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OSCAR 2015: A vitória de Desplat e o que muda a partir de agora


desplat_oscar_2015Na noite de ontem, 22 de fevereiro, muita gente teve seu bolão do Oscar prejudicado quando Alexandre Desplat ganhou o prêmio de Melhor Trilha Sonora por O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014). Não que não tenha sido merecido. Na verdade, a trilha de Desplat é praticamente um personagem do filme de Wes Anderson, complementando-o perfeitamente. É difícil imaginar o longa sem a divertida e peculiar música do compositor francês. Não, as apostas estavam contra Desplat simplesmente por causa do histórico recente da Academia com o prêmio de Melhor Trilha Sonora. E, de acordo com esse histórico, o mais provável era que Jóhann Jóhannsson saísse vencedor por seu score para A Teoria de Tudo (The Theory of Everything, 2014).

Explicando: nos últimos anos, a Academia manteve uma preferência por compositores que estivessem em suas primeiras indicações ao prêmio. Músicos que fossem relativamente novatos no Oscar, e que compusessem trilhas para filmes de forte presença nos prêmios principais – precisamente o caso de Jóhannsson. Talvez para auxiliá-los a conseguirem novos filmes na indústria do cinema? Enfim, vou exemplificar isso mostrando os vencedores dos últimos 15 anos:

2014 – Vencedor: Steven Price, por Gravidade (Gravity, 2013) – Antes de ganhar o prêmio pelo filme de Alfonso Cuarón, Price era mais conhecido pelo seu trabalho no departamento musical do que como compositor solo. Seu primeiro filme de renome como compositor foi, de acordo com o IMDB, Ataque ao Prédio (Attack the Block, 2011). Assim, Gravidade foi, obviamente, sua primeira indicação. Depois de premiado, ele trabalhou em Corações de Ferro (Fury, 2014) e estava cotado para compor a música da aventura da Marvel Homem Formiga (Ant-Man, 2015), antes da saída do diretor Edgar Wright.

2013 – Vencedor: Mychael Danna, por As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012) – Danna já havia construído uma longa carreira no cinema independente, colaborando com diretores como Ang Lee e Atom Egoyan. Graças à ótimos scores como Cavalgada com o Diabo (Ride with the Devil, 2000) e Jesus: A História do Nascimento (The Nativity Story, 2006), ele também era muito respeitado entre a comunidade de trilhas sonoras. Porém, sua indicação por As Aventuras de Pi foi sua primeira (e, até agora, única) vez no Oscar.

2012 – Vencedor: Ludovic Bource, por O Artista (The Artist, 2011) – O compositor francês costumava trabalhar principalmente em curtas, até ser chamado para colaborar com o diretor Michel Hazanavicius. O terceiro filme da dupla juntos foi essa ambiciosa homenagem ao cinema mudo, que abocanhou sete Oscar. Desde então, Bource fez apenas a comédia francesa De l’autre côté du périph (idem, 2012) e o telefilme da HBO Apagar Histórico (Clear History, 2013).

2011 – Vencedores: Trent Resznor e Atticus Ross, por A Rede Social (The Social Network, 2010) – Este premiado filme de David Fincher foi o primeiro composto por Trent Resznor, o líder da banda Nine Inch Nails. Ele teve o auxílio de seu colaborador e arranjador, Atticus Ross, cujo maior filme até então havia sido O Livro de Eli (The Book of Eli, 2010). Desde então, Resznor trabalhou apenas nos filmes subseqüentes de Fincher, ao passo em que Ross, além de colaborar com o parceiro, compôs para longas como Linha de Ação (Broken City, 2013) e Hacker (Blackhat, 2015).

2010 – Vencedor: Michael Giacchino, por Up: Altas Aventuras (Up, 2009) – Na época em que ganhou seu Oscar, Giacchino seguia uma carreira ascendente. Já dono de um Emmy (pela série Lost) e três Grammys, ele estava começando a se firmar como um compositor confiável para filmes de grande orçamento, principalmente por conta de suas colaborações com J.J. Abrams. Ele também já havia sido indicado ao Oscar antes por seu trabalho em outra animação da Pixar, Ratatouille (idem, 2007). Hoje, ele continua entre os principais compositores de Hollywood.

2009 – Vencedor: A.R. Rahman, por Quem Quer Ser Um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008) – Antes de vencer o Oscar, Rahman tinha uma carreira extremamente bem sucedida no cinema indiano (que lhe rendeu, inclusive, o apelido de “Mozart das Madras”). O filme de Danny Boyle serviu para introduzir sua música às platéias ocidentais. Depois de ver sua trilha coroada, ele trabalhou mais algumas vezes no cinema Hollywoodiano, notadamente em 127 Horas (127 Hours, 2010), que lhe rendeu outra indicação ao prêmio da Academia. Nos últimos anos, seus longas em Hollywood mais recentes são de temática indiana, como Arremesso de Ouro (Million Dollar Arm, 2014) e A 100 Passos de Um Sonho (The Hundred Foot Journey, 2014).

2008 – Vencedor: Dario Marianelli, por Desejo e Reparação (Atonement, 2007) – O italiano Dario Marianelli já havia sido indicado antes por Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, 2005). Sua carreira, desde então, se focou especialmente em dramas fora da grande indústria, como seu magnífico score para Alexandria (Agora, 2009) e Anna Karenina (idem, 2012), que lhe trouxe outra indicação. Recentemente, ele trabalhou na animação em stop-motion Os Boxtrolls (The Boxtrolls, 2014) e tem pela frente a aventura Peter Pan (Pan, 2015).

2007 e 2006 – Vencedor: Gustavo Santaolalla, por Babel (idem, 2006) e O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005) – O controverso bi-campeão Santaolalla havia trabalhado em poucos filmes, como Diários de Motocicleta (The Motorcycle Diaries, 2004), antes de abocanhar duas estatuetas do Oscar. Sua carreira não mudou muito, com ele continuando a trabalhar principalmente em dramas independentes. Entre seus últimos projetos, estão o jogo The Last of Us e a animação Festa no Céu (The Book of Life, 2014).

2005 – Vencedor: Jan A.P. Kaczmarek, por Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, 2004) – O polonês Kaczmarek havia trabalhado em poucos filmes, a grande maioria fora do circuito, e conseguido algum reconhecimento da crítica por seu score para o drama Infidelidade (Unfaithful, 2002). Sua indicação para a biografia do escritor J.M. Barrie, estrelada por Johnny Depp, foi sua única até agora. Após vencer o prêmio, seus trabalhos mais notáveis foram no romance Ao Entardecer (Evening, 2007) e Sempre ao Seu Lado (Hachi: A Dog’s Tale, 2009).

2004 e 2002 – Vencedor: Howard Shore, por O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King, 2003) e O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, 2001) – A escolha de Shore como o compositor da trilogia épica de Peter Jackson pegou muita gente de surpresa. Antes, ele era mais conhecido como o colaborador de David Cronenberg e como compositor de filmes de terror e suspense, como O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991), Se7en: Os Sete Crimes Capitais (Se7en, 1995) e A Cela (The Cell, 2000). Depois de ter vencido, Shore continuou as colaborações com Cronenberg e com Martin Scorsese, cujo filme A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011) lhe trouxe mais uma indicação, e retornou novamente ao universo da Terra-Média com a trilogia O Hobbit (The Hobbit, 2012-2014).

2003 – Vencedor: Elliot Goldenthal, por Frida (idem, 2002) – Talvez a única exceção à “regra” da Academia, Goldenthal já havia sido indicado duas vezes antes, por Entrevista com o Vampiro (Interview With the Vampire, 1994) e Michael Collins – O Preço da Liberdade (Michael Collins, 1996). Ele também já era bastante respeitado no mundo das trilhas sonoras por seu trabalho inovador em filmes como Alien 3 (idem, 1992) e Batman Eternamente (Batman Forever, 1995). Sua carreira, porém, não foi muito prolífica depois disso, com ele trabalhando mais em longas da diretora Julie Taymor, que também é sua esposa.

2001 – Vencedor: Tan Dun, por O Tigre e o Dragão (Crouching Tiger, Hidden Dragon, 2000) – O músico chinês conseguiu a aclamação da crítica especializada por seu score para o épico de artes marciais de Ang Lee. Desde então, ele fez poucos filmes, notadamente Herói (Hero, 2002), outro filme de artes marciais, e hoje em dia parece estar afastado do mundo das trilhas sonoras.

Como acabamos de ver acima, ao longo das últimas premiações, a Academia parece ter priorizado compositores iniciantes no Oscar, ao invés de figuras mais conhecidas. Para efeito de comparação, veja o número de indicações de compositores mais famosos no mesmo período de tempo:

  • John Williams: 10 indicações (2001, duas vezes em 2002, 2003, 2005, duas vezes em 2006, 2012, 2013 e 2014)
  • Thomas Newman: 7 indicações (2003, 2004, 2005, 2007, 2009, 2013 e 2014)
  • Hans Zimmer: 4 indicações (2001, 2010, 2011 e 2015)
  • James Horner: 3 indicações (2002, 2004 e 2010)
  • James Newton Howard: 3 indicações (2005, 2008 e 2009)

Desplat, até a noite de ontem, somava 8 indicações, e já era uma figura respeitada e carimbada junto à Academia e à comunidade da Música de Cinema. Com ou sem Oscar, sua carreira já estava consolidada, ao passo que a de Jóhannsson ainda está no início, e um prêmio poderia servir como o incentivo que os votantes gostam tanto de dar. Inclusive, na minha resenha da trilha de Invencível (Unbroken, 2014), brinquei: “mesmo que ele (Desplat) já tenha se juntado ao clubinho de James Newton Howard, Danny Elfman e Thomas Newman, de compositores que sempre aparecem no Oscar sem nunca vencer (…), desde já ficam registradas suas grandes contribuições para o mundo da Música de Cinema”. Ou seja, estando já com o nome feito em Hollywood, um Oscar para Desplat parecia improvável.

E mesmo que o prêmio da Academia não signifique, necessariamente, que o vencedor realmente represente a melhor trilha do ano (como demonstrei na minha resenha da trilha de Mr. Turner), ele ainda é um reconhecimento extremamente significativo para qualquer compositor. De qualquer forma, o que importa é que o Oscar de Desplat foi a jóia que corou um ano nada menos que brilhante para o francês. E também deixa a disputa mais imprevisível para o ano seguinte.

Tiago Rangel

4 opiniões sobre “OSCAR 2015: A vitória de Desplat e o que muda a partir de agora”

  1. A verdade é que, Alexandre Desplat, já devia ter ganho seu primeiro Oscar, pela magnifica trilha de Benjamin Button. A.R. Rahman, mereceu o Oscar pela canção Jai-Ho, mas não o de trilha sonora! Não ouvi Budapest Hotel, mas fiquei contente pelo Desplat, (ele já estava correndo o risco de ser um Thomas Newman -indicado 11/12 vezes, sem ganhar).

    Agora:

    – Howard Shore: o trabalho feito por ele na Trilogia do Anel, é soberbo. Teria sido uma heresia a Academia não o premiar. Os tres premios que ele levou (podiam ter sido quatro, mas tudo bem) foram mais do que merecidos. As trilhas de O Senhor dos Aneis, tornaram-se imortais.

    – Gustavo Santaoala: nem tem o que comentar! Não devia ter ganho nenhum premio! Dentre os indicados em 2006, o Oscar era para ser do John Williams (Memorias de uma Gueixa); e em 2007, o premio devia ter ido ou para o Marco Beltrami (3:10 to Yuma), ou Michael Giacchino (Ratatuille).

    – Michael Giacchino: dentre os indicados em 2010, Up: Altas Aventuras era, de longe, a melhor trilha sonora. Ele fez um trabalho lindo neste filme. A faixa “Carl Goes Up” é sublime. É como se você estivesse sendo elevado às nuvens junto com o tema principal. E o premio que o Giacchino ganhou, só elevou a qualidade de suas trilhas (as ótimas Missão Impossivel IV, John Carter e, mais recentemente, O Destino de Jupiter). E mesmo que ele não tivesse ganho, duvido muito que ele deixaria a qualidade cair. Como eu disse a um amigo meu, Giacchino pode até não ser o proximo Jerry Goldsmith, mas ele é um dos poucos compositores que conseguem me cativar a cada trabalho realizado.

    Tan Dun – nunca gostei muito de O Tigre e o Dragão, a musica é bonita é talz, mas sempre achei que o meu odiado Hans Zimmer, devia ter ganho por Gladiador…

    No mais, tomara que a Academia deixe dessas frescuras. Porra, uma indicação ao Oscar já é coisa pra caralho! Esta tem que premiar a Melhor Trilha. Se não fosse por isso, hoje John Williams seria dono de uns 15 Oscar!

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  2. Acho que o Oscar de 2005 foi o que teve o “nível” mais alto entre os indicados nessa história recente. Mas mesmo assim deram o prêmio ao concorrente mais mais fraco deles, “Finding Neverland”, do pouco conhecido Kaczmarek. Uma pena. Qualquer um dos outros indicados, seja JW com Harry Potter 3, Thomas Newman com “Desventuras em Série”, James Newton Howard com “A Vila” ou John Debney com “A Paixão de Cristo”, qualquer destes seria merecida a vitória. Vamos ver se finalmente a Academia toma jeito nesta categoria depois da vitória do Desplat, bastante justa.

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    1. A pior parte é que, se a gente olhar bem o histórico da Academia, dá pra ver que não é de hoje que eles fazem umas escolhas bizarras na hora de entregar o prêmio. Dois casos escandalosos foram a vitória de Herbie Hancock em Por Volta da Meia Noite (trilha que, aparentemente, tem pouquíssimo material original, baseando-se mais em novas interpretações de clássicos do jazz) sobre A Missão, de Ennio Morricone, e Luís Bacalov em O Carteiro e o Poeta sobre dois clássicos de James Horner, Apollo 13 e Coração Valente. O próprio Morricone disse uma vez numa entrevista que ficou extremamente chateado em ter perdido essa.

      Por outro lado, de vez em quando eles também tem seus acertos. 1962, por exemplo, foi um ano mágico pro Oscar de Trilha Sonora, em que brigaram pelo título as obras-primas de dois titãs da música de cinema. Maurice Jarre e seu Lawrence da Arábia venceram Elmer Bernstein e O Sol é para Todos, mas os dois hoje são lembrados como clássicos.

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    2. E ainda podemos incluir, trilhas que mereciam mais estar naquela lista do que algumas que estavam. Michael Giacchino – Os Incríveis (Olha aí, ele era pouco conhecido na época) e Joe Hisaishi – O Castelo Animado, por exemplo, mas acredito que se cada um for colocar sua preferência de indicação daquele ano seriam dezenas de trilhas. Foi um ano bom, aquele.

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