo do disco é logo apresentado na faixa inicial, The Preparations, que apresenta tensas texturas eletrônicas, percussão, e o tema do filme, uma melodia de oito notas ao piano, que lembra mais os trabalhos do próprio Gregson-Williams em dramas urbanos do que qualquer coisa que Horner tenha feito antes. A More Normal Life, na sequência, reproduz a vida de Billy Hope, o protagonista, antes da tragédia, com um motivo para cordas e piano que poderia ter saído de Casa de Areia e Névoa, além de um trompete mudo solo (provavelmente sintetizado), que não faria feio como tema de algum vilão de filme do Batman com trilha de Hans Zimmer. Porém, logo vem A Fatal Tragedy, que marca o triste momento na vida do protagonista com uma interpretação mais tensa do tema principal, acompanhado de pianos e cordas ansiosos.

The Funeral, Alone… é uma bela faixa, com o clima de luto, indignação e depressão bem representado pelas cordas, com participações de efeitos de guitarra, percussão e o trompete. É bastante pesado e melancólico, porém ainda repleto de beleza. E, se até então Horner vinha se mantendo mais ou menos dentro de um estilo já familiar para ele, em Suicidal Rampage o compositor leva sua música ainda mais adiante. São nada menos que oito minutos de agressivas texturas eletrônicas industriais, pianos caóticos e versões distorcidas de motivos apresentados previamente na trilha e do tema principal. É uma verdadeira espiral de desespero e loucura, não é de fácil audição, mas certamente surpreendente vinda de Horner.

Empty Showers continua na mesma linha depressiva, mas é um pouco mais melódica que sua antecessora, trazendo de volta o motivo no trompete e o tema principal, sobre texturas de cordas, eletrônicos e guitarras acústicas, numa ambientação pesada e dramática. Em seguida, Dream Crusher oferece (meio que) um respiro de tanto desespero com uma bela escrita para cordas, repleta de emoção, no mesmo estilo que Horner empregou tantas vezes, em especial em seus scores mais minimalistas. A Cry for Help também é mais “horneriana” do que suas anteriores, com um pianinho sutil não muito distante daquele utilizado nos momentos mais dramáticos de Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001) e explosões de percussão no estilo de suas trilhas de aventura mais recentes, como Avatar (idem, 2009) – sem a grandiosidade orquestral, claro.

House Auction introduz um novo tema, uma tocante melodia para piano, com acompanhamento de cordas. Ele retorna na boa A Long Road Back, num ritmo mais acelerado, mas também repleto de uma esperança que a trilha até então não tinha, como se o protagonista finalmente estivesse começando a recuperar sua vida e o pesadelo terminasse. Training, em seguida, é a faixa mais surpreendente da trilha. Numa entrevista, Horner disse que estava começando a se interessar por estéticas eletrônicas, na mesma linha das figuras mais polêmicas da Música de Cinema atual, Trent Resznor e Atticus Ross. E, de fato, Training lembra bastante Hand Covers Bruise, da trilha de A Rede Social (The Social Network, 2010), com o tema principal no piano, acompanhado de texturas sintetizadas – claro, os trabalhos de Resznor e Ross são, talvez intencionalmente, livres de emoções, diferentemente de Horner. Acho que você nunca imaginou que iria chegar o dia em que James Horner iria se inspirar em Resznor e Ross, mas é o que acontece aqui. Em seguida, How Much They Miss Her traz as cordas no estilo da sétima faixa, junto ao tema secundário no piano, de maneira bem triste, mas também bem íntima.

Hope vs. Escobar, na sequência, é uma das faixas de ação mais surpreendentes de toda a carreira de Horner. Ela traz eletrônicos industriais agressivos e intrincados, mas emocionalmente vívidos, mantendo toda a tensão do combate final do longa. Na marca de 2:23, entra a percussão e, depois, os (possivelmente sintetizados) metais, numa melodia repleta de ferocidade e drama, encaminhando-se para um final grandioso e, pela primeira vez, esperançoso. Novamente, lembra scores como Avatar, Karatê Kid (The Karate Kid, 2010) e O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012). A Quiet Moment, porém, encerra o disco reprisando os temas principais no piano e, como o título da faixa, indica, é um momento tranquilo num disco violento e agressivo.

Mesmo sem a morte de Horner, Nocaute teria sido um score especial. O compositor, depois de décadas escrevendo para orquestras, decidiu tentar um som mais moderno e cru, e ele se saiu bem em suas intenções – em sua utilização dos eletrônicos, Horner foi melhor do que, por exemplo, Alan Silvestri, em suas abordagens mais modernas, para compará-lo com outro veterano. Por ter sido a última trilha composta por ele, ela adquire contornos ainda mais distintos. Com certeza, será um disco polêmico, principalmente entre os fãs de Horner, mas mesmo assim ainda merece ser ouvido, quase como um grito do compositor ao dizer que ele não era um músico tão repetitivo quanto as pessoas o acusavam.

Faixas:

1. The Preparations (02:36)
2. A More Normal Life (01:42)
3. A Fatal Tragedy (02:33)
4. The Funeral, Alone… (05:16)
5. Suicidal Rampage (08:28)
6. Empty Showers (03:39)
7. Dream Crusher (02:30)
8. A Cry for Help (04:16)
9. House Auction (02:39)
10. A Long Road Back (02:26)
11. Training (03:53)
12. How Much They Miss Her (02:15)
13. Hope vs Escobar (08:26)
14. A Quiet Moment… (01:25)

Duração total: 52:04

Tiago Rangel
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9 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: SOUTHPAW – James Horner”

  1. A sensação de estranhamento acompanhou a todos nós. Não só de estramento, como também de uma certa culpa pelo fato de ele ter se arriscado a fazer um trabalho, como você mesmo citou, que lembra bastante os escores minimalistas de Ross e Reznor, e com um macete ou outro próprios das trilhas do HGW. Tematicamente, o álbum é um pouco vago, há emoção, e você sente o peso do sofrimento do protagonista do filme, mas nada que fique com você depois da escuta (como acontece com Wolf Totem). Só a sensação de abandono. Não muito, mas interessante o fato do nome do protagonista ser Billy “Hope”.

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