Resenha: RUN ALL NIGHT – Junkie XL (Trilha Sonora)


run_all_night_CDMúsica composta por Tom Holkenborg (Junkie XL)
Selo: WaterTower Records
Catálogo: Download Digital
Lançamento: 10/03/2015
Cotaçãostar_3

Conhecido por suas elogiadas atuações em A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) e Michael Collins – O Preço da Liberdade (Michael Collins, 1996), nos últimos anos Liam Neeson tem se reinventado como (anti) herói de filmes de ação. Seus personagens geralmente são figuras tristes e traumatizadas por uma vida de violência, mas capazes de “sair no pau” com qualquer bandido que o olhar torto. Noite Sem Fim (Run All Night, 2015), o segundo filme de ação com o ator a sair em 2015, é dirigido por Jaume Collet-Serra, que devotou metade de sua carreira a trazer Neeson espancando meliantes – seus últimos três filmes, este incluso, são estrelados pelo irlandês.

Até então, todos os filmes de Collet-Serra tiveram trilha de John Ottman. Aparentemente, alguma coisa azedou na relação entre os dois e, assim, os produtores chamaram Alan Silvestri para ser o compositor do longa, que, segundo rumores, escreveu um score orquestral. Porém, como tais trilhas são animais em extinção na Hollywood do século 21 (ainda mais num filme de ação), Silvestri foi demitido e, em seu lugar, contratado o DJ-transformado-em-compositor Tom Holkenborg, mais conhecido pela alcunha de Junkie XL.

Respeitado no mundo da música eletrônica, ele começou sua carreira nas trilhas sonoras trabalhando para (um doce para quem adivinhar) Hans Zimmer, na Remote Control, e logo passou a ganhar projetos próprios. Sua estreia como compositor solo no cinema hollywoodiano, no ano passado, com 300: A Ascensão do Império (300: Rise of and Empire, 2014) e Divergente (Divergent, 2014), deixou uma impressão positiva, com as duas demonstrando muita personalidade e ousadia do músico. Infelizmente, seu trabalho aqui não se mantém no mesmo nível e, infelizmente, Holkenborg acabou por se render aos cansados clichês de trilhas de ação que abundam nos dias de hoje.

No caso, seu score aqui foi obviamente influenciado pelos trabalhos de seu mestre, principalmente A Origem (Inception, 2010) e a trilogia Batman (sim, de novo). Assim, prepare-se para ouvir os mesmos ostinatos sombrios, a enorme presença de sintetizadores e, como não poderia deixar de ser, o infame horn of doom (ou as “trompas da perdição”) – e o número de trilhas de filmes e trailers que contam com sua presença bombástica deve ser maior que o número de indicações ao Oscar de John Williams e Meryl Streep juntos. Para o crédito de Holkenborg, ele ao menos parece ter se esforçado em pelo menos soar diferente de seus colegas, que se baseiam mais em samplers na hora de criar o fatídico som. Para isso, ele reuniu uma enorme seção de metais, que conta com nada menos que doze trompas e oito trombones.

O som criado por tantos metais graves é verdadeiramente massivo. Eles anunciam sua presença gigantesca logo nas primeiras faixas, e tem participação marcante em cues como Witness e A Little Extra Sugar. Infelizmente, elenco de metais produz um som tão gigantesco que sua participação acaba reduzida a ocasionais arroubos explosivos. Dessa forma, a maioria das faixas de ação e tensão acaba a cargo de sintetizadores e texturas eletrônicas aborrecidas. Outro aspecto marcante das duas trilhas anteriores do compositor, as poderosas e enérgicas baterias, aqui também acabam reduzidas a um papel de coadjuvante, com participações ocasionais em Cop Chase e The Station.

Uma das ideias de Zimmer para a franquia do Cavaleiro das Trevas foi usar um efeito eletrônico que imitava o bater de asas de um morcego para ser um dos motivos do herói. Holkenborg aqui utiliza o mesmo conceito (talvez para aludir ao fato de que Neeson esteve em Batman Begins), mas, ao invés de morcego, nós temos um som de trovão. Este atípico leitmotiv aparece primeiro em Main Titles (From Run All Night) e depois é reutilizado em My Michael, Witness e The Station. Nas duas últimas, também há um motivo de ação, um ostinato de baixos que pode se transferir para os sintetizadores (como em A Little Extra Sugar, por exemplo). Lembra o tema de Zimmer para o Kraken, em Piratas do Caribe: O Baú da Morte (Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest, 2006).

O tema principal é uma melodia triste e sombria, que parece representar a solidão do protagonista. Aparecendo primeiro em Prologue (From Run All Night), suas interpretações variam da melancolia, com piano e cordas (como em I See Those Faces in My Dreams), ao grandioso e elegíaco, nas longas The Projects e The Cabin. Estas duas, apesar de conter longos minutos onde nada de mais interessante acontece a não ser atmosferas de suspense sintetizadas, representam, mais para o final, os melhores e mais empolgantes momentos do disco, onde Holkenborg reúne os metais, a percussão, além das trágicas performances do tema principal, em momentos verdadeiramente vibrantes. Há também uma sequência para o tema, em I Just Killed Your Boy e I’ll Come After Your Son, que é mais ameaçadora e soturna, talvez representando o lado perigoso do protagonista. Ao final, em Epilogue (From Run All Night), ele é desconstruído e interpretado sob uma luz mais positiva, mostrando o final feliz do longa.

Apesar desses pontos positivos, é difícil recomendar esta trilha, pois, em boa parte dela, Holkenborg emprega elementos eletrônicos e texturas de sintetizadores. A intenção certamente era criar uma atmosfera opressiva e ameaçadora de suspense, mas a música acaba ficando cansativa. Quando não são seus sintetizadores, o que temos são ostinatos de suspense tão clichês que quase podemos visualizar Christian Bale vestido numa armadura preta, com uma capa esvoaçante, no topo de um prédio de Gotham City.

A última faixa do disco, Tom’s Run All Night Sketchbook, é uma longuíssima suíte, em que podemos ver todas as ideias de Holkenborg para a trilha, inclusive algumas que não foram utilizadas (como um grito de guerra, que aparece em pouco mais de onze minutos). Com o relógio batendo em cinquenta e dois minutos e quarenta e três segundos, ela deve ser provavelmente a bonus track mais longa da história das trilhas sonoras – e pouco menos de vinte minutos menor do que o restante da trilha, um verdadeiro recorde.

Ao surgir no ano passado, Junkie XL demonstrou ser uma das vozes mais originais a surgir na Remote Control em muito tempo. Assim, é triste vê-lo tendo que repetir tantos clichês já esgotados. Ele parece ter trabalhado duro na trilha, e quem o acompanha no Facebook sabe que ele é um sujeito carismático, que gosta de conversar e interagir com seus fãs. Assim, eu fico na torcida para que, em seu próximo score, para o aguardado Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015), ele volte a surpreender.

Faixas:

1. Prologue 1:49
2. Main Title 0:28
3. Albanians at Xmas 1:41
4. I See Those Faces In My Dreams 3:05
5. Witness 2:14
6. My Michael 5:10
7. I Just Killed Your Boy 4:00
8. Cop Chase 5:09
9. The Station 3:37
10. Just One Night 3:40
11. A Little Extra Sugar 5:07
12. I’ll Come After Your Son 2:57
13. The Projects 11:36
14. A Nightmare That Won’t Pass 3:06
15. The Train Tracks 4:23
16. Shawn 1:28
17. The Cabin 10:23
18. Epilogue 1:14
19. BONUS TRACK: Tom’s Run All Night Sketchbook 52:43

Duração: 123:50

Tiago Rangel
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3 opiniões sobre “Resenha: RUN ALL NIGHT – Junkie XL (Trilha Sonora)”

  1. Hum… Eu achava que o John Ottman não tinha feito esse filme, por causa da trilha/edição de Dias de um Futuro Esquecido. Fiquei empolgado pelo Silvestri ter sido contratado, e um bocado chateado por ele ter sido substituído pelo Junkie XL. Será que existe alguma remota chance desse score ser lançado, ou ele vai cair no limbo como o Romeu e Julieta, de James Horner?
    Quanto ao Junkie, eu ainda quero ouvir esses trabalhos anteriores pra saber se são bons…

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