Resenha de DVD: LOVECRAFT NO CINEMA


lovecraft_dvdRE-ANIMATOR – FROM BEYOND – IN THE MOUTH OF MADNESS – LOVECRAFT: FEAR OF THE UNKNOWN
Produção: 1985 – 1986 – 1994 – 2008
Duração: 351 min.
DireçãoStuart GordonJohn Carpenter – Frank H. Woodward
Elenco: Jeffrey Combs, Bruce Abbott, Brabara Crampton, Ted Sorel, Sam Neill, Julie Carmen, Jurgen Prochnow, Charlton Heston
Vídeo: 1.78:1 – 2.40:1 (Widescreen Anamórfico)
Áudio: Inglês (Dolby Digital 5.1, Dolby Digital 2.0)
Legendas: Português
Região: 4
Distribuidora: Versátil Home Video
Discos: 2 DVD-9
Lançamento: 12/05/2015
Cotações (Médias): Som: ***½ Imagem: ***½ Filmes: ***½ Apresentação e Extras: **** Geral: ***½ 

SINOPSE
Disco 1
RE-ANIMATOR: A HORA DOS MORTOS VIVOS (1985, 86 min.) – Baseando-se livremente no conto de H.P. Lovecraft Herbert West – Reanimador, o diretor Stuart Gordon criou uma cultuada obra que acompanha o jovem gênio da medicina Herbert West (Jeffrey Combs) aperfeiçoando um reagente capaz de trazer os mortos de volta à vida, em cenas escatológicas e com muito sangue.
DO ALÉM (1986, 86 min.) – A partir do conto homônimo de poucas páginas, Stuart Gordon volta ao universo Lovecraftiano para narrar a história de dois cientistas (Ted Sorel e Jeffrey Combs) que criam uma máquina que estimula a glândula pineal humana, o que torna possível enxergar criaturas que estão além da nossa percepção normal. Mas quando essas criaturas materializam-se em nossa realidade, o grande avanço científico transforma-se em pesadelo.

Disco 2
À BEIRA DA LOUCURA (1994, 95 min.) – Nesta incursão do diretor John Carpenter ao universo literário de Lovecraft, o investigador John Trent (Sam Neill) é contratado para achar Sutter Cane (Jurgen Prochnow), um escritor de histórias de terror que, após terminar seu último livro, misteriosamente desapareceu. Em meio à loucura que se espalha entre os leitores dos livros de Kane, a investigação de Trent irá levá-lo à fronteira dos domínios das monstruosas criaturas conhecidas como “Os Antigos”.
LOVECRAFT: MEDO DO DESCONHECIDO (2008, 89 min.) – A mitologia aterradora criada por H.P. Lovecraft influencia milhares de criações do gênero até hoje. Este documentário faz uma crônica sobre a vida, a obra e as ideias do autor de O Chamado de Cthulhu.

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COMENTÁRIOS
H. P. Lovecraft (1890-1937) é, indiscutivelmente, o autor literário de maior influência no moderno Cinema da ficção científica de horror. As inspirações de sua obra fértil são facilmente percebidas em clássicos como O MONSTRO DO ÁRTICO (1951) e sua refilmagem, O ENIGMA DE OUTRO MUNDO (1982), ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO (1979) e seu “quase prelúdio” PROMETHEUS (2012), além de muitas outras produções para o cinema e a TV. Diretores cultuados do gênero, como John Carpenter e Guillermo Del Toro, foram fortemente influenciados pelos mitos criados pelo escritor, mas curiosamente seus contos, até hoje, não receberam adaptações à altura da sua importância. Os poucos filmes baseados em Lovecraft via de regra são produções B ou trash, e esta coletânea da Versátil tem o mérito de reunir três das melhores, e que eram inéditas  em nosso mercado de home video desde a época do finado VHS.

Em 1985, RE-ANIMATOR: A HORA DOS MORTOS VIVOS tirou a produtora de filmes B Empire Pictures, de Charles Band, do anonimato. Nascido da intenção do diretor Stuart Gordon em levar à tela uma história no estilo de FRANKENSTEIN, o longa custou Us$ 900.000,00 e faturou mais de Us$ 2.000.000,00 apenas nos EUA, tendo recepção positiva da crítica e, inclusive, conquistado prêmios em festivais de cinema internacionais – o mais importante foi o prêmio especial do Festival de Cannes. Muitos fãs da obra de Lovecraft, no entanto, não gostaram do que viram. Afinal, o longa é praticamente uma sátira de horror com zumbis, que mescla violência exagerada com momentos de erotismo – a cena da cabeça decepada do vilão, tentando fazer sexo oral na personagem nua de Barbara Crampton, tornou-se emblemática. Fidelidade (ou falta de) à parte, RE-ANIMATOR foi uma empreitada corajosa para os realizadores, e revê-lo 30 anos após seu lançamento ainda é uma experiência divertida e surpreendente para os espectadores, valorizada pelos gosmentos efeitos especiais, todos on camera, e pela atuação séria, mesmo nas situações mais absurdas, do então quase estreante Jeffrey Combs como Herbert West. O filme teve mais duas continuações, em 1990 e 2003, todas protagonizadas por Combs.

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Com o sucesso de RE-ANIMATOR, a produtora Empire quis que Stuart Gordon fizesse outro filme baseado em Lovecraft, e o resultado foi DO ALÉM, lançado no ano seguinte. Trazendo novamente no elenco Jeffrey Combs e Barbara Crampton, e com o reforço de Ken Foree (outro ícone dos filmes de horror cult graças a O DESPERTAR DOS MORTOS),  DO ALÉM teve um orçamento mais generoso – por volta de Us$ 2.500.000,00 – e foi rodado na Itália para reduzir os custos. Sem dúvida é uma produção mais caprichada, que além dos efeitos de maquiagem também emprega alguns efeitos visuais (que, no entanto, mesmo à época não eram lá essas coisas). Ainda que apenas remotamente baseado no conto homônimo de Lovecraft, pelo menos aqui são utilizados mais elementos da mitologia do autor, como as criaturas de pesadelo tentando entrar na nossa dimensão. O erotismo também é tratado de forma mais elegante, e de um modo geral DO ALÉM é um filme melhor acabado que RE-ANIMATOR, ainda que não tenha tido tanta repercussão.

Fã de Lovecraft, John Carpenter (HALLOWEEN, O ENIGMA DE OUTRO MUNDO) foi escalado para dirigir À BEIRA DA LOUCURA, lançado em 1994 pela produtora New Line. Como outros filmes do diretor que hoje são cultuados, no seu lançamento este teve uma recepção fria por parte do público e da crítica. Ainda que não se baseie especificamente em alguma obra  do escritor, o longa lhe faz uma bela homenagem ao utilizar elementos por ele criados, principalmente a mitologia de Cthullu e dos Antigos – malignos deuses (na verdade, monstros) que caminharam pela Terra eras antes do surgimento do homem e que agora preparam o seu retorno. Além disso, o título é uma referência a NAS MONTANHAS DA LOUCURA, a obra-prima Lovecraftiana que o diretor Guillermo Del Toro, por muitos anos, tentou levar para o cinema. Sem abusar da violência explícita, o filme investe mais no terror psicológico, do que se oculta nas sombras. Assim, temos apenas rápidos vislumbres das criaturas, o que aumenta o terror e a sensação de os protagonistas estarem presos em um pesadelo. O filme também referencia o escritor Stephen King (a versão contemporânea e bem sucedida de Lovecraft), do qual Sutter Cane seria um rival à altura. Contando com o falecido Charlton Heston como um coadjuvante de luxo, À BEIRA DA LOUCURA faz parte da chamada “Trilogia do Apocalipse” de Carpenter, juntamente com O ENIGMA DE OUTRO MUNDO (1982) e O PRÍNCIPE DAS SOMBRAS (1987).

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Encerrando com chave de ouro esta coletânea da Versátil temos o excelente documentário LOVECRAFT: MEDO DO DESCONHECIDO, realizado em 2008 por Frank H. Woodward. Através de narração e de depoimentos de críticos e escritores, entre eles Neil Gaiman e Peter Straub, e de cineastas como Carpenter, Del Toro e Gordon, temos uma ampla e informativa visão de Lovecraft (um sujeito com baixa auto-estima e de opiniões xenófobas) e de sua obra – suas inspirações, a evolução do seu estilo e o ápice da sua produção com NAS MONTANHAS DA LOUCURA. Os vídeos das entrevistas são intercalados por muitas fotos de Lovecraft e de pessoas a ele próximas, reproduções de manuscritos, capas das revistas onde seus contos foram publicados originalmente, artes inspiradas por suas criações e leituras de trechos dos seus contos e novelas.

SOBRE O DVD
LOVECRAFT NO CINEMA é mais uma caprichada edição limitada da Versátil. Ela reúne três filmes inspirados na obra de H. P. Lovecraft, um dos grandes mestres da literatura de horror, além de um documentário sobre o escritor, extras e quatro cards, reproduzindo os pôsteres originais de À BEIRA DA LOUCURA, DO ALÉM e RE-ANIMATOR. A apresentação, como em outras edições similares da distribuidora, é ótima, com os dois DVDs de dupla camada e os cards acondicionados em uma embalagem digistack, envolta por uma bonita luva verde. De lamentar que temos todo esse conteúdo apenas em DVD e não Blu-ray, já que ele é baseado em material disponibilizado em BD no exterior. Além disso, merecem reparo as informações técnicas equivocadas que constam na embalagem, como o formato da imagem anamórfica que seria 1.85:1. Na verdade, RE-ANIMATOR e DO ALÉM, que tem originalmente esse aspect ratio, foram adaptados para 1.78:1, a fim de eliminar as pequenas tarjas pretas acima e abaixo da tela. Também não é feita menção ao formato de tela de À BEIRA DA LOUCURA, apresentado em sua proporção original 2.40:1. Além disso, é informado apenas áudio Dolby 2.0, quando todos os três filmes possuem faixas originais em inglês Dolby Digital 5.1 (não há opções de dublagem). Temos legendas apenas em português.

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Devido às limitações do formato DVD, incluir todo esse conteúdo em apenas dois discos de dupla camada teria consequências, e isso é especialmente percebido em RE-ANIMATOR. Apesar de ter sido utilizada uma transfer baseada na restauração 4K do filme, ele é o que apresenta os maiores sinais da compressão de vídeo empregada, com ruídos e artefatos claramente perceptíveis na minha TV 55″. Uma pena, porque apesar da compressão e da resolução inferior do ultrapassado DVD, é possível constatar que a fonte é de ótima qualidade, com cores corretas, bom nível de detalhes e sem danos de película perceptíveis. DO ALÉM, que está no mesmo disco, possui melhor qualidade de imagem, apesar de não haver informações quanto ao tipo de restauração empregada. Os artefatos praticamente não são percebidos, a nitidez é maior, as cores e níveis de preto são muito bons e danos de película inexistem. Já no disco 2, o destaque sem dúvida fica com À BEIRA DA LOUCURA, que além de preservar toda a área da tela original tem uma apresentação visual que agrada, mesmo em DVD. Simplesmente não parece que estamos assistindo a um filme com mais de vinte anos, dada a límpida qualidade do vídeo. Detalhes, contraste e cores são muito bons, e não percebi artefatos ou ruídos. Já LOVECRAFT: MEDO DO DESCONHECIDO, por ter sido rodado em vídeo, é o mais irregular do lote, com claras diferenças visuais entre as entrevistas devido à variedade de equipamentos empregados. Na verdade, creio que este é o único título desta antologia que, caso tivesse sido lançado em BD, não apresentaria grandes melhorias de vídeo.

No que se refere ao áudio, as faixas lossy Dolby 5.1 presentes, apenas em inglês, dão conta do recado.  RE-ANIMATOR e DO ALÉM já traziam áudio estéreo (Ultra-Stereo) no seu lançamento nos cinemas, porém, por serem produções de baixo orçamento, não tiveram um sound design muito elaborado. A ação sonora situa-se principalmente nos canais frontais, com discreto suporte surround. Os interessantes scores musicais de Richard Band são reproduzidos com fidelidade muito boa. Já à BEIRA DA LOUCURA beneficia-se por ser uma produção mais refinada e recente, tendo recebido à época do seu lançamento mixagens multicanal Dolby e DTS, que ressaltam o bom uso dos efeitos sonoros para arrancar sustos da plateia. Os canais surround propiciam um envolvimento eficaz, e  expandem a trilha musical composta por John Carpenter e Jim Lang. Também é uma faixa de áudio encorpada, que faz bom uso do canal de graves. Finalmente, com relação a LOVECRAFT: MEDO DO DESCONHECIDO, não há muito mais a falar do áudio 2.0 além de que ele serve bem aos propósitos do documentário, sempre fornecendo vozes claras e uma adequada reprodução dos fundos musicais.

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EXTRAS
LOVECRAFT NO CINEMA traz como extras, basicamente, material pinçado dos lançamentos estrangeiros individuais de RE-ANIMATOR e DO ALÉM, que somam 105 minutos de vídeos, todos legendados em português. Nada de comentários em áudio ou de suplementos de À BEIRA DA LOUCURA ou de LOVECRAFT: MEDO DO DESCONHECIDO.

Disco 1

  • Making Of de Re-Animator (66 min.) – Com o título original de Re-Animator Resurrectus, este é um excelente documentário da Anchor Bay que Inclui depoimentos do diretor Stuart Gordon e dos principais membros do elenco de RE-ANIMATOR (Crampton, Abbott e Combs), que relembram suas experiências no set. Também destaca o trabalho dos técnicos, em especial do diretor de fotografia sueco Mac Ahlberg e da equipe de efeitos de maquiagem;
  • Trailers de Re-Animator (6 min.) – Temos um trailer de cinema e cinco comerciais de TV, estes se referindo ironicamente ao fato de o corte original do filme não ter sido submetido à censura da MPAA. A qualidade da imagem é variável;
  • Trailer de Do Além (1 min.) – Trailer original de cinema, com qualidade de imagem medíocre.

Disco 2

  • Cenas Estendidas e Excluídas de Re-animator (24 min.) –  Exceto por uma delas, a maior parte das várias cenas aqui incluídas consiste de versões estendidas ou alternativas das que estão no corte original de RE-ANIMATOR. Um bom número delas foram usadas para criar uma montagem que seria submetida à MPAA para ganhar a classificação R, porém sem qualquer envolvimento do diretor Gordon ou do produtor Brian Yuzna. Destacam-se nessas cenas aquelas em que o Dr. Hill demonstra possuir poderes de controle mental, que na versão original se manifestam apenas depois que ele é reanimado pelo reagente de Herbert West;
  • Depoimento de Stuart Gordon sobre Do Além (8:27 min.) – O diretor Gordon fala rapidamente sobre diversos tópicos que influíram na produção de DO ALÉM, como a política dos filmes de horror, fazer o filme baseado num conto curtíssimo, a escolha do elenco, o estilo visual, a luta pela classificação etária e a reação do público e da crítica.

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Jorge Saldanha

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