chima

Resenha de Trilha Sonora: LEGENDS OF CHIMA VOL. 2 – Anthony Lledo


Legends_Chima_2_CDMúsica composta por Anthony Lledo
Selo: MovieScore Media
Catálogo: Download Digital
Lançamento: 21/04/2015
Cotaçãostar_4

A fantasia tem um poder incrível de inspirar grande música, mesmo antes de o cinema nascer, como o grandioso ciclo de óperas Der Ring des Nibelungen (ou os Anéis do Nibelungo), de Richard Wagner, sobre a mitologia nórdica. Com o surgimento dos filmes, foram incontáveis os longas fantásticos acompanhados de grandes scores, de modo que hoje cada grande compositor que já passou pelo cinema, de John Williams a Bernard Herrmann, passando por James Horner, Jerry Goldsmith e até mesmo Ennio Morricone, escreveram clássicas trilhas para o gênero – isso sem falar em Basil Poledouris e Howard Shore, que compuseram as obras-primas de suas carreiras (e da Música de Cinema em geral) para filmes de fantasia.

O gênero fantástico, porém, não é exclusivo do cinema, e hoje em dia faz sucesso na televisão, em vídeo games e na literatura. Apesar disso, mesmo em outras mídias, é impressionante como ela não perdeu sua capacidade de continuar a inspirar música de ótima qualidade, como comprova a bela trilha da animação do Cartoon Network Legends of Chima (idem, 2013). Ela é baseada numa linha de produtos da Lego, e conta a história de animais antropomórficos combatendo as forças do mal no reino místico de Chima. O responsável pelo score é o jovem dinamarquês Anthony Lledo, que trabalhava no cinema sueco antes de ser convidado pela Lego para compor para curtas baseados em seus brinquedos. Ele também foi arranjador de Harry Gregson-Williams em uma série de produções, incluindo Atração Perigosa (The Town, 2010) e Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (Prince of Persia: The Sands of Time, 2010).

O trabalho de Lledo em Legends of Chima se tornou tão popular que a excelente gravadora MovieScore Media resolveu lançá-la em disco. O primeiro volume, que saiu no ano passado, continha a música da primeira temporada da série. Já este recém-lançado segundo volume apresenta seleções do score da segunda e terceira temporadas, que foram ao ar simultaneamente em 2014. As críticas tanto do primeiro quanto do segundo volume foram bastante favoráveis, o que mostra que Lledo tem um grande futuro à sua frente (apesar de, aparentemente, a série ter sido encerrada pelo Cartoon Network).

Se nas séries de televisão em live action já é difícil encontrar música fora do lugar comum, nas animadas isso se torna praticamente improvável. Certamente, é por causa do orçamento, que é menor do que aquele disponível para um grande blockbuster de Hollywood (ou mesmo para uma série como Game of Thrones). Dessa forma, é uma verdadeira surpresa que os produtores de Legends of Chima tenham permitido a Lledo utilizar de um elenco considerável de músicos para interpretar sua trilha. Provavelmente, sabendo do escopo épico da história, eles decidiram que um score orquestral seria mais adequado ao desenho, e o compositor dá uma resposta à altura do desafio, com uma trilha que em nada fica a dever a algumas recentes de Hollywood.

O disco começa com Return of the Heroes, que traz de volta o tema principal do primeiro disco de maneira grandiosa. Há uma passagem terna para sopros e cordas na sequência, seguida do retorno do tema principal numa melodia heroica, com metais e percussão. Into the Outlands é mais sombria, repleta cordas ameaçadoras, instrumentação tribal e mais percussão, rumo a um final grandioso, com toda a orquestra. Já The Dark Tribes, apesar do nome, começa com ritmos cômicos e engraçadinhos (é uma animação para crianças, ora). Porém, logo em seguida, seguem-se motivos repletos de suspense e ameaça, culminando num encerramento cheio de ação, com cordas, percussão e metais.

Ancient Hunters, por sua vez, é uma faixa quase gutural, trazendo metais graves e muita percussão, além de orquestrações cheias de suspense. Em The Phoenix, entretanto, há uma mudança de tom, em que a orquestra interpreta uma bela e majestosa melodia, seguida por um trecho marcial, com trompas, percussão e cordas – algo como uma mistura entre The Throne Room, da trilha de Star Wars (idem, 1977) com o ritmo da The Imperial March, de O Império Contra-Ataca (The Empire Strikes Back, 1980). Hills of Chima, porém, já é mais leve, com uma bonita melodia para cordas e madeiras, seguida por um trecho com orquestra, violão, flauta e percussão tribal, que deve agradar aos fãs do score de O Rei Leão (The Lion King, 1994).

Lavertus continua com um clima leve, repleto de cordas em staccato e orquestrações coloridas. A maior música de ação do disco, porém, vem em Frozen Land, que traz toda a orquestra numa melodia enérgica, dramática, porém repleta de momentos de verdadeiro heroísmo, e alguns trechos que inclusive lembram a clássica música de capa e espada. É uma pena que seja uma faixa tão curta, com pouco mais de dois minutos. The Tale of Tormak, na sequência, é a melhor do disco. Ela traz um início frio e repleto de suspense, mas logo se converte numa bela e grandiosa melodia, para toda a orquestra, nobre e heroica. Victory, por fim, encerra o disco, com uma típica melodia de encerramento, e mais uma vez reminiscente das clássicas trilhas de capa e espada e pirataria.

Entretanto, cabem duas críticas ao score de Lledo: a primeira é que os metais da orquestra não soam realmente como metais, mas sim como samples criados em sintetizadores. Não tenho certeza se o compositor teve como utilizar músicos reais para fazer esta parte da orquestra, ou se ele realmente teve de, por razões orçamentárias (embora, como já tenha sido dito, o dinheiro disponível para a música tenha sido maior que o habitual), recriar os metais em seu sintetizador. Mas, enfim, este é um problema casual, que é provável que a maioria dos ouvintes nem perceba. Outro problema, porém, é a falta de temas fortes e memoráveis, ancorando a música. Cada faixa é uma pequena peça contida em si mesma, porém, falta aquele gancho temático, que dá coesão à música – embora, pelo disco conter apenas seleções do score, é possível que os prováveis temas fiquem menos evidentes.

Apesar desses problemas, esta ainda permanece como uma ótima trilha, que merece ser descoberta. Tanto o Volume 1 quanto o 2 são curtos, com pouco mais de meia hora de duração (mesmo juntando os dois, sua duração ainda fica menor do que a da maioria dos discos de Horner), e certamente não cansarão os ouvintes. Quem gosta dos clássicos scores de aventura das décadas de 1980 e 1990, ou mesmo trilhas para animações, como Dinossauro (Dinosaur, 2000), de James Newton Howard, e Como Treinar seu Dragão (How to Train Your Dragon, 2010) e sua continuação, de John Powell, encontrarão muito o que apreciar neste trabalho de Lledo. Se tem algo que aprendi em todos esses anos ouvindo trilhas sonoras, é que música de qualidade pode vir de, literalmente, qualquer lugar, até mesmo do desenho que os seus filhos, ou você mesmo (o que foi? Eu mesmo não perco um episódio de Hora de Aventura e Apenas um Show), gostam de assistir na TV.

Faixas:

1. Return of the Heroes 3:31
2. Into the Outlands 3:15
3. The Dark Tribes 4:19
4. Ancient Hunters 3:02
5. The Phoenix 3:26
6. Hills of Chima 2:49
7. Lavertus 3:28
8. Frozen Land 2:20
9. The Tale of Tormak 3:30
10. Victory 2:12

Duração total: 31:52

Tiago Rangel

Uma opinião sobre “Resenha de Trilha Sonora: LEGENDS OF CHIMA VOL. 2 – Anthony Lledo”

  1. “Se tem algo que aprendi em todos esses anos ouvindo trilhas sonoras, é que música de qualidade pode vir de, literalmente, qualquer lugar, até mesmo do desenho que os seus filhos, ou você mesmo (o que foi? Eu mesmo não perco um episódio de Hora de Aventura e Apenas um Show),…”

    Gosto mais de Apenas um Show… hehehehehe

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