Sabe quando você está assistindo a um filme ou ouvindo uma trilha, e de repente se depara com um tema bastante familiar, mesmo que ele esteja com um novo arranjo? É muito comum, no mundo das trilhas sonoras, ouvirmos música que nos remeta a outras partituras. Na maioria das vezes, isso acontece com um mesmo compositor que, já tendo estabelecido um estilo para si, compõe de forma similar mesmo em filmes que em nada se parecem. Em outros casos, porém, temos a apropriação de temas por outros compositores, que pode ser intencional (ainda que não seja de má-fé) ou não. Às vezes, dois compositores diferentes podem simplesmente ter se inspirado na mesma fonte. Mesmo assim, ficamos com aquela sensação de déja vu ao ouvir notas tão similares. A seguir, cinco duplas de filmes muito diferentes entre si, mas com temas parecidos:

Michel Legrand em Houve uma Vez Um Verão (Summer of ’42, 1971) / Hans Zimmer em Rush: No Limite da Emoção (Rush, 2013)

Michel Legrand e Hans Zimmer
Michel Legrand e Hans Zimmer

O primeiro é um romance de enorme sucesso do início da década de 70, que conta a história da paixão de um adolescente por uma mulher mais velha. O segundo é um drama biográfico de ação, sobre a rivalidade entre dois pilotos de Fórmula 1. Suas respectivas partituras não poderiam ser mais distintas. Ainda assim, ouvindo os temas principais de cada uma, dá para notar uma série de coincidências. Talvez sem querer, Zimmer pegou o lânguido e romântico tema de amor do francês Legrand e a transformou em um hino de ação e heroísmo moderno. Duvida? Então ouça as faixas abaixo, a primeira entre 0:14 e 0:44, e a segunda entre 0:16 e 0:25:

Hans Zimmer em Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line, 1998) / Alan Silvestri em Os Vingadores (The Avengers, 2012)

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Alan Silvestri e Hans Zimmer

Um é um drama reflexivo, filosófico e experimental sobre a Segunda Guerra Mundial, e o outro é uma aventura com super-heróis cheia de ação e momentos que fizeram os nerds ao redor do mundo terem explosões de alegria. Sendo praticamente incompatíveis, os dois longas, apesar disso, dividem um tema em comum. O incrivelmente famoso e dramático cue Journey to the Line se tornou uma das peças mais reconhecíveis de Zimmer, e já foi usado várias outras vezes, especialmente em trailers, como os de 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, 2013) e X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past, 2014). Porém, foi com Silvestri que ele ganhou um novo arranjo, integrado junto às bombásticas e explosivas melodias que ele compôs para acompanhar o massivo clímax da aventura da Marvel – mas sem perder o dramatismo. Duvida? Então ouça as faixas abaixo, a primeira entre 4:17 e 4:57, e a segunda entre 2:29 e 3:10:

Em tempo: Silvestri não foi o primeiro a reutilizar a faixa. Ouça, por exemplo, Mutant and Proud, da trilha de Henry Jackman para X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011).

John Williams em A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) / James Horner em Círculo de Fogo (Enemy at the Gates, 2001)

John Wiliams e James Horner
John Wiliams e James Horner

Os dois longas mostram períodos extremamente dramáticos da Segunda Guerra, e trazem os nazistas como vilões. Apesar dessa pequena similaridade, eles não poderiam ser mais diferentes entre si, com o primeiro focado no sofrimento dos judeus e o segundo mostrando a batalha de Stalingrado. Isso não impediu, porém, que Horner “pegasse emprestado” o tema de Williams e o reorquestrasse. Sai o melancólico violino de Ithzak Perlman, entram balalaikas e uma seção de cordas de inspiração ligeiramente russa – o que mostra que, melodicamente, a música é uma linguagem universal e adaptável. Duvida? Então ouça as faixas abaixo, a primeira entre 0:14 e 0:43, e a segunda do início até 0:57:

Danny Elfman em Homem-Aranha (Spider-Man, 2002) / Alexandre Desplat em O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008)

Danny Elfman e Alexandre Desplat
Danny Elfman e Alexandre Desplat

Outros dois filmes que não podiam ser mais diferentes entre si. O primeiro é uma aventura imensamente bem sucedida estrelada por um dos super-heróis mais famosos de todos os tempos, e o segundo é um drama de David Fincher sobre um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo ao longo da vida. Seus scores são igualmente distintos, apesar de ambos estarem entre os trabalhos mais famosos dos seus respectivos compositores. Ainda assim, em determinado momento de Benjamin Button, podemos ouvir um tema muito similar a outro que Elfman havia composto seis anos antes para o longa de Sam Raimi, com uma nova roupagem: enquanto o americano lhe deu um ar triste e melancólico para refletir os dramas da vida de Peter Parker, o francês o integrou às orquestrações mágicas e sonhadoras de seu score para acompanhar uma tocante cena entre o protagonista e seu pai. Duvida? Então ouça as faixas abaixo, a primeira de 0:10 a 0:42 e a segunda de 0:13 a 0:50:

Howard Shore em O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012) / John Ottman em Sem Escalas (Non-Stop, 2014)

Howard Shore e John Ottman
Howard Shore e John Ottman

Um é uma fantasia épica estrelada por criaturas como anões, orcs e, claro, hobbits. O outro é um thriller de ação com Liam Neeson, passado dentro de um avião. Dois longas tão diferentes, obviamente, teriam scores bastante distintos. Só que alguém deve ter esquecido de avisar isso a John Ottman, pois ele usa o tema de Shore para Erebor, a Montanha Solitária que abrigava os anões, como base para o seu próprio tema em Sem Escalas. É um tema bem consistente de Ottman, por outro lado. Duvida? Então ouça as faixas abaixo, o tema de Erebor na primeira entre 1:57 e 2:18, e o de Ottman entre 0:08 e 0:32:

Bônus: Basil Poledouris em Conan: O Bárbaro (Conan: The Barbarian, 1982) / Jerry Goldsmith em O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990)

Basil Poledouris e Jerry Goldsmith
Basil Poledouris e Jerry Goldsmith

Nos anos 1980 e 1990, a música para o cinema “macho” de ação tinha dois reis indiscutíveis: Basil Poledouris e Jerry Goldsmith. Os dois tem trabalhos marcantes no gênero, como Robocop (idem, 1987), A Caçada ao Outubro Vermelho (The Hunt for the Red October, 1990) e Tropas Estelares (Starship Troopers, 1997), do primeiro, e a trilogia Rambo e Força Aérea Um (Air Force One, 1997), do segundo. Sendo assim, o carismático Goldsmith fez uma menção bacana ao trabalho mais famoso de Poledouris, Conan: O Bárbaro, no tema principal de seu score para O Vingador do Futuro. Serviu como uma pequena homenagem de um mestre ao outro – ou, talvez, Goldsmith estivesse só aludindo ao fato de que ambos os filmes eram estrelados por Arnold Schwarznegger. Seja como for, as duas trilhas estão no topo das filmografias dos seus respectivos compositores. Duvida? Então ouça as faixas abaixo, a primeira de 1:06 a 1:57, e a segunda de 0:10 a 0:36:

Tiago Rangel

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