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James Horner: Homenagem de um Fã


hornerPensei que nunca fosse escrever este texto. Em todos os anos em que fui um admirador e fã incondicional de James Horner, nunca imaginei que chegaria o dia em que ele não estaria mais entre nós. Para nós, meros mortais, nossos ídolos são eternos, figuras grandiosas que viverão eternamente. Porém, nesta segunda-feira, 22 de junho, Horner foi tirado de nós de forma abrupta e brutal. O homem cuja música embalou a trilha sonora da minha vida e a de milhões de scoretrackers espalhados pelo mundo afora não iria mais nos presentear com novos trabalhos. Porém, quem disse que ele não viverá para sempre?

O texto abaixo não pretende ser uma simples recapitulação da brilhante carreira de Horner. Todos os portais que divulgaram a notícia (e foram muitos – talvez eu tenha subestimado o alcance e o poder de sua música!) já fizeram isso. E as pessoas que entram neste site diariamente sabem quem foi o homem, e quais suas trilhas que mais lhe tocaram o coração. Não, meu objetivo ao escrever estas palavras é fazer uma humilde homenagem a um de meus heróis, um adeus ao sujeito que tantas vezes me emocionou.

Eu estava na adolescência quando ouvi falar de Horner pela primeira vez. Foi no colégio onde eu fazia o segundo ano do Ensino Médio, que exibiria para os alunos o filme O Menino do Pijama Listrado (The Boy in the Stripped Pajamas, 2008), para a aula de História. Vi o nome de Horner nos créditos iniciais, e decidi que prestaria atenção na música. Infelizmente, devo dizer que o impacto não foi positivo: toda a terrível e cruel cena final do longa, acompanhada pela sinistra e elegíaca música de Horner, me deixaram abalado, e revoltado como só um adolescente pode ficar (mal sabia eu que a intenção da produção era justamente esta, o choque). Na época, eu não era um completo novato na música de cinema: conhecia uns poucos compositores (principalmente, claro, Zimmer e Williams), e, ainda impressionado com a trilha daquele sujeito, pesquisei um pouco sobre ele na internet, e vi que Horner já tinha uma longa e frutífera carreira na época.

Alguns dias (semanas?) mais tarde, estava em casa, assistindo a um canal a cabo, quando vi que ele estava exibindo uma reprise de Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind, 2001). Lembrando de quem era o compositor, decidi assistir ao longa, para me familiarizar com sua música. E o resultado, novamente, foi inesquecível. Foi na cena em que Nash e Alicia conversavam, sob um céu estrelado, do lado de fora de uma luxuosa festa, em que ouvi pela primeira vez o maravilhoso love theme do compositor para o longa. A beleza pura e inocente da música de Horner dava uma dimensão particularmente tocante à relação dos personagens interpretados por Russel Crowe e Jennifer Connelly, que imediatamente me conquistou (no disco da trilha, para quem quiser procurar, este cue aparece logo ao início de First Drop-Off, First Kiss). E sua performance ao final do filme, no discurso de Nash ao receber o Nobel (faixa 14 no disco), é capaz de emocionar tanto hoje quanto na época em que assisti pela primeira vez.

Por sorte, os canais da TV a cabo adoravam reprisar filmes inúmeras vezes naquela época (assim como hoje, acredito), e logo emendei um filme musicado por Horner atrás do outro. Apollo 13 (idem, 1995) se seguiu a Mar em Fúria (The Perfect Storm, 2000), Tróia (Troy, 2004) e novamente Uma Mente Brilhante, além de, em especial, Lendas da Paixão (Legends of the Fall, 1994). Exibido numa noite, pelo canal AXN (e com comerciais a cada 10 minutos de filme), novamente o poder da música de Horner conseguiu me encantar. Ao fim daquele ano, eu já era um grande fã do californiano quando fui assistir a Avatar (idem, 2009) – e saí do cinema convicto de que o sujeito ganharia uma nova estatueta do Oscar (ele acabaria sendo derrotado por Michael Giacchino e seu Up).

Com o tempo, fui descobrindo mais e mais deste grande compositor, e não apenas seus trabalhos mais emocionais da década de 1990 em diante que me cativaram. Logo, quando passei a ouvir álbuns de trilhas sonoras regularmente, também fui atrás de suas obras para ficções científicas na década de 1980, que o catapultaram para o estrelato. Eu queria conhecer mais, saber mais da vida e da obra de James Horner, um dos principais culpados por eu amar tanto a Música de Cinema. E o destino opera de maneiras estranhas: uma de minhas primeiras resenhas publicadas aqui no ScoreTrack era justamente de um trabalho do compositor, a aguardada (e, infelizmente, subestimada até hoje) trilha de O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012).

Infelizmente, o destino também é cruel: Horner tinha como hobby a aviação, e adorava voar. Sua principal paixão, depois da música, era a liberdade de poder viajar pelos céus e através das nuvens. E foi justamente um acidente de avião que tirou sua vida, para choque e horror de milhões de pessoas no mundo inteiro.

Naquela fatídica noite, cuja memória será carregada por mim para sempre, lembro-me de estar envolvido numa tola discussão sobre se a recente animação Divertida Mente (Inside Out, 2015) deveria ou não ganhar uma continuação, numa rede social. Nos meus fones de ouvido, não era Horner (não acredito em tamanha coincidência), mas sim Georges Delerue, cuja trilha para L’Africain caminhava a passos largos para se tornar uma de minhas favoritas do grande compositor francês. Quando o score atingia seu ápice de qualidade, vejo a notícia, em meu Facebook: um avião pertencente a James Horner havia caído, todos os seus ocupantes estavam mortos. “Não”, pensei. “Não pode ser. Por favor, não. Não ele”. Poucas horas mais tarde, a confirmação: Horner realmente estava no avião caído.

Tão abalado fiquei que, nas últimas horas, evitei até mesmo portais de notícias e redes sociais. A cada menção da morte do compositor, a cada vez que sua notícia era replicada, eu percebia a verdade, ainda que continuasse me recusando a acreditar nela. Mas a tragédia havia acontecido, e a única coisa que restava a fazer era encarar os fatos.

Mas, neste momento de luto e perda, nosso único consolo é saber que James vive através de sua grandiosa obra. Suas trilhas imortais ainda serão ouvidas e amadas vários anos depois que todos nós deixarmos este mundo, e ele continuará sendo lembrado como um titã da Música de Cinema. De seu grandioso e heroico Main Title para Star Trek II: A Ira de Khan (Star Trek II: The Wrath of Khan, 1982) à tensão de Futile Escape, ouvida em Aliens: O Resgate (Aliens, 1986), da complexa escrita de Krull (idem, 1983) à fantasia de Willow: Na Terra da Magia (Wilow, 1988) e à aventura em Rocketeer (The Rocketeer, 1991); das melodias atmosféricas de Campo dos Sonhos (Field of Dreams, 1989) ao dramatismo da guerra de Tempo de Glória (Glory, 1989). Também não se pode esquecer das maravilhosas The Ludlows, do score de Lendas da Paixão, e For the Love of a Princess, da trilha de Coração Valente (Braveheart, 1994); de seu domínio das emoções do público em Apollo 13 e a homenagem a Rósza e seu El Cid nas aventuras do Zorro; das emocionantes, e, infelizmente, pouco lembradas O Homem Bicentenário (The Bicentennial Man, 1999), Iris (idem, 2002), Desaparecidas (The Missing, 2003) e O Novo Mundo (The New World, 2005). A elegia russa de Círculo de Fogo (Enemy at the Gates, 2001) e a melancolia de Casa de Areia e Névoa (House of Sand and Fog, 2003); a grandiosidade de Avatar e o minimalismo de O Menino do Pijama Listrado (que fui ouvir anos depois da fatídica sessão na escola, e descobri que é um ótimo trabalho), e, mais recentemente, os gloriosos encerramentos de O Espetacular Homem-Aranha e Wolf Totem (respectivamente, Promises – Spider-Man End Titles e Return to the Wild), todos são trabalhos que mostram um mestre em ação. Por fim, o score que rendeu fama, dinheiro e dois Oscars ao compositor, e, dezoito anos e infinitos blockbusters depois, ainda permanece como a segunda maior bilheteria da história do cinema (superada apenas por Avatar, que, veja só, também é da dupla Horner e Cameron): Titanic (idem, 1997), até hoje o disco de trilhas sonoras mais vendido de todos os tempos. Embora, infelizmente, mais lembrado pela melosa My Heart Will Go On, a versão com letras do love theme do longa, a música de Horner é o acompanhamento perfeito e memorável para a história de amor e tragédia de Cameron. Há poucos meses atrás, o compositor conduziu ao vivo a orquestra, acompanhando o filme exibido numa tela, no Royal Albert Hall, em Londres – e lamentarei por toda a eternidade não ter conseguido comparecer ao concerto.

Talvez o mais doloroso de tudo isso era o fato de que, após dois anos longe do cinema, Horner estava, finalmente, retornando, para alegria de seus fãs. Wolf Totem já havia encantado a todos, no início do ano, e Southpaw e The 33 eram ansiosamente aguardadas, assim como as sequências de Avatar – a primeira franquia na qual Horner poderia trabalhar do início ao fim, e continuar a desenvolver a música do universo de Pandora. E, de repente, ele não estava mais – foi arrancado de nós por uma tragédia devastadora. É como um sonho que de repente se torna o mais cruel dos pesadelos. De repente, minhas palavras finais na resenha do disco de Wolf Totem assumem dimensões trágicas: “Estou ansioso para redescobrir sua música de novo, enquanto, ao mesmo tempo, digo em alto e bom som: bem-vindo de volta, James Horner!”.

O Cinema e a Música perderam um dos seus maiores gênios. A esposa, as filhas e os amigos de Horner perderam um grande companheiro. ScoreTrackers ao redor do mundo ficaram órfãos de um de seus compositores mais inspiradores. E eu perdi um ídolo, um herói que fez minha vida melhor com sua música.

Vá em paz, James. E que sua família, amigos, colegas de trabalho e fãs de Música de Cinema encontrem conforto neste momento tão difícil.

Tiago Rangel.

5 opiniões sobre “James Horner: Homenagem de um Fã”

  1. Tentar acrescentar algo às suas palavras é uma tarefa inútil, pois tudo que um fã poderia dizer foi dito. Meu choque com a notícia foi elevado ainda mais pois depois de alguns dias saturado de ouvir composições de Michael Giacchino e Bernard Herrmann, decidi ouvir algo do Horner. Então comecei o dia ouvindo Amazing Spider Man. Havia acabo de comentar com um amigo sobre a beleza das faixas finais, e passava a ouvir A Kaleidoscope of Mathemathics quando decidi acessar a internet e recebi a notícia. Foi uma experiência incrível. Confesso que não sou um grande fã, mas admirava demais o trabalho do compositor, e lamento muito sua morte.

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  2. Sem palavras para descrever .. Descanse em paz Mestre e obrigado por nos presentear com suas composições maravilhosas.

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