duel

Resenha: DUEL – Billy Goldenberg (Trilha Sonora)


duel_CDMúsica composta e regida por Billy Goldenberg
Selo: Intrada Records
Catálogo:  Special Collection  Vol. 305
Lançamento: 02/03/2015
Cotaçãostar_4

Após dirigir episódios de várias séries de TV entre 1969 e 1970, o então muito jovem Steven Spielberg teve sua grande chance com o telefilme Encurralado (Duel, 1971). A produção foi baseada num conto do escritor Richard Matheson (autor de 16 episódios da versão original da série Além da Imaginação e roteirista dos filmes de Roger Corman baseados em Edgar Allan Poe) e estrelada por Dennis Weaver, à época conhecido como o protagonista da série McCloud. Praticamente todo filmado em locação e com apenas Weaver na tela, o resultado mostrou ser um curto (menos de 80 minutos) mas excepcional exercício de suspense, do tipo que raramente é visto na TV.

O filme basicamente é uma longa perseguição em estradas rurais e montanhosas do interior dos EUA. David Mann (Weaver) é um sujeito comum, dirigindo seu sedã vermelho em uma viagem de negócios. Ao ultrapassar um velho caminhão tanque que bloqueava sua passagem, o enorme veículo, dirigido por um motorista de quem ele nunca vê o rosto, passa a persegui-lo e tenta jogá-lo para fora da estrada. Mann busca de todas as maneiras deixar o caminhão para trás, porém quando ele menos espera, o caminhão surge atrás do seu carro, colocando-o em diversas situações mortais. Percebendo que fugir é inútil, Mann decide confrontar o motorista assassino.

Pontuado por uma enervante trilha sonora composta e regida por Billy Goldenberg, o resultado ficou tão bom que a Universal decidiu lançar a produção internacionalmente nos cinemas, e Spielberg foi convocado para filmar duas cenas adicionais que fizessem Duel ficar com uma duração próxima dos 90 minutos: aquela onde o caminhão empurra o carro de Mann para a linha do trem, e a do ônibus escolar. O esforço adicional compensou: Encurralado recebeu excelentes críticas, principalmente na Europa, onde as alegorias do tipo Homem x Máquina ou Oprimido x Opressor andavam muito em voga, e garantiu ao diretor seu ingresso no mercado cinematográfico. Também foi a inspiração de sequências de perseguição com caminhões vistas em filmes como A Morte Pede Carona (The Hitcher, 1986) e O Exterminador do Futuro (The Terminator, 1984).

Billy Goldenberg, apesar de ter feito alguns trabalhos para o cinema, tem seu maior currículo na TV, e à época era um compositores mais requisitados para séries e telefilmes da Universal. Sua música pode ser ouvida em programas clássicos do estúdio como Galeria do Terror (ele fez a trilha do piloto, também dirigido por Spielberg), Têmpera de Aço, McCloud, Kojak e Columbo. Em Duel Goldenberg teve liberdade para criar um dos scores mais experimentais já feitos para a televisão, onde notamos algumas explícitas referências a Bernard Herrmann e sua antológica partitura para Psicose.

É uma trilha predominantemente agressiva, atonal e intensa, baseada principalmente em instrumentos de corda, complementadas por baixo, piano, e efeitos de percussão e sintetizadores. Neste score Goldenberg usou com eficácia o waterphone, instrumento metálico de percussão que, como o nome indica, é cheio de água e gera sons arrepiantes que caem como uma luva neste tipo de música. Tudo começa com sons sinistros que acompanham o logo da Universal (“Universal Emblem”), e logo em seguida vem “Passing The Truck”, típica composição de horror com cordas agudas raspantes e efeitos sonoros que lhe dão um tom de pesadelo. Na sequência chega a ritmada “Truck And Car Encounter”, levada basicamente pelas cordas, com apoio de piano e efeitos de percussão, que traz a primeira clara referência ao score de Psicose, principalmente por volta de seu 1 min. de duração.

A climática “Studying Drivers” inicia uma sequência particularmente tensa do filme, onde Mann, em um restaurante de beira de estrada, observa silenciosamente os motoristas de caminhão ali presentes. Aqui as cordas são empregadas para progressivamente criar um clima de suspense e, ao final, de pânico latente, com o reforço de acordes cíclicos de teclado. Essa ideia tem seguimento em “Mann’s Thoughts”, na qual os pensamentos do protagonista, tentando mentalmente deduzir qual dos motoristas seria o psicopata, ganham um acompanhamento mais melódico, ainda que deprimente. Aliás, se depressão e paranoia merecem um tema musical, esta é a faixa perfeita. A sequência no restaurante prossegue com “Lone Driver Eating”, uma espécie de terceiro ato das duas faixas anteriores. As cordas seguem depressivas, até chegarmos a “Truck Leaving”, cue enervante no estilo Herrmann que acompanha o caminhão quando ele finalmente deixa o restaurante – sem revelar seu condutor.

O início esperançoso de “Truck Stops” parece indicar que finalmente Mann livrou-se do seu perseguidor, mas logo uma cacofonia de sons (sintetizadores, waterphone, cordas) anuncia o retorno do caminhão, e com ele o leitmotiv da perseguição, ouvido pela primeira vez em “Passing The Truck”, e que continua em “Hide And Seek”. “Truck Waiting #1” é um exercício lento, em crescendo, de suspense, baseado em cordas e waterphone. Já o início de “Truck Waiting #5” traz a referência mais explícita à cena do esfaqueamento de Psicose. Ouvimos as mesmas cordas rascantes que Herrmann usou na faixa “Murder”, porém em um tom abaixo, seguidas praticamente do mesmo desenvolvimento “pós-assassinato”. Segundo as notas do encarte do CD, escritas pelo especialista Jeff Bond, Goldenberg assumidamente usou a composição de Herrmann como base, tanto que Spielberg, receoso de acusações de plágio, inicialmente não queria utilizar a música no filme.

Filme e trilha aproximam-se da sua conclusão dramática com “Truck Racing Car”, que após seu primeiro minuto entra em um frenesi de efeitos de guitarra e percussão. “Final Duel” dá continuidade à música dissonante, mas a partir de seu 1min. 10s. adquire um ritmo acelerado, com cordas frenéticas acompanhadas por baixo e piano, e ao final marca a última aparição da música “Herrmanesca”. O score termina com “The Duel (End Title)”, onde os efeitos de waterphone, idênticos aos de “Universal Emblem”, remetem ao início de tudo. Apesar do título, esta faixa é ouvida durante a queda do caminhão no abismo, com os créditos finais posteriormente surgindo na tela sem nenhum acompanhamento musical. O álbum ainda traz como bônus quatro faixas country diegéticas (ouvidas em rádios durante o filme) e uma versão alternativa de “The Duel”.

Esta trilha de Duel possui características semelhantes à edição de The Car – ambas foram lançadas simultaneamente este mês pela Intrada. Ela tomou por base as masters originais gravadas em três canais – recurso então incomum em se tratando de trilhas para a televisão. Como as fitas estavam perfeitamente preservadas nos arquivos da Universal, a qualidade do áudio do CD é ótima, com grande fidelidade e separação estéreo, sem chiados ou falhas. Demoramos mais de 40 anos para finalmente termos o lançamento desta recomendável obra de Goldenberg. Mas valeu a pena esperar.

Faixas:

1. Universal Emblem 0:28
2. Passing The Truck 2:12
3. Truck And Car Encounter 1:33
4. Studying Drivers 2:24
5. Mann’s Thoughts 3:37
6. Lone Driver Eating 2:01
7. Truck Leaving 1:17
8. Truck Stops 3:06
9. Hide And Seek 1:27
10. Truck Waiting #1 2:38
11. Truck Waiting #5 1:52
12. Truck Racing Car 4:47
13. Final Duel 4:50
14. The Duel (End Title) 2:30
15. EXTRAS: Instrumental No. 1 (Radio Source Music, Billy Goldenberg) 3:40
16. Instrumental No. 4 (Radio Source Music, Billy Goldenberg) 2:15
17. Instrumental No. 2 (Radio Source Music, Billy Goldenberg) 3:33
18. Instrumental No. 3 (Radio Source Music, Billy Goldenberg) 2:33
19. The Duel (Alternate End Title) 1:02

Duração: 47:45

Jorge Saldanha

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