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Resenha: THE DIVERGENT SERIES: INSURGENT – Joseph Trapanese (Trilha Sonora)


insurgent_CDMúsica composta por Joseph Trapanese
Selo: Interscope Records
Catálogo: Download Digital
Lançamento: 17/03/2015
Cotaçãostar_3

Seguindo o sucesso de Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012), os estúdios hollywoodianos descobriram um novo filão: ficções científicas adaptadas da literatura jovem, que trazem mocinhos e mocinhas destemidos e atormentados, em uma sociedade distópica, que acabam se descobrindo como os “escolhidos” na luta contra governos tirânicos. Ou seja, mais ou menos o que Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977) e Matrix (idem, 1999) já fizeram antes, com resultados muito mais originais. Como seria de se imaginar em Hollywood, filmes desse “subgênero” foram lançados aos montes nos últimos anos, em variados graus de qualidade e sucesso, desde Maze Runner – Correr ou Morrer (The Maze Runner, 2014) a O Doador de Memórias (The Giver, 2014).

A franquia mais bem sucedida, porém, afora a saga de Katniss e Peeta, é A Série Divergente. Ela conta a história de uma Chicago futurista, cuja população é dividida por facções, que representam uma qualidade humana: Erudição, Abnegação, Franqueza, Amizade e Audácia. A heroína da franquia, Tris (Shailene Woodley), é uma Divergente, ou seja, se encaixa em mais de uma facção. Por conta disso, ela e seus amigos são caçados pela impiedosa Jeanine Matthews (Kate Winslet), que tem planos obscuros envolvendo os Divergentes.

O primeiro longa da franquia, Divergente (Divergent, 2014), contou com uma interessante e surpreendente trilha de Tom Holkenborg, ou Junkie XL. Porém, para sua continuação, este A Série Divergente: Insurgente (The Divergent Series: Insurgent, 2015), foi contratado o compositor Joseph Trapanese para providenciar o score. Como é de costume em franquias que trocam de compositores, Trapanese decidiu não seguir o caminho estabelecido por seu antecessor e, em vez disso, utilizar suas próprias ideias.

A carreira de Trapanese pode ser resumida a fazer arranjos orquestrais (geralmente grandiosos) para artistas que não tem familiaridade com a linguagem da música para orquestra. Músico de sólida formação orquestral e eletrônica, ele já trabalhou com artistas como a cantora Ellie Goulding e a banda M83. No cinema, Trapanese colaborou com o líder dessa última, Anthony Gonzalez, na interessante trilha de Oblivion (idem, 2013) e providenciou arranjos para a música do Daft Punk em Tron: O Legado (Tron: Legacy, 2010), enquanto também manteve seus trabalhos como compositor solo para cinema e teatro.

Para Insurgente, Trapanese decidiu não contar com orquestrações sinfônicas grandiosas. Em vez disso, ele reuniu uma orquestra de cordas e percussão, além de piano e muitos eletrônicos. De certa forma ele foi bem sucedido: suas orquestrações limpas e elegantes, e seu entendimento tanto da linguagem da orquestra quanto da música eletrônica, permite que cada uma tenha seu espaço e se complementem perfeitamente. Ou seja, instrumentos acústicos soam como instrumentos acústicos e eletrônicos soam como eletrônicos. Nada de música para sintetizadores sendo porcamente transcrevida para a orquestra, como fazem os compositores da famigerada Remote Control. Por outro lado, a música de Trapanese aqui é mais baseada em texturas e sutilezas do que em temas grandiosos. Tanto a música para as cenas de ação quanto as de drama (nas quais sua abordagem funciona bem melhor) recebem essa mesma aproximação minimalista e, enquanto isso é de certa forma ousado, também se revela bastante cansativo de se ouvir no álbum.

A melhor maneira de descrever essa trilha é como uma mistura dos scores de Trent Resznor e Atticus Ross para os filmes de David Fincher, com as trilhas mais quietas e sutis de James Newton Howard, como Conduta de Risco (Michael Clayton, 2007), JFK – A História Não Contada (Parkland, 2014) e os momentos mais intimistas da trilha da franquia rival, Jogos Vorazes; além de, claro, os ostinatos de cordas que todo mundo quis usar depois que Hans Zimmer compôs para o Batman. Certo, talvez você tenha ficado um pouco assustado ao ler essa última frase, mas o fato é que estamos diante de uma abordagem mais minimalista do que costumamos ver em Hollywood. Funciona em parte, pois a música de Trapanese se revela adequada ao estilo futurista e clean do longa, mas, separada do filme, ela revela algumas das suas fraquezas.

Em grande parte da trilha, Trapanese utiliza texturas de cordas, sintetizadores e percussão para criar uma atmosfera de melancolia, ou de tensão e perigo. A primeira faixa, We Found It, é um bom exemplo disso ao combinar eletrônicos, violinos tensos e notas longas e dramáticas a cargo das outras cordas, estabelecendo uma ambientação de incerteza e ameaça. Outras, como Truth Serum e Tris Meets the Box, nada mais são do que longos minutos de texturas sintetizadas e acústicas, que certamente planejam enervar o ouvinte. Já Train Attack, Dauntless Havoc e Final Sim trazem algo que parece o arco raspando nas cordas de um cello, nas duas primeiras, e violino, na segunda, criando um efeito eficiente e indistinto.

Em uma música mais preocupada com ambientação e atmosfera do que com temas, estes ficam ocultos no tecido na trilha, mais como pequenos motivos do que verdadeiros leitmotivs. A heroína Tris ganha um melancólico tema para cordas, que traz certa semelhança com um dos temas de Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, 2013). Ele aparece primeiro ao início de Amity, e retrata as incertezas e a tristeza da protagonista após os eventos do final do filme anterior, além de consistir nos melhores momentos da trilha. Mais tarde, no disco, ele é repetido por boa parte de Candor.

Há também um tema de amor para Tris e seu parceiro Quatro (Theo James), também apresentado em Amity, aos 2:38, consistindo numa melodia triste e levemente moderna para piano, acompanhado de cordas e ambientações eletrônicas. Aparecendo ocasionalmente ao longo do disco, ele recebe sua melhor e mais completa interpretação em You’re Worth It. Também deve se destacar os momentos mais tristes e dramáticos em Erudite, nos últimos minutos de Final Sim e ao início de You’re Worth It que, baseando-se em belas texturas de cordas, me lembraram um pouco do estilo de Mychael Danna, embora a semelhança seja apenas superficial, ao passo em que The Message é um encerramento ligeiramente mais otimista para o score.

Para as faixas de ação, Trapanese utiliza percussão real e sampleada, eletrônicos e tensos ostinatos de cordas. Faixas como as já citadas e violentas Train Attack e Dauntless Havoc são exemplos disso. Em Escaping Amity Trapanese introduz um motivo para violinos enérgicos e tensos, que reaparecerá em outras faixas de ação, como Raiding Candor e Dauntless. Certamente, é eficiente, mas por vezes também brutal.

Para ser sincero, eu queria ter gostado muito mais dessa trilha. Trapanese mostra ter domínio de várias técnicas de escrita para música eletrônica e para cordas, inclusive as mais vanguardistas e, de certa forma, conseguiu cumprir seu objetivo de criar um score mais baseado em texturas do que em melodias. Porém, como álbum, seu estilo mais intelectual não é nem envolvente o suficiente para conquistar o ouvinte, nem irritante o suficiente para aborrecê-lo. É interessante ver um compositor novato tentar coisas novas, mas, dessa forma, Trapanese pode acabar perdendo até mesmo os fãs que conquistou com seu estilo grandioso em Tron e Oblivion. Melhor sorte na próxima, Joe.

Faixas:

1. We Found It 4:42
2. Amity 3:50
3. Dauntless Arrive 3:47
4. Escaping Amity 3:42
5. Train Attack 3:17
6. Progeny 1:55
7. Candor 5:02
8. Truth Serum 6:22
9. Test Subject 1:38
10. Raiding Candor 1:33
11. Dauntless Havoc 4:41
12. Surrender The Traitor 3:35
13. You’re Worth It 3:37
14. Tris Meets The Box 5:51
15. Dauntless 5:19
16. Erudite 4:39
17. Final Sim 4:37
18. You’re Real 4:26
19. I’m The Real You 3:36
20. The Message 2:59

Duração: 79:08

Tiago Rangel

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