poltergeist-2015

Resenha de Trilha Sonora: POLTERGEIST (2015) – Marc Streitenfeld


Poltergeist_2015_CDMúsica composta por Marc Streitenfeld
Selo: Sony Classical
Catálogo: 88875082832
Lançamento: 19/05/2015
Cotaçãostar_3

Hollywood tem duas regras primordiais. A primeira: se algo deu certo no passado, ele certamente será trazido de volta às telas anos depois, como remakes, ou talvez sequências, reboots, prequels, ou tudo isso junto. Segunda: quando isso acontecer, inúmeros cinéfilos irão bradar seu ódio pelos quatro cantos da internet, chamando a nova versão de desnecessária e condenando a “falta de criatividade de Hollywood”. A mais nova “vítima” dessa tendência é Poltergeist: O Fenômeno (Poltergeist, 2015), uma versão atualizada do clássico oitentista de mesmo nome. Os dois contam a história de uma família num dos típicos subúrbios americanos, que logo descobre que sua casa está sendo assombrada por espíritos malignos.

Dirigido por Tobe Hooper e co-escrito e produzido por Steven Spielberg, o original de 1982 veio a se tornar um dos filmes de terror mais lembrados daquela época. Sua trilha, composta pelo grande Jerry Goldsmith no período mais fértil de sua carreira, também é um dos trabalhos mais marcantes do compositor, inclusive sendo indicada ao Oscar. Além disso, seu tema principal, denominado Carol Anne’s Theme, é considerado um dos grandes clássicos das trilhas de terror. Algo que dificilmente será alcançado pelo score da nova versão, a cargo de Marc Streitenfeld.

Nascido na Alemanha, Streitenfeld tem uma história curiosa. Ele foi orquestrador e editor musical de diversas trilhas da Remote Control, até que foi chamado pelo diretor Ridley Scott para trabalhar em seu Um Bom Ano (A Good Year, 2006). Desde então, ele trabalhou em todos os filmes seguintes do diretor até Prometheus (idem, 2012), ao passo em que mantinha uma carreira mais restrita – até hoje, seus créditos como compositor no IMDB incluem apenas 14 produções, sendo que a maioria são filmes de Scott. Porém, apesar de ter recebido essa excelente oportunidade, Streitenfeld, infelizmente, nunca disse a que veio – com exceção de seu bom trabalho em Robin Hood (idem, 2010) – e a crítica e os scoretrackers ao redor do mundo se perguntavam: o que, afinal, um renomado diretor como Ridley Scott, cujos filmes já inspiraram diversos músicos a escreverem alguns dos melhores trabalhos de suas carreiras, viu naquele jovem e desconhecido compositor? Provavelmente o fato de, por ainda ser um iniciante, Streitenfeld não reclamar quando Scott picotasse, mutilasse e substituísse seu score pelo trabalho de outros compositores, diferentemente do próprio Goldsmith (vejam como o mundo dá voltas) em Alien: O Oitavo Passageiro (Alien, 1979), por exemplo.

Seguir os passos de um grande compositor como Goldsmith é uma tarefa bastante difícil para qualquer um. Músicos mais talentosos que Streitenfeld, como Marco Beltrami e Brian Tyler, que inclusive são discípulos do próprio mestre, já sofreram com as críticas a seus trabalhos no remake de A Profecia (The Omen, 2006) e em Rambo IV (Rambo, 2008), respectivamente. Streitenfeld, por sua vez, ao menos se manteve humilde e não tentou se igualar a Goldsmith, fazendo seu trabalho quietamente. Porém, não espere a mesma originalidade ou ousadia que costumavam caracterizar o trabalho do falecido compositor. A trilha de Streitenfeld aqui tem mais a ver com seus trabalhos em produções como A Perseguição (The Grey, 2012) e o próprio Prometheus e, dessa forma, é mais baseada em texturas e atmosferas de cordas e eletrônicos, com os mesmos ataques de violinos e arroubos de metais para os momentos mais aterrorizantes. Resumindo: você já ouviu essa mesma trilha várias vezes antes.

Não que seu score seja desprovido de boas ideias. Assim como Goldsmith ancorou sua partitura em seu Carol Anne’s Theme, destinado a representar a inocência das crianças da família assombrada e a vida idílica dos subúrbios americanos, a trilha de Streitenfeld também tem um tema principal com uma motivação parecida. Ele aparece logo na primeira faixa, Poltergeist Opening, interpretado principalmente por cordas, um xilofone e um acompanhamento eletrônico que, inclusive, o deixa mais próximo de um score para ficções científicas dos anos 1950 do que de um trabalho tradicional de terror. Durante o disco, esse tema irá aparecer de novo, de maneira mais ameaçadora e sinistra, em cues como They’re Here, They’re Not Pretend, Mommy, Into the Closet e Take a Peek, e de forma mais completa e conclusiva na última faixa, Home Free.

Além disso, durante o score, há algumas aparições de algo que se parece como o som de estática. Aparecendo em Electronics Awakening e Maddy is on TV, eles aludem ao fato de que os fantasmas da casa utilizam os eletrodomésticos para assustá-los – e, infelizmente para a família da nova versão, hoje em dia há muito mais deles para auxiliar os poltergeists, como computadores, tablets e celulares. Dessa forma, a inclusão desse barulho na trilha é uma indicação inteligente de Streitenfeld das novas formas pelas quais os espíritos malignos podem aterrorizar os Bowen (substituindo aqui a família Freeling do original).

Apesar desses pequenos momentos de excelência, a maior parte da trilha segue a fórmula já mais do que testada e aprovada para filmes de terror atuais. Faixas como Angry Spirits, A Poltergeist Intrusion e Somebody is with Her constroem uma atmosfera sobrenatural de perigo e ameaça, ao passo em que em Clown Attack, Home Improvements e todo o clímax do disco, começando a partir de Into the Portal, o terror toma conta, com violinos aterrorizantes, percussão e metais. Apesar de que, em alguns momentos, Streitenfeld ser bem sucedido em gelar a espinha do ouvinte, quem ouviu pelo menos duas ou três trilhas de terror atuais já sabe o que esperar. Ele se sai melhor, porém, em Let Her Go, o grande destaque do disco, com quase quatro minutos de dissonância e caos orquestral, que inclusive tem a melhor escrita para orquestra do score – e, provavelmente, de toda a carreira de Streitenfeld.

A trilha de Poltergeist: O Fenômeno, dessa forma, não é um trabalho ruim. Streitenfeld aqui faz o básico de qualquer score de terror com competência e humildade, e se sai relativamente bem. As pessoas que gostam desse tipo de trilha, como os trabalhos de Joseph Bishara, em Invocação do Mal (The Conjuring, 2013), Annabelle (idem, 2014) e Sobrenatural (Insidious, 2011) e sua continuação, ou de Fernando Velázquez em Mama (idem, 2013), certamente apreciarão esse score de Streitenfeld. Por outro lado, não é preciso ser um scoretracker muito experiente para notar que essa nova trilha empalidece frente ao trabalho de Goldsmith no original, e mesmo em sua continuação, Poltergeist II: O Outro Lado (Poltergeist II: The Other Side, 1986), que, até hoje, é um dos trabalhos mais subestimados do grande mestre. Quem sabe se o espírito de Goldsmith não vier assombrar Streitenfeld à noite, ele não decida escrever algo mais inovador?

Faixas:

1. Poltergeist Opening (01:39)
2. They’re Here (02:02)
3. Angry Spirits (01:37)
4. Electronics Awakening (01:45)
5. They’re Not Pretend, Mommy (01:24)
6. The Storm Is Coming (01:17)
7. Clown Attack (02:43)
8. Into The Closet (02:06)
9. Maddy Is On TV (03:18)
10. You Have To Get My Sister Back (01:21)
11. A Poltergeist Intrusion (02:16)
12. Home Improvements (03:31)
13. Somebody Is With Her (01:47)
14. Take A Peek (02:12)
15. I Feel A Little Braver (00:56)
16. Into The Portal (02:06)
17. The Other Side (02:46)
18. Reunited (01:26)
19. Let Her Go (04:32)
20. Home Free (02:57)

Duração total: 43:31

Tiago Rangel

9 opiniões sobre “Resenha de Trilha Sonora: POLTERGEIST (2015) – Marc Streitenfeld”

  1. Tem três coisas que gostaria de comentar:
    1. Hollywood gosta de pegar filmes que fizeram sucessos do passado, porém no processo de adaptação de um determinado filme aos dias atuais quase tudo o que o filme original possuia, e que o levou a ser um sucesso, é destruído e substituído por algo ruim. Obviamente à raras exceções onde o remake é melhor que o original, mas é bem raro!;
    2. Musicalmente é difícil, diria até impossível, não fazer comparações dos novos compositores (não tão talentosos assim) com os grandes maestros. Estes já revelavam seu grande talento logo nos primeiros filmes.
    3. A trilha deste remake é no todo ruim, não vale a pena o dinheiro gasto para adquirí-la. Concordo com Tiago quando diz que que há alguns momentos em que o compositor é bem sucedido, mas vendo o conjunto da obra deixa muito a desejar.

    Gostaria que o Tiago Rangel me respondesse uma pergunta se possível:
    Tiago, será que não acabamos todos nós sendo obrigados a nivelar as trilhas sonoras de hoje para baixo devido à péssima qualidade da das mesmas? Claro que há excessões.

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    1. Pergunta difícil, Ailton, mas vou tentar respondê-la, kkkk.

      Claro, de fato, não dá pra comparar as trilhas dos dias de hoje quando as de décadas passadas, quando quase todo ano tínhamos novas obras brilhantes de mestres como Newman, Rózsa, Herrmann, Bernstein, Barry, Jarre, Goldsmith, Williams… Eram outros tempos para a Música de Cinema e para o próprio Cinema em si, fora o fato de que todos esses compositores citados (e mais alguns outros que eu devo ter esquecido) eram verdadeiros mestres em sua arte, que passaram anos estudando-a e aprimorando-a para nos entregar suas obras primas.

      Por outro lado, eu não gosto de manter uma postura tão pessimista assim, e pensar que, hoje em dia, os compositores atuais só fazem bobagem. Se olharmos apenas para os blockbusters atuais, tudo o que veremos são Zimmer e seus minions dominando todos os grandes lançamentos, e com outras figuras carimbadas, como Tyler, Giacchino, Desplat e companhia disputando ferozmente todos os outros filmes. Por outro lado, fora de Hollywood, e ao redor do mundo todo, tem compositores produzindo trabalhos de altíssima qualidade. Exemplos: no Japão (Joe Hisaishi), Austrália (Nigel Westlake), Países Nórdicos (Johan Soderqvist, Jóhann Jóhannsson, Ólafur Arnalds), Espanha (Fernando Velázquez, Roque Baños, Arnau Bateller, Victor Reyes) e até aqui pertinho, na Venezuela (Gustavo Dudamel). Se quiser ampliar seus horizontes, comece por trilhas como Kon-Tiki, El Mal Ajeno, Grand Piano, Libertador, Winnie Mandela, Field of Lost Shoes, The Monkey King (esta última de um famoso americano, ninguém menos que Christopher Young). Pode acreditar: são todas altamente recomendadas – e, para acompanhar, as de Libertador e Field of Lost Shoes tem até mesmo resenhas minhas aqui no Scoretrack.

      E, mesmo lá em Hollywood, não dá pra dizer que todas as trilhas para os blockbusters são trabalhos fracos. Gente como os já citados Tyler, Giacchino e Desplat, além de figuras como James Newton Howard, John Powell, John Debney, os Newman (Thomas, Randy e David), e Howard Shore, todos tem obras no currículo que fazem a alegria de qualquer um que goste das grandes trilhas orquestrais.

      Além disso, esse ano, três mestres do passado retornam, com força máxima: James Horner, com quatro trilhas novas (uma delas já lançada, a ótima Wolf Totem), Bruce Broughton (em parceria com Debney, no faroeste televisivo Texas Rising) e, claro, John Williams, no novo Star Wars. A expectativa, como não pode deixar de ser, está nas alturas.

      Enfim, eu procuro ao máximo não ser um pessimista e tentar ver tudo com uma mente aberta. Não podemos nos esquecer dos grandes mestres que escreveram tantas obras primas, mas também não dá para ignorar todos os trabalhos de qualidade lançados todo ano, por todo o mundo.

      PS: Esse comentário deve ter ficado maior que a resenha aí em cima, risos.

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      1. Se já não bastasse também a própria indústria vetando qualquer tentativa de criatividade ou sonoridade clássica (já temos mais um exemplo com o Marianelli), tenho percebido que a crítica (não a específica sobre trilhas sonoras) vem exaltando a mediocridade. Trabalhos de Reznor e Ross e da galera da RC, vem sendo exaltados cada vez mais em resenhas críticas de sites famosos (pelo menos no Brasil). Os únicos que ainda vejo serem elogiados são Desplat e Giacchino, até por de certa forma serem mais populares. Qualquer trabalho que soe mais complexo, clássico, tem sido chamado de exagerado, antiquado. Aí fica difícil.

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      2. Tiago Rangel, gosto demais do Joe Hisaishi ^ ^. Bem que poderia ter rolado uma resenha dos seus últimos trabalhos com animação né, rsrsrs. Principalmente Vidas ao Vento sendo anunciado como ultimo longa do mestre Myiazaki

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        1. Respondendo dois comentários em um:

          Também acho deprimente a falta de respeito que a crítica de cinema tem com os film scores. Pra eles, as trilhas nada mais são que recursos manipulativos, e a maioria deles ficaria feliz se todo mundo compusesse para os filmes no estilo Resznor & Ross.

          O Pablo Villaça, por exemplo, um dos principais críticos do Brasil, já admitiu que tem pouco conhecimento sobre as trilhas,e prefere música mais discreta (leia-se: inaudível) nos filmes. Por isso, nos textos dele, a maior parte dos comentários sobre a trilha geralmente são negativos, ou se limitam a piadas sem graça. A crítica dele, por exemplo, para “Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles”, tem um comentário patético, desnecessário e pouco profissional a respeito da trilha e do próprio compositor, no caso, Brian Tyler.

          E o pior é que boa parte da imprensa brasileira vai no mesmo estilo. Esse pessoal pensa: “Que absurdo, violinos tristes nas cenas de drama. , estão manipulando minhas emoções! Vou destruir esse filme com meu texto”.

          Os críticos de outros países já demonstram ser mais respeitosos e possuir mais conhecimentos acerca das trilhas. Porém, isso não os impede de fazer algumas polêmicas. O texto abaixo, escrito por Jon Broxton em seu blog, um dos melhores reviewers de trilhas sonoras do mundo, acerca da trilha de Resznor e Ross para “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, dá um exemplo particularmente triste que aconteceu naquele ano, envolvendo o crítico da Variety, enquanto demonstra sua própria visão acerca da visão equivocada que a crítica de cinema tem das trilhas. Recomendo fortemente a leitura (em inglês):

          http://moviemusicuk.us/2011/12/27/the-girl-with-the-dragon-tattoo-trent-reznor-and-atticus-ross/

          Sobre o Joe Hisaishi: pode deixar que as futuras trilhas dele não passarão em branco pelo Scoretrack. Ou, quem sabe, um “Na Trilha” especial, no futuro?

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          1. Opa, valeu pela atenção :D

            Não poderia concordar mais. Interessantíssimo esse texto do Jon Broxtron. Como meu conhecimento em inglês é quase nulo, me aventuro a ler seu blog traduzido pelo Google kkkkkkkkk, mas ainda não tinha lido essa resenha de “Os Homens que não Amavam as Mulheres”.

            Joe Hisaishi e Michael Giacchino me impressionaram em 2004, eu com meus 12 anos rsrs, e me fizeram ter meio que uma relação de fã. Podem até fazer alguma merda na carreira e eu acho lindo e profissional kkkkkk. Felizmente até agora o trabalho dos dois continua de altíssimo nível. Valeu!

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  2. Galera do Scoretrack, vocês já ouviram a trilha de Tomorrowland do Michael Giacchino? É uma das trilhas mais fantásticas do ano!

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    1. Henrique, a resenha de Tomorrowland certamente sairá. Mas eu só devo escrevê-la depois do lançamento do filme no Brasil, em 4 de junho. Gostaria de ver como ela funciona no contexto do filme e a aplicação dos temas para, então, escrever um texto mais completo.

      Continue acompanhando o Scoretrack, pois pretendo cobrir toda a temporada de verão de Hollywood, incluindo resenhas de San Andreas, Jurassic World, Inside Out, Ant-Man, M: I 5… Fique ligado!

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