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Resenha: THE CAR – Leonard Rosenman (Trilha Sonora)


the_car_CDMúsica composta por Leonard Rosenman
Selo: Intrada Records
Catálogo:  Special Collection Vol. 306
Lançamento: 02/03/2015
Cotaçãostar_4

Nos anos 1970, entre os subgêneros mais populares de Hollywood, tínhamos o terror animal (Tubarão e seus derivados), o terror satânico (O Exorcista, A Profecia) e os filmes de perseguição na estrada (EncurraladoCorrida Contra o Destino, Fuga Alucinada, etc.).  O Carro – A Máquina do Diabo (The Car, 1977), suspense B dirigido por Elliot Silverstein e estrelado por James Brolin, Kathleen Lloyd, John Marley e Ronny Cox, é uma curiosa tentativa da Universal em mesclar esses três subgêneros em um só filme. Ele nos mostra um Lincoln 1971 preto (modificado) que, vindo do nada e sem razão aparente, passa a atacar os habitantes de uma cidade localizada em uma região desértica.

Do mesmo modo que em Tubarão, cabe ao Xerife local (Brolin) enfrentar a ameaça – que, para sua surpresa, eventualmente revela ser de origem sobrenatural. Com vidros escuros que impossibilitam identificar o motorista, um conjunto de faróis e grade frontal que lhe dão uma carranca ameaçadora, a buzina insistente que precede os ataques e sua habilidade em realizar fugas impossíveis das viaturas policiais, o carro ganha uma personalidade maligna que indica ao espectador o que está oculto em seu interior: o próprio demônio (algo que o título nacional entrega já de cara).

Com essa trama, o que poderia ser uma grande bomba acabou resultando em um interessante cult, a ser (re)descoberto em reprises na TV paga ou na Netflix. E boa parte do apelo do filme reside especificamente em sua trilha sonora, composta por Leonard Rosenman. Indiscutivelmente um dos importantes compositores da Silver Age, Rosenman, que faleceu em 2008, possui em seu currículo cinematográfico/televisivo filmes clássicos de James Dean como Vidas Amargas (East of Eden, 1955) e Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955), além de séries de TV que marcaram época, como Combate (Combat, 1962-1967) e O Homem de Virgínia (The Virginian, 1967-1969). Creio que a primeira vez que realmente sua música me chamou a atenção foi em Combate, na qual desenvolveu várias das características de estilo que ganhariam proeminência e que posteriormente reconheceria em trilhas sonoras de cinema que aprecio, como Viagem Fantástica (Fantastic Voyage, 1966) e as da franquia Planeta dos Macacos, na qual sucedeu a Jerry Goldsmith a partir de De Volta ao Planeta dos Macacos (Beneath the Planet of the Apes, 1970).

Apesar disso, confesso que Rosenman não faz parte da minha lista de compositores preferidos, e nunca achei que estivesse à altura de colegas como Elmer Bernstein, Jerry Goldsmith e John Williams. Além disso, são dele os scores de Jornada nas Estrelas IV – A Volta Para Casa (Star Trek IV: The Voyage Home, 1986) e Robocop 2 (idem, 1990), trabalhos com os quais antipatizo. Mas feita esta importante ressalva, sempre lamentei que uma das trilhas sonoras de Rosenman de que mais gostava, The Car, nunca tivesse sido disponibilizada comercialmente em qualquer formato, e foram necessários longos 38 anos para isso acontecesse, graças aos esforços do selo especializado Intrada. Para o lançamento do filme em Blu-ray, a trilha sonora foi transferida a partir das fitas masters originais, que estavam miraculosamente arquivadas, e em excelente condição, na Universal. Isso possibilitou que este CD trouxesse o score na íntegra, remasterizado a partir das sessões originais de gravação, nas quais foi captado em três canais. A qualidade do áudio estéreo, apesar de não estar à altura de uma moderna gravação digital, é ótima, sem falhas ou ruídos, e permite que percebamos várias nuances da instrumentação.

Uma das principais características desta trilha sonora é que ela toma como ponto de partida a melodia do cântico Dies Irae, do século 13. O Dies Irae foi usado por séculos na Missa Requiem, ganhando uma forte conotação religiosa que acaba caindo com uma luva nesta obra. A faixa de abertura, “The Car (Main Title)”, começa com cordas sinistras e madeiras sombras, e logo após uma repentina explosão da orquestra, traz o Dies Irae em uma interpretação de tons graves que não deixa dúvidas: aqui ele está ligado diretamente a uma força do Mal (mais precisamente, ao “motorista” do carro). Ela segue com metais igualmente sombrios, e todo esse conjunto faz dela uma faixa memorável.

Na sequência temos outro destaque, “Cyclist Killed”, onde é estabelecido o leitmotiv que pontua os ataques do carro – após uma introdução que parece ter inspirado o início de “Breakaway”, da trilha de Goldsmith para Alien (1979), vem um ritmo seco e cíclico, de duas notas, que se torna mais intenso conforme o veículo se aproxima da sua vítima (mais um paralelo, agora musical, com Tubarão). A progressão dos metais, que começam baixos e vão se tornando cada vez mais altos, gera um efeito forte, cheio de impacto. “John Killed” segue nessa linha, e apesar de ser mais do mesmo, reforça a impressão que este motivo, de suspense em crescendo, deixa no ouvinte. Em “Dead Girl Found” temos um suspense climático, menos acelerado, com cordas e sopros sutis. Já em alguns momentos de “Sheriff Killed” ouvimos o retorno do suspense mais empolgante, enquanto “Pete Found” segue a linha de “Dead Girl Found”. Dies Irae retorna em “Eerie Car – Bridge”, e a partir daí será ouvido com mais frequência.

Em “Run”, uma das minhas faixas preferidas, Rosenman emprega toda a potência de metais e madeiras da orquestra de estúdio para criar uma das suas melhores composições de ação, na qual trompetes emulam a buzina do carro e sobre eles desponta o Dies Irae. Outros momentos empolgantes de ação chegam em “Ray’s Pursuit” e na primeira metade de “Barrel Roll”. “Chase – Part 1” e “Chase – Part 2 & 3”, duas faixas muito semelhantes em termos de desenvolvimento e estilo mas que mantém o interesse na audição, também estão recheadas de excelentes momentos de suspense e ação.

“Apparition” é um acompanhamento dramático do Dies Irae para a cena na qual James Brolin e o espectador vislumbram, entre as chamas da explosão do carro, seu demoníaco condutor. “The Car (End Title)”, com seu tom elegíaco e triunfante, parece sinalizar a vitória do Bem, mas em seguida vem a sequência dos créditos finais, que parece indicar que o Diabo voltou às estradas: nela temos a visão em primeira pessoa de uma estrada, acompanhada de “The Car (End Credits)”, uma versão mais dinâmica e ritmada do leitmotiv do carro, sobreposto pelo Dies Irae.  Como o score é relativamente curto, para completar o álbum foram incluídas três versões alternativas da faixa “Apparition”, um trecho da pastoral William Tell de Rossini, a música de quatro comerciais do filme e mais a gravação de uma marcha de John Philip Sousa, ouvida no longa.

Chega a ser surreal que um score como The Car, que traz das melhores e mais criativas escritas de ação e suspense de Leonard Rosenman, tenha permanecido por quase quatro décadas como um “Cálice Sagrado” para veteranos Scoretrackers como eu. Felizmente esta busca terminou, e agora aqui ele está, na íntegra e com ótima qualidade de som. Bravo Intrada, que repetiu a façanha com outra raridade similar – Duel, de Billy Goldenberg. Mas essa já é outra história – e resenha.

Faixas:

1. The Car (Main Title) 2:30
2. Cyclist Killed 2:35
3. John Killed 0:47
4. Dead Girl Found 2:03
5. Sheriff Killed 1:11
6. Pete Found 1:38
7. Eerie Car – Bridge 0:23
8. Run 3:00
9. Ray’s Pursuit 3:52
10. Barrel Roll 1:41
11. Strong Spirits 2:37
12. Chase – Part 1 3:25
13. Chase – Parts 2 & 3 4:39
14. Apparition 0:38
15. The Car (End Title) 0:41
16. The Car (End Credits) 1:42
17. EXTRAS: Apparition – Revised No. 1 0:30
18. Apparition – Revised No. 2 0:35
19. Apparition – Revised No. 3 0:27
20. Semper Fidelis w/Parade Overlay (John Philip Sousa) 2:38
21. The Car (E.C.) Wild Chime 0:19
22. William Tell – Pastorale (Gioachino Rossini) 0:27
23. Universal Promo – The Car Version No. 1 0:22
24. Universal Promo – The Car Version No. 2 0:24
25. Universal Promo – The Car Version No. 3 0:24
26. Universal Promo – The Car Version No. 4 0:24

Duração: 39:52

Jorge Saldanha

3 opiniões sobre “Resenha: THE CAR – Leonard Rosenman (Trilha Sonora)”

  1. É sempre muito bom ler suas resenhas Titio Jorge :D

    Confesso que nunca consegui apreciar Rosemann, mas essa resenha sua abriu meu apetite… Como sempre, um ótimo texto! No aguardo da resenha de Duel :D

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