Resenha: DESERT DANCER – Benjamin Wallfisch (Trilha Sonora)


desert_dancer_CDMúsica composta por Benjamin Wallfisch
SeloVarèse Sarabande
Catálogo: 302 067 340 8
Lançamento: 07/04/2015
Cotaçãostar_4

Intitulado no Brasil O Dançarino do Deserto (Desert Dancer, 2014), este drama baseado em fatos reais conta a história de Afshin Ghaffarian, que, no clima volátil e perigoso das eleições no Irã em 2009, deve superar as opressoras leis do país para seguir seu sonho: iniciar uma companhia de dança, arte banida no país persa por razões religiosas. O longa estreou em alguns países europeus e em Hong Kong em meados do ano passado, mas nos EUA sua estreia foi apenas em 10 de abril desse ano (e em 16 de abril no Brasil). Apesar disso, sua chegada ao mercado americano foi o pretexto para a Varése lançar em disco a trilha do filme, composta pelo excelente, porém pouco conhecido, Benjamin Wallfisch.

O inglês, nascido em 1979, é mais conhecido por ser o maestro de algumas das trilhas de Dario Marianelli, incluindo seus trabalhos mais famosos, como Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, 2005), V de Vingança (V for Vendetta, 2006) e a oscarizada Desejo e Reparação (Atonement, 2007). Porém, Wallfisch, aos poucos, é um nome que tem crescido fora do mainstream hollywoodiano, e atraído a atenção da crítica com seu talento para a escrita orquestral em produções independentes ou europeias (e, dessa forma, pouco vistas em nosso país). Seu trabalho rendeu-lhe vários prêmios e indicações, inclusive ao Emmy e ao World Soundtrack Awards.

Para O Dançarino do Deserto, Wallfisch optou por destacar os aspectos mais dramáticos e da história. Escrita principalmente para cordas, piano, alguns instrumentos orientais típicos e eletrônicos, é uma trilha que não tem medo de ser dramática, por vezes trágica e, sim, emocionalmente manipuladora. Os críticos que acham que a música deve se relegar a um papel secundário, sem tentar comover ou envolver o espectador, provavelmente arrancarão os cabelos em acessos de fúria ao saber que, em pleno 2015, ainda há compositores tentando emocionar o ouvinte através da boa e velha orquestra, porém, para os Scoretrackers, esta trilha permanece como uma pequena pérola a ser descoberta fora do cinema blockbuster.

Isso porque Wallfisch, em sua composição, teve a inspiração óbvia do maior mestre do “melodrama” que o cinema viu nas últimas décadas: John Barry. Tomando emprestada sua escrita apaixonada e descomplicada para cordas, cheia de notas longas, Wallfisch produziu um trabalho que pode ser descrito como um “Barry moderno”, ou seja, uma atualização do som que ouvimos em clássicos como Entre Dois Amores (Out of Africa, 1986) e Dança com Lobos (Dances with Wolves, 1990). Para modernizá-lo, Wallfisch o mesclou com influências de outros compositores que resistem bravamente aos defensores dos scores frios e sem emoção, como James Horner, Alexandre Desplat e o próprio Dario Marianelli.

O tema principal do filme e para o protagonista, apresentado em Afshin’s Theme, é onde se nota a maior influência de Barry. Respondendo pelos momentos mais emocionais do score, ele é interpretado por um cello solo, acompanhado de cordas e participações de sintetizadores e vocalização feminina, e dá a exata dimensão da triste trajetória de seu protagonista por mais liberdade em seu país. Ao final, exóticos violões finalizam a faixa, em tom atmosférico.

Beat Him Artistically começa com baixos e um tema para voz feminina solo, que pode reavivar lembranças ruins nas memórias de alguns Scoretrackers. Isso porque, no início da década passada, uma das tendências da música de cinema, iniciada por um certo alemão e por Lisa Gerrard na trilha de Gladiador (Gladiator, 2000), consistia nas fatídicas vozes femininas lamentosas, tipicamente do Oriente Médio. As tais wailing voices passaram a ser a regra padrão, principalmente em filmes épicos, e foram usadas até o ponto de saturar – mais ou menos como o onipresente horn of doom nos dias de hoje. Horner foi de seus principais campeões, marcadamente em scores como o de Tróia (Troy, 2004), e a utilização do recurso por Wallfisch, enquanto faz sentido geograficamente, também funciona como um breve aceno ao famoso californiano e a Gerrard. Aqui, a voz é utilizada em clima misterioso e exótico, complementado por instrumentos orientais, como a cítara, semelhantes aos que Maurice Jarre utilizou em seu clássico Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962).

Em You Danced Inside My Heart e Somewhere to Rehearse, podemos notar uma maior influência de Desplat, com uma singela melodia tocada por piano, cordas e harpa, com uma participação do tema de Afshin no cello ao final da primeira. Elaheh’s Audition traz um piano sombrio e melancólico, acompanhado de violinos agudos e uma espécie de metrônomo, ditando o ritmo da música. Em seguida, Hand Dance utiliza essa mesma instrumentação, mas de forma ainda mais introspectiva e “para baixo”. We Can Breathe tem um estilo de composição e orquestração parecido com o de Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (Big Fish, 2003), um dos melhores trabalhos de Danny Elfman, e cobre uma ampla gama de emoções em seus pouco mais de cinco minutos. Há também participações do tema de Afshin e do motivo para a voz feminina.

A oitava faixa, Desert Dancer, com quase dez minutos de duração, aparentemente foi concebida para acompanhar uma das sequências de dança do longa. E ela é, certamente, o grande destaque do disco. Iniciando-se de modo exótico e atmosférico, com a cítara e a voz, ela logo incorpora o tema de Afshin, com cello e orquestra, num dramático crescendo até uma dura passagem para percussão e o duduk (aquela flauta do Oriente Médio que você já ouviu em basicamente todas as trilhas para filmes ambientados lá). Em seguida, as cordas e o duduk assumem o comando, junto a texturas eletrônicas, assumem o comando num trecho sensível que não pode ser descrito como menos do que incrível. Withdrawal continua no mesmo estilo atmosférico e melancólico, com cordas indo de suas alturas máximas a sons graves e escuros e o tema de Afshin tentando emergir no cello e no piano, como uma luta contínua do protagonista pela liberdade. De tirar o fôlego.

Na sequência, Silent Protest, apesar do nome, traz o motivo da voz feminina, com acompanhamento da orquestra. Ela é seguida por Dance is my Weapon, que traz o retorno do metrônomo ouvido anteriormente na faixa cinco, acompanhando um longo e constante crescendo de cordas, similar (porém, menos explosivo, é claro) aos que Marianelli utilizou em V de Vingança – ou, bizarramente, com os de Elfman para o tema de O Procurado (Wanted, 2008). O disco finaliza com Where No One Else Can See You, que, após uma introdução com participações do tema principal, adiciona uma leve guitarra à orquestração, encerrando o score num tom mais otimista e esperançoso.

Com a aclamação recebida por este score e também pelo recentemente lançado Bhopal: A Prayer for the Rain (idem, 2015), Wallfisch vem se consolidando cada vez mais como um dos nomes mais promissores a surgir na música de cinema. É fácil diminuir trilhas como essa como sendo excessivamente manipuladoras, porém, sua partitura aqui tem o propósito de servir como um sombrio apelo à liberdade e contra a opressão (assim como o filme). Teremos aqui um futuro sucessor do grande John Barry? Talvez, mas o importante é que sempre é bom ver talentos como Wallfisch ganhando cada vez mais espaço no frio e cada vez mais sem vida mundo da Música de Cinema atual.

Faixas:

1. Afshin’s Theme 5:32
2. Beat Him Artistically 2:17
3. You Danced Inside My Heart 1:41
4. Somewhere to Rehearse 1:02
5. Elaheh’s Audition 2:48
6. Hand Dance 2:17
7. We Can Breathe 5:13
8. Desert Dancer 9:26
9. Withdrawal 4:04
10. Silent Protest 0:58
11. Dance Is My Weapon 5:41
12. Where No One Else Can See You 3:49

Duração: 44:28

Tiago Rangel
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4 opiniões sobre “Resenha: DESERT DANCER – Benjamin Wallfisch (Trilha Sonora)”

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