chappie

Resenha: CHAPPIE – Hans Zimmer (Trilha Sonora)


chappie_CDMúsica composta por Hans Zimmer, Steve Mazzaro, Andrew Kawczynski
Selo: Varèse Sarabande Records
Catálogo: 302 064 225 2
Lançamento: 17/03/2015
Cotaçãostar_2

Era inevitável. Um dia, Hans Zimmer com certeza acabaria trabalhando com o diretor sul-africano Neill Blomkamp. Isto porque, na trilha de seus dois longas anteriores, Blomkamp usou compositores novatos para recriar o tão famoso “som Zimmer”. Para sua estreia no cinema, Distrito 9 (District 9, 2009), Clinton Shorter compôs um score cujo som variava de Falcão Negro em Perigo (Black Hawk Down, 2002) a Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), ao passo em que, em Elysium (idem, 2013), o estreante Ryan Amon entregou uma trilha repleta do típico som “Remote Control” que aprendemos a esperar nos blockbusters da segunda metade dos anos 2000 para a frente. Quando a colaboração entre Amon e Blomkamp não deu certo para seu terceiro longa como diretor, a ficção científica (mais uma) Chappie (idem, 2015), ele decidiu contar com o alemão em pessoa.

O filme conta a história de um robô que, numa Johanesburgo futurista, foi criado para combater a criminalidade, mas, sequestrado por dois criminosos, acaba crescendo e aprendendo sobre o mundo. Amon, segundo uma entrevista do diretor, trabalhou com Chris Clark e Rich Walters no início do processo para criar 80 cues que seriam editados da forma como o diretor preferisse no longa, unindo sons acústicos e eletrônicos. Aparentemente, ele chegou inclusive a gravar com a Philharmonia of London, a mesma orquestra de seu Elysium. Porém, obviamente, Blomkamp não gostou e Zimmer, que trouxe para o projeto os colaboradores Steve Mazzaro e Andrew Kawczynski, foi o escolhido.

Se os boatos (e vocês ficariam surpresos com a abundância desses sobre Música de Cinema que existem na internet) sobre a orquestra londrina forem verdadeiros, significa então que boa parte da trilha rejeitada de Amon era acústica. Ao ouvirmos o disco do score de Zimmer, podemos assumir que o que Blomkamp realmente desejava era um som mais experimental e avant-garde, por assim dizer, para o seu longa. A trilha de Zimmer, em colaboração com Steve Mazzaro e Andrew Kawczynski, é completamente eletrônica, cheia de batidas, samples e tudo a que tem direito.

A última frase acima provavelmente deve ter feito a maioria dos leitores desse site fecharem a página, enquanto faziam o sinal-da-cruz, mas, para os que ainda estão aqui, vou tentar descrever a nova trilha. Ela soa como uma versão ainda mais extrema de trilhas modernas que integram o eletrônico e o acústico, como Oblivion (idem, 2013), Tron: O Legado (Tron Legacy, 2010) e seus próprios trabalhos do tipo, nos filmes de Christopher Nolan e, principalmente, em O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro (The Amazing Spider-Man 2, 2014), combinado com seus scores totalmente eletrônicos do início de sua carreira, como Chuva Negra (Black Rain, 1989). Também é possível perceber influências de outras trilhas eletrônicas do passado recente (Hannah, dos The Chemical Brothers) e mais antigo (Tangerine Dream, Vangelis). E enquanto os admiradores desse gênero de música podem ficar satisfeitos, boa parte dos scoretrackers e mesmo os fãs de Zimmer (ou, ao menos, a maioria) sairão com dores de cabeça homéricas.

A música no disco de 63 minutos (que parecem ser muito mais) se divide em dois grupos: um de batidas eletrônicas que, representando os cues de ação, causarão o problema físico mencionado, e atmosferas e texturas que ficam zumbindo e vagando. O primeiro caso ocupa boa parte do disco, como as duas primeiras faixas. It’s a Dangerous City é uma versão cem por cento sintetizada de scores de Zimmer para os longas do Batman, e The Only Way Out of This é um cue violento e nervoso. Welcome to the Real World e Rudest Bad Boy in Joburg também seguem no mesmo estilo, enquanto You Lied to Me introduz uma espécie de canto eletrônico, que lembra bastante o tema do Electro do filme do herói aracnídeo do ano passado. Esse canto domina completamente a faixa Mayhem Downtown, com sua voz processada em meio aos caóticos sintetizadores. Já Never Break a Promise, com seus longos sete minutos, começa com mais música de ação, que cresce até atingir um final dramático – como Zimmer já fez diversas vezes, mas aqui numa versão eletrônica.

No meio de tanto caos eletrônico, dá para distinguir alguns temas aqui e ali. O mais proeminente é o tema de Chappie, o robô que dá título ao filme. Ele aparece em A Machine that Thinks and Feels, como uma melodia saída de uma caixinha de música, e depois volta em faixas como Firmware Update e The Outside is Temporary, nesta última interpretado em sintetizadores e integrado à música climática. Sua melhor interpretação é em The Black Sheep, onde aparece de forma melancólica. Além disso, a conclusiva We Own This Sky introduz uma espécie de assovio que, integrado a uma melodia em crescendo, é na verdade bem interessante.

Por outro lado, faixas como Use Your Mind e Breaking the Code não são nada mais do que exercícios em construção de suspense com sintetizadores. Se parece entediante só de descrevê-lo, bem, basta dizer que é difícil manter a concentração em faixas assim. Na verdade, a música abrasiva e bem mais extrema pode ser demais para os ouvintes não acostumados.

O fato é que Zimmer está cada vez mais rockstar e menos compositor de trilhas sonoras, e provavelmente vai ganhar mais alguns likes no Facebook ou seguidores no Twitter depois deste score. Claro, há diversas maneiras de se fazer a trilha de um filme, incluindo a eletrônica, mas eu simplesmente não consigo me conectar com esse tipo de música. Por outro lado, se o polêmico alemão resolver seguir por uma rota totalmente eletrônica, não vejo nenhum problema. Já há algum tempo que orquestras e instrumentos “ao vivo” estão virando elementos cada vez mais secundários em seus scores. Assim, se ele não está interessado, há incontáveis outros compositores por aí, melhores e mais habilitados para a escrita orquestral, espalhados pelo mundo todo. Talvez Zimmer consiga mais alguns fãs que antes não ouviam trilhas sonoras, mas eu com certeza ficarei com a boa e velha orquestra sinfônica.

Faixas:

1. It’s a Dangerous City 2:09
2. The Only Way Out of This 4:58
3. Use Your Mind 4:04
4. A Machine That Thinks and Feels 3:03
5. Firmware Update 3:52
6. Welcome To the Real World 3:52
7. The Black Sheep 4:28
8. Indestructible Robot Gangster #1 3:11
9. Breaking the Code 4:49
10. Rudest Bad Boy In Joburg 2:41
11. You Lied To Me 4:06
12. Mayhem Downtown 3:57
13. The Outside Is Temporary 3:09
14. Never Break a Promise 7:43
15. We Own This Sky 4:19
16. Illest Gangsta On the Block 2:45

Duração: 63:06

Tiago Rangel

5 opiniões sobre “Resenha: CHAPPIE – Hans Zimmer (Trilha Sonora)”

  1. “… sairão com dores de cabeça homéricas.” hahahaha Não é possível que esse ‘score’ seja mais nauseante que Man of Steel!

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  2. Gostei muito da crítica foi justa à trilha, (porém eu já escutei ela diversas vezes e estão faltando músicas não as do die antwoord que ajustam e contextualizam a atmosfera do filme, mas sim algumas cues de ambiencia que são muito poserosas esse Album é épico em todos os sentidos
    A trilha de Oblivion e Tron ambas possuem a mão de Joseph Trapanese, acredito que Joseph trapanese influenciou o trabalho de composição de M83 e Daft Punk nas trilhas citadas,não sei até onde o trabalho de Hans é executado dentro do processo de produção musical porém acredito que o senso criativo de produção veio dos músicos adicionais, ao meu ver as vezes o nome de Hans Zimmer serve mais como uma espécie de marketing promocional, ele compoe o tema e outros ajustam as famosas CUEs a partir disto, e sim como disse o comentário de antônio limeira acima acredito que a Trilah de Man of Steel seja algo a ser difícil a ser superado em agressividade, parabéns pelo review!

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