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Resenha: FIFTY SHADES OF GREY (SCORE) – Danny Elfman (Trilha Sonora)


50_shades_CDMúsica composta por Danny Elfman
Selo: Republic Records
Catálogo: B0022696-02
Lançamento: 17/02/2015
Cotaçãostar_3_5

Um dos maiores fenômenos literários dos últimos anos, o romance erótico Cinquenta Tons de Cinza vendeu mais de cem milhões de cópias no mundo todo, apesar de receber críticas majoritariamente negativas de todos os lados. Mesmo assim, Hollywood não poderia deixar passar tamanho sucesso, e logo um filme baseado no livro de E.L. James foi lançado, conquistando enorme bilheteria já em seu primeiro final de semana, apesar das críticas ruins. Sua diretora, Sam Taylor-Johnson, chamou Danny Elfman para a trilha incidental do seu longa, uma escolha bastante incomum.

Na maioria das vezes, filmes baseados em adaptações literárias de sucesso costumam enfatizar mais suas trilhas de álbuns repletos de canções de artistas do momento, de maneira a aproveitar o sucesso do longa e vender mais discos. Isso não impediu, entretanto, que ótimos scores surgissem baseados em tais filmes: Alexandre Desplat compôs uma de suas trilhas mais assumidamente românticas para o segundo filme da infame Saga Crepúsculo, Lua Nova (The Twilight Saga: New Moon, 2009), enquanto Carter Burwell trouxe um ar épico, com uma grande orquestra e coro, aos dois últimos filmes da série, Amanhecer – Partes 1 e 2 (The Twilight Saga: Breaking Dawn Parts 1 and 2, 2011 e 2012). Já James Newton Howard segue compondo scores emocionalmente ricos e maduros para a franquia Jogos Vorazes (The Hunger Games, 2012-2015).

Cinquenta Tons de Cinza (que exatamente começou como uma fan-fiction de Crepúsculo), porém, é diferente e, na verdade, até mais difícil de musicar do que seus pares, porque a história não é uma fantasia ou ficção científica adolescente. Ela gira em torno de Anastasia, uma estudante de literatura que se apaixona pelo bilionário Christian Grey, e este a apresenta seu mundo de “gostos particulares”: sadomasoquismo e BDSM. Ou seja, é uma história onde o sexo e o despertar sexual desempenham um papel de protagonismo, e Elfman tinha a missão de compor para o longa sem deixar que sua música fizesse com que ele soasse como um pornô soft-core que costuma passar durante as madrugadas na TV a cabo.

E, sob muitos aspectos, ele foi bem sucedido. Em uma entrevista, o compositor conta que, como o filme não tem narração em off (diferentemente do livro, narrado em primeira pessoa sob o ponto de vista de Anastasia), ele quis que sua música fosse a voz da personagem frente às suas novas experiências. Seu score retrata a excitação da personagem, mas também seus medos de encarar as “preferências” de Grey, bem como o jogo de sedução empreendido pelos personagens.

Apesar disso tudo, essa provavelmente não será uma trilha que irá agradar a todos os scoretrackers e fãs do compositor californiano. Quem vier aqui esperando encontrar as trilhas orquestrais pelas quais ele ficou famoso, irá se decepcionar. O score de Cinquenta Tons de Cinza, na verdade, combina os estilos que Elfman empregou em alguns dos títulos mais “incomuns” de seu currículo cinematográfico: ele usa uma mistura da escrita orquestral para os documentários em que trabalhou, como Standard Operating Procedure (idem, 2008) com sua trilha mais moderna para O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012). Em sua orquestração, Elfman utiliza cordas, sintetizadores, guitarras, baixos e até uma ocasional participação de coral, e vai do som mais “acústico” até o mais industrial e pesado. Sua escolha por uma sonoridade mais moderna tem a ver com o próprio visual contemporâneo e limpo do longa.

Não há um grande tema romântico para acompanhar o casal principal. Na verdade existem poucos temas recorrentes, que não desempenham um papel de protagonismo na música, com Elfman preferindo se concentrar em ritmos e texturas. Um deles é o de Anastasia, apresentado na convenientemente titulada Ana’s Theme, consistindo em cordas melancólicas e piano sobre acompanhamento eletrônico. O tema possui um ar sonhador, mágico, como se remetesse aos sonhos da garota com seu amado e soa como um motivo do score de Elfman para Homem-Aranha (Spider-Man, 2002). Ele é repetido em faixas como Then Don’t! e Where Am I? (cujo início atmosférico, com percussão metálica, remete ao estilo de Mychael Danna).

O outro consiste em cordas frenéticas, acompanhadas por bateria e guitarra, concluindo com notas mais longas a cargo das primeiras. Introduzido em The Red Room, ele reaparece em A Spanking, Ana and Christian e The Contract, mas só é plenamente desenvolvido na ótima última faixa, Variations on a Shade.

Enquanto isso, em faixas como Clean You Up e Did That Hurt? Elfman cria texturas de grande dramaticidade, com toques de suspense também, como se demonstrasse a hesitação, os medos e as inseguranças de Anastasia frente às suas novas e inesperadas experiências. Já a citada Ana and Christian traz a integração entre os sons mais pesados de rock com as cordas, criando um som moderno e pop. Porém, nem tudo é drama no relacionamento entre os dois amantes, e Elfman ilustra o ar mais bem humorado da relação com cômicos violinos em pizzicatto e participações de guitarras acústicas e piano, em faixas como Going for Coffee e The Art of War.

O fim do disco também reserva as melhores faixas. Em Bliss, Elfman surpreende com o coro feminino, acompanhado de violoncelos, criando uma bela melodia. Já em Show Me a escrita e a dramática melodia lembra um pouco um dos temas da trilha de Dario Marianelli para V de Vingança (V for Vendetta, 2006). Na ótima Counting to Six, o compositor une os elementos de sua trilha, o coro, o solo de cello, o ritmo de música pop, o tema principal para violinos frenéticos, e os combina com cordas tristes, criando um efeito profundamente dramático. O disco conclui, então, com a mencionada Variations on a Shade, que une as metades de rock e acústicas e as desenvolve ao longo de seis minutos.

O score de Cinquenta Tons de Cinza, assim, provavelmente não será um dos mais populares da carreira de Elfman, apesar do grande sucesso do livro e do filme. Seu estilo mais voltado para o pop e para o rock, e o seu grande uso de guitarras e sintetizadores, podem se provar um pouco demais para os fãs dos trabalhos orquestrais do compositor californiano. Quem der uma chance, porém, verá uma trilha inteligente e bem composta, e que dá (mais uma) prova para acabar com o preconceito ridículo de que a música de Elfman consiste apenas em suas trilhas góticas para os filmes de Tim Burton.

Faixas:

1. Shades Of Grey 2:07
2. Ana’s Theme 1:23
3. The Red Room 3:26
4. Then Don’t! 2:32
5. A Spanking 2:32
6. Going For Coffee 1:32
7. Where Am I? 1:35
8. Ana and Christian 3:24
9. Clean You Up 2:43
10. The Contract 3:27
11. The Art Of War 3:32
12. Did That Hurt? 2:54
13. Bliss 2:29
14. Show Me 3:02
15. Counting To Six 3:21
16. Variations On A Shade 6:22

Duração: 46:21

Tiago Rangel

4 opiniões sobre “Resenha: FIFTY SHADES OF GREY (SCORE) – Danny Elfman (Trilha Sonora)”

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